domingo, 3 de novembro de 2019

Insólitos


Era a apresentação de um livro e mal conhecia a escriba. Mas, em terra de poucas leituras,  toda a escrita merece sinal. É luz que atravessa a espessura  de nuvens entrevadas, coragem que, por casualidade ou destino, se abeira apenas de jovens e velhos.  Os primeiros cruzam em alegre desafio memórias alheias e sonhos pessoais, enquanto os mais velhos burilam rugas e tendinites da alma sobre o presente fugaz. Em todos, o desejo de permanecer.
Por aqui, escrever um livro, nem pela raridade é acontecimento. Um punhado de amigos e conhecidos dispostos a fazer grupo na biblioteca municipal – apoio ao nível da edição – e a vereadora e a responsável pelo lugar a receberem-nos, acompanhadas da jovem autora. E os pais babados. A garota foi fluente, simples e clara. Apresentou-se e apresentou motivos.  Desenhou a própria infância e convenceu-nos de que, mesmo sem nome, a obra refaz a alma da nossa terra.
E não sei a razão mas reparei nas duas cestas repletas de livros. Uma mescla variada. Ofertas da biblioteca. Ali, sobre o balcão. Passei-os a pente fino, um a um, dedos de respeito e cobiça. Perguntei quantos ofereciam a cada pessoa. Foram perdulários, os que quiser, temos mais para substituir o que levar. Baseada no nome dos autores, escolhi dezasseis: Thomas Hardy, Erich Maria Remarque, Tcheckhov, Thomas Mann, Leon Tolstoi, Jack London, Rimbaud, Reiner Maria Rilke, Konrad Lorenz, Kafka, António Machado.  Alguns são edições de bolso, mas, nos casos da poesia reparei que têm versão original e tradução.
Havia dois dias que os livros estavam disponíveis para oferta e fui a primeira mão interessada. Em contentamento mútuo os deitei a meus pés no auditório logo ao lado, enquanto Downton Abbey, mundo de aristocratas e servidores, desfilava no grande écran, dez ou quinze pessoas a assistir.
Vou repassar na biblioteca:).


33 comentários:

  1. escolheu dezasseis prometedoras viagens. boas leituras! :)

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  2. Tinha aqui chegado há dois dias e lancei-lhe tema que supunha desinteressante para os outros, se bem que importante para nós próprios: Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências. Continuo a lembrar-me deles. Quem se lembrará de eu pequeno?

    E a Bea, num de rompante: Nunca pensou que pode haver quem o imagine criança, nos bancos da escola, a jogar com outros, a fazer os deveres, em casa com seus pais e avós...há gente assim, que gosta de nos imaginar onde nunca esteve.
    E continuou: Não sei, mas os adultos, e sobretudo os mais velhos, parecem crianças. Não são tão apetecíveis, não cheiram a bebé nem há a vontade de dentadinhas nas bochechas, mas estão na mesma tão à mercê de outrem, que nos escorrega o carinho natural.
    A criança que fomos não nos abandona por inteiro. E temos memória dela. A minha memória mais antiga é de uma vereda serpenteante e muito comprida com o vulto de minha mãe a despontar lá muito ao fundo. Tenho ideia de eu correndo quanto podia e as pernas tão curtas para tanto caminho. E depois viu o meu bibe vermelho e a figura dela começou a aumentar, a aumentar, até que me levantou e deu colo e assim me levou até casa que suponho seria de minha avó. Esta é a minha memória, que mãe e avó não teriam, ainda que pudesse contar-lhes. E pode sempre conversar com filhos e netos sobre a sua infância. É que eram tempos tão diferentes que vão gostar de ouvir (desde que não incorra em repetições:)).

    Temos blog, temos artista, temos alguém que conta e se importa; estarei eu à altura?

    PS: lembro perfeitamente, li Tempo para amar, tempo para morrer de Erich Maria Remarque aos dezassete anos. Ainda guardo o velhinho livro de bolso da Europa-América. Na semana passada, pela primeira vez vi o filme, realizado por Douglas Sirk - quarenta e três anos depois.

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    1. Joaquim, toda a gente está à altura de si mesmo. Os blogues, em meu entender, não são competição. Cada um o tece de acordo consigo. A coragem é só escrever. Depois torna-se um mundo mais, com seu tempo próprio.
      Sabe, quando me leio não me reconheço:), apenas penso que era capaz de escrever o que estou a ler. Neste caso, li sabendo que era meu. Muito obrigada, o Joaquim colige o meu melhor (o pior, como diz amiga que muito prezo, não é de expôr). Obrigada. Por vezes faz falta quem nos lembre de nós também por escrito.
      Foi mesmo esse livro de Erich Maria Remarque que trouxe:). Não sei o que seja. Que me lembre, não li nada do autor.
      E hoje, subitamente, tenho casa cheia. É uma alegria meio inesperada e que exige rapidez de tudo.
      um bom domingo. Vá, construa-se por escrito que a gente visita de certeza. O que já lemos é o melhor indicador. Além disso, um blogue é gosto que se exercita.

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    2. Não li esse do Erich Maria Remarque, mas li Arco do Triunfo, Uma Noite em Lisboa e Nada de Novo a Oeste; foram todos adaptados para cinema.
      Era um autor muito popular.

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  3. Que bela colheita, bea. Fico feliz por si :), depois vá dando notícias das suas leituras, aqui ou no Horas da Rosário.
    Domingo feliz, apesar dos ventos uivantes da Amélie...
    🌬

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    1. Maria, o Horas da Rosário é o seu blog? Vou já a correr.
      Bom domingo.

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    2. Não, Joaquim, é o blog da Maria do Rosário Pedreira, onde eu e a bea por vezes comentamos; no início de cada mês costumamos dizer o que andamos a ler.
      Eu não tenho blog, não tenho o dom da escrita, apenas o da leitura :(
      Domingo feliz!

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    3. Não sou muito de comentar leituras, sei lá porquê. Comecei, mas perdi o fôlego.
      Sim, vai ser um bom domingo, tenho os privados Amélie comigo:). E não há rival para eles. Venha o que venha.
      Bom Domingo, Maria

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  4. Joaquim, o Horas é o blogue de Maria do Rosário Pedreira, Horas extraordinárias, com postagem diária excepto aos fins de semana e feriados (segue horário laboral). Vá até lá. Tem muito assunto de interesse. E é claro, o tema principal são os livros. Mas de tudo se fala em seu redor. Trabalho e constância admiráveis por parte da autora, editora e poeta.

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  5. Boa, Bea, gostei de te saber carregada de livros.
    Fico à espera da tua opinião sobre o que fores lendo.
    Fiquei espantada por dois dias depois as tuas mãos terem sido as primeiras interessadas nos livros - oferta. Depois a desculpa é que os livros são caros.
    Beijo, bom domingo, com Remarque e uma manta quentinha.
    (Voltarei com mais tempo para "andar" de Carrosel.)

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    1. Eu não fiquei espantada, Teresa, pertenço a esta gente e sei como é.
      Os livros serem caros não é uma desculpa, é uma realidade. Mas não é razão comum por aqui. Simplesmente não se desculpam. Não ler é coisa normal. E quem não criou amor aos livros vai levá-los para casa porquê? São antigos, têm folhas amareladas, nem para enfeitar a estante servem.

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  6. Bea... na Biblioteca de Miranda do Corvo... a nossa freguesia... existe uma mesa repleta de livros que podemos trazer para casa e se quisermos ofertar... eles agradecem!
    Bj

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    1. Espero que tenha mais afluência que a da minha terra e a troca seja profícua.

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  7. Para ser ainda melhor seria, uma vez lidos, serem devolvidos à origem para que o caudal não fosse interrompido. Talvez, aos poucos, outros leitores apareçam.

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  8. Olá Nina
    A biblioteca municipal tem recebido muitos livros de particulares, alguns dos quais nem sequer pertencem à terra, mas querem desfazer-se do que têm e fazem uma doação; neste momento há vários livros do mesmo autor e falta espaço para novas obras. Estão a oferecer as repetições de menor qualidade. E parece que há ainda muitos em espera para enfileirar nos dois cabazes.
    Há anos aproveitei a oferta de obras da Fundação Calouste Gulbenkian que ninguém nunca requisitou e eram avantajadas. Trouxe várias.

    Não sei se concordo com este processo de arranjar espaço. Mas, se eu trouxesse os livros e voltasse a devolvê-los estaria dentro da modalidade normal que a biblioteca utiliza. Ora o motivo das doações é outro.
    Boa noite:)

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  9. Como sempre, maravilhosa postagem. Amei!

    Beijos. Boa noite!

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  10. As bibliotecas não têm espaço ilimitado. Parece-me boa essa opção de dar os livros excedentes.

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  11. Dezasseis grandes escritores, levava-os todos também, aproveito para desejar uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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    1. Obrigada, Francisco. Não sei se vou gostar, só li os russos.

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  12. Os lançamentos dos livros são cada vez menos participados. É uma realidade a que não podemos fugir. E é pena porque os autores merecem ser acarinhados.
    Muitas bibliotecas têm agora esse sistema de pôr livros à disposição de quem os quiser levar. São livros que têm em duplicado e a falta de espaço assim o obriga. Que bom ter aproveitado bons autores.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  13. Os lançamentos de livros são quase tristes. A garota apresentava o seu primeiro livro e tinha na assistência duas pessoas da sua idade; o resto eram velhotes arregimentados por avós e tios avôs.

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  14. E a bea gostou do Downton Abbey?
    🎬

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  15. Gosto de Maggie Smith. Downton Abbey vê-se bem, mas não é o meu estilo de filme embora aprecie sempre aquelas indumentárias e os tiques ingleses. Os episódios que vi da série pareceram-me melhores. Mas gostei bastante da parte final, a conversa que antecedeu o baile.

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  16. Eu gostei de seguir a série na tv e não consigo perceber porque foram eles fazer um filme...
    Boa noite :)
    😴

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  17. Da forma que escreve transporta-nos a esses locais.
    Foi isso que agora mesmo senti.
    Boa semana

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  18. Gostei muito do texto, uma escrita que respira.

    Dou por mim a ler muito pouco (pelo menos em comparação com o passado), vou levar dois livros para as férias, um de autor português e esperar que tal me discipline a voltar com renovados hábitos de leitura.

    Abraço e boa semana

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  19. Que sorte ir de férias, Sam. Aproveite. E se não ler, também não há perigo. As férias não são bem para ler. Mas um livrito faz sempre falta. Por norma só levo um:). Até porque costumo escrever e andar bastante. Costumava.
    Boas férias! Fico um bocadinho invejosa.

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  20. Também trouxe um de uma estante ontem que estava num bar de uma faculdade, julgo que era para os trazermos...curiosamente um livro técnico de um projeto em que participei há muitos anos, quase no início da carreira. Foi como viajar no tempo...e no entanto tudo aquilo ainda é tão actual.
    ~CC~

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