quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Sophia e Eu



Não fui menina de livros de histórias. As minhas histórias chamavam-se contos e os contos eram contados, havia sempre duas ou três crianças a ouvi-los e apareciam-nos carregados de paciência, cheiros e voz. Havia neles paragens súbitas do contador. Suspendiam-nos o coração e dávamos a mão uns aos outros de olhos arregalados pelo arrastar de palavras nevoentas e terríveis, lembrando cadeias em lajes de pedra que um qualquer monstro ou fantasma movia, aproximando-se cada vez mais. E nós ansiosos, sem destrinçarmos se da heroína se de nós mesmos. Mas também havia vestidos cor de luar e mantos de céu estrelado a vestir princesas de boquinha de morango e pele alva, beleza tão acérrima que clareava os dias mais cinzentos. Os contos do Touro azul, do Príncipe lagarto, da Gata borralheira, encantavam-me por inteiro. Talvez na minha meninice Sophia ainda não tivesse inventado A menina do Mar, O rapaz de bronze, ou mesmo A fada Oriana. Talvez os filhos ainda não tivessem adoecido. Ou fosse ainda aquela rapariga toda poesia em corpo e alma.
Um dia, tinha eu quase dezoito, o professor de psicologia leu-nos um excerto do livro A Menina do Mar. Começou do início, “Era uma casa branca nas dunas...”. Maravilhei. Pena que não lesse mais. Esperei dois anos e, no mês do primeiro ordenado, comprei A Menina do Mar e terminei a leitura. Que fui lendo a todos os meus alunos. Por episódios. Um ano atrás de outro. É facto comprovado, as histórias unem mesmo as pessoas.
Ler Sophia é como o amor, repete-se vezes sem conta e é sempre um começo e uma alegria segura. A maravilha das palavras certas, exactas, e a magia que desprendem. Por minutos, todos sonhávamos com o fundo do mar cheio de anémonas e algas. Enternecíamos com a menina pequenina que tinha cabelos roxos e era a bailarina do rei dos mares e por isso passeava na terra dentro de um pequeno balde que o rapaz transportava. Quantas crianças Sophia fez sonhar, a quantas desenvolveu a imaginação. E há-de continuar.
E como eu tinha uns vinte e mais anos, mas era tão palerma como sou hoje, nem me lembrei de pensar que, quem sabe, a poeta tinha escrito outras histórias. Portanto, os meus alunos paravam na Menina do Mar. Não foi há muitos anos que comprei A Fada Oriana e O rapaz de Bronze ou Um Conto de Natal.
Não sei dizer como nem quando descobri que Sophia era poeta. Não me lembro onde li um poema seu pela primeira vez. Mas há-de ter sido depois dos vinte. O que me impede de a situar poeticamente é a noção de que sempre estivemos unidas, eu só não o sabia; ela pensou os meus pensamentos e disse-os com as suas palavras luminosas. Leio-a e estou lá. Sou eu ali. Mais que em qualquer foto. E não o digo sentindo-me igual. Nada. Sou tão outra do que ela foi.  E gosto de ser essa coisa outra que sou. Mas se calho a ler um poema seu, lá está a minha alma tão bem ataviada de palavras. Quando li a arte poética não a entendi apenas a ela. Entendi-me.
Depois...bem, depois passei a copiar-lhe um verso ou outro no quadro. Os meus alunos adolesceram, tinham dezasseis, dezassete anos. Entusiasmou alguns. Foram lê-la. E, quem sabe,  também se acharam nos seus versos.
E é isto que Sophia vai continuar a fazer, encantar.

18 comentários:

  1. E é assim, com quem nos abre novos mundos, que nos abrimos ao Mundo.

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  2. Quem deixa obra tão bonita e sem idade, tem por força de permanecer, Pedro.

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  3. Vai, se algum professor se lembrar sempre de trazer um excerto e ler na sala de aula:)
    ~CC~

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    1. Hão-de levá-la para a sala de aula, sim. Não precisa ser do programa (tanta vez os programas criam a má vontade nos alunos), precisa só que lhe mostrem os versos. Que a alguém hão-de tocar. Não a todos. A alguns.
      Não se pode gostar do que não se sabe que existe.

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  4. Muito bonito o texto, a bea escreve com o coração e consegue sempre comover-me, nada a fazer...
    Também conheci a Sophia tarde, já depois dos 20. Uma amiga ofereceu-me Os Contos Exemplares e, como sempre faço quando gosto de um novo autor, fui à procura de outros livros: primeiro encontrei os poemas, depois as histórias infantis. E foi um deslumbramento, que dura até hoje, passados mais de 40 anos :)
    Dia feliz, bea.

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    1. E gostou dos Contos Exemplares? É o único livro que tenho dela, mas em fila de espera. Sabe Maria, eu vou-me confessar aqui que ninguém nos ouve, no que toca a poesia, o Fernando António preenche-me de tal maneira, que é como os eucaliptos - seca tudo o que está à volta. Defeito meu, sem dúvida, mas não sei se vou a tempo de corrigir. Ao fim e ao cabo já não tenho 20 anos!

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    2. Maria
      li os Contos exemplares há poucos anos. Por acaso. Calhei a encontrar o livro. Comprei e gostei bastante.

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    3. Bea, eu gostei muito, tanto que quis conhecer mais escritos dela - e fiz bem. Estes contos, alegóricos e certeiros, ganham muito com as releituras, descobre-se sempre uma ou outra coisa que nos tinha escapado :)

      Joaquim, já viu (leu) que gostei, e muito.
      Porque não experimenta ler? São contos pequenos (no tamanho, não na qualidade), talvez goste de algum, quem sabe?
      Agora, quanto à poesia, não compreendo essa de chamar eucalipto ao Fernando António.
      Para mim, ele está no topo da Pirâmide, logo seguido da Sophia e do Eugénio que, ao contrário do Pessoa, são poetas solares.
      Mas depois, Joaquim, há tantos, mas tantos, cujas palavras me comovem, me alegram, me divertem, me fazem pensar...
      Tenho (e leio) muito mais prosa que poesia, mas há um grupo de poetas sem os quais a minha vida seria mais triste.
      E que é isso de já não ter 20 anos?
      Está vivo, não está?

      Bom dia aos dois.
      ⚘⚘

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  5. Com grande sinceridade e franqueza na mesma proporção de inquietação e preocupação de ser mal interpretado, aqui estou (agora com tempo) a prestar alguns esclarecimentos às duas a quem muito prezo.
    Parafraseando a Maria⚘ de ontem, "Ora então, vamos lá" - como quem esfrega as mãos e se prepara para uma longa jornada de trabalho:
    - Não conheço a Bea, mas de a ler tanto, parece-me que a conheço. E parece que a conheço como? Como o vizinho do apartamento ao lado que mal o vejo? Não, com maior profundidade; como alguém que vive ao nosso lado na aldeia.
    - A subtileza, essa maldita palavra,  foi trazer Maria⚘ à equação, imaginando-a sentada junto ao rio, lendo a Bea - ouvindo Bea falar do húmus dos lugares, das coisas e dos homens com a suavidade e delicadeza (da Bea) próprias da poesia, da música.
    - O que a Bea escreve, é muito do meu agrado e parece-me também ser do agrado da Maria⚘. A cumplicidade dos três é essa - o momento da escrita e o posterior momento da leitura, do entendimento.

    Não tive a felicidade de ter professoras que me iniciassem em Sophia. O pouco que me chegou foi sempre de forma indirecta, de viés. Talvez por isso a sua obra é-me praticamente desconhecida, e também talvez por isso tenha estranhado a sua trasladação para o panteão Nacional. Erro meu, sem dúvida.
    Gravei mas ainda não vi a reportagem que deu ontem na RTP3, mas o pouco que vi promete.

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    1. Obrigada por me ler, Joaquim. Pode crer que sou muito grata. Embora eu escreva mesmo sem leitores, concordo, a escrita só se faz inteira com a leitura. Escrever é dar um recado, não havendo quem o receba devém função incompleta.
      Vejo em Sophia e Eugénio de Andrade o amor entranhado das palavras. Nela, a claridade, o sentido místico e misterioso de todas as coisas, a poesia é esse exacerbamento da atenção a tudo. Nele, a carnação do amor, a palpitação da vida, a veemência da beleza em imagens sugestivas como não há outras; e a constância da dor, que em Eugénio há uma ferida sangrenta que não estanca e se faz presente até nos versos mais ternos ou apaixonados.
      Não me interessa nada o panteão, é lugar de mortos, corpos putrefactos, a imortalidade é outra coisa e não é ali que está.
      Também não vi a reportagem da RTP3 :). Talvez a veja ainda. Mas já vi tanto sobre Sophia que não sei que possa acrescentar. Ao invés, de cada vez que a leio, estamos as duas sem entremeios.
      Boa noite

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  6. Sophia encantará sempre quem ler os seus escritos. Amei ler!
    -
    A Culpa foi do cigarro... Um dia com várias "caras"
    Beijo. Boa tarde!

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  7. É verdade. Sophia tem esse dom.
    Boa noite, Cidália

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  8. Não sei quais são os escritores e livros adoptados no ensino actual, mas a Sophia tem que ser de leitura obrigatória na escola.
    Dei uma vista de olhos no seu blog, que não conhecia. E gostei dos textos que li. Voltarei, por isso.
    Bea, tenha um bom fim de semana.
    Abraço.

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    1. Obrigada, Jaime. Sophia faz parte do programa do 8º ou 9º ano, já não tenho presente. Mas também julgo que os professores possam não optar por ela (suponho que haverá várias obras à escolha para ler uma). Estou já um pouco desactualizada de programas escolares.
      Julgava que o Jaime já tinha vindo a esta minha janela de mundo. Volte sempre.
      BFS

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  9. Bea, adoro cada vez mais ler o que escreves!
    Eu, que apenas conheço (mal) a obra poética de Sophia (onde vivi a infância e a adolescência não vi livros dela), depois de te ler a ti fiquei com vontade de a ler a ela.
    E por isso eu reafirmo, que bem escreves tu, Bea!
    Beijo, bom fim-de-semana.

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  10. Vá ler Sophia, Teresa. Vale muito a pena. Também não cresci onde a poeta houvesse. Mais vale tarde...

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  11. Bea, revi-me em todas as suas palavras, desde o início, desde os contos das princesas com vestidos luminosos. A minha infância, mal tinha aprendido a ler, está recheada de sublimes e inocentes momentod de leitura. Aprendi a gostar de ler muito cedo e - felizarda - o gosto acompanha-me até hoje.
    Quanto a Sohia, tal como a Bea, descobri-a mais tarde. E encontrei-me nas suas palavras. Igualzinho ao que se passou consigo.
    Mais tarde, quando a disciplina de Literatura foi criada, tive a sorte de me ter sido atribuido esse horário ( acho que ninguém mais o quis, mesmo ascolegas mais classificadas recusaram ) e , de novo me deleite com Sophia. Os alunos eram do 10 e do 11º ano.Muitas meninas, poucos rapazes. Acho que as meninas se reviram - tal como acontecera comigo ... - em Sophia. E foram aulas gloriosas|! Quando apareceu o sistema dos chamados créditos exigidos para a progressão na carreira, escolhi sempre formação com na qual reconhecia afinidades. Numa dessas formações estudei Sophia, a fundo, para sorte minha.
    Tenha um feliz fim de semana, Bea.

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  12. Olá Nina
    ainda bem que se revê no post como eu me revejo em Sophia. Mas os meus contos infantis eram orais, ninguém na minha terra tinha livros em casa além dos escolares. Mas havia quem contasse muito bem. Foi com esses contadores quase iletrados que aprendi e logo logo também eu contei as histórias que ouvi. Tudo tradição oral :). As princesas de que falo, lembro-me ainda de estar a pensar em como defini-las por forma a vestirem as roupas mais bonitas que imaginar se possa. E o que me ocorria eram estrelas, céu, coisas assim.
    Se foi professora e conseguiu creditação em formação que lhe interessava, está de parabéns. A formação de professores é, em geral, uma coisa que não serve a nada senão à creditação.
    Vou falar sobre o dia de hoje no próximo post.
    Bom Domingo, Nina:)

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