A
morte corre em cada um a seu modo. Há os que definham em silêncio como o Lingrinhas. Pensam
não se sabe o quê, desorientam na falta do astro que os ilumina, falta-lhes o
apetite e a vontade de continuar, afundam. Os que falam e remoem lembranças do
morto, como o Mãozinha que não parava de segredar, lembras-te daquela vez. Os
que chamam a morte dos seus, qual Gaitinhas que tinha a dita de um avô
musical na memória e assim o revivia, não destrinçando se chorava por si ou
pelo Amora; os que se espantam por a morte levar outro primeiro, como o Feloso,
jungido pelo arfar impressionante e que não aguentava subidas, nós a transportá-lo
a pares, cadeirinha tecida a poder de mãos e braços sempre prontos para a sua
leveza congestionada. Os que, fleumáticos, assistem de fora e atiram palpites
e soluções sem préstimo, como o Engenhocas, se o Paz de alma tivesse regado
mais cedo ainda lhe acudia, se não tivessem deixado a cancela aberta, se não
houvesse libelinhas, se. Os que se
activam em tarefas inúteis que lhes surgem em urgência de vida e morte. Maria
arrasou o jardim, cortou todas as flores e não deixou rebento com viço. Embebida em desgosto, montou-o
na sala de estudo e só à noitinha abriu portas.
Carteiras, bancos, livros, jogo da glória, tinham sumido. Havia um jardim
florido e, à cabeça, a caixinha branca onde o nosso Amora dormia sossegado, tão
lindo como sempre, mas sem o moreno que
Maria apreciava a abrir-lhe os braços, anda cá minha bolachinha torrada.
Havia Octávio, o nosso Paz de alma, desimportado da vida, a olhar sem ver,
olhos tão esquisitos que assustaram Esparguete, achas que ele ficou maluco. E, quem
sabe, Octávio se recriminava por nada ter ouvido, por talvez a cancela aberta,
por. Ou revia a ternura nocturna do Amora sentado nos seus joelhos unidos onde
nascia um cavalinho fogoso, os joelhos em nervosa corrida muar, corpo
distendido e feliz que até parecia ter nascido para fazer cavalinho a crianças.
E o garoto cavalgando entrecortado de riso, até que o Paz de alma parava a
corrida e, como quem estica rédeas, aííí, óóóó!!!, depunha no chão o
cavaleiro contristado que, esquecido da sua condição, esticava os braços para o
colo e fazia beicinho, mais, mais. Octávio sorria e, sem lhe obedecer, beliscava
de manso a bochechinha do Amora e, o cavalo correu muito, está cansado, olha
bem o que andámos, temos de dormir. Lá atrás, em remate justo e de carácter,
o bando sério dos crescidos encostava na parede. Unidos como tijolos em muro, faziam-se fortes
uns aos outros, lágrimas são entretém de crianças e mulheres. E o espanto
que nos veio do Mau agoiro a olhar o Amora na sua caminha branca e que desatou
em soluços de inusitada fundura, o resto do muro primeiro arremelgado e depois a
avançar esquecido do bloco, animando-o à vez, palmadinhas nas costas, enquanto em mim e
Esparguete, um feixe de simpatia se impunha a contragosto. Mau agoiro com a
pose em farrapos, criança grande enrodilhada no desgosto e limpando as lágrimas
às costas da mão, peito no sobe e desce soluçante, a repetir maquinal, morreu mesmo,
morreu mesmo. No centro, a cozinheira em relevo enlutado e sem touca, as mãos
gordas no regaço agarradas a uma bóia chamada terço e finalizando cada mistério
com um suspiro das entranhas e ladainha específica, ai o meu rico menino que
nunca mais o vejo, a que respondia a curiosidade confrangidas das mulheres do
povoado e as nossas fiéis costureiras, desembrulhando lenços lacrimosos. A morte do
Amora desvelou-nos a face ignorada da cozinheira, uma mulher desgostosa e
amorável suprindo a costumeira imagem de força e desdém.
A morte é para mim um tema arrepiante 🌚
ResponderEliminarA escrita como SEMPRE brilhante‼
Desarrepie, Teresa. O frio já basta para nos arrepiar. Já não morre mais ninguém. Intencionalmente, quero dizer. Mas nunca se sabe. Não conhece aquele senhor que disse, "nem que Cristo desça à terra". Pois é, agora tem um pouco mais de cuidado com os nuncas desta vida.
EliminarMas, no que toca ao intento voluntário, parei com os defuntos. Dêmos vez a outras mortes. Façam favor de entrar, por quem são. Bem vindas, sentem-se, sentem-se, ainda têm de esperar um niquinho. É que talvez de ter-vos tão à beirinha de existir, a Teresa fique um bocadinho mais descansada:).
Bom fim de semana, Teresa.
Quem é crente encara a morte de uma maneira diferente da minha. É triste ver desaparecer da minha vida os meus entes mais queridos.
EliminarEstou absolutamente descansadinha, quer Jesus desça à terra, ou fique lá em cima a tocar harpa 🌲
A vida está cheia de ses com que gostamos de justificar o que fizemos ou não...
ResponderEliminarPobre bolachinha torrada, que já não voltará a andar de cavalinho nos joelhos do Octávio.
Bea, isto está muito triste 😭 de fazer chorar as pedras da calçada; venha de lá um episódio mais alegre, pleeaase!!!
Sábado feliz.
🍒🍒
Então como é, morre uma criança, a mascote do Lar e saltamos para a alegria assim, na boa?! Não senhora, menina Maria. Mas falta pouquinho. Não sei se o resto é mais alegre. Pode ser que sim. E que não.
EliminarO meu sábado foi bem trabalhoso (até fiz de conta que é sexta para render melhor), mas creio que bonzinho. Trabalhar para quem gostamos é quase uma espécie de prazer. E vou ter um bónus nocturno:). Viva!
É um carrossel, lembra?
Lembro!
EliminarMas é absolutamente necessário que esses rapazes também tenham algumas alegrias, penso eu de que...
E a menina bea há-de encontrar uma maneira de isso acontecer, tenho a certeza :)
Há quem troque os bês pelos vês, há quem troque os sábados pelas sextas...
Se vai ter um bónus, aproveite-o muito bem, ok?
Abracinho.
🌲
Afinal teve 2 bónus :)))
EliminarDeixei um comentário lá no DO, mas acho que me esqueci de assinar... pensava que estava no blogger, mas vê logo que sou eu pela rosa que lá deixei.
Parabéns!
🌿⚘
Bem que desconfiei, Maria:)). Obrigada pela flor.
EliminarBoa noite
Mais um bom capitulo. Mas a morte.. essa malvada, lol deixa-me angustiada! :)
ResponderEliminar-
Existem apetências de uma vida inteira... [ especial ]
Beijo. Bom fim de semana!
Não angustie, Cidália, ela existe sempre. Está cá desde que nascemos. E, se nos não retire a vontade de viver - pode até mesmo torná-la mais firme e determinada -, aprendemos a sua presença sem traumas. O homem é um ser para a morte (isto é filosofia, não a minha voz; mas é que concordo:)
ResponderEliminarBom fim de semana
Dou muito valor a pessoas de coragem, talvez porque a natureza não me tenha da mesma abastecido em abundância.
ResponderEliminarPor vezes essa coragem, da maneira que eu a entendo, significa tão somente tomar posições contra a opinião dominante, contra o senso comum ou contra aquilo a que se decidiu chamar o eticamente correcto.
Vem isto a propósito de dois "momentos" que presenciei no mundo dos blogs, nos últimos dias.
No primeiro, no blog de Maria do Rosário Pedreira e respetiva crónica no DN, pela frontalidade com que ela, (na altura professora) fala depreciativamente de uma professora face a um caso concreto e pela coragem desconcertante em como critica, merecidamente, outras colegas de profissão. Dou a minha chapelada!
No segundo, num comentário feito pela escriba deste blog, sobre a deputada Joacine no blog Delito de Opinião, e que a levou a arrecadar o prémio de "comentário da semana". Não podia estar mais de acordo consigo quando diz, referindo-se à deputada do Livre «É mais pelo afã em chocar, aquele espírito de quase vingança em conseguir. E não sei mesmo se o avesso do preconceito não é ele também preconceito». Também aqui dou a minha chapelada.
Contudo, entre estes dois "momentos", há uma diferença substancial; é que "bater" na Joacine, como lembra Pacheco Pereira, está na ordem do dia.
Não precisa de me tirar o chapéu, Joaquim, não me sinto orgulhosa por ter lá as minhas palavras. Por incrível que possa parecer-lhe desimporta-me.
EliminarQuanto a Joacine e ao Livre, estou nas tintas para o que diz Pacheco Pereira embora goste de o ouvir. O que escrevi foi suportado pelo triste espectáculo que deram ambos (não sei se inda dão, desliguei do assunto) e por esperar mais dele e ter algumas expectativas acerca dela, a princípio tomei aquele quase espírito de vingança como reacção natural em quem nada teve; supus que acalmaria e teria um papel assertivo e diferente. Inesperada foi a diferença que ela mostrou.
Eu não queria bater na Joacine. Queria que ela agisse na AR dentro da sua função e desgosta-me que assim não seja. Irrita-me ter de bater nela. Porque é mulher, é negra, gagueja. São três motivos de peso para eu estar atenta e apoiar. E irrita-me não poder fazê-lo. E é isto.
A crónica de Mª do Rosário Pedreira não li. Mas uma editora do naipe de Mª do Rosário Pedreira precisa assim tanta coragem para falar a verdade acerca de uma ex colega?!
Uma dor tão insuportável que por muito que se queira, se perde a compostura. Que véu é este que me desfoca o olhar? São quase lágrimas, Bea. São lágrimas mesmo que o episódio me reporta a momentos que preferia esquecer.
ResponderEliminarDizem os entendidos que não adianta esquecer a dor, que se não chorarmos as lágrimas todas, a ferida não fecha. Acredito que sim.
Há tanta maneira de chorar sem lágrimas, Nina. Até a rir choramos. E também choramos de tanto rir:)
EliminarBoa noite, Nina
Pois... a morte essa certeza que na incerteza nos vai consumido a vida!!!
ResponderEliminarO meu aplauso pela excelente escrita!!! 👏👏👏👏👏
Ah! Uma data de mãozinhas a bater palmas, né Gracinha. Desculpe eu só ter visto batatas com óculos da primeira vez . Na verdade o mail tem a ilustração competente:)
ResponderEliminarQue o domingo tenha sido agradável. Boa noite