É
uma miúda gordinha. Olhando-a, supõe-se que o tenha sido desde sempre. Aluna
mediana, por vontade própria não foi além do 11º ano. Nunca chumbou/ficou
retida. Conheci-a quando frequentava o 11º ano. Era uma falsa dócil, sorridente
e determinada. Tinha uma amiga do peito que se mantém e que acompanhou nas
aventuras do teatro, ainda que se autoexcluísse desde o início. Viviam ambas
longe, mas chegavam à cidade no mesmo autocarro, uma guardando lugar à outra,
como era hábito de todos os garotos que nele viajavam. Nunca ouvi queixas dos
que se levantavam às cinco, seis e sete da manhã e a maioria dos professores ignorava
o facto, poucos liam o verso da folha da caderneta de turma. Não é uma crítica.
Ou é. Assumo a pertença ao grupo de
leitores preguiçosos. Mas o teatro traz um conhecimento outro a todos os
participantes. O modo como nos conhecíamos num projecto criado desde a raiz, que
brotava com o tema, seguia para a situação e logo para as palavras com que a queríamos
dizer. Líamos em conjunto e era um entusiasmo passar aos que depois se
aventuravam a decorá-las assumindo-as como suas, enquanto alguns ficavam a
olhar e opinar sobre isto e aquilo. Tudo extra-aula. Ela, a gordinha simpática,
esteve sempre lá. Chegavam cedíssimo à escola e partiam tarde; os autocarros
camarários tinham muito a fazer e o horário era o que era. Mas foram sempre
esses alunos quem mais participou em actividades voluntárias e extra-aula; eram
os mais respeitosos; porém, em quase todos germinava a determinação que os da
cidade não tinham. Se convictos, afrontavam a própria direcção da escola. Faziam
cenários em hora aprazada dos fins de semana, o papel estendido no chão da
minha sala vazia e os dotados a mostrarem o que valiam; ou ensaiavam a peça que
a semana, de turmas, horários e anos diferenciados não permitia. Durante a
semana fazíamos ensaios por fracção, de acordo com a disponibilidade escolar e
de explicações. Mas aquelas duas garotas davam um jeito. Convenciam os mais
renitentes e ajudavam no que podiam.
Uma
vez, talvez por um ensaio, talvez por qualquer outra ajuda, acabei a dar-lhes
almoço. Azar! Nesse dia não tinha nada em casa e julgo que nos limitámos a fritar
batatas e estrelar ovos, ou coisa semelhante. Mas combinámos sei lá quê enquanto
almoçávamos. Adiantámos. Eram tão entusiastas que repetidamente me deram empurrões
mentais e nem eu desconfiava das conversas que tinham tido na direcção, nem
quanto as negativas que recebiam se transformavam em força radical. Só há uns
dois ou três anos a minha gordinha querida se descoseu. Combinaram não me
contar e cumpriram. Fiquei a admirá-las ainda mais. Não esqueço que a minha
gordinha sorridente, para ficar a ajudar, abdicava do transporte e pernoitava
em casa da amiga. Radiantes ambas, contando sobre os ses dos progenitores e a
perspectiva de uma noite inteira para elas.
(cont.)
O que virá mais daí?
ResponderEliminarMais um excelente texto Bea, sem palavras.
E que rica professora me saiu :)
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Embora pense que nasci para professora e que esse é o único aspecto em que me sinto realizada (não sem os erros costumados, que perfeita não sou), julgo que a parte que mais prefiro é a que não teve remuneração nem reconhecimento a não ser dos alunos; mas com eles aprendi muito e eram eles o meu objectivo. Parece-me até que foram bem melhores que eu na relação que mantivemos e nos uniu.
ResponderEliminarBom dia, Cláudia