quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Carrossel



Quando finalmente cheguei ao cimo e avistei lá à frente as costas curvadas de Octávio, deixei os frutos desabar em bloco e em três tempos escorreguei e os apanhei de novo tratando de escondê-los em sítio combinado. entretanto, sempre de olho em Octávio, Esparguete desunhava a correr para a sala de estudo,  a mola das pernas a baixá-lo ao mínimo sinal de perigo. Ainda mal tinha acabado de esconder a fruta e apertar a camisa soprando sobre os arranhões e já ele me acenava. Aproximei-me. Olhou-me agastado, estás surdo ou quê, eu a chamar-te, a chamar-te, e tu nada. Ajuda-me aqui com a padiola de esterco, vamos deitá-la naquela cova que quero plantar o pessegueiro que está abacelado acolá. E no içar da padiola  que me retesava braços e prendia pés e pernas ao chão, o excesso de peso a castigar-me também por via da diferença de altura, acrescentou, trouxeram-no as mulheres da costura. E eu ideia nenhuma nos pêssegos, eu apenas a sentir o ardor de esfoladelas e arranhões e antecipando  o sabor das maçãs e a nossa alegria a mastigá-las. Não me ocorreu a sorte que tivera, as crianças pensam no que acontece, não no que poderia ter acontecido. Para deitar tudo a perder bastava despontar uma carroça no caminho de terra enquanto subia o valado, soltar-se um cão da quinta, o quinteiro andar por ali, Octávio virar-se no repente de eu a subir ou descer o muro; ou aproximar-se de Esparguete quando ele, conveniente, fingira que não o ouvia. Ao invés, revia-me todo no feito e a vitória dava-me nova roupagem, vestia-me de invencível. Dei ao esquecimento todos os revezes e impava de contente por ter consumado o furto. Antevia-me até em novas e mais elaboradas façanhas. Fartos e famosos dentro da casa, seríamos mais temidos que o grupo dos crescidos. Todos nos obedeciam e procuravam agradar-nos.  Estes e outros pensamentos alegres e pouco virtuosos ocupavam-me enquanto ajudava a plantar e regar, a semear novas leiras de legumes e, por fim, a encher o saco da cozinha que  servia à sopa do dia seguinte. Octávio mandou-me ir na frente com os legumes enquanto ele ajeitava a horta para o sono. Embrulhado no seu mutismo, ficava a despedir-se de cada courela de batatas, olhos desvelados leira a leira, talvez uma promessa para o dia seguinte na monda destas ervas, fundura naquela caldeira, ajuda de canas no feijão de subir. Octávio que editava em Maria o seu amor pela terra. E enquanto anoitecia e ele se  concentrava em despedidas à amada, fui pelas maçãs e acamei-as sob uma catrefa de espinafres. Depois, passei a cancela que Octávio fechava a cadeado, dei a volta pela cozinha como previsto e, antes de entrar, escondi-as sob as ramadas da poderosa hortênsia azul  que encostava o viço  no muro e por ali crescia em roda livre.


21 comentários:

  1. Gosto bastante dos seus textos! Prosseguimos então! :)

    Beijos, boa noite!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vamos andando devagar, mas andando.
      Boa noite, Cidália.

      Eliminar
  2. Gostaria de tomar um cafezinho consigo e conversarmos um pouco sobre a sua capacidade de criar textos com qualidade, que, para além do inegável talento, só surge, certamente, do trabalho e do muito labor em prol da arte.
    Como não temos essa possibilidade, sento-me eu à mesa do café, peço um, esboço um sorriso e avanço na conversa. Depois, bem depois, como é em diferido... resta-me esperar.
    Para que a conversa não se perca, se não se importa, vou lançar tópicos. Sei que é pouco literário e até parece um questionário mas não é, quanto muito entenda como uma entrevista. Demore o tempo que precisar e disponha. Ninguém corre atrás de nós :)

    1) os especialistas em processos criativos que ajudam a escrever, afirmam que a leitura é obrigatória; muita leitura. No seu caso acha que essa leitura foi ou é indispensável?

    2) que escritores ou obras a influenciaram?

    3) como lhe vem a inspiração? Tem alguma técnica quando se senta defronte da folha em branco?

    4) nota-se que é muito atenta à realidade social que a circunda. Para além das inevitáveis influências literárias (ninguém é imune a elas) donde vem essa necessidade de dar voz ao feminino e aos deserdados da vida?

    5) há muito do seu mundo vivido ou é tudo ficção?

    6) existe alguma catarse nos seus escritos (sonhos não realizados, gostos e preferências de criança não satisfeitos)?

    E pronto, é tudo. Tenha uma boa noite.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Joaquim, se me lê, por certo calcula o que eu gosto de café. Como sabe, sou palavrosa. Mas dei por mim a responder "não sei" a várias perguntas da nossa diferida conversa a que nenhum café seria capaz de acompanhar a duração.

      tópico 1: a leitura deve ter sido indispensável, sim. Sempre gostei de ler e escrever. Houve tempos em que lia e não pensava em escrever. Escrevia apenas a trabalho, mas até actas gostava de fazer (achava um bocadinho estranho gostar de fazer actas). Pensando no assunto, não imagino que alguém tenha vocabulário ou correcção escrita sem leituras. E há horizontes que a leitura abre; ler é ginástica mental, torna-nos mais flexíveis. Mas um grande leitor não é necessariamente um amante da escrita e muito menos um escritor.

      Tópico 2: Bem sabe, porque já aqui o referi várias vezes, que tenho reverência por Lobo Antunes. Creio que me despertou certa tendência para o animismo que julgo sempre ter sentido, mas tinha algum constrangimento em pôr no papel e tornava tudo menos natural por faltar à minha verdade de mundo. O resto são influências que não noto mas devem cá estar, nada é em vão. Não sei mesmo que obras me influenciaram. Gostei de tantos livros...sinto que vou perdendo uns para adquirir outros.

      tópico 3: não faço ideia. Não tenho qualquer técnica excepto sentir vontade de escrever, estar concentrada e em silêncio. Por vezes, o facto de estar outra pessoa na mesma sala em que escrevo, mesmo se silenciosa, incomoda-me. Sou incapaz de escrever no café, num jardim ou até no quintal de minha casa; é-me necessário um ambiente sem interferências. Em frente do écran, vou andando. Escrever em computador traz vantagem nas emendas de texto.

      As próximas respondo amanhã. Gostei da nossa conversa, foi bem lembrada. Boa noite

      Eliminar
    2. Tópico 4: pois olhe, também não sei. A gente já nasce predisposto a certas coisas, pode ser genético. Minha mãe era pessoa de extraordinária bondade e muito atenta aos outros. Talvez tenha herdado dela. Ou aprendido com a vida que às vezes é madrasta. As mulheres são os seres que mais admiro, talvez também por questão familiar. E também as lamento pelo que já leu e pela situação tanta vez injusta e insólita que a sociedade lhes dá e permite. A vida delas é cheia de ratoeiras e peias, de trabalhos em dobro e a triplicar. Mas depois têm aquele coração grande onde cabe o mundo e entregam-se à vida como talvez nenhum homem saiba fazer. E não estou apenas a falar de casos amorosos. As mulheres têm um pacto com a vida que, em casos normais, é de amor e dádiva. Isto comove-me profundamente.
      Mas depois há em nós - não creio que apenas em mim - uma sede de justiça que ultrapassa o feminino. Talvez em mim os deserdados sejam os únicos com história. Ou eu queira dar-lhes voz porque eles raramente se escrevem a si mesmos.
      E depois, Joaquim, esse é o meu mundo, o que melhor conheço, pertenço-lhe desde o berço. Se não houvera as várias mãos que me encaminharam, talvez por compaixão ou apenas simpatia, seria hoje um deles e não escrevia em blogues, não me ocorriam histórias e o meu mundo seria uma coisinha pequenina e sem horizonte. Talvez.

      Eliminar
    3. Estava a fazer um apanhado, para depois retorquir no fim, onde achasse que ainda havia uma palavrinha a acrescentar. Contudo, a sua resposta a este tópico emocionou-me; na sua sinceridade, na verdade com que o diz e como o diz (especialmente como o diz). Eu sei que só assim vale, já mo tinha confessado, mas... ainda me desconcerta.

      Eliminar
    4. Joaquim, faça favor de fazer o apanhado que assim não vale nem é conversa.

      Tópico 5: Já respondi parcialmente a este tópico na questão anterior. É o mundo que conheço e como o conheço. Mas não é a minha vida, não são situações que vivi ou presenciei (também as escrevo, mas nas crónicas e em pequenas histórias que não estão aqui; e já descrevi um pouco das minhas memórias, mas fartei-me um bocado de tanto eu e à dúzia de páginas aborreci).
      Uma vez li ou ouvi uma entrevista a Garcia Marquez onde o escritor contava que estava certo dia num lugar e viu passar uma mulher com um garoto na torrina de sol; não soube a razão mas ficou bastante impressionado com ambos e pensou que havia de integrá-los num dos seus romances. Mais tarde, iniciou um dos mais célebres e conhecidos (não estou com eles aqui à mão e nem lhe sei dizer qual) com esse par insólito que descera de uma camioneta da carreira pela força do calor e se dirigia a algum lugar. Li esse romance antes de conhecer a história e lembro-me que aquela visão está tão bem descrita e agarra-nos de tal forma que ao longo do livro esperei sempre vê-los reaparecer. Julgo que este episódio, sem que eu pretenda comparações, dá um pouco a ideia do que se colhe e do que se constrói. Colhem-se impressões e depois constrói-se a casa para viverem e se espraiarem se tiver de ser:). Porque as próprias impressões têm voz e querem ou não querem casa.

      Tópico 6: Nunca pensei nisso. Eu que tanto escrevo sobre a infância realizo na escrita algum sonho de criança? Não me parece. Dentro das condições, tive uma infância poderosamente feliz e não me lembro sequer de desejar alguma coisa de natureza material além de bananas. Tenho saudade desse período sagrado de inocência que foi sem dúvida de aconchego ímpar e creio firmemente ter-me marcado o carácter. Talvez escreva mais e mais vezes por gosto de voltar, escrever é sempre uma forma de regresso (será a catarse). Há uma leveza infantil que admiro e até invejo. Mesmo com birras e certa maldade.
      Boa noite:)

      Eliminar
    5. Aqui vai o apanhado!
      Em primeiro lugar, obrigado, as suas respostas foram bastante esclarecedoras.

      Sobre o tópico 1, concordo inteiramente.

      Sobre o tópico 3: tenho a ideia que escreve mais ou menos de rajada, ao estilo de Jorge de Sena, que dizia de forma lapidar: «... nada escrevi que de uma vez não escrevesse e não considerasse escrito de uma vez para sempre.»
      Eu, no café consigo isolar-me e concentrar-me no meio do burburinho, desde que ninguém fale comigo.

      Sobre o tópico 4 estamos conversados. Acrescentaria apenas que transportamos do passado o que de muito bom e de muito mau nos marcou, e que esses momentos ficam marcados no nosso espírito com uma clareza cristalina através dos anos e não se perdem jamais. Ficam a fazer parte da nossa pessoa, integra-se no nosso carácter.

      Sobre o tópico 5: tenho pena de não ser do tempo em que escreveu as suas memórias. Não poderá fazer uma retrospetiva, mesmo parcial e interpolada?

      Sobre o tópico 6 e a catarse: do que lhe leio, ficou-me a impressão de que perdeu sua mãe muito nova, no princípio da sua adolescência, mas posso ter confundido a narradora com a autora e tudo não passar de ficção. Antes seja esse o caso. De qualquer modo, estabeleci o nexo de causalidade, talvez abusivamente, entre esse facto e a sua tendência para o feminino.

      Nota marginal: ler as suas crónicas é um banquete, mas não tem de ser um acto de deglutição, antes um acto onde se mastigam e saboreiam os alimentos. Não se tenha pois pressa em saber o fim da novela, o prazer está na viagem, não no destino.

      Um café teria sido realmente insuficiente para sustentar a nossa conversa :)
      Boa noite.

      Eliminar
    6. Não escrevo de rajada, não. Se conto algo que de facto aconteceu, sim, é mais ou menos rápido (mas não de rajada). Se invento uma situação, não. Volto atrás, emendo. E, sobretudo se passar um ou mais dias, ajeito de outra forma, insiro novos acontecimentos e nuances; a distância do texto faz-me bem à escrita, cimenta. Ao invés do que o Joaquim imagina, sou lenta a escrever, não por falta de assunto, é mesmo a minha natureza. E emendo imenso. Digamos que da primeira vez alinhavo as ideias gerais sem grande preocupação. Depois vou burilando até terem forma que me pareça legível e verosímil. Leva tempo, um tempo que não dou por ir passando, vou-me esgotando nele sem dar conta:).

      Minha mãe morreu quando eu tinha dezoito; começou a morrer ainda não tinha quinze, numa morte anunciada e dolorosa. Por enquanto, indescritível.
      Venho de uma geração de mulheres muito fortes, cada uma a seu modo. Minha mãe pela doçura e a força de carácter, minhas duas tias pelo amor arreigado de cada uma a homem que nunca a gostou e só lhe trouxe solidão e sofrimento, mas elas, mesmo sem terem gostado de outro, lutaram pela vida até ao fim. Minha avó era uma espécie de furacão de trabalho, uma espécie de varinha mágica que trabalhava sem descanso, alegre e contundente, capaz do pior e do melhor. Com tal família e sempre entre mulheres...

      Descanse, não sou rápida em nada, não se nasce no Alentejo impunemente:). E o contador ainda tem de crescer. Vamos andando a vê-lo crescer.

      Não. As minhas memórias são muito ternas mas também muito sofridas, não sei onde andam, talvez as tenha perdido ou então estarão numa daquelas pens que nunca mais usei. E parei exactamente na adolescência.Mas tenho muitas histórias engraçadas que contei aos meus irmãos e lhes ofereci num Natal de boa memória que muito nos comoveu a todos. Porque foram histórias vividas pelos quatro, cada um com a idade que lhe pertencia e a seu modo. Simpaticamente eles dizem que fui muito fiel ao passado:). se um dia queira lê-las, acho que não se importarão, a pessoa que ali fica pior na fotografia até sou eu (palavras deles).

      Eliminar
  3. Caraças, bea (excuse my French), mas afinal os moços trincaram ou não trincaram as maçãs vermelhas riscadinhas?
    É que isto está a ficar com mais suspense que qualquer filme do Mestre Hitchcock ;)))
    🍎🍎

    ResponderEliminar
  4. Que é que quer, há pessoas assim, sai-lhes tudo a ferros. Mas qual o interesse de estar a desvendar o próximo capítulo da saga das maçãs que já me está a chatear. Amanhã (ou depois) se verá.
    as suas maçãs também são primorosas, cor é o que não lhes falta. Apanhou-as no google? Fico com as duas, ok?
    Boa noite:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Okay, okay, já vi que o seu bom humor fugiu para Marte, talvez...
      Pode ficar com as maçãs, a ideia era essa, não são é riscadinhas ;)
      Posso enviar mais, se quiser, rapinei-as aqui no esperto da Samsung...

      Noite feliz, bea.
      😴

      Eliminar
    2. Não é questão de bom humor, Maria. A vida é mais assim, embora a gente leve o tempo a colori-la e a tapar buracos para deixá-la mais bonita e apetecível. O prazer é coisa nossa, não do mundo que nos rodeia.
      Não sei fazer essas coisas com o meu Samsung. Ou é ele que é burro demais - melhor que fique assim, sempre me poupa o ego:)
      Bom dia.

      Eliminar
    3. Bea, eu também sou uma completa naba (parei algures no windows 98, nas diskettes e CD-ROM, lembra-se?).
      Mas o teclado do meu smart tem uma tecla com os bonequitos: é só escolher e clicar!

      By the way, as batatas com óculos são duas mãos a bater palmas 👏 :)))

      Boa noite.
      🌿⚘

      Eliminar
    4. :)) Como é que eu ia adivinhar isto?! duas mãos a bater palmas, sim senhor. Obrigada pela dica, Maria.
      Claro que me lembro das disketes, ainda tenho a caixa de guardá-las e a que dei outra função. Não me lembro do windows 98, mas deve ter existido, só que nesse tempo eu devia andar atrapalhada com mexer-lhe e nem reparava no nome dele:).
      Boa noite.

      Eliminar
  5. Pode ser uma também para mim, sff:).
    Bom dia

    ResponderEliminar
  6. Bea mais um belo momento de leitura onde tudo de aviva no correr das linhas!!!
    👏👏👏👏👏... e 😘

    ResponderEliminar
  7. Obrigada, Gracinha. Só por curiosidade, o que são os primeiros cinco símbolos (emojis?)? parecem-me batatas com óculos:). Sou uma naba nestas coisas modernas.

    ResponderEliminar