sábado, 23 de novembro de 2019

Carrossel


A hora do jantar tardava em demasia. Quando por fim se fez tempo, já no refeitório, tudo nos aborrecia. A sopa demorou a ser servida e vinha demasiado quente, as conversas dos companheiros de mesa desproviam de interesse,  e nem tugimos ao boato que passou, mesa a mesa, sobre um possível piquenique antes do início das aulas.  Tudo irrisório. Desatentos dos mais, Esparguete e eu ansiávamos pelas  maçãs que nos esperavam debaixo da hortênsia. Quando Maria entrou no refeitório para nos falar como todas as noites, os rapazes calados, exultámos em íntimo segredo. Nessa noite, nada entendi do que disse, não sei quem se portou melhor ou pior, que tarefas extra tinham de ser feitas, ou se estava escalado para o dia seguinte.  Mal terminou, mandou-nos recrear durante meia hora antes de subirmos à camarata. Dentro de mim o coração segredava contente, falta-pouco, falta-pouco, falta-pouco. Fingindo casualidade, e como tanto nos acontecia, dispersámos os dois para o pátio da cozinha. Junto à hortênsia baixei-me e, às apalpadelas, procurei as maçãs. Avancei o braço, recuei, aproximei-me do centro da flor, afastei-me, rodei o braço em círculo largo. Nada. A minha mão não tocou um único fruto. A hortência, muda de todo, como se não fosse nada com ela.  Troquei de lugar com Esparguete que ficara de plantão na esquina. Infrutífero. Debaixo da hortênsia não havia sequer uma maçã. Parecia-nos impossível. Revi todos os meus passos, ninguém me seguira. Roubaram-nos, silvou Esparguete, quem será o desgraçado, dou-lhe uma coça se descubro. Raivoso, deu um pontapé na planta, merda de hortênsia. Sem palavra, mergulhei num desalento mais negro que o desamparo de lua nova que nos envolvia. Voltámos para casa cabisbaixos, Esparguete remordendo vinganças e esperas acrescentadas de faço assim e faço assado. Em mim acendiam-se súbitos os arranhões. A dor tomava-me por fora e por dentro, que não há como a inutilidade do gesto para nos amarfanhar a alma. Pensava onde falhara. Antevia o que Esparguete, por empenho de raiva descoroçoada, ainda não vislumbrara. A alcunha de Esparguete era-lhe insuficiente, devia chamar-se poeta-de-lava, eternizava em ternuras ínfimas por todas as coisas e ardia por qualquer palheta. Enquanto ele desaforava, eu matutava. Alguém me tinha visto a esconder as maçãs. 
Descoroçoados, zanzámos em passo lento, corpo pesado de tristura. De súbito uma garra reteve-nos,  laçou-nos pelos braços.

12 comentários:

  1. Bom dia

    Pobre esparguete. E l´s se foram as maçãs, lol
    .
    Desejando um fim de semana muito feliz

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    Respostas
    1. Pobres os dois que tanto lutaram por elas.
      Bom fim de semana também para si

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  2. Mais uma belo episódio!
    Quem levaria as maçãs? Hummm :)
    -
    As nossas mãos zelam os compromissos
    Beijo e um excelente fim de semana!

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  3. Coisa tão mázinha que lhes aconteceu...
    Boa noite, Cidália:)

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  4. Lá se foi o tesouro dos miúdos. Descobrirão quem levou as maçãs?
    :)

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  5. vão descobrir sim, Luísa. Boa semana.

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  6. Parque de campismo da Figueira da Foz.
    Oito rapazes na mesma tenda.
    Havia uma "cozinha" e outra pequenina para deixar as malas.
    Depois de mais de um mês a fome apertava.
    E o pai de um dos veraneantes leva MUITA comida.
    Festa?
    Não guarda-se para o pequeno-almoço.
    Ficou na cozinha.
    E foi roubada, TODA!!!, durante a noite :)))))
    Boa semana

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  7. Os azares não acontecem só nas histórias:), tudo é primeiro no mundo. Também acampei durante dez felizes anos, mas nunca nos roubaram, nenhum pai ou mãe nos levou coisa alguma e tínhamos duas tendas sem cadeados onde dormíamos e guardávamos tudo; estavam dias inteiros sózinhitas e à nossa espera. E nunca demos por alguém entrar ou remexer nas nossas coisas.

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  8. Mais uma história cheia de fulgor narrativo. Gostei imenso.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  9. É sempre a mesma, Graça:). E não a acho fulgurante.

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