Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

          Foi um ano escolar trabalhoso e gratificante. Houve gente que passou do não conhecer as letras à leitura fluente. Tu foste, sem dúvida, quem mais alegremente correu  na aprendizagem, sinto grande orgulho por ter despertado em ti uma centelha adormecida, tornaste-te um garoto interessado nas "coisas da escola". Trazias quase sempre os trabalhos de casa feitos e enrubescias até às orelhas quando te perguntava muito séria, olho no olho, "por que não os fizeste?" Mas eras sincero, dizias por exemplo, "ontem não me apeteceu". E toda a gente tem direito, uma vez ou outra, à falta de apetite. Eras pontual e alegre como só a infância sabe ser; um miúdo vivaço e buliçoso, isento de maldades fundas.

No fim do ano, não sei se para bem ou para mal, mas de certeza na minha vontade de permanecer, deixei-vos o palhaço que adoravam porque mexia braços e pernas e a meio tinha um relógio onde todos aprenderam a marcar e ver horas, e que suponho ter aprimorado ainda no Magistério Primário. Ficaram também os bonecos do livro de leitura do primeiro ano. Não consigo recordar com precisão o nome do livro, mas nisso podes ajudar, talvez se chamasse Papu. Mas lembro-me de quanto chateava minha irmã para me desenhar os bonecos que eu recortava e pintava, copiando o modelo do livro. Uma nova letra era sempre uma festa para vocês, havia a curiosidade sobre o boneco novo, quase em tamanho natural,   o nome em baixo manuscrito e a bold. E, a amortizar os afectos, propus o desafio: estudem muito para nos encontrarmos na Escola Secundária onde hei-de estar a ensinar quando forem já crescidos. 

          A vida levou-me por outros caminhos, mas fui sempre contando os anos. Quando previa que pudessem estar por lá, esmiuçava as listas de décimo ano.  Encontrei uma aluna, a única previsível do seu ano. Sei-lhe ainda nome e apelido (MP),  mas não me calhou a sua turma e nunca se me dirigiu. Talvez a infância fosse nela um tempo desaparecido que me levou na correnteza dos dias. Ou, quem sabe, me reconheceu e, como acontece a alguns, faltou-lhe coragem para. De ti só encontrei o nome, porque, e eu contei,  também lá chegaste dois anos depois. Não foste meu aluno. Procurei-te várias vezes e faltavas muito às aulas. Chumbaste por faltas muito antes do fim do ano. Não deste ensejo ao puxão de orelhas verbal:).

Vários anos passados, numa manhã fria e soalheira de sábado, andava eu  em atarefadas compras, um matulão - para aí metro e oitenta ou mais - planta-se na minha frente, fardado, e pergunta sorridente "Já não me conhece?" E eu a esquadrinhar-lhe os traços, naquela de atirar moeda ao ar,  "Foi meu aluno na secundária?", E ele rindo e tirando o boné da fardamenta, "e agora?" E eu a olhá-lo nos olhos que a pala ocultara parcialmente, "Paulo Jorge!!!" E demos um abraço esquisito, ele a baixar-se todo, corpo em arco, como fazemos com algumas crianças e velhos. E perguntámos e respondemos mutuamente. Senti de novo o calor de estarmos juntos. Foram alguns minutos, mas apagámos o mundo (estávamos na frialdade da rua) e ali permanecemos intocados, imersos na agradável realidade de encontro tão bom como inesperado. 

Não voltámos a ver-nos. Entretanto, o amor aconteceu-te e arranjaste companheira. Eras bem disposto e  os camaradas de profissão estimavam-te.  No jogo fátuo que a vida é, a leucemia ganhou. Ordem do coração: tinha de ir despedir-me. De ti. Tenho ainda de despedir-me. Estou a fazê-lo. Quando o padre perguntou quem queria fazer a leitura, ninguém se ofereceu. Tua irmã, minha aluna na secundária, olhava em volta desamparada. E fiz o que faço sempre que alguém espera e ninguém se oferece, fui ler. Estou ciente que ninguém compreendeu metade do que disse. A minha voz tremia imenso e tive de parar;  o padre pôs a mão sobre a minha e disse baixinho, "calma, vai conseguir". Antevi-me despenhada em soluços no altar e pensei em ti,  vi o teu sorriso confiante de criança. Foi por tua invisível mão que retomei a leitura. Merecias que lesse melhor. Desculpa, mas há momentos em que a tempestade nos atinge mais fundo. Eu que te ensinei a ler não consegui fazê-lo. 

Até sempre, Paulo Jorge

PS: quem sabe se um dia não nos encontramos de novo. Tu irás reconhecer-me como eu te reconheço. E abrimos um parêntesis na outra vida se ela houver. 


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

 Convivemos durante um ano escolar - o meu último no ensino primário. Eu ensinando  - e pomos gerúndio nisso -, tu aprendendo. Sintonizámos desde o primeiro dia; eras pequenino, despachado e sorridente, cabelo e olhos castanhos, a mochila nas costas. 

Eu vinha de uma escola alegre, cheia de gente, funcionários, professores e um montão de crianças. Dessa vez última, como da primeira, tinha um edifício de sala única, sem outra companhia que a vossa.  Abri a porta e o interior da escola era tristonho, o desmazelo do chão sujo, da acumulação de pó  e o rendado das teias de aranha foram as boas vindas que tivemos; ao único armário, logo à esquerda de quem entrava a porta da frente,  faltava meia porta. Foi perante aquela desolação escancarada e deserta de tudo que entrei na que seria a minha escola ao longo do ano. Assim a nú, não parecia uma escola - não havia um livro onde quer que fosse, cortinas ou persianas nas janelas, mas o sol jorrava a horas certas. Os alunos eram poucos e as quatro classes trabalhavam em mesas redondas, o que não era propriamente mau - nas horas de sol, pegávamos nas mesas em busca de zona mais sombria. Nesse primeiro dia, depois de entrarmos, entre todos, limpámos as teias de aranha e varremos a escola. Suponho que os alunos que viviam mais próximo foram pedir o material a casa; eu não conhecia vivalma no lugar. Pensei em Matilde Rosa Araújo e na sua experiência de primeira vez num bairro pobre de Lisboa. Seria bem mais poético e pedagógico se, como ela, eu tivesse pegado na régua e dissesse a um garoto, "vai atirar fora". Mas nós só varremos, limpámos pó e etc. Cada um tem a poesia e a pedagogia que tem.

Pela primeira vez trabalhava em regime normal, com pausa para almoço; o hábito das lancheiras no trabalho não é assim tão moderno. Tu oferecias-te para tudo. Frequentavas o então chamado segundo ano da primeira fase e, como todos os outros da tua classe, não conhecias ainda todo o alfabeto e mal sabias contar, as quatro operações não te diziam nada. Analisei-vos um a um e verifiquei que o atraso era geral. Perguntei como se chamava a professora do ano anterior. Não sabiam, faltava muito e não criara simpatias. 

No dia seguinte, após as aulas, fui à cidade informar-me na Delegação Escolar sobre o assunto da limpeza escolar, fornecimento de caixas de giz, apagadores... miudezas. Consegui uma verba mínima mensal. E que a usasse como entendesse (tinha de prestar contas).  Entre todos resolvermos quem limpava a escola nos fins de semana e contratámos uma jovem para o trabalho. Nesse mês, lembras-te, gastámos tudo na compra de material escolar. Nunca eu vira um garoto apagar o quadro com tanta afeição pelo apagador. E o giz de cor era  a curiosidade geral; se acontecia passarem pelo quadro  estando algum disponível, riscavam um nadinha com ele, um número, uma vírgula, um pontinho pequeno. E eu fazendo que não via. Vocês ficavam duplamente contentes, tinham feito o que queriam e a professora nem tinha visto.

  No mês seguinte, comprei uma chita vermelha com pintas brancas e fiz uma cortina para a meia porta do armário que não havia e onde os que traziam almoço deixavam a marmita sem que fosse visível da entrada. E no outro mês vieram anilinas para a porta que restava do mesmo armário e onde eles e eu pintámos cogumelos vermelhos com bolas brancas e florinhas à moda de cada um. Vocês orgulhavam-se do que tinham feito; entravam e ficavam embevecidos na vossa arte "eu fiz esta aqui" Além disso, nas horas de trabalhos manuais, dedicámo-nos a enfeitar com as quatro estações,  a parte superior da sala. Havia uma árvore de tronco sempre igual e que acrescentávamos em cada estação; no final, já tinhamos quatro árvores muito sazonais - a sala tinha um friso de madeira que dividia a meio todas as paredes. Em geral pareciam contentes com a obra, mas tu eras dos mais entusiastas e querias por força que  tua mãe visse a sala onde aprendias, como ela estava bonita. Mas ela resistia. Talvez por vergonha, não sei.

(cont.)

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Cubo Mágico

 

Foi este garoto que recordei enquanto a ouvia falar. Chegou com atraso, vinda do Douro onde fazia não sei quê. Simples, jovem e encalorada: calça e blusinha, sandália, o cabelo apanhado em rabo de cavalo. Tinha um palco, uma mesa e uma cadeira. Mas prescindiu – optou por sentar-se na beirinha do palco, em relação directa com o público. Pediu desculpa pelo atraso e atacou o tema. Era suposto falar sobre o livro onde, na condição de enfermeira, narra experiências vividas nos chamados Lares de 3ª Idade. O livro tem doze capítulos, cada um deles sobre um personagem, sendo que oito casos aconteceram em instituições da terra e com gente que, embora sob pseudónimo, conseguimos identificar. Tinha-nos parecido que a faixa etária era adequada e, a fechar conversa, numa disciplina que aborda livros e autores,  faria sentido. E fez. Falo, é claro, de Carmen Garcia, minha jovem conterrânea. E do livro publicado “A Última Solidão”, que, na altura, singrava na oitava edição.

Amei ouvi-la falar, ainda que pouco tenha extrapolado o escrito. Foi a convicção das palavras, o crer nos princípios que defende; a vontade indomável de mudança que, espero eu, se mantenha; a humanidade com que falou dos velhos e das suas necessidades; as críticas aceradas à forma como funciona a engrenagem e a gestão destas instituições. O início de conversa foi sintomático. Olhou a assistência e disse: estou a falar com a Academia Senior, quantos de vocês vêm de um Lar de 3ª Idade? Não se ouviu um pio. A Carmen retorquiu, porquê, esta academia devia ser também para eles, para os muitos que estão sentados o dia inteiro no mesmo lugar e a fazer nada, e que continuam válidos e com boa cabeça - exceptuou os acamados e os que a demência toma para si. Mas em Portugal os Lares são uma prisão. Muitos não autorizam sequer que os utentes saiam com a família. Precisam de vestuário ou calçado? A família é contactada e trata da questão – a partir do momento em que entra no Lar, a pessoa deixa de escolher. Os familiares decidem do calçado, do vestuário…mas porquê, se eles estão conscientes e se deslocam pelo seu pé? Por que razão a família não vai a compras com eles?! 

E foi assim que, paulatina e francamente, foi aflorando os problemas que existem nos Lares e radicam, basicamente, no desrespeito pela pessoa. Passam-lhes atestados de menoridade, como se os velhos fossem as crianças que não são. Infância e velhice não são a mesma coisa.

Pensei que a escola também não deu esse salto com a Carmen – não a viu como pessoa, não lhe descobriu as qualidades. A Carmen era boa aluna a todas as disciplinas, mas nunca concorreu aos Jogos Florais e nenhuma professora de português a enalteceu ou salientou do vulgo. Mas, quem mantém um blogue há tanto tempo - é a autora do blogue “Mãe Imperfeita” -, gosta   de escrever e talvez a escrita lhe seja útil para clarear ideias. Ou apenas porque sim, puro exercício de gosto. Neste momento, aos domingos, há uma crónica sua no Público, já se tornou conhecida na TV e trabalha com membros do governo na tentativa de alterar o funcionamento dos Lares. Todos nós já tivemos aquela fome de beliscar o mundo, aquela sede de mudança muito cheia de fé e em que nos revemos.  É tão agradável encontrar alguém que, convictamente, arregaça as mangas e se entrega ao trabalho. 

Sei que comovi a ouvi-la. Comovi e orgulhei-me dela que é flor brotando da aridez. Foi o que lhe disse no final. Tão pouco para o muito que nos trouxe.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Cubo Mágico

 

A escola devia – penso eu de que – descobrir talentos ocultos, trazer à luz hobbies bem-sucedidos, dar a ver o que nos jovens que ensina (e domestica pelo ensinamento) não é evidente mas está lá, basta ter atenção ao sujeito-ele-mesmo e não tanto ao aluno. Penso isto desde que me decidi pelo ensino. Parece-me que nunca procurei apenas ensinar, ainda que os resultados nas provas de exame me preocupassem sobremaneira e fizesse tudo para conseguir que os alunos aprovassem e conseguissem boas notas em exame. É verdade, o meu brio profissional também estava em causa. Mas o diploma desse princípio de descoberta foi comprovado quando precisei pintar um cenário para aquilo que se chamava então, a “Área-Escola”. O tema relacionava-se com o tabagismo e, não sei porquê os meus alunos preferiram pintar um cenário inventado por eles. Havia grupos constituídos, uns para a concepção do desenho, outros para desenhar, outros para a pintura, outros sei lá bem para quê. Deixei-os inscrever livremente e nem correu mal. Eram alunos da área de saúde e não entendiam patavina de artes decorativas. Quando vi as inscrições para a pintura - o desenho já fora ampliado -, havia duas pessoas: uma garota que escolhera essas tarde para namorar e ter desculpa convincente perante os pais (apareceu a dizer isso mesmo e que era um zero a pintar, posto o que se escapuliu de mãozinha dada). Ora no meu percurso escolar, à disciplina de desenho tinha dez porque a professora não dava negativas - frisado pela própria. Vi-me pois sozinha com o aluno mais taciturno e silencioso da turma, um aluno amorfo, a que nunca ouvira a voz e que só salientava pela brancura da tez (ainda sei o nome e o apelido dele), daqueles que, se se sentem observados, parecem sofrer de alguma dislexia motora. A minha estranheza por se ter inscrito para pintar fora enorme, julgava que iria borrar tudo (era, comprovadamente, um desajeitado). Mas deitámo-nos ao trabalho. Basicamente, o papel de cenário tinha o mar, a linha do horizonte e, em grande plano, um cinzeiro-barco com dois cigarros muito abatidos por irem mar fora com bilhete só de ida. Perguntei-lhe se já tinha pintado alguma coisa. Retorquiu que só mexera em tintas na então C+S e nada mais que uma folha A4 e tinha sempre três na classificação.  Acrescentei a minha experiência bastante idêntica só que muito mais velha (sem esquecer o acrescento da professora de desenho). Mas não nos atrapalhámos. Como bons portugueses, fomos em frente. Pois o garoto tinha sentido estético. Observava-me a mexer os pincéis e atirava-se com alma. Só tínhamos aquela tarde para mostrar o que valíamos e mudámos de pincel várias vezes a verificar melhoria de resultados. Às tantas, quando eu já começava a pintar o mar que o barco-cinzeiro deixava para trás e fazia parte do nosso grande plano – aí já conversávamos como camaradas habituados – tirou-me o pincel das mãos, sorriu e disse, deixe-me experimentar, acho que sei fazer isto.  E criou ali uma revolução de motor e água a espadanar e enrolar em cachão que ficou linda de morrer. E eu numa admiração, já andou nalgum barco a motor? Ele, não, mas vejo na televisão, a professora estava a pintar tudo mal. E sorriu, um bocadinho de troça satisfeita lá bem no fundo do negrume dos olhos. Bom, já tinha reparado que as sombras que eu dava ele corrigia sem me dizer, enquanto me entretinha a fazer as tintas ou assim. Não sei o que será feito dele, desapareceu-me depois da escola. Talvez tenha saído para outra cidade ou vila. Mas aquele mural foi obra sua. E senti que ficou tão contente com a minha surpresa (é que não conseguia parar de lhe ser grata pela inscrição e de lhe elogiar o trabalho; estava parva com aquilo). Parece-me bem que aquele dom natural foi uma descoberta comum. E quando nos despedimos ele caminhou ligeiro, a mochila nas costas, nada de dislexia. Quanto a mim, fui acordar a garota do seu sonho romântico, acabe lá o namoro e faça alguma coisa, ajude-me a carregar o cenário.

(cont.)