Na
Casa da Boa Semente, nome próprio do que toda a gente conhecia como Lar dos
Rapazes, a morte entrou e desarrumou, pôs tudo de pernas para o ar, ninguém se
lembrou de escalas e amontoámo-nos pelos cantos em grupos pesarosos e
tristonhos, sem saber o que fazer. Maria entrou em casa de pálpebras inchadas e
olhos vermelhos de choro, reuniu-nos na sala de estudo e contou que alguém
deixara aberta a cancela da horta e a curiosidade do Amora tinha-o levado até
ao tanque. Talvez ele se tivesse debruçado para apanhar uma das libelinhas
coloridas que o sobrevoavam constantes. Não se ouviu barulho, não houve um grito. Octávio cavava
ao fundo e só viu o corpo da criança
quando veio regueira acima destapar a saída da água. Neste ponto,
Maria puxou do lenço amarrotado, limpou
os olhos, assoou-se e assegurou, o Amora
está no céu, os inocentes vão todos para o céu.
Mas eu via a laranjeira e o limoeiro assistindo impotentes, tão próximos dele que se afogava ali à frente
e sem poderem estender um braço, dar-lhe uma mão. Via a oliveira tão perto que
as azeitonas lhe caíam dentro do tanque, sem conseguir mover sequer uma folha
perante o espanto amedrontado do garoto que se morria sem dar conta de já estar
nele a morte. O Amora a abrir e fechar a boca como um peixe e não era peixe, a
estender a mãozinha pequena sem apoio e as libelinhas mais próximas a levantar
voo com suas asas de rede multicor. O Amora que se perdeu no mar de água.
E depois as duas mãos quietas, a água à
vontade e as libelinhas zanzando como se tudo igual.
Entretanto,
Maria incumbiu a cozinheira de nos guardar, veio junto do Lingrinhas,
pegou-o pela mão e saiu com ele. Só ela,
Octávio e o Lingrinhas trataram dos preparativos. A morte exige o seu momento,
requer a nossa atenção. A vida de Amora também requeria atenção e era vida.
Revivi tempos de curiosidade mórbida, achas que engoliu muita água; de certeza
tem a barriga inchada; deve estar de boca aberta, não é; e agora onde é que o
metem, os caixões são tão grandes e ele é tão pequenino.
Contra
seu hábito, a cozinheira isolou-se em silêncio espartano, apenas entrecortado
por lágrima teimosa a que juntava o lamento, ai o meu rico menino. Depois, o sentido prático prevaleceu. Avaliou-nos por alto e entendeu que não
precisávamos de guarda, não havia ânimo para travessura ou maldade. E
desandou. Pelo que ouvimos, parecia esconjurar
a dor entrechocando tachos, panelas e tampas. Mas, daí a um bocado, cheirava à
sopa do jantar. A mulher fazia o que tinha de ser feito, precisávamos de alimento. Pensei no Lingrinhas, magrinho e branquelas, duas
falripas loiras sempre penduradas sobre os olhos descorados. O encanto
vinha-lhe da ternura e cuidado que dedicava ao irmão. Sentados na mesma mesa,
dava-lhe a comida à boca, obrigava-o a beber água e, no final das refeições, em
desvelo materno, limpava-lhe boca e mãos, os crescidos em troça invejosa, “olha a mãezinha”. O Amora era
doido pelo irmão, obedecia-lhe como a um Deus e só adormecia de mão na mão.
Lembrei-me das noites sem tia Emília, dos dias compridos sem a voz dela a
chamar-me, do cheiro da nossa cozinha. E tive pena do Lingrinhas.
Olá bea,
ResponderEliminare eu também tive pena do Lingrinhas, mas hoje estou num daqueles dias em que até estou com peninha de mim (têm sido dias sombrios e custa-me muito compreender porque haverá gente tão maldosa a cruzar-se comigo); mas já que optei por dar uma voltinha no seu carrossel de hoje, só posso dizer que está muito bem escrito, comme d'habitude, aliás :))
Uma noite descansada, bea.
😴
Boa noite, Maria, chego com uma noite de atraso, já vi. Há mesmo gente que não presta, mas que havemos de fazer. Também me intrigam as pessoas perversas, as que fazem mal querendo fazê-lo. E não me refiro às alfinetadas comuns.
EliminarDesejo que tenha melhorado e não pense demais em quem não merece.
Vou tentar que a noite seja descansada, sim.
Um abracinho sorridente
Bea, tão forte, tão dolorosa esta cena. Pela verosimilhança tocou-me fundo. Há pouco morreu um bebé de ano e meio, filho de um casal amigo, que, na hora da sesta se esgueirou por uma porta mal fechada e, silenciosamente, se afogou na piscina. Acontece permanentemente. Na sua história o horror é absoluto porque , inesperadamente, na instituição brotara profundo amor pelo bebé Amora. Coitadinho! E o irmão? O tal “mãezinha”, como sobreviverá se assim lhe foi roubada a razão de existir?
ResponderEliminarÉ apenas a vida, bem sei! Mas como consegue esmagar-nos
com a sua crueldade.
A vivacidade da sua narrativa é impressionante.
Obrigada por partilhar, Bea.
Hummm...ler coisas assim tristes não me consta que faça bem à gripe. Melhorou mesmo, Nina?
EliminarQual partilha, Nina, escrever é uma das poucas coisas boas que faço. O mais são horas de fogão, compras e parvoíces caseiras que tomam tempo e não sordem. Estes bocadinhos são sal nos meus dias desenxabidos:)))).
Quanto à história...logo se vê quando haja um tempinho livre.
Boa noite, Nina e não se esqueça de melhorar, ok?
Perder um amigo na infância/juventude maraca para toda a vida.
ResponderEliminarSei do que falo.
Calculo que sim, Pedro. Não lidei pessoalmente com a morte de amigos chegados, mas a morte dos que gostamos nunca é fácil, encontra-nos sempre desprotegidos.
EliminarQuando se colhe uma flor, a haste treme e retorna à posição inicial. Não se pode dizer o mesmo dos transtornos do coração. Penso em Lingrinhas, como irá reagir à morte do irmão? E penso também, em como certas famílias procuram minimizar, se possível ocultar das crianças o ritual da morte, afastando-as de velórios, de cemitérios. Será que fazem bem em assim proceder? Não sou psicólogo para responder, mas tenho experiência de vida suficiente para saber que a proteção em demasia por vezes é prejudicial.
ResponderEliminarMas aqui o ambiente é outro, e Lingrinhas é uma criança habituada a sofrer, assim como todos os seus pares. É uma criança que aprende a vida pelo lado difícil. Pela via crúcis.
Não sei se fazem bem em esconder a morte a crianças mais pequenas, Joaquim. Posso dar-lhe o meu próprio exemplo, minha mãe, enquanto fui minorca, recusou sempre levar-me a funerais. Penso que para aí na minha terceira ou quarta classe morreu um bebé e a professora levou-nos (minha mãe não gostou da ideia). Ficou-me aquele rosto tão pequenino numa caixinha branca e uma mãe muito dolorosa. E gostei imenso do cemitério, achei ideal para brincar às casinhas. Ainda hoje não é lugar que me impressione e já fiquei duas vezes lá fechada:). Mas era dia. De uma vez saltei o muro, da outra já havia telemóvel e liguei. Contudo, penso que uma coisa é esconder o facto morte e proceder como se ela não exista, outra não deixar as crianças em contacto com ambientes tão mórbidos (os nossos rituais de morte não são agradáveis). Digo-lhe que procedi com os meus filhos de forma muito semelhante à de minha mãe. E cheguei mesmo a garantir a um deles que eu não morria de certeza. Mais tarde mudei para versão, morro mas muito velhinha e não te vais importar nada. Talvez tenha feito mal, mas foi o que me pareceu melhor na altura perante a ansiedade do garoto.
ResponderEliminarPois é, não somos flores. Mas a morte, por mais que não queiramos, faz parte. Tem vezes que vê-la acontecer nos entorta, outras nem tanto. Mas é como diz, não crescemos da mesma forma (a haste muda menos que nós, mas também muda, fica sem a flor).
A vida tem muita força em cada um de nós. E por serem garotos que vivem do lado escuro da lua, não sentem menos. Apenas têm muito hábito do que não presta. Vamos ver como reagem:).
Boa noite, Joaquim.
Mais um texto que mexe com as nossas emoções e que proporciona um bom momento de leitura!!! Bj
ResponderEliminarObrigda, Gracinha:).
ResponderEliminarBoa noite