domingo, 17 de novembro de 2019

Carrossel


Num cerimonial a dois, jurámos pela vida, solenemente circunspectos, que jamais alguém teria conhecimento da proeza.   E no dia seguinte, mentalmente mapeado sobre as macieiras da quinta mais próxima, arriscámos. Mal ouvi o sinal e Octávio se virou a desentupir e afundar uma regueira, os pés como sapos felizes, calça arregaçada e enxada às costas, trepei sem dificuldade e deixei-me escorregar do outro lado até aterrar na vala rente à estrada. As solas dos sapatos aguentaram a travagem súbita que repercutiu tíbias acima e chegou aos joelhos. Pus-me de pé e olhei em volta. A paisagem não diferia muito da terra pobre que circundava o bairro da Venezuela. Sob o sol, lá estava a estrada de barro poeirento que atravessei com o coração à boca após espreitadela cuidadosa; convinha-me paisagem solitária. Seguindo indicações, acompanhei a curva da estrada e avancei uns metros para a esquerda. Ali estavam as macieiras impantes de frutos que luziam ao sol em descarado convite à salivação. Eram cinco ou seis árvores de maçãs vermelhas e riscadinhas, mais tentadoras que as do jardim do éden. Fazia calor e, à minha atrapalhação suada juntava-se o medo de falhar. Aproximei-me devagar. O roubo não me parecia coisa de monta, eram umas maçãs a menos em árvores pejadas e que a ninguém fariam diferença. O que me aperreava e alterava a respiração era certo amor próprio, queria dar conta do recado e já antevia o nosso contentamento a trincá-las. Mas o medo de falhar e a possibilidade de ser descoberto a qualquer momento secava-me a boca e estonteava no desábito das batidas desvairadas do coração que intentava rebentar-me o peito. Devia correr e tratar do assunto num ápice, mas a passada abrandava na estranheza do suor sem comportas que escorria costas abaixo, espalhando visco na palma das mãos e testa. Foram minutos de mortal aflição, uma agonia no campo de macieiras.  A esmagadora hipótese de sermos retirados da escola e a zunida que se instalara nos ouvidos sustinham-me os intentos.  No impasse, passaram-me em flash os nossos planos, os treinos, as horas compridas de fome nocturna, Esparguete a arriscar-se lá dentro e desejoso que eu aparecesse no muro. Empurrado por estas lembranças sacudi medos e lancei-me às maçãs seguindo o conselho de distribuir o furto por todas as árvores “para não se notar”, sapiência de Esparguete.

17 comentários:

  1. Muito bom! :) Sigamos até ao próximo!:))

    -
    Pensamentos que voam ...
    Beijo e bom Domingo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois é, Cidália, tenho de escrever mais um bocadinho:)
      Boa noite

      Eliminar
  2. Faço minhas as palavras da Cidália; muito bom. Mesmo!
    E todos os folhetins, como pequenas unidades melódica e poética, criam uma uniformidade e uma coerência a trabalharem para o todo orgânico.
    Só há uma coisa que estranho, o nome da rua - rua da Venezuela. Cheira-me a bairro de Chelas, não é que esteja completamente descontextualizada, mas... peço desculpa, não me soa :(
    Penso que nós, seus leitores, também a podemos ajudar a evoluir, porque o crescimento só é possível com o "feedback" de quem lê. Nesse sentido, receber aqui comentários, ora concordando, ora discordando, mas sempre construtivos, serão ajuda preciosa.
    E neste último ponto desde já me penitencio, pois, na ânsia de lhe trazer histórias que sei que aprecia (não me refiro às minhas, mas de um modo geral), tenho descurado o principal - a análise crítica dos seus textos. O problema é que aborrece-me o elogio puro e simples e para apontar não tenho encontrado motivo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vamos lá a ver, Joaquim. Já disse e repito: não tenho jeitinho nenhum para títulos e nomes. No caso do Bairro da Venezuela, devo dizer que o nome tem a sua história que, calhando em conversa, há-de aparecer num episódio. Resumidamente, tem a ver com os confins do mundo conhecido - depois do bairro era o mundo selvagem de urze, carqueja e pinheiros - e a noção comum de que a lonjura da Venezuela leva a supor o país em idêntico fim de mundo. A questão é que me engano e chamo rua ao que é um bairro:)). Mas olhe que devia ser mais exigente com o que lê. Eu que por acaso não tive tempo para reler o texto, já lhe fiz umas três ou quatro emendas.
      Mas é claro que os leitores podem ajudar. Há pontos que no autor podem ser evidentes e no leitor não. E se saiba o senhor nome mais adequado para o bairro pobre do garoto, é só dizer. Que os bairros pobres nunca têm grandes nomes. Adivinhe porquê.
      E boa noite

      Eliminar
  3. Olá bea,

    Li este capítulo com um brilhozinho nos olhos, e aqui deixo a minha crítica construtiva:

    Hoje soube-me a pouco
    Hoje soube-me a pouco...

    Que o próximo seja um pouco maior e, já agora, diga ao Contador que eu adoro essas maçãs vermelhas riscadinhas :))

    Domingo feliz.
    🌹

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Maria, mal sabe Sérgio Godinho por onde andam as suas canções:).
      O pedido foi registado e vou tentar ser mais pródiga da próxima vez.Não há quem não goste de dar dentadas em maçãs assim.
      Nunca um domingo é mau se os filhos nos visitam. Boa noite, Maria

      Eliminar
    2. Tenho quase a certeza que o SG gostaria de saber que as suas canções andam por aqui :)
      E não foi crítica nenhuma, foi só uma brincadeira, alguém pediu para os leitores criticarem... 😄
      A bea escreve o que puder, quando puder, e eu só tenho a agradecer :))
      🤗

      Eliminar
  4. Fica-se agora em suspense. Conseguirá o intento sem ser apanhado? Onde levará as maçãs? Caberão nas algibeiras?
    :)

    ResponderEliminar
  5. O avô de um grande amigo, por causa de uma brincadeira destas, deu uma chumbada nos garotos (pressão de ar).
    E um deles ficou com um chumbo na cabeça.
    Dizia ele que era um peso na consciência :)))
    Boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E era mesmo um peso na consciência:). Quem arrisca sujeita-se.

      Eliminar
  6. Bairro da Venezuela, pleno dia.

    Já quase não saio de casa durante o dia, o meu bairro está a tornar-se extremamente perigoso!
    A diminuição da natalidade e o envelhecimento da população, estão a causar um impacto nas gerações mais novas e um peso significativo nos orçamentos dos países para fazer face às reformas dos idosos.
    Assim, um grupo de jovens (que aumenta de dia para dia) decidiu perseguir, sequestrar e mesmo matar idosos, ao ponto de muitos indivíduos deste grupo etário começarem a circular nas ruas do meu bairro apenas à noite quando há menos movimento e daí, menos probabilidades de acontecer alguma fatalidade.

    Antes de abrir a porta de casa que me dava acesso ao patamar para apanhar o elevador, espreitei pelo ralo e ouvi esta conversa entre dois jovens:
    «Hoje persegui três "porcos" mas não consegui matar nenhum.
    Tenho de os aniquilar; estou farto de inúteis para a sociedade. O meu problema é que quando chegar à idade deles, dentro de alguns anos, vou cometer suicídio!
    Mas, a partir de que momento é que passarei a ser idoso? Quando tiver problemas de saúde? Dificuldades de mobilidade? Deixar de exercer interesse no sexo oposto? A pele a ficar enrugada?
    Não sei, o que sei é que esta guerra de idades está-se a tornar uma guerra civil aqui no bairro, entre nós e os velhos; uma luta entre a vida e a morte».

    Visão do meu "bairro da Venezuela", após leitura transversal de "Diário da Guerra aos Porcos" (1969) de Adolfo Bioy Casares.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem razão, Joaquim, o seu bairro da Venezuela é em Chelas. Um dia, o Contador há-de voltar ao bairro antigo. E depois lhe dirá o que encontrou. Mas, até lá, há ainda muita vida para viver.
      Quanto ao Adolfo das letras, escreveu bastante, esse senhor. Mas não encontrei tal título nas suas obras. É um conto? E já agora, tem a certeza que da conversa entre esses dois jovens, no actual e factual de hoje, algum consegue dizer "tenho de os aniquilar"...hummm....melhor refazer o diálogo:).

      Eliminar
  7. Fui consigo. numa aflição igual à sua, tentar chegar às maçãs… Não sei se conseguimos apanhar alguma, de tanto que nos tremiam as pernas e as mãos… Gostosa a sua forma de narrar.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, mas a minha forma de narrar pouco passa dos pézinhos da sua poesia. Chega-lhe às canelas, vá.
      Boa semana, Graça.

      Eliminar
  8. Boa! Meu herói! Venceu os medos interiores e será elevado alto, bem alto, na consideração de Esparguete.
    Feliz semana, Bea!

    ResponderEliminar
  9. Obrigada, Nina. Boa semana também para si.

    ResponderEliminar