sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Informações a Meu Pai

  Na noite em que de corpo e mente me morreste, não dormi apesar de ter dobrado a medicação. Claro que pensei em algo estranho e coloquei mesmo essa hipótese. Mas, eu que não assistira minha mãe na morte, tinha  requerido à enfermeira que me avisasse do fim e ligasse a qualquer hora, noite ou dia - elas conhecem os sinais da morte. Queria fazer, por ti e contigo, a passagem que me tornaste impossível com a mãe. No meio de tal agitação interior e sem o combinado aviso no telemóvel, decidi esperar pela hora - das 8 às 9 - da ligação habitual. Na natação, esbracejei o mais que pude - sem qualidade, só em gasto de energia. E recebi a notícia. 

Tinha acompanhado sem quebra e ao longo de um mês certo,  o teu calvário contínuo. Vi-te dia-a-dia. Primeiro cheia de esperança e depois, a definhar gradualmente,  sem um carinho que não o nosso em meia hora diária. Braços e mãos repletos de negras, agulhas espetadas nos dois membros, sangue misturado nos tubos. E nunca me deixaram ver o estado dos genitais onde contraíras uma infecção supostamente por arranque da algália e, por isso, diziam, te amarravam. Talvez fosse verdade. Incómoda e confrangedora verdade que eu aliviava em 30 minutos, resguardando-te os movimentos das mãos só então libertas.

  Tu e a mãe falaram pela última vez comigo. Inexplicável acontecimento. O certo é que o vosso último momento de lucidez aconteceu na minha presença; qualquer dos dois, havia dias que não dava palavra e, logo após, manteve o estado. Nenhum me disse algo de extraordinário, não houve pedidos de última hora: tu queixavas-te da forma como eras tratado e disseste "só quem passa por isto como eu, percebe o que custa, nunca houve nada que me custasse tanto"; e, "se eu soubesse tinha-me matado antes, agora vou ficar para aqui a sofrer semanas, quem sabe se meses"; depois perguntaste preocupado, "já pagaste?".  Pensavas que virias comigo, tu que não conseguias sequer virar-te na cama, e disseste esperançoso, "trouxeste o carro?" Descansei-te:  sim, estava tudo pago, eu tinha levado o carro como sempre. E olha, penso exactamente como tu, morreste sem voltar  a tua casa, à tua cama, à paz do teu quarto. Talvez vivesses menos, mas garanto-te: se soubera o que e como aconteceria a passagem, ficavas em tua casa, sem a profusão de agulhas espetadas à trouxe-mouxe, amarrado dia e noite, falho de amparo e cuidados além dos que a medicina obriga. Que aos velhos muito velhos não se dá atenção, antes se pensa nos que entram com 50 e mais anos e sobretudo se a doença não os incapacita como a ti. Em casa morrias mais cedo e não terias o benefício do oxigénio?  É verdade. Porém, à medicina que só prolonga o sofrimento não chamo medicina. Outros que lhe chamem o que quiserem. Mas já cumpriste o calvário. E foi o que foi.

Talvez tenha sido mero acaso. Mas, na última visita, quando já nem a nossa mão apertavas e havia no céu uma lua cheia e acinzentada, parei o carro e repeti o Cristo na cruz, " mãe, leva-o; por favor, leva-o o mais rápido possível". Pouco lhe pedi até hoje, dos meus erros e irresponsabilidades, ela como eu, sabemos que me pertence dar conta. Dizem que morreste na vigésima quinta hora. Não sei, acho mesmo que, ao invés da minha vontade, morreste só. E antes. Mas, às dez da manhã, tratados os pormenores, e quando enfim me deixaram ver-te, já tu feito o senhor que um dia me acenou de um carro e eu armada na palerma que sou, "quem será aquele senhor, deve  conhecer-me, riu-se para mim", digo-te que  o rigor mortis ia em estado avançado. De todo o modo, gosto de pensar que a mãe me atendeu e te puxou para si naquele jeitinho doce que lhe era tão próprio como respirar. Ao teu corpo juntámos o que resta da mulher que amaste tão mal, mas amaste como sabias. E um ramo do teu outro amor: as laranjeiras. E a certeza de que, a seu tempo, nós vos seguiremos.

Ontem demos "a cura para o bichaço", como usavas  dizer em relação às laranjeiras. E começámos a esvaziar a tua secretária. Pai, tu guardaste tudo, verba entrada e saída, desde o tempo em que tiveste lugar e dinheiro para haver secretária. Todas as facturas e requerimentos. Tudo. O que emprestaste e o que negaste emprestar. Enfim, o teu diário em cifrões. Andamos a vasculhar a tua vida desde 1966. As horas que gastámos a esvaziar uma gaveta! E o tanto que falta.

     Fica a certeza: nas asas do  pensamento estamos juntos.

O meu bem haja a ambos

          Vossa filha Sempre


18 comentários:

  1. Que triste e doloroso desabafo querida Bea! Já passei por isso e sei o quanto dói. Vai passar....aos pouquinhos vai a dor e fica a nostalgia da saudade e a recordação dos momentos, dos bons e dos maus. Um abraço solidário com o teu sofrimento e muita FORÇA, Amiga:
    Emilia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O pior - a impotência de assistir ao sofrimento que apenas leva à morte de alguém querido - já passou, Emília. Tudo o resto se irá fazendo e tratando.

      Eliminar
  2. Lamento Bea, mas não consegui ler tudo. Não consegui nem quero, porque ainda dói aqui do meu avô... :(

    Os meus sentimentos, sei bem essa dor. Coragem e só com o tempo ameniza. Mas ficam as saudades e nos "festejos" fazem muita falta. Somos cada vez menos. E já me fez chorar...

    Muita força!

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

    ResponderEliminar
  3. A gente tem que amar e lembrar o melhor de cada um, ainda que, em relação a minha mãe tenha alguma dificuldade em encontrar os não presta.
    A vida também se faz com perdas, Cláudia. E novos ganhos.

    ResponderEliminar
  4. É verdade Bea que com o tempo tudo passa e vai ajudando a sarar as feridas, mas não é menos verdade que vamos ficando irremediavelmente cada vez mais sós.

    ResponderEliminar
  5. Agora, Joaquim, somos nós as raízes. Há pessoas profundamente sozinhas. Andam no meio das gentes, conversam, riem, mas são sozinhas. A solidão é uma qualidade que pode ser perturbante. Vamos aprendendo a vivê-la, torna-se cada vez mais intensa. O que podemos fazer senão isso?!

    ResponderEliminar
  6. Um relato dramático cujas peripécias encerram as contingências da vida do ser humano.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

    ResponderEliminar
  7. Querida Bea, um abracinho para o seu luto que tão bem entendo.Eu cá continuo na luta, a minha mãe entra e sai do hospital e está cada vez mais débil e penso o mesmo que a Bea sobre o seu sofrimento. Mas ainda me sorri de quando em quando e chama-me minha menina. Nunca mais dormi uma noite seguida, tal qual quando a minha filha era bebé.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A vida não se comove de nós; somos nós que nos comovemos uns com os outros. E entreajudamos. Agradeço o entendimento CC, vivemos situações parecidas. A de sua mãe parece ser uma morte que vai chegando docemente. Meu pai, enquanto foi capaz, revoltou-se contra a morte, forcejou por viver e sei que a displicência em Évora contribuiu para lhe abreviar a vida, foi um desapego a que S. José não o habituou; ali, incentivavam-no a viver. Nunca fui a sua menina, nem recordo qualquer nome terno dedicado a filhos ou outras pessoas do seu gosto, mas julgo que, a seu modo, tinha algum orgulho em mim e gostava de nós todos. Digo-lhe que, por mais do que um factor, durmo melhor agora que morreu.

      Eliminar
  8. Lamento. Uma libertação que deixa marcas a quem fica, sem mão, na contra-mão. Para sempre enquanto nós existirmos. Um abraço amigo.
    Bettips

    ResponderEliminar
  9. Para ele, pode crer, Bettips, foi mesmo uma libertação. Penso ser o que mais importa. Que a falta dos pais, É.

    ResponderEliminar
  10. Bea, emocionei-me com o teu texto. Como te compreendo!
    Resta "a certeza de que nas asas do pensamento continuam juntos" e as recordações do que viveram juntos!
    Um grande abração!

    ResponderEliminar
  11. Bem hajas, prosa. Eu sei que tu sabes o que sinto. Sabes até mais que eu. E mais fundo. Mas a vida não se escolhe (como pensava Platão), escolhe-nos. E temos de seguir com ela. Porque é só uma. E tem a beleza e o amor dos outros e a eles, a quem nos devemos ainda e sempre - isso dizes tu melhor que eu -, que nos vai ajudando a levantar a cabeça. E sorrir. E o mais.
    Até amanhã.

    ResponderEliminar
  12. Doloroso de ler este texto, minha Amiga Bea. Chorei a morte do seu pai como se fosse o meu que não chorei por nos ter deixado ainda eu era muito pequena. Ele ficará para sempre no seu coração, aconchegado e sem sofrimento.
    A vida é esta viagem frágil amarrada ao fim que não desejamos. Coragem, Amiga.
    Um beijo.

    P.S. Quero agradecer a lucidez do texto que me deixou em comentário.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  13. Muito grata pelas suas palavras. A Graça tem uma forma de dizer que me encanta. Quanto ao que escrevi, digo-lhe o de sempre: já não me lembro, mas se o escrevi, foi verdade enquanto tal, era o meu pensamento sobre.

    ResponderEliminar
  14. O que se pode dizer nestes momentos, Bea?
    Que são realmente os mais dolorosos, mas que se atenuarão com o tempo. A dor emocional dará lugar a memórias ternurentas que se mantêm em nós por toda a vida, especialmente quando, quase diariamente, encontramos em nós próprios detalhes que também eram deles.
    O mais doloroso é o vê-los sofrer. Ainda bem que a sua prece teve o melhor desenlace, dadas as circunstâncias. Que ele siga o seu caminho e a Bea e família, os vossos. É sempre isso que os pais querem/quereriam para nós, estejam onde estiverem.
    A sua carta é uma bonita e sentida homenagem. Pela minha parte, obrigada por partilhar.
    Um forte abraço!

    ResponderEliminar
  15. Bem haja, Dulce. Eu sei o que ele quereria. Nunca concordei por inteiro com meu pai (temos formas de encarar a vida muito diferentes), mas sempre lhe reconheci alguma razão e admiro a sua força de viver, integridade e honradez. Éramos diferentes qb apesar de, fisicamente, ser a mais parecida com ele. Há mesmo momentos inesquecíveis, o que não significa que a memória guarde apenas os bons momentos. Mas sou sua filha, não há como evitar o desgosto. Que penso superar. Já o fiz em situação de maior mágoa, também o farei agora.

    ResponderEliminar