terça-feira, 5 de novembro de 2019

Carrossel


E  enquanto Esparguete me elucidava acerca do mundo e ilustrava os pequenos estratagemas da sobrevivência infantil, no mesmo período em que as minhas histórias eram novidade no Lar dos Rapazes, tu debutavas em puberdade, o corpo a mudar onde lhe apetecia. Dois pequenos inchaços onde antes mamilos tão rasos que se palpavam as costelas; o sexo a desabrochar e tu inquieta, sem termo de comparação, serei só eu; examinavas desconfiada um ou outro pêlo alourado nas axilas e de que adiaras a descoberta, mas isto serve para quê. E o teu rosto criança, cabelo de pente sujeito a fita de laço. Mas os vestidos num aperto, casas de botão esgarçadas, fechos que inseriam lacunas em dedos inábeis e lamentosos, perdemos o jeito. Tua mamã num  sorriso, estás a ficar mulherzinha, temos de comprar roupa nova. E, logo logo, o primeiro soutien, leveza de nuvem que a princípio te esquecias de vestir, a empregada, agora com tanto rosto, cheia de unhas roídas e debruadas por meia lua de sujidade, depósito de cozinhados e terra de legumes, a lembrar, não veste aquilo. E parecia-te que um aceno de troça no altar do peito dela. Que ela não troçava,  surpreendeste-a algumas vezes em admiração, tomando pulso às tuas peças finas, a mão áspera adejando leve, asa com receio de pesar. Ao sentir-se observada, logo, desculpe, menina; estava só a ver.
Um senhor, o teu papá. Bem posto, manhãs cheirando a loção de barba e colónia francesa, fato e gravata, a pasta do escritório, óculos escuros em dias soalheiros, o automóvel na garagem. E entre ele distinto e o sujeito que, em urgência, comia de afogadilho a empregada, um mundo de distância. A mamã contente com a serviçal, gabando-a por entre chávenas de chá e éclairs, a amigas de baton e rouge, todas permanente de bigoudis aprimorados à Ava Gardner, nunca vai a casa e está sempre pronta ao trabalho. E perante aprovações de baton a afunilar, enaltecia,  a farda sempre a preceito, é de confiança e tem bom feitio. Enfim, moldou-se à casa. E em remate de mestre, e a mão que tem para a cozinha. Fazia uma pausa e deixava as mentes engalanadas de caracóis imaginando acepipes e depois, como quem pede saúde para um filho, desejava, Deus ma conserve que não me lembro de criada tão cumpridora. Tua mamã que, sentada na cama, pedia de mãos atrás,  Álvaro, aperte aqui por favor. E o papá calçando os sapatos ou a mirar-se ao espelho enquanto fazia o nó da gravata, um momento, querida. E vinha até à cama, agarrava as duas pontas do soutien e unia os colchetes, um hábito igual a calçar meias ou usar botões de punho. A intimidade que os pequenos gestos não tinham.


20 comentários:

  1. Isto está a ficar interessante, está sim senhora :))
    👫

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  2. Sinais do desabrochar da adolescência que gostei de ler! Bj

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  3. Quando a relação se mecaniza já não vale a pena...

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    1. Há muita gente a pensar diferente, Pedro. às vezes contam motivos, intenções, pessoas, tanta coisa que perpetua o hábito. Mas tem razão, em contexto amoroso, desvaloriza.

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  4. Uma mulher encantadora, considerei-a (que não a conhecendo, a conhecia como conhecemos alguém que vive ao nosso lado na aldeia); um misto de raiz de árvore centenária com um traço de ave - de gaio, azul-verde, leve, animada, embora já tivesse passado dos 60 e, naturalmente, encanecido.

    Ao mesmo tempo, Maria⚘, no bucolismo da paisagem Beirã, sentada junto ao rio, sentindo a pureza dos ares, a força da natureza em todo o seu esplendor, num local magicamente perdido no tempo, ouvia-a falar do húmus dos lugares, das coisas e dos homens com a suavidade e delicadeza próprias da poesia, da música.

    Naquele momento, sem presenças, fluiu entre os três uma força qualquer, uma cumplicidade. Houve entendimento; uma espécie de entendimento demasiado grande para se exprimir por palavras.

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    1. Joaquim, essa Maria ⚘ não tem nada a ver comigo, pois não?
      Agora fiquei na dúvida...
      🤔

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    2. O que acha? Lamento se a retratei mal. :)
      Claro que é você!!!

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    3. Ora então, vamos lá.
      Penso que no primeiro parágrafo descreve a bea; concordo, só que acho que ela vive numa pequena cidade e não numa aldeia, mas certezas não tenho, claro.

      Também creio que podem gerar-se cumplicidades na net, entre duas, três ou mais pessoas, e isso é muito bonito (ainda que algum/a esteja a fingir, não deixa de ser bonito) :)

      Quanto a mim, já não sonho muito (é mais pesadelos) e não sou assim tão delicada e poética a falar (escrever), mas que sei eu?

      Agora o que sei é que a aldeia (que nem o chega a ser) não é nada do que imaginou.
      Não tem um rio, e como eu adoraria que tivesse...
      Ar puro e silêncio? Pois, só se for das motosserras, motores de rega, tractores, motas, carrinhas e afins, tudo fazendo grande chinfrineira e deixando um perfume de gasóleo no ar e nas casas.
      Ver as starry nights à Van Gogh?
      Já era!
      Agora é impossível, tal a quantidade de candeeiros - é o progresso, Maria!
      E também já não é seguro andar deambulando pelos campos, como eu adorava fazer...
      Tem havido assaltos.

      Mas, quando abro a janela da sala de manhã, vejo um belo plátano (que agora está lindo, vestido de Outono) e por vezes alguns passaretos vêm lançar uns trinados aqui nos parapeitos, não se esquecendo de deixar uns presentinhos para a Maria limpar ;)
      E é isto, Joaquim.
      Thanks anyway!
      🌲

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    4. O texto tem subtilezas que lhe escaparam Maria. Não importa. Tenha uma boa noite.

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    5. Pois, parece que sim. Lamento não estar à altura de tanta subtileza.
      Sorry.

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  5. Bonito momento. É de guardar.
    Bom Dia, Joaquim.

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  6. Muito se conversa por aqui:)).
    Eu, Maria, sou de um lugar que nem aldeia é. E sim, vivo hoje numa cidade pequena e interior que não perde o ar de vila e lugar de passagem.

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  7. Sorry bea.
    E eu nasci e vivi metade da minha vida na maior cidade do país e agora vivo num sítio que nem aldeia é... c'est la vie!
    Podia ser um sítio lindíssimo (que os há, e muitos, nas Beiras, mas não é).
    Pensei que o Joaquim estava a falar de nós três, mas a minha fraca inteligência não deu para entender as subtilezas dele.
    Desculpe o tamanho do meu comentário, ok?
    Beijinho e boa noite.

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  8. hummm...eu acho que vou descobrindo as subtilezas.
    Gosto de comentários compridos, dão-me a ilusão de conversarmos, coisa que bastante me falta e quase só faço aqui:).
    Não sei, eu vivi num sítio que nem aldeia é e gosto bastante dele. É um bocadinho sem motivo, mas gosto.
    Um abraço de boa noite, Maria

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  9. Sabe, bea, a aldeia aqui mais próxima, embora não seja nada de especial, tem uma coisa que eu acho fantástica: uma vista maravilhosa para as serras do Muradal, da Gardunha e um bocadinho da Estrela.
    Sempre que posso vou lá dar uma espreitadela, e penso como seria bom abrir as janelas de manhã e lavar a alma com aquela vista para as montanhas.
    Curiosamente, à conversa com uma pessoa de lá, obtive esta resposta: Ora, menina, a gente liga lá a isso, temos mais que fazer do que olhar para as montanhas!
    E é isto.
    Só queremos o que não temos...
    Mas o não gostar de estar aqui tem muito a ver com os maus momentos que já aqui passei, com as perdas que tive, etc., etc.

    Sexta feliz.
    🌲

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  10. Bem verdade o que diz, Maria. Tudo nos vale em dobro se estamos longe. E é verdade que a beleza das coisas é mais apreciada por quem chega. Quem nasceu nesse lugar de serras e tem de trabalhar no duro não repara na beleza da paisagem. O facto de sempre lá estar é muito semelhante à não existência, perde significado.
    Boa noite:)

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