A
vida corria devagar, eu saltitando entre a minha casa e a dela. Não senti muita
saudade do tio que me sentava nos joelhos e que construíra casa e se mudara cedendo
o espaço à filha. E o novo lar era-me muito mais agradável. Podia, por
exemplo, mirar-me no tampo espelhado da mesa. E nas janelas havia cortinas de
florinhas em tons de claridade; enfim, sendo a mesma casa, parecia-me outra e,
mal ela chegava do trabalho, escapava-me até lá. Tinha perdido o companheiro
das torradas, mas encontrara onde espraiar a minha vaidade e debruçava-me sobre
a mesa, qual narciso.
Ora
o que caracteriza a novidade é surgir súbita e filar-nos pelo inesperado. Foi assim que ela veio agitar-me as
meninges: minha mãe, que engordava a olhos vistos, disse-me que ia ter um(a)
mano(a). Os meus seis anos acreditavam que os bebés vinham de França no bico de
uma cegonha – tinha-mo garantido o senhor farmacêutico, cara séria, bata branca
e óculos de respeito; portanto, era por força verdade. O dito senhor, ouvira o
meu perguntar sobre aquela cegonha bem à vista de todos, no interior da
farmácia. O animal – em relevo e de
perfil - tinha suspensos no bico uma fralda com um bebé dentro; encontrava-se
em posição de vôo, patas para trás e asa alçada. Devo dizer que, até à
intervenção do farmacêutico, desconfiava bastante da cegonha da farmácia, o que
me levava a perguntar e perguntar, preocupada com o facto de ela poder deixar
cair a criança quando, por certo distraída, abrisse o bico. Além disso, as cegonhas que eu conhecia, de
certeza que não tinham força para transportar um bebé. Portanto, dúvidas
sanadas, não estranhei minha mãe ter encomendado um bebé à cegonha (não que ela
alguma vez mo tenha dito nesses termos). Enchi-a de perguntas até ao exagero
sobre a lonjura de França, se a cegonha comia ou não comia no caminho, se
dormia, onde depunha o bebé durante o sono, coisas destas. Hoje penso que,
estranhamente, nunca perguntei como fizera a encomenda. Desde a conversa do
farmacêutico, se acaso passava uma cegonha, eu olhava-lhe o bico e a parte
inferior ainda assim não fosse uma das que traziam bebés. Não consegui ver
nenhuma dessa qualidade. E, para minha alegria, daí a um mês ou dois, a minha amiga
e vizinha, num dos dias em que me mirava no seu espelho de verdade (viva o luxo!),
disse-me que também encomendara um bebé e a cegonha havia de trazê-lo daí a uns meses.
O esquisito era que também ela engordava. Receios dobrados. Eram duas casas tão
próximas, e se a cegonha se enganasse na encomenda?! Mas ambas me garantiram
que a ave transportadora chegava em tempos diferentes e podia descansar, não
havia hipótese de trocar os bebés. Quando minha mãe tinha um barrigão que se agitava
ao toque e mesmo sem ele, compreendi que o farmacêutico era um mentiroso. A mãe afirmou que
ele gostava de contar histórias, não era bem um mentiroso. Mas não me convenceu,
um senhor tão senhor, bata, gravata de nó, óculos... e a mentir-me. Foi assim
que soube/adivinhei que o bebé estava dentro dela e me contou que precisava ir
para o hospital para o porem cá fora. Fui logo contar à minha amiga, não andasse
ela a pensar na história da cegonha. Ela num sorriso, põe aqui a mão; senti a
barriga dela a mexer de leve, havia um bebé lá dentro. Não pensei em como lá
tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola. Pareceu-me
natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À
infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas
curiosidade leve, passa sem mais.
(cont.)
Hoje, querida Bea, o teu texto fez-me rir, porque, também eu fui enganda, assim como todas as crianças da aldeia onde vivia. Não sei se alguma vez, aqui, falei que o meu pai era taxista, numa época em que os carros podiam contar-se pelos dedos. Ora, era sempre o sr. Manuel que trazia os bebés, da cidade do Porto; o pior, Amiga, era eu querer muito um bebezinho em casa, pois só tinha o meu irmão mais velho; tantos chegavam aos meus vizinhos e a minha casa....nada! Um dia perguntei à minha mãe se os bebés estavam numa loja, expostos na vitrine para serem escolhidos e por que o pai não trazia um para nós. A minha mãe é que me contou muitas vezes esta minha inquietação, mas nunca me disse o que respondia; com certeza , arranjava maneira de fugir à questão. O certo é que eu fugia sempre para casa de quem tivesse " comprado " um bebé, mas não me lembro de ter reparado na repentina gordura de alguma das minhas vizinhas. O que não entendia era que o meu pai trouxesse tantos bebés para os outros e para mim não trouxesse nenhum. Bea, naquele tempo era frequente ver-se casas com dez, doze e até uma Amiga da minha mãe com catorze, senhora de quem gostava muito e onde me consolava de brincar com tanta criançada. Na minha casa não tinha graça nenhuma, pois éramos só os dois e , com o tempo, talvez por cansaço do meu pai ou por encerramento da dita loja, a familia não cresceu e continuamos assim...só os dois. E assim se explicava o aparecimento dos bebés, umas vezes presos no bico das cegonhas, outras pelo taxista da aldeia, e por outros meios ainda, com toda a certeza. A verdade , os pais não tinham coragem de dizer e também não tinham formação suficiente para tal, principalmente nas aldeias onde o analfabetismo imperava; ela surgia um pouco mais tarde, em geral em conversas com outras meninas mais velhas e mais perspicazes. Beijinhos, Bea e obrigada pela oportunidade que me deste de voltar atrás , aos tempos da minha meninice. Saúde, Amiga!
ResponderEliminarEmilia
Obrigada pelo contributo, Emília. De facto, que pai esse, trazer bebés para a aldeia inteira e para casa, nada:)). Não me parece que fosse o caso de minha mãe; vivendo na aldeia e sendo pouco letrada, era uma moderna de pensamento. Creio que foi deixando que eu me apercebesse sem me contar por ter uma filha deveras inconveniente - alguma coisa que soubesse, propalava-a sem reservas e nos lugares mais impróprios. Fiz a minha pobre mãe corar várias vezes em público. Mas nem uma vez me ralhou pelo dito.
EliminarBoa semana, Emília
Eu tinha quatro anos e meio.
ResponderEliminarTambém chegou de França uma irmã.
Boa semana
Aquela cegonha era de facto intrigante. Mas o farmacêutico era para todos uma autoridade infalível; receitava na vez do médico, quem era pobre não se dava ao luxo de consulta médica senão em casos de vida ou morte. Como é que eu podia duvidar dele?!
ResponderEliminarBoa semana, Pedro.
Que texto delicioso. A chegada de um irmão já é alegria suficiente. O hábito de nos intrigarem com a ideia de ser trazido por uma cegonha tem a ver com o moralismo instituído em relação ao sexo. Mas a criançada acreditava nisso. Há sempre um tempo para descobrir a verdade.
ResponderEliminarTudo de bom, minha Amiga Bea.
Uma boa semana.
Um beijo.
Minha mãe pareceu-me um bocadinho contrariada com a explicação que por sua boca nunca tive (talvez por conhecer sobejamente a minha credulidade). Tem razão Graça, em cada idade se descobre a mesma coisa com diferente cambiante. Há sempre o que aprender. Nada na vida está definitivamente conhecido.
ResponderEliminarBoa semana, Graça
Que história tão deliciosa. Adorei.
ResponderEliminarEssa da cegonha, acho que eventualmente toda a gente a ouviu :P
E o Sr. de bata, mentiroso, o que achei graça.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Bom, só me chegou por tanto perguntar o que era aquilo de uma cegonha com um bebé no bico, e mais isto e mais aquilo a que minha mãe fazia pouco caso. Na minha terra, gravata só nos funerais e casamentos. Aquele senhor estava atrás de um balcão lindo e limpo, usava bata, gravata e óculos, no meu entender era um sábio de certeza, Cláudia, caí como mosca no mel. Afinal era só uma história palerma.
ResponderEliminarBom dia, Cláudia
A propósito de "Não pensei em como lá tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola", muitas coisas aprendemos com os colegas nos nossos dez, onze anos, umas boas outras inúteis (e não falo só de sexualidade mas também). Não sendo uma instituição de ensino, deixam marcas em nós.
ResponderEliminarE relativo a "Pareceu-me natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas curiosidade leve, passa sem mais", nessa idade para a nossa mente, os nossos pais concebem-nos de forma assexuada. Mesmo na adolescência, a sexualidade dos nossos pais é assunto tabu para nós mesmos.
É um gosto ler as suas reminiscências Bea e ficar a pensar nelas e nas nossas.
Creio que só soube alguma coisa quando minha mãe, pelos meus doze-treze anos, deixou casualmente um livro numa gaveta do móvel da cozinha e eu o li - havendo livros em casa era certo que os lia. Julgo que foi ali deixado com tal propósito. Por ele, soube novidades mais consistentes. Lembro-me de meu pai ralhar com minha mãe por ter um livro daqueles em casa e eu poder dar com ele. Suponho que fosse livro educativo, a mãe tinha-o trazido de uma reunião da igreja.
ResponderEliminarBem verdade, Joaquim, cada um tem as suas reminiscências:). Por vezes é bom recordá-las, repescando-as do muito que a vida nos deu.
Boa noite
Todos somos diferentes em personalidade, opções, educação, infância, etc, etc, linhas únicas que percorrem os seus próprios caminhos mas que se cruzam com outros aqui e ali em pontos comuns.
ResponderEliminarNos textos da Bea sempre encontramos aquele detalhe que também foi nosso, aquele sentir comum de vidas em crescimento, aquela experiência que nos marcou de uma forma especial. E depois escreve-o de uma forma tão genuína e natural que, num ápice nos leva a memórias bem guardadas mas não esquecidas. E isso é muito engraçado!
Obrigada por partilhar!
É verdade, Dulce. Queria contar a vida de uma senhora, mas chego à conclusão que só a sei entretecida na minha. Porque, se a pessoa existe, não me permito inventar.
ResponderEliminarBem haja por passar na minha rua.
Uma história velha e repetida que os adultos gostaram de fazer perdurar no tempo.
ResponderEliminarTambém uma fantasia inócua, mas que não deixa de ocultar a verdade sem nenhum motivo definido.
Hoje apenas um mito, que passa como um símbolo de um tempo que não volta mais.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Os mitos fazem-nos quase tanta falta quanto a realidade, Juvenal. São guias - morais, éticos, pedagógicos. E além disso, são histórias que agradam ao ouvido, fantasias exemplares. Não lhes vejo mal desde que não perturbem o sujeito que os conhece.
EliminarÉ verdade, Bea. As nossas histórias englobam vários outros que nos influenciaram e a quem influenciamos também. Podemos dizer que nós sem os outros não existimos.
ResponderEliminarA história da cegonha também me foi impingida e na altura eu nem desconfiei... . E na versão que me deram a conhecer os bébés vinham no bico da cegonha, e de Paris!
Mas é muito poético!...
A poesia é que nos salva. Por vezes.
ResponderEliminarBom dia e boa semana para ti, Prosa