terça-feira, 24 de outubro de 2023

Senhora Minha

         Conheço-a desde sempre. Lembro-a talvez desde os seus espigados dezassete anos e não sei de quem melhor case pessoa e nome. Não a vou denunciar, ignoro se apreciava ver-se aqui retratada. Foi minha vizinha directa desde que nasci até aos meus famélicos onze anos, quando meus pais construíram casa.  E tenho dela memórias vagas e comentários de mãe desconcertada, esta rapariga não pára de crescer. Ou num acinte de orgulho sussurrado a minha mãe e a que eu apurava o ouvido, mas já se notam os marmelitos.

        Falha dos obscuros mistérios da língua eu corria a observá-la. Encontrava-a quase sempre sentada num banquinho baixo a passajar, remendar ou, o que mais me agradava, de pé frente à mesa da casa de jantar, talhando aventais com um giz, mistério alienígena que, nas suas mãos certeiras, seguia tecido abaixo deixando um rasto branco e que, se eu avançava a mão,  não que tu estragas sem querer e faz-me falta. Espreitava-a sentada. Concentrava-me se ela estava de pé, olhos de raio x a percorrê-la. Mas, por mais que olhasse e estivesse atenta, não descobria  sinais de marmelos no seu corpo esguio. Mais nova que minha mãe, mas muito sua amiga, ela estranhava-me de tão quieta, queres alguma coisa, Bea. estás tão caladinha... Eu negava com a cabeça e palpava-lhe os bolsos em  busca dos marmelitos, ela julgando que buscasse rebuçados. Na terra que lhe pertencia, bem ao fundo, havia vários marmeleiros e eu conhecia o fruto e temia os ramos. O mundo da infância repelia a vara de marmeleiro quase na mesma medida do amor que consagrava à marmelada caseira que as mães arriscavam (o açúcar era  caro) se acaso alguém lhes dava uns marmelos ou possuíam a árvore. Acresce que os pais contavam histórias sobre sovas com vara de marmeleiro. E preveniam-nos acerca do desconhecido mundo da escola, habitado por professoras que as usavam para disciplinar alunos inssurrectos. Grandes pedagogos, os nossos pais.

                   Por outro lado, eu intuía que os sussurros eram os pequenos tabus dos adultos e que, como alertava minha mãe, se alguém segreda é porque não quer que se saiba. E não insisti no assunto, a infância  é fértil em novidades e mistérios.

(cont.)


8 comentários:

  1. Fez-me recordar a Dona Mariquinhas, a sobreviver na varanda ao sol.
    Até que um dia o sol se pôs.

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  2. Pois é, Pedro, isso acontece com muita gente velha, o sangue vai-se abandonando de forças e o sol ajuda. Como ele é uma estrela e relativamente jovem, são as pessoas a desaparecer. A morte encerra o ciclo. Não me importava ser essa senhora calmamente ao sol até um dia.
    Dia feliz, Pedro

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    1. Gostava muito dela, bea.
      E ela e as filhas de mim, o menino, como me chamavam.

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  3. Há pessoas assim Bea, que pela regularidade e permanência nas nossas vidas, como a acácia no adro da igreja ou a fonte incansável e centenária, as vemos inabaláveis e firmes no seu posto, a maior parte das vezes destinadas mais às provações do sofrimento do que ao gosto das alegrias.
    Um bom dia Bea.

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    1. É isso, Joaquim. Mas não é o caso. Que provações toda a gente tem, e ela as teve e tem. Mas não é uma pessoa triste, é uma pessoa boa. Em mim vale muito mais do que qualquer árvore ou fonte. Por sermos pessoas e termos outra natureza.

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  4. Que texto tão giro :)

    Não sei, fez-me lembrar uma pessoa que também já partiu e era minha vizinha, quando eu vivia com os meus pais :)

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  5. :) há muita gente a polir-nos ao longo da vida e algumas pessoas ficam-nos na memória do coração. É o caso.
    Boa noite, Cláudia

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