segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Carrossel


Assustado, vi o sorriso atravessadiço, a troça no arrepanhar da boca, maldade porosa espalhada pelo corpo. Sem abrandar o garrote das mãos  mofou, dois pascôncios a fazerem-se espertinhos, hem. E depois, a abanar-nos como folhas, silvou em fúria que a escuridão protegia, aqui quem manda sou eu, ouviram. Ninguém rouba sem a minha ordem e todos me trazem o que roubam. Pensam que não dei pelos segredinhos, que não percebi que tramavam alguma, seus burros sem cabresto. Eu esgazeava em tremedeira incontida, apavorado com o ímpeto colérico de Mau agoiro, o crescido mais bruto e desalmado do Lar, de quem nunca sequer me aproximara. Debruçou-se sobre nós, sentia-lhe o hálito quente a vitoriar, agora nem as provam e o ladrão vai roubar para mim sempre que me apeteçam. E, com uma ponta de curiosidade, quem é que as roubou?  Estarreci. No silêncio do meu terror todo tremeliques, vi e ouvi Esparguete a acusar-se, fui eu. E depois a completar a obra, desqualificando-me, ele é um novato, só ajudou a escondê-las. Num repente inesperado, Mau agoiro largou-nos,  puxou a mão atrás e atirou-lhe um murro que o estatelou. E já a afastar-se, bico calado ou levam os dois, e ai de ti se tornas a roubar  à tua conta. Mal o vi pelas costas corri a ajudar Esparguete a levantar-se. Agarrava o nariz choramingando de dor, aquela besta partiu-me a cana do nariz de certeza, olha para o sangue. Foi quando reparei que alguma coisa lhe pingava por entre os dedos. Levei-o até à luz e assustou-me a desgraça de sangueira que escorria. Lembrei-me dos cuidados de tia Emília e aconselhei, põe a cabeça para trás que eu guio-te, temos que ir contar à Maria. E ele, está bem, mas eu é que falo, senão ainda levo uma surra que nunca mais me endireito.
À vista do sangue e do inchaço, Maria pouco atentou na mentira de Esparguete: andávamos em volta da casa e, na pouca luz,  tinha tropeçado e caído de borco e o nariz despedira em cima de uma pedra. Durante oito dias o meu amigo foi retirado das escalas de trabalho e Maria mantinha-o dentro de casa e perto de si para evitar maior mal. Eu tinha autorização para visitá-lo uma vez por dia visto que pernoitava sozinho no quarto adjacente ao de Maria, “o quarto das visitas” que só era usado pelos doentes;  nunca houve visita que ali dormisse.
A meio do rosto miúdo, adiantava-se aquela batata que foi ficando negra, depois arroxeou, e chegou a esverdear antes de, aos poucos, ir voltando a ser um nariz. Os outros espreitavam-no à vez e corriam exclamativos, chiiiii, tá a ficar roxo, roxo, roxo; se calhar fica assim para sempre. A comentários desta natureza as minhas entranhas mirravam de receio e eu confrangia de remorso e gratidão. Bem sabia a quem era destinado aquele soco. Ao invés, Mau agoiro passava sem olhar e procedia como se não nos conhecesse. Mas eu tinha pesadelos com Esparguete a subir o muro, sonhava que caía e se partia todo, que lhe davam um tiro, que morria.   Acordado, fazia votos para que as maçãs fossem muitas e Mau agoiro não quisesse outras; que uma estivesse envenenada como a de Branca de neve e ele morresse; que as comesse num repente e lhe desse uma caganeira tão grande que ficasse sem forças, deixasse de andar e  mal falasse. Mas a vida só por acaso se faz com os desejos dos homens e nenhum dos meus anseios se materializou.

24 comentários:

  1. Belíssima escrita,adorei a forma como escreves.

    Beijinho no coração e votos de uma boa semana
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    1. Obrigada, Daniela.
      Já me têm enviado bjos, bjitos, bjinhos, jinhos, abraços, bjos doces, mas beijinho no coração, juro, ninguém se lembrou. Espero que não doa
      Boa noite

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  2. "" ... que uma estivesse envenenada como a de Branca de neve e ele morresse; que as comesse num repente e lhe desse uma caganeira tão grande que ficasse sem forças, deixasse de andar e mal falasse. Mas a vida só por acaso se faz com os desejos dos homens e nenhum dos meus anseios se materializou .. ""
    ...........................
    Isto é sublime amor, loll

    Cumprimentos poéticos

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  3. É só um, Cidália. Sempre o mesmo:).
    Boa noite

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  4. Triste, muito triste, bea.
    E digam lá o que disserem, para alguns a vida é sempre a perder :(

    Boa noite!
    🛌

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    1. Sabe, Maria, também julgo que há gente que a sorte pouco bafeja. Mas quero acreditar que tirem dela o bem possível. Quem sabe são das pequenas coisas, do andar a pé, do copo com os amigos nos fins de semana, do gozo de ter uma casa, um gato que lhes passa nas pernas (ou um cão devotado), de haver memória dos bons momentos. Coisas assim.
      Bom dia:)

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    2. É verdade, bea, conheço uma pessoa assim... ela bem tenta tirar partido das coisas mais simples da vida, seja um pôr do sol, o sorriso de uma criança, um gato que se deixa afagar, uma música que a comove até às lágrimas, ou uma conversa virtual com uma pessoa inteligente, culta e sensível; e contudo, talvez por algum estranho desígnio, tudo se desmorona, a pedra vem por ali abaixo e é preciso recomeçar a empurrá-la montanha acima.
      E ela sente que já está sem forças, só lhe apetece desistir...

      Espero que o Contador e o Esparguete e o Amora consigam chegar ao topo da montanha, dê-nos (me) essa alegria, dona bea :))

      🍌🍌🍌
      (constou-me que, em miúda, gostava muito de bananas)

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    3. Hoje não está um dia bom para animar ninguém:). Mas quando falo das pequenas coisas o objectivo é ir subindo por elas, como o Contador que se agarra aos arbustos e põe os pés nos veios e saliências quase invisíveis do muro. A diferença é que nós não sabemos para que subimos, não há maçãs do outro lado. Estou em crer que a subida é a pobre glória de cada um. O cântico do esforço. E de que podemos desistir, Maria, de viver? A vida tem seus modos de desistência "os amigos amei despido de ternura fatigada...a nenhum perguntei porque partia, porque ficava". Eu acredito que nós duas, por exemplo, fiquemos, despidas de ternura fatigada e sem despedidas que são talvez a coisa mais difícil da vida e não podemos despedir-nos de todo o bem senão morremos mesmo e não há força que empurre a pedra. Desculpe, estou ligeiramente como o dia. Ou será mesmo da minha história que está a parecer-se demais com as histórias verdadeiras.
      Verdade, as bananas eram o meu sonho de criança, cachos delas. Mas inda bem que disse, já me estavam a parecer uns passaritos desengonçados:).
      Boa tarde, Maria

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    4. Desistir de me armar em Sísífo e ficar sossegadinha na planície; desistir de querer ser jacaré e contentar-me em ser lagartixa, deixar de acreditar em tudo o que me dizem ou leio, pensando que são como eu, que não uso filtros nem disfarces. Desistir de viver ainda não posso, há uma pessoa (apenas uma no mundo inteiro!) que precisa muito de mim e não posso nem quero desiludi-la.

      Sorry pelas bananas, bea, não têm graça nenhuma; queria enviar um cacho todo elegante mas não encontrei :(

      mas... creio ter lido algures que gostava muito de outra fruta - aqui vai ela, montes delas:
      🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒🍒

      Beijinho e obrigada pelo apoio :)))

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    5. Obrigada, Maria:). As cerejas têm tudo para gostarmos delas desde a imagem.
      E não precisa armar, todos somos Sísifo. Quanto ao provérbio chinês, utilizado por Pacheco Pereira na crónica da Sábado, julgo-o muito lúcido. Já ser crédula pode constituir problema, eu que o diga. Juro que não sei como é que se emenda.
      Ter uma pessoa que não quer desiludir é uma coisa boa. Parece-me ser coisa de nos atirar para a frente.
      Agradece qual apoio? De quem a quem?:)
      Boa noite, Maria

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  5. Agora fez-me lembrar Once Upon a Time in America.

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  6. :). Um filme que muito me marcou quando o vi pela primeira vez.
    Mas a minha história não tem tais picos de violência. Ou tem-nos noutra dimensão. Não se foge ao que se é.
    Bom dia, Pedro

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    1. O Pedro lembrou muito bem, inesquecíveis aqueles miúdos de Brooklyn a tentarem sobreviver na selva urbana.
      Um dos filmes da minha vida, de extrema violencia, mas também com cenas de uma ternura e beleza incríveis.
      Naquele filme há de tudo, afinal como na vida...

      Bom dia, bea. :)

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    2. Mesmo. Também gostei bastante desse filme. Como gostei do Sleepers.

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    3. Sim, também gostei, e mais uma vez com o De Niro, desta vez num papel bem diferente.
      E o Brad Pitt a mostrar que é muito mais do que apenas uma cara bonita.
      Por aqui chove e venta muito, tempo bom para ver um filme ou ler um livro - e só não digo à lareira, porque não tenho :(
      🔥

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    4. está tudo muito cinza e húmido, tem chovido a manhã toda. Mas vou sair. Ontem prometi uma visitinha a quem está mais sozinho que eu:). E já estive a preparar umas coisinhas.
      Desde que haja um livro ou um filme que agrade e o ambiente esteja aquecido...na boa.
      A lareira causa-me dor de garganta:). Portanto, a Maria não a ter, pode ser um bem. Mal de quem não consegue aceder ao conforto; sobretudo num dia frio e húmido como este.
      Boa tarde:)

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    5. Tínhamos uma lareira na cozinha, mas dava imensos problemas e mandámos fechá-la.
      Mas estou quentinha e confortável; o meu problema é no Verão quando a casa se transforma num autêntico forno.
      Boa visita, bea!

      Olha, chegou o Sol!
      🎼
      Here comes the sun
      Here comes the sun
      And I say it's alright...

      Pressinto que daqui a pouco estarei a cantar:
      🎼
      It's raining again...

      Espero que goste dos Beatles e dos Supertramp, caso contrário, olhe, paciência ;)

      🎹🎸🥁🎷🎻🎺
      Crazy Mary

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    6. Prefiro os Beatles aos Supertrump, mas gosto dos dois grupos e da canção Here comes the sun:). Por aqui não houve sol. Fiz as duas visitas debaixo de chuva. E continua chovendo. Parece-me bem a água, há muita albufeira quase vazia.
      Boa noite, Crazy Mary:)

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  7. Sempre o mesmo... mas com muita peripécia à mistura!!! 👏👏👏👏👏

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  8. A vida é assim também, Gracinha:). Obrigada.

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  9. Também eu gostava que os anseios do miúdo se tivessem concretizado. A tal caganeira não teria ido mal para o tal do Mau agoiro. :)

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  10. até eu, mas seria pouco credível, Luísa:).

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