Hoje sou sua amiga e da filha mais velha. Um dia, tomando chá as três, ela contou que me ouviu o primeiro choro (nasci em casa) e que sempre fui mimada por seus pais - foi a minha época de querubim; sobram-me nesgas em clarão, sóis fosforescendo na neblina dos anos.
Lembrámos isto e aquilo e recordei-lhe o pai que bem cedo se foi desta vida. Gostava quase tanto dele como de meu avô. Conhecia-lhe a fadiga arrastada no regresso do trabalho. E ainda a silhueta lhe desaparecia na esquina e já eu, se minha mãe não me segurava, corria desarvorada até à sua porta traseira. Por vezes, chegava-lhe à cozinha e ainda ele de enxada ao ombro e cesto da merenda na mão. Fazia-me sempre boa cara, e mais parecia que não nos víamos há séculos, o "Olha a Bea" enquanto eu lhe abraçava as pernas, era tão ou mais acolhedor que os beijos que não me dava. Pousava a cesta no seu canto e, quando ia deixar a enxada na barraca, já me carregava no colo. Depois, sentava-me à chaminé onde o jantar aprontava, deitava a mão ao saco da merenda e retirava as sobras do pão. Eu puxava um garfo da gaveta da banquinha, ele espetava-o no pão e fazia-lhe lugar junto às brasas. Enquanto o pão ia torrando, perguntava, queres à rica ou à pobre? À rica, respondia com sorriso delambido. Ele sorria bonacheirão e barrava o pão torrado só de um lado. Empenhado na função, sublinhava com pesar, escolheste mal outra vez, os ricos barram o pão só de um lado. E passava-me a torrada como que esquecido de mim, atiçava o lume com a tenás, ou levantava-se a esvaziar o saco do almoço e chegava mesmo a sair em busca de mais lenha. Depois, olhava de esguelha o meu desânimo - ainda estou por saber a razão deste desânimo diário, ele convencia-me sempre que daquela vez é que era a sério, teria de comer a torrada barrada só de um lado. Mas, face ao meu semblante triste e torrada intocada, logo ele decidia, mas eu quero à pobre, vamos lá untá-la dos dois lados. Depois do acepipe generosamente completo, içava-me do banquinho pequeno e sentava-me numa das pernas - o banquito fora serventia dos filhos mas, com eles crescidos, não autorizava que saísse da chaminé, é o banco da Bea. E ficávamos os dois a alternar bocadinhos de torrada que ele cortava a canivete.
Quando contei isto, subiu-nos uma saudade espessa, aquele homem morreu bem novo e houve lancinante padecer antes da misericordiosa morte. Então, sofri o primeiro nunca mais de um afecto.
Ela recobrou do alheamento, sacudiu a tristeza e desfez o momento com outra história. Certa vez, era eu bebé, minha mãe tinha de sair e pediu-lhe que cuidasse de mim. E ela logo que sim, alvoroçada com a imitação de ama, orgulhosa da confiança.
A princípio, tudo pacífico, eu sorria-lhe sossegada. Mas minha mãe demorou. E, ou por fome, ou por estar molhada, ou apenas por ter deixado de ver o rosto materno, desatei num berreiro sem fim. Ela abanou o berço, pegou-me no colo, ninou as canções que ouvia a minha mãe. Sem resultado, eu berrava cada vez mais. Afligiu, que diria minha mãe quando chegasse?! Então ocorreu-lhe que poderia estar na hora da mamada. E, na inocência dos seus treze anos, decidiu resolver o caso. Abriu a blusa e puxou o mamilo como conseguiu. E muito se defraudou do esforço ao ver-me a estrebuchar, ela agarrando o peito que mal avultava e eu a repugná-lo fortemente e sem ao menos lhe tocar. E pronto, desatámos à gargalhada (ela, como minha mãe, apenas sorri). A filha admirada, ó mãe! Nunca me contou isso. E continuámos na risota.
(cont.)
A filha mais velha, recentemente falecida, era minha Madrinha.
ResponderEliminarAs outras duas quase beijavam o chão por onde eu passava.
O marido era um homem austero, um Senhor, o homem que abriu uma garrafa de Porto caseiro que nos dar as boas vindas à maioridade (a mim, ao neto e a um amigo).
Depois de um jantar a quatro, simbolicamente, uma garrafa de valor incalculável.
Um choque dos bons.
Bfds
É tão bonito isso que conta, Pedro. Foi uma surpresa óptima para si, não foi? Julgo eu que este homem, para mim notável, não bebia Porto (não sei sequer se chegou a prová-lo na versão mais modesta). Infelizmente para ele, não chegou aos netos e deixou de ser meu vizinho pelos meus cinco-seis anos. E passou a antiga morada à filha de quem me separei aos onze e com muita pena. Entretnto construíu casa perto da de meus pais e voltámos a ser vizinhas, mas já não porta com porta.
ResponderEliminarPorém, curiosamente, também tive em minha homenagem a abertura de uma garrafa de Porto de valor incalculável. Porque nunca mais bebo outra como aquela (era na verdade autêntica delícia); mas sobretudo pelo gesto de alguém me ter julgado merecedora desse verdadeiro néctar. Alguém de quem gostarei enquanto o eu não se me desagregue.
Bom fim de semana, Pedro.
Gostei muito desta crónica Bea, uma amizade que se estende por três gerações e escrita com a voz do coração, impossível de ser inventada. Talvez por isso mesmo nos toque mais.
ResponderEliminarBom fim-de-semana.
Bom, avisei logo de início que ela existe:). Não estou aqui para enganar ninguém, Joaquim: o meu melhor é contar. Mesmo se invento, conto. Mas o imaginário exige-me uma concentração que ainda não consigo.
ResponderEliminarBom fim de semana, Joaquim.
Contas e contas muitíssimo bem! Recordar é viver e as boas recordações fazem-nos reviver muitas vezes. E a amizade acrescenta-as. Bom domingo, Bea. Um abraço.
ResponderEliminarOlá Prosa. Bem hajas pela tua amizade e perseverança. Bom domingo para ti também.
EliminarVamos ter chuva, né?
Um abraço
Também nasci em casa e curiosamente a parteira foi minha avó paterna ☺️... Bom recordar bons momentos!
ResponderEliminar...
A igreja fica na zona do Marquês no Porto! Visitei -a há já algum tempo mas não subi à torre! Queria regressa mas um menisco rasgado está a causar problemas 😝
...
Bom fim-de-semana 😘
Bem haja pela resposta Gracinha. Isso do rasgão no menisco é um tanto doloroso, não me parece que possa subir degraus ou sequer passear - como gosta - enquanto dure a ruptura. Vai incluir cirurgia, ou só fisioterapia, Gracinha? Bem me parecia que alguma coisa sucedera, houve dias seguidos sem mudança de post.
ResponderEliminarDesejos as melhoras que necessita e que a dor não apoquente. E vá postando - se não tem fotos novas, pode fazer um diário do menisco, sempre lhe dá a importância de que nunca ele se sentiu capaz.
Um beijinho
Os episódios de infância são sempre uma calorosa recordação na vida de cada um.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Efectivamente, Juvenal. O passado é mais jovial porque dele contamos o melhor. Mal comparado, é como apanhar flores do campo a eito, depois tiram-se as ervas, as folhas secas, as urtigas; e fica o ramo composto, ou seja o episódio:)
ResponderEliminarBom dia
Mas que bonita amizade que parece que se prolongou por muitos anos :)
ResponderEliminarAdorei cada pormenor!
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Espero mesmo que ainda se prolongue:).
ResponderEliminarObrigada, Cláudia