Foi um ano escolar trabalhoso e gratificante. Houve gente que passou do não conhecer as letras à leitura fluente. Tu foste, sem dúvida, quem mais alegremente correu na aprendizagem, sinto grande orgulho por ter despertado em ti uma centelha adormecida, tornaste-te um garoto interessado nas "coisas da escola". Trazias quase sempre os trabalhos de casa feitos e enrubescias até às orelhas quando te perguntava muito séria, olho no olho, "por que não os fizeste?" Mas eras sincero, dizias por exemplo, "ontem não me apeteceu". E toda a gente tem direito, uma vez ou outra, à falta de apetite. Eras pontual e alegre como só a infância sabe ser; um miúdo vivaço e buliçoso, isento de maldades fundas.
No fim do ano, não sei se para bem ou para mal, mas de certeza na minha vontade de permanecer, deixei-vos o palhaço que adoravam porque mexia braços e pernas e a meio tinha um relógio onde todos aprenderam a marcar e ver horas, e que suponho ter aprimorado ainda no Magistério Primário. Ficaram também os bonecos do livro de leitura do primeiro ano. Não consigo recordar com precisão o nome do livro, mas nisso podes ajudar, talvez se chamasse Papu. Mas lembro-me de quanto chateava minha irmã para me desenhar os bonecos que eu recortava e pintava, copiando o modelo do livro. Uma nova letra era sempre uma festa para vocês, havia a curiosidade sobre o boneco novo, quase em tamanho natural, o nome em baixo manuscrito e a bold. E, a amortizar os afectos, propus o desafio: estudem muito para nos encontrarmos na Escola Secundária onde hei-de estar a ensinar quando forem já crescidos.
A vida levou-me por outros caminhos, mas fui sempre contando os anos. Quando previa que pudessem estar por lá, esmiuçava as listas de décimo ano. Encontrei uma aluna, a única previsível do seu ano. Sei-lhe ainda nome e apelido (MP), mas não me calhou a sua turma e nunca se me dirigiu. Talvez a infância fosse nela um tempo desaparecido que me levou na correnteza dos dias. Ou, quem sabe, me reconheceu e, como acontece a alguns, faltou-lhe coragem para. De ti só encontrei o nome, porque, e eu contei, também lá chegaste dois anos depois. Não foste meu aluno. Procurei-te várias vezes e faltavas muito às aulas. Chumbaste por faltas muito antes do fim do ano. Não deste ensejo ao puxão de orelhas verbal:).
Vários anos passados, numa manhã fria e soalheira de sábado, andava eu em atarefadas compras, um matulão - para aí metro e oitenta ou mais - planta-se na minha frente, fardado, e pergunta sorridente "Já não me conhece?" E eu a esquadrinhar-lhe os traços, naquela de atirar moeda ao ar, "Foi meu aluno na secundária?", E ele rindo e tirando o boné da fardamenta, "e agora?" E eu a olhá-lo nos olhos que a pala ocultara parcialmente, "Paulo Jorge!!!" E demos um abraço esquisito, ele a baixar-se todo, corpo em arco, como fazemos com algumas crianças e velhos. E perguntámos e respondemos mutuamente. Senti de novo o calor de estarmos juntos. Foram alguns minutos, mas apagámos o mundo (estávamos na frialdade da rua) e ali permanecemos intocados, imersos na agradável realidade de encontro tão bom como inesperado.
Não voltámos a ver-nos. Entretanto, o amor aconteceu-te e arranjaste companheira. Eras bem disposto e os camaradas de profissão estimavam-te. No jogo fátuo que a vida é, a leucemia ganhou. Ordem do coração: tinha de ir despedir-me. De ti. Tenho ainda de despedir-me. Estou a fazê-lo. Quando o padre perguntou quem queria fazer a leitura, ninguém se ofereceu. Tua irmã, minha aluna na secundária, olhava em volta desamparada. E fiz o que faço sempre que alguém espera e ninguém se oferece, fui ler. Estou ciente que ninguém compreendeu metade do que disse. A minha voz tremia imenso e tive de parar; o padre pôs a mão sobre a minha e disse baixinho, "calma, vai conseguir". Antevi-me despenhada em soluços no altar e pensei em ti, vi o teu sorriso confiante de criança. Foi por tua invisível mão que retomei a leitura. Merecias que lesse melhor. Desculpa, mas há momentos em que a tempestade nos atinge mais fundo. Eu que te ensinei a ler não consegui fazê-lo.
Até sempre, Paulo Jorge
PS: quem sabe se um dia não nos encontramos de novo. Tu irás reconhecer-me como eu te reconheço. E abrimos um parêntesis na outra vida se ela houver.