A força de viver da natureza continua imperturbável. Se dela nos esquecemos, assola-nos e pode submergir-nos. Falo da natureza domesticável e não de terramotos, efusões de vulcão ou assim. Falo das ervitas e do musgo de que se revestem os campos e bordam a toda a volta os meus mosaicos da rua; falo da impertinência e proliferação de espécies que nascem em qualquer canto; falo da satisfação herbácea e clorofílica a que o meu cão, que Deus tem, dava um basta de deserto – nada nascia no seu perímetro de acção.
A
minha veia natalícia desasou com o aspecto abandonado do quintal. Portanto,
quando dei por mim, em vez do proposto retirar de conteúdos daquelas duas ou
três caixas, atacou-me uma filoxera, peguei na tesoura de podar e zás! Pus
termo àquela malva descomunal que retirava força às não me lembro o nome, flores pequenas e de cor variegada, em forma de campainha e esmagadoramente olorosas - o odor palpita pelo quarto quando, em inícios de
primavera, colho algumas. Pois essas mesmas, este ano quase não
conseguiram nascer (parva da malva e da dona dela). Devo-lhes cuidado
redobrado, já que, ao longo dos anos, e sem que eu mova um dedo, têm brotado
como cogumelos; quando dou por mim, estou a contemplar-lhes a vontade de viver.
Em bom português, sou a única culpada da sua asfixia, que a malva, até ver, não
lhe conheço alma pensante. Pobres flores (só me estou a lembrar de petúnias mas
são outro nome; pode que ainda me venha).
Mas
não se pense que me faltou vontade de Natal. Nada. Era já noite cerrada, quer
dizer umas dezoito e picos, quando me fui a uma das caixas. E para não bisar a
pausa, passei a ferro um monte de franzidos encarquilhados, sinos e laços a
competir em número e cor. Detesto – e nem costumo - engomar, mas deu-me algum prazer desfazer
vincos e assistir activamente ao reaparecer de padrões estafados, mas que a
minha alma de infância conserva e a que encontra beleza. Em minha casa antiga,
era eu filha única, o breve do Natal eram mesmo os meus sapatos em cima do moxo
pequeno, meu assento particular, feito e oferecido por meu avô. Não conheci mais chaminé que a do candeeiro a petróleo, mas todo o
amor em que imergia, os braços e as mãos que sempre me acolhiam são sem tempo
ou preço e valiam tudo que o balsâmico calor da lenha a queimar nunca me dará. Mas tive em profusão. É farol que, em dias e
noites de névoa, quando mal se vê nos longes, afirma o de sempre, “estou aqui.
Contigo”.
Mais uma vez, um belo texto e boas memórias desse amor todo :)
ResponderEliminarEstou a gostar de ler :)
Cláudia - eutambemtenhoumblog
A infância, diga a psicologia o que disser, é a fase da vida que nos influencia mais pela vida fora.
ResponderEliminarBom dia, Cláudia (que leitora fiel, hem?!)