quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Alegria

 

Ontem foi um dia muito cheio. De movimento. De trabalho. De alegria.  Escolho dar notícia da alegria: em viagem no Intercidades ouvi de repente “Olha a minha professora de…” E desta vez, ainda que só ouvisse a voz vinda lá de trás da carruagem, pensei que era comigo. Pronto, às vezes não penso isso. Uma vez num consultório chamaram a doutora x – que era eu – e pensei um tanto surpresa pela coincidência, “Olha, há uma médica com o meu nome e é uma das pessoas que está nesta sala”; e nem sequer levantei os olhos. À segunda vez, pensei se a doutora x não estaria na casa de banho ou assim, dado não ter ouvido ninguém a levantar-se. E continuei na minha (talvez estivesse a ler). Quando a funcionária saiu do guichê e parou na minha frente, julguei que viesse recolher dados, preencher papelada, mas ela sublinhou: doutora x o doutor y (isto está a ficar cheio de variáveis) está à sua espera no gabinete. E eu a levantar-me à pressa, arrumando a tralha que devia ser o tal livro, e admiradíssima, a doutora sou eu?!! Ok, ok, ok. E lá fui para o respectivo. Bom, já entrei em devaneio.  

Voltando à causa da minha alegria de ontem: Ia sentadinha no meu lugar, muda e queda lendo o princípio do segundo livro da Carmen, o que tem organização de Isabel Alçada, quando um brasileiro no banco ao lado me perguntou se o comboio ia para Setúbal. Informei-o que ia para o Alentejo e que fora sorte ter perguntado antes do Pinhal Novo, estação onde poderia descer e apanhar o comboio certo. O brasileiro respondeu qualquer coisa que me fez rir. E foi nesse momento que ouvi o “Olha a minha professora de…” Não reconheci a voz nem vi ninguém, mas tinha de ser comigo. É que, se chamam pelo meu nome, penso ser para outra pessoa; mas se disserem “a minha professora de”, penso logo que sou eu. Isto bem analisado devia dar bom assunto. Mas não estou para isso, quero escrever alegria.

Entretanto, o revisor acercou-se do brasileiro para o informar melhor. Mas, em vez de olhar para ele, ficou a sorrir-me dizendo com laivos de orgulhosa e terna perspicácia, “conheci-lhe a voz e o riso, e olhe que nem a vi.” É claro que também o reconheci apesar de duas décadas sem nos sabermos. Foi um momento mágico, os nossos olhos contentes do encontro. Há laços que parecem ténues, mas não desgrudam. E não foram assim tão ténues, três horas lectivas semanais durante dois anos escolares atam-nos uns aos outros. Eu não lhe disse que engordara e estava careca; ele não me disse que o meu corpo também mudara, que as rugas se instalaram e o cabelo embranqueceu. Tais constatações não nos importam.

Para terminar o dia  - em dezembro os dias encurtam -, fui dar uma aula, a última deste ano civil. Julgo que correu bem. Uma aluna disse-me que sou a professora que veste mais fora da caixa, e deixou-me a pensar se as outras profs vão de saia-casaco ou assim. Outra confidenciou-me a sós, “eu quase chorei com os poemas”. Os poemas lidos eram poemas de Natal. Não escolhi poemas tristes ou que falem da morte. Perguntei apenas, mas gostou deles? E ela, “gostei muito”.  

12 comentários:

  1. Uma MISSÃO, ser professor é uma missão.
    Se não há esse espírito é um desastre.

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    1. A melhor professora que conheci entendeu a profissão dessa forma; e assim a levou até ao fim. E gostaria de ser médica. A vida trouxe-lhe a surpresa de lhe contrariar a vocação, mas ela levou a melhor.

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  2. É tão bom haver alunos que ainda nos reconhecem e se lembram de nós!

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  3. Sou muito pretenciosa, prosa, julgo que, por bem e também por mal, não lhes fui indiferente:). Uns reconhecem a voz, outros o andar; outros o riso. E, certamente, nenhum lembra senão de raspão alguma matéria. Pelo menos é o que sucede comigo:).
    Boa noite

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  4. É sempre tão bom esse reconhecimento! Mas não sabia que a Bea ainda dava aulas, julgava que já não...

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  5. Para não perder o jeito, vou aos Seniores, numa disciplina que tem três professores, cada um com sua área. Não cansa nem profs nem alunos. Depois de um mês, já temos saudade uns dos outros:)
    Bom dia, CC.

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  6. Emocionantes esses encontros que a Bea tem de vez em quando com ex-alunos. Acontecerá certamente com todos os professores, mas gosto da forma como sempre os partilha por aqui. Sente-se os laços de ternura que foi deixando!

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  7. Começo a crer nisso, sabe? Um dia destes o meu mais novo , que pouco se lembra de enviar sms ou ligar à mãe, enviou sms a perguntar se podia dar o meu número a um indivíduo que, lho pediu, suponho que via facebook ou assim, dizendo ter sido meu aluno. Apresentou-se com o nome de baptismo e justificou o pedido com a morte súbita do tlm que o fez perder todos os contactos. É pessoa que nunca me contactou, nem sequer para dar boas Festas, mas com quem mantive relação próxima após a escola. Que ele me queira como contacto comoveu-me. Há uns bons anos que não nos vemos. Não sei o que deixei nele, mas é alguma coisa que, no caso, não é apenas ternura. Talvez que, mesmo involuntariamente, eu o tenha compreendido. A aceitação tem muitos caminhos.
    Bom domingo, Dulce

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  8. Também eu, Gracinha. Não apenas pelo encontro, também por serem eles a reconhecer-me e a dizê-lo em voz alta (no caso do revisor, acho mesmo que, quando me reconheceu a voz lá dos fundos, foi um dizer espontâneo). Muitos de nós reconhecemos velhos (ou novos) professores e não dizemos uma palavra. Louvo os que dizem e se identificam. Sabe-me tão bem. Melhor que os suspiros da minha infância:).
    Boa noite e uma semana interessante, Gracinha.

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  9. Que texto maravilhoso de reencontros :)

    Adorei!

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  10. O texto não tem maravilha, mas reconheço a surpreendente maravilha do encontro. Uma surpresa genial.
    Bom dia, Cláudia

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