Ontem foi um dia muito cheio. De movimento. De
trabalho. De alegria. Escolho dar notícia
da alegria: em viagem no Intercidades ouvi de repente “Olha a minha professora
de…” E desta vez, ainda que só ouvisse a voz vinda lá de trás da carruagem,
pensei que era comigo. Pronto, às vezes não penso isso. Uma vez num consultório
chamaram a doutora x – que era eu – e pensei um tanto surpresa pela coincidência,
“Olha, há uma médica com o meu nome e é uma das pessoas que está nesta sala”; e
nem sequer levantei os olhos. À segunda vez, pensei se a doutora x não estaria
na casa de banho ou assim, dado não ter ouvido ninguém a levantar-se. E
continuei na minha (talvez estivesse a ler). Quando a funcionária saiu do
guichê e parou na minha frente, julguei que viesse recolher dados, preencher
papelada, mas ela sublinhou: doutora x o doutor y (isto está a ficar cheio de
variáveis) está à sua espera no gabinete. E eu a levantar-me à pressa, arrumando
a tralha que devia ser o tal livro, e admiradíssima, a doutora sou eu?!! Ok, ok,
ok. E lá fui para o respectivo. Bom, já entrei em devaneio.
Voltando à causa da minha alegria de ontem: Ia
sentadinha no meu lugar, muda e queda lendo o princípio do segundo livro da Carmen, o que tem organização de Isabel Alçada,
quando um brasileiro no banco ao lado me perguntou se o comboio ia para Setúbal.
Informei-o que ia para o Alentejo e que fora sorte ter perguntado antes do
Pinhal Novo, estação onde poderia descer e apanhar o comboio certo. O
brasileiro respondeu qualquer coisa que me fez rir. E foi nesse momento que ouvi o “Olha a
minha professora de…” Não reconheci a voz nem vi ninguém, mas tinha de ser
comigo. É que, se chamam pelo meu nome, penso ser para outra pessoa; mas se
disserem “a minha professora de”, penso logo que sou eu. Isto bem analisado devia
dar bom assunto. Mas não estou para isso, quero escrever alegria.
Entretanto, o revisor acercou-se do brasileiro para
o informar melhor. Mas, em vez de olhar para ele, ficou a sorrir-me dizendo com
laivos de orgulhosa e terna perspicácia, “conheci-lhe a voz e o riso, e olhe
que nem a vi.” É claro que também o reconheci apesar de duas décadas sem nos sabermos. Foi um momento mágico, os nossos olhos contentes do encontro. Há
laços que parecem ténues, mas não desgrudam. E não foram assim tão ténues, três
horas lectivas semanais durante dois anos escolares atam-nos uns aos outros. Eu
não lhe disse que engordara e estava careca; ele não me disse que o meu corpo
também mudara, que as rugas se instalaram e o cabelo embranqueceu. Tais constatações
não nos importam.
Uma MISSÃO, ser professor é uma missão.
ResponderEliminarSe não há esse espírito é um desastre.
A melhor professora que conheci entendeu a profissão dessa forma; e assim a levou até ao fim. E gostaria de ser médica. A vida trouxe-lhe a surpresa de lhe contrariar a vocação, mas ela levou a melhor.
EliminarÉ tão bom haver alunos que ainda nos reconhecem e se lembram de nós!
ResponderEliminarSou muito pretenciosa, prosa, julgo que, por bem e também por mal, não lhes fui indiferente:). Uns reconhecem a voz, outros o andar; outros o riso. E, certamente, nenhum lembra senão de raspão alguma matéria. Pelo menos é o que sucede comigo:).
ResponderEliminarBoa noite
É sempre tão bom esse reconhecimento! Mas não sabia que a Bea ainda dava aulas, julgava que já não...
ResponderEliminarPara não perder o jeito, vou aos Seniores, numa disciplina que tem três professores, cada um com sua área. Não cansa nem profs nem alunos. Depois de um mês, já temos saudade uns dos outros:)
ResponderEliminarBom dia, CC.
Emocionantes esses encontros que a Bea tem de vez em quando com ex-alunos. Acontecerá certamente com todos os professores, mas gosto da forma como sempre os partilha por aqui. Sente-se os laços de ternura que foi deixando!
ResponderEliminarComeço a crer nisso, sabe? Um dia destes o meu mais novo , que pouco se lembra de enviar sms ou ligar à mãe, enviou sms a perguntar se podia dar o meu número a um indivíduo que, lho pediu, suponho que via facebook ou assim, dizendo ter sido meu aluno. Apresentou-se com o nome de baptismo e justificou o pedido com a morte súbita do tlm que o fez perder todos os contactos. É pessoa que nunca me contactou, nem sequer para dar boas Festas, mas com quem mantive relação próxima após a escola. Que ele me queira como contacto comoveu-me. Há uns bons anos que não nos vemos. Não sei o que deixei nele, mas é alguma coisa que, no caso, não é apenas ternura. Talvez que, mesmo involuntariamente, eu o tenha compreendido. A aceitação tem muitos caminhos.
ResponderEliminarBom domingo, Dulce
Eu adoro encontrar os meus alunos! Bj Bea
ResponderEliminarTambém eu, Gracinha. Não apenas pelo encontro, também por serem eles a reconhecer-me e a dizê-lo em voz alta (no caso do revisor, acho mesmo que, quando me reconheceu a voz lá dos fundos, foi um dizer espontâneo). Muitos de nós reconhecemos velhos (ou novos) professores e não dizemos uma palavra. Louvo os que dizem e se identificam. Sabe-me tão bem. Melhor que os suspiros da minha infância:).
ResponderEliminarBoa noite e uma semana interessante, Gracinha.
Que texto maravilhoso de reencontros :)
ResponderEliminarAdorei!
Cláudia - eutambemtenhoumblog
O texto não tem maravilha, mas reconheço a surpreendente maravilha do encontro. Uma surpresa genial.
ResponderEliminarBom dia, Cláudia