terça-feira, 12 de novembro de 2019

Carrossel


Por vezes  a fome rabiava e Esparguete brandia o período escolar festejando almoços onde contínuas benévolas lhe enchiam o prato e ele comia o que fosse, enquanto os meninos de suas mães franziam o nariz se acaso tinham de almoçar na escola. Por mim, lembrava as curvas malgas de sopa da cantina, fumegando sobre a mesa. Revia a pressa de nos sentarmos em bancos corridos, cotovelo com cotovelo, o mergulho da colher e o sabor da sopa quente a escaldar-nos a língua.  A paciência de tia  Domingas arrefecia ímpetos rodando em volta da enorme  mesa rectangular, a invariável terrina de latão encostada ao quadriculado do avental e exalando afogueados vapores,  o caldo num virote de concha que lhe amenizava os calores húmidos. Entretanto, por entre sussurros, tinidos de colher na loiça e cotoveladas, a velhota atentava em malgas a que já se via fundo, queres mais. Se a encontravam, as mães num incentivo grato, faça-os comer tia Domingas, ao menos tiram a barriga de misérias. E tia Domingas agradecia mentalmente às senhoras da Obra das Mães que traziam sacas de batatas, quilos e quilos de arroz, feijão, massa, que ela misturava com as couves e as nabiças que o seu homem plantava sem descanso para alimento daquela gente. Tia Domingas que ouvi algumas vezes, mal punha olhos nas damas  de porcelana saindo aprimoradas do carro com chaufeur, salto agulha a enterrar e mão enluvada segurando no encanto de malinhas de mão que todas as garotas cobiçavam, lá vêm as finórias olhar para a miséria e largar sentenças. Tia Domingas tinha pela Obra das Mães um sentimento misto e, se agradecia as benesses, abominava as ladies caridosas a quem se baixava falsamente, que depois fazia como entendia, sim, minha senhora; com certeza, minha senhora; tem razão, minha senhora. E ia pensando para consigo, só sabes mandar; devias vir para aqui aprender, sujar as mãos a migar o caldo verde ou enfarruscar-te a fazer um lume esperto para cozer os feijões.
Cedo percebi – e nisso Esparguete era incessante – que o período escolar correspondia a maior liberdade para os rapazes. Saíam ainda a manhã tenteava e palmilhavam mais de um quilómetro até à paragem de autocarro que os levava à escola na cidade. Pela tarde, faziam o caminho inverso. E é claro que sabiam o gosto de todos os frutos das imediações e nas sacolas dos livros havia sempre  uma ou duas peças rapinadas para a noite. De vez em quando, os incautos eram vítimas de cólicas nocturnas derivadas à  ingestão de fruta verde. Mais grave era o desarranjo de vómitos e diarreia que se prolongava por dias no caso de fruta ou legumes que não podiam ser consumidos por terem sido curados, azar em que incorria a ignorância geral. O furto generalizado e contínuo gerava entre eles o espírito de entreajuda. Distâncias pontualmente  dissolvidas, crescidos ou meninos de bibe, passavam mensagem de uns a outros se havia agricultor a curar o pedaço, cão de quinta a passear sem corrente, ou lugar que podiam atacar em rédea solta.
Mas eu viera de outro mundo. Portanto, o meu mentor achou por bem treinar-me no rapinanço ainda em tempo de férias. Ou, quem sabe, a fome ordenava sem delongas.

19 comentários:

  1. Bom dia!
    Um texto lindo e bastante interessante!!

    -
    Sou o desejo dum tempo que não existe
    Beijo e um excelente dia!

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    1. Bom dia, Cidália. Obrigada.
      Um dia bom para si também.

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  2. A tia Domingas já é uma das minhas favoritas aqui da netnovela :))
    E o carácter do nosso Contador continua a ser moldado... veremos o que ele conseguirá fazer com as ferramentas que a vida lhe reservou.

    Um bom dia, bea.

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    1. Maria, desculpe a intromissão. Sabe que não é só a Maria que gosta desta tia Domingas, e do nosso Contador. Esta “netnovela” já está a ser seguida pelo grupo Leya e pela Porto Editora, que eu sei…
      Como a Maria não vem espreitar desde Sábado, ou não deu sinal, tenho de a pôr ao corrente!
      Beijinho

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    2. Hummm... anda a controlar-me?
      Pois fique sabendo que visito diariamente o erva príncipe, e mais do que uma vez :)).
      Claro que estou ao corrente dessas suas fantasias (que gostaria se tornassem reais).
      Nem sempre comento, porque não me quero tornar omnipresente (leia-se chatinha).
      E é isto.

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    3. Após a vossa conversa. Muito obrigada por me visitarem. Quanto ao Joaquim e sobre o assunto em causa, estamos falados.
      Maria, a escrita tem uma coisa óptima (para mim tem várias) que é a criação das personagens. Neste caso específico talvez tia Domingas seja quem eu gostaria de ter encontrado:). A minha memória da cantina escolar é execrável por todos os lados.

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  3. Será que vsi sair do papel e voar mundo fora! 🤔🤗👏

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  4. Este texto tem muitas subtilezas!!

    "Contínuas benévolas" - o substantivo, aqui, fez-me lembrar que na minha escola também as havia,  e igualmente sempre prontas a ajudar. Mas também havia das outras, as refilonas e sempre cheias de azedume, sabe Deus com que razões justificáveis. Aqui ficam as minhas prolfaças a essa classe um pouco esquecida do nosso sistema de ensino.
    Mas o substantivo (como eu o entendo), também poderá ser substituído pelo adjetivo, e aí seriam dois adjetivos juntos - coisa a que a Bea, com a sua escrita refinada, não seria alheia. Por isso digo que desengane-se quem espera da leitura do seu texto, o relato minucioso de um jogo de futebol ou de uma fórmula matemática; antes encontrará um ato de adivinhação.

    Veja-se agora a forte carga erótica que, com uma ligeira alteração de contexto, a escriba coloca nos gestos da tia Domingas para com a rapaziada: "... a arrefecer ímpetos... exalando afogueados vapores... amenizando calores húmidos"!
    Já sei que me dirá que tenho uma imaginação fértil, mas neste caso lhe direi que não fui eu que escolhi as palavras :)

    Depois, há aqui qualquer coisa, talvez de Lobo Antunes, na forma como os gestos altruístas das senhoras benfeitoras da Obra das Mães (damas de porcelana) são encarados pela tia Domingas - finórias de chaufeur, de mão enluvada e salto agulha (a lembrar arroz cigala) a olharem para a miséria e a largar sentenças; devias era vir para aqui aprender, sujar as mãos a migar o caldo verde ou enfarruscar-te a fazer um lume para cozer os feijões.
    Vejo aqui igualmente e de modo inequívoco, um confronto entre, digamos, quem detém o capital e só sabe mandar e aquele cujo único capital é a sua força de trabalho. E isto faz lembrar quem, quem, digam lá? Claro, a doutrina marxista do trabalho. Ideologias à parte, conceitos à parte, luta de classes à parte, as ideias estão cá.
    Ao fim e ao cabo, como alguém dizia, todo o gesto é político. Muito bom mesmo.

    Por fim, o rapinanço da fruta e suas consequências. Que trecho tão delicioso!

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  5. Muito viva a sua narrativa, Bea! Flagro nela verdadeiros " flashes" do quotidiano. E que bem entende a alma desses miúdos. Continuo agarrada à sua história - e nada melhor se pode dizer sobre uma narrativa.

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  6. Joaquim, penso que o senhor se deixa levar no fogo da imaginação. Concordo, ela é difícil de domar. Mas fez-me rir, pois. A minha tia Domingas, afogueada e com umas gotinhas de suor a perlar a testa pela proximidade da terrina quente apoiada no ventre e do calor fumarento que exalava, ser, digamos, pano para uma carga erótica...não me ocorreu. De inconsciente entendo pouco. Mas sei que quando li "calores húmidos" me lembrei de certa fisioterapia do mesmo nome e que sempre me agradou. O que julgo haver nesta cena é qualquer coisa de sôfrego e prazenteiro no acto de comer e a compreensão da velha rodando a mesa. Mas cada um vê o que quer. E faça o favor de não me inibir pondo-se para aí a falar de cargas eróticas. Já lhe disse que gosto de escrever e quero continuar a fazê-lo livremente.
    Com que então um trecho delicioso...
    Imaginemos dez ou quinze garotos mal comidos e que passam por terrenos agrícolas diariamente, que acha que fariam?!

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    1. Bea, mesmo garotos bem comidos, adoravam andar à chinchada, era uma espécie de brincadeira, penso eu: roubar fruta e não ser apanhado :))
      🍏🍇🍎🍐🍒

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  7. Talvez no mundo dos rapazes, Maria. Nunca roubei fruta ou soube de rapariga que o fizesse. E bem que desejava as cerejas da única cerejeira da minha terra:).
    Boa noite

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  8. Antigamente (quando vinha cá de férias) acho que eram só rapazes, mas desde que cá moro (há vinte e tal anos) virou hábito de rapazes e raparigas. Para quem vem da cidade é muito estranho, mas aqui é considerado normal.
    Boa noite.
    😴

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  9. Por causa do rapinanço passei uma das maiores vergonhas da minha vida.
    E aprendi uma das maiores lições quando a minha mãe me apresentou ao dono das árvores como "ladrão" (sic).

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  10. Houve a moral envolvida no seu caso, Pedro. Mas a vida não ensina todos da mesma forma:)Um bom dia, Pedro

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  11. Andei a falhar alguns posts. Preciso de me atualizar.

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  12. Isto também é sempre o mesmo, Luísa:). Está assim como as novelas, empata.
    Boa noite:)

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