(continuação)
O melhor para mim veio depois, já liberta do papel. As pessoas enfileiravam para o prosaico autógrafo e eu, nas cadeiras do público (agora vazias), pensava numa aberta para me despedir da Susana, quando fui literalmente abraçada por duas antigas alunas a que se juntou uma terceira. Pareciam nascidas da terra, tão súbito o abraço circular e participado. Pronto, e lá contaram o que lembravam das minhas aulas, de um passeio que fiz com todas as turmas e para o qual houve rifas na escola porque muitos alunos não podiam pagá-lo. E etc.
Mas o que mais gostei mesmo, veio da única aluna que não reconheci de imediato. O flash aconteceu quando ela, “eu era da turma de psicologia, a turma do Pedro Cruz”. E de repente vi o Pedro com vinte ou vinte e um anos, muito mais alto que qualquer da turma, um proscrito já com vários dias de suspensão no activo – e chumbos – e que, suspeito eu, me fora encomendado por isso; a professora que ano após ano leccionava psicologia, resolvera que estava farta e passou-me a disciplina retirando-me das turmas antes minhas e que solicitara. Acontece que o Pedro era um aluno regular, tinha notas positivas, não faltava às aulas e intervinha com frequência; mesmo se um pouco desfasado, notava-lhe o esforço para acompanhar o meu pensamento. Todos os professores me tinham prevenido contra ele. Aquando da visita de estudo, membros do conselho pedagógico aconselharam à saída, como protege o capuchinho do lobo mau, professores que antes nem me olhavam, não leves o Pedro, embebeda-se e faz trinta por uma linha, já pôs professores à nora por não comparecer no autocarro à hora estipulada e chegar com os copos. Levei o Pedro. Em vésperas da viagem, ficou para o final da aula e pediu, professora, na hora de almoço, a minha namorada pode ir ter connosco? É que ela estuda em Lisboa e assim namoramos um bocadinho; ela quer conhecê-la. Anuí e avisei, olhe Pedro, tenho confiança em si, levo com muito prazer a turma inteira -e avisei - não me entristeça, ouviu? Olhou nos meus olhos e quase sorriu, fique descansada, professora.
Tinha-os preparado para o Centro de arte Moderna na Gulbenkian. Sem mérito, copiara um pouco o que o professor e crítico de arte, Rui Mário Gonçalves me ensinara: olhar para um quadro durante algum tempo, identificarem-no e anotarem o que viam e lhes sugeria; eles repetiam o que eu mesma fizera, o relatório sobre um quadro à sua escolha. Começámos por uma visita completa para escolherem a obra que preferissem e depois dei-lhes uns vinte minutos para notas e contemplação. Na hora de almoço – para não inibir alguns alunos, combinámos levar todos lanche; era mais aconchegante -, a namorada apareceu e veio simpaticamente cumprimentar-me. Informei-os da hora a que o Pedro devia voltar à nossa companhia e desapareceram. Foram impecáveis, voltaram ambos à hora marcada, mão na mão. Ela seguiu para os estudos e ele ficou connosco e continuámos a visita no Planetário. Que os encantou.
Quando o flash esvaiu – é incrível o que se pensa em um ou dois minutos – perguntei à Maria José, e que é feito dele, do Pedro? Resposta, não sabe? Ele adorava-a, tirou o curso de psicologia. E eu contente, mas ainda com reticências, e acabou-o? Ela peremptória, Sim professora. E olhe, já tem quatro filhas.
Faltou-me perguntar o que fazia. Egocêntrica, cresci naquela vitória. Claro que tive a ajuda do amor, penso que a namorada foi um incentivo poderoso (ignoro se foi com ela que casou). Na euforia do momento, após a alegria de uma aluna publicar um livro de poesia e ter a generosidade de querer a seu lado a antiga e primeira professora de filosofia, daquele encontro com as minhas meninas de antes a garantirem, eu hoje olho para os quadros de outra forma, digo que esqueci o resto e me limitei a viver o momento. Pode que não volte a vê-las. Mas isso não interessa nada.