quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Carrossel


Durante o Verão, à vez e por calendário, todos ajudávamos na horta. A horta existia separada do pátio de casa por um portão com cancela manual e do resto do mundo por valado alto mas não intransponível e por certo menos empinado que a ribanceira de separação entre a rua da Venezuela e o campo de pinheiros e tojo. Ora a suma preocupação de Octávio concentrava-se na preservação  das cenouras, ervilhas e outros legumes, atractivos ímanes para a fome dos ajudantes. O Paz de Alma salvaguardava o nosso alimento quente, parca refeição para gente que cresce. Impedia-nos na courela o que nos servia de aconchego no prato. E nós de uns a outros, encrespados e a invectivá-lo sem pejo, unhas de fome, cegueta, nem uma cenoura crua deixa comer.
O plano de Esparguete assentava na minha habilidade gatil a subir muros e passava por desoprimir a apertada vigilância de Octávio. Desencontrámos horas de estudo e trabalhos da horta. E nem um soslaio aos legumes.  A ideia era ele sair da sala de estudo sob qualquer pretexto e eu escapulir muro acima. Na minha ausência, ele substituía-me. Nas férias de verão a sala de estudo era usada como sala de leitura e recreio pouco vigiado, desculpa para Maria ter a certeza que não andávamos à torrina. Após o almoço e durante duas horas podíamos ler, conversar ou dormitar, cabeça apoiada nos braços. Altura e magreza eram semelhantes, e conhecíamos a dificuldade de Octávio para identificar alguém a mais de dois metros de distância. Treinámos durante horas um assobio em canto de pássaro que, à vista da minha inépcia, Esparguete resolveu por conta própria: saía da sala de estudo com uma desculpa e emitia o sinal mal ganhasse a rua. Se eu caminhasse para a barreira, o caminho estava livre e ele corria até ao meu lugar. Se não...escondia-se e esperava.
Cheios de cautelas, experimentámos a troca e a escalada do muro por duas vezes. Nessas experiências avancei medroso mas também ufano por dispor da minha veia de símio exercitada em lianas e barreiras, sentia orgulho por subir com desenfado uma parede que outros não ousavam. O contacto visual com o mundo exterior de valas e valados separando pequenas courelas, não me desviou a atenção para as ajudas de braços e pernas no terreno: anotei os arbustos mais resistentes e as saliências onde amparar os pés.

12 comentários:

  1. O trabalho à jorna.
    Que para muitos começava quase na infância.
    Bfds

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  2. Penosa verdade. Embora não seja o conteúdo do texto.
    Bom dia:)

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  3. Respostas
    1. é por isso que o autor as conta:). Tem de fazer jus à alcunha.

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    2. Bea obrigado pelas palavras que encheram meu olhar de brilho! Realmente... a horta continua mas com menos produtos pois o "ajudante" tem tido pouco tempo para cuidar e a rotura dos ligamentos no meu braço direito impedem certos movimentos!
      Mas há sempre para a sopa!
      Bj amigo

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    3. Não desista, Gracinha. Visito-a sempre.
      Um abracinho

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  4. No movimento circular deste seu carrossel, vamos agora instalados no assento da Fome.
    Este seu texto, fez-me lembrar uma quadra de António Aleixo, que há muito me acompanha:
    "Quem nada tem, nada come;
    E ao pé de quem tem comer,
    Se alguém disser que tem fome,
    Comete um crime, sem querer."


    Julga amar o marido e sente-se satisfeita por ser casada. Por vezes, contudo, vem-lhe ao pensamento quem preferiria ter sido. E, entre essas duas realidades, uma bem real e outra plausível, há uma linha invisível, uma linha que nunca transpôs.
    Mas hoje, aqui, parece-lhe possível ter sofrido uma subtil mas profunda transformação: acertou contas consigo mesma.
    Esforçou-se durante tanto tempo, tão arduamente e com tanta boa-fé, e agora descobriu o truque de viver feliz, sendo ela mesma, do mesmo modo que uma criança aprende em determinado momento a equilibrar-se numa bicicleta de duas rodas. Parece-lhe que vai ficar bem. Não perderá a esperança. Colocará as dúvidas de lado. Não lamentará as suas oportunidades perdidas, os seus talentos inexplorados. Dedicará a vida à família, ao seu lar e aos seus deveres.
    Quererá este filho.

    PS: quantas famílias não têm nos filhos, o seu único pilar de sustentação?!
    Bom fim de semana.

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    1. Decerto muitas, Joaquim. Aquele amor impossível de existir mas que existia também se consome. E fica nada. Nós ajudamos a vida a esboroar os sentimentos, somos mestres nessa arte sem subtilezas. Hoje estive a ler as Cartas de Calamity Jane a sua filha. Cartas que, espero eu, a filha tenha chegado a ler (após o abandono do pai da garota e que aconteceu logo após o nascimento e por haver outra mulher, Jane resolveu dar a filha para adopção e apagar-se como mãe). Foi cuidadosa a escolher os pais adoptivos e a criança nunca soube que não eram os seus verdadeiros pais. Visitava-a de tempos a tempos sem que ela sonhasse quem era (era uma amiga do pai). Jane deu bastante dinheiro ao pai adoptivo e, como não podia revelar a verdadeira relação entre elas, nem dar-lhe mais conselhos que os devidos a uma menina que se vê de anos em anos, escrevia-lhe cartas numa espécie de diário esporádico. E a dada altura diz, a propósito de dois jovens que ajudou e se julgavam enamorados um do outro, "vão separar-se um dos outro e aprender que se pode viver sem amor e sem um lar". Creio que se referia a si mesma. Chega a ser comovente o que ela quer deixar à filha. Até as suas receitas escreve para que as experimente a filha quando case.
      É um livrito tão delgado e bonitinho. Um dos que a biblioteca não quis:).
      Boa tarde, Joaquim.

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  5. O que eu adorava comer cenouras cruas 🥕 em miúda; cozidas é que não, mas lá em casa não havia quereres e tinha mesmo que as comer.
    Depois passei a gostar.
    O mesmo aconteceu com os nabos e as couves; em puré tudo bem, cozidos como acompanhamento nem pensar.
    Agora adoro e não dispenso :))
    Manias...

    Boa tarde, bea.
    🦋

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  6. Continuo a gostar de cenouras cruas. Enquanto faço a sopa, vou comendo bocados:). Mas hoje utilizo-a também na doçaria.
    De nabos nunca gostei muito e ainda os não prefiro. Couves também não é o meu forte, mas como.
    Os nossos gostos e necessidades mudam bastante com a idade. A refeição que menos gostava era batatas cozidas com legumes e um azeite e vinagre sobre o bacalhau e essa mistura. Hoje é um prato que me agrada:). O que minha mãe riria se me visse a comê-lo com satisfação.
    Encontrei ainda agora um antigo aluno do meu antigo grupo de teatro. Abraçou-me várias vezes e com tal calor que tenho de crer que gostou do encontro. Criámos logo uma ilha de recordações no supermercado e ficámos que tempos a ver as fotos que ele tira e que são espectaculares. As coisas bonitas que as pessoas comuns sabem fazer, que fazem como hobby, e a vida corre sem que tenhamos conhecimento.
    Boa tarde, Maria.

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  7. Quando de nós não se revê neste capitulo?
    -
    Pensamentos que voam ...
    Beijo e uma boa noite!

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  8. Não é um bom capítulo, Cidália. Mas há sempre gente que se assemelha em cada situação; ou não podia ser contada:).
    Que a manhã lhe seja propícia e o sábado deslize mansamente.

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