Os
bebés devem ter chegado na ordem certa e não tenho memória de sofrer de ciumeira
por ter em casa uma irmã que os vizinhos espreitavam. Passados meses, chegou a vez da minha vizinha
e eu, tal como eles, corri a ver a criança. Sabia ser uma menina e verifiquei que a minha
amiga estava contente e "babosa" com a criatura, mas cheia de mil cuidados levou-me até ela. Mirei e remirei a bebé e não encontrei causa para tanto interesse. Era uma carequinha de penugem loira e olhos claros
que, na minha vaidade e orgulhoso entendimento, tinha menos graça que a morenita
de olho e cabelo negro que me sorria no berço lá de casa. Entretanto, o lar da minha amiga sofrera
enorme reviravolta. Não me parecia a mesma casa de tudo no lugar certo, folhos
abertos a golpe de ferro de brasas e mobília de brilhos. Além disso, as duas mães levavam o tempo a puxar
da mama ou no tanque lavando fraldas. Durante a lavagem, conversavam sobre leite
materno e davam-se receitas para o aumentarem, assunto que, de tão
incompreensível, me desinteressava. Recordo que mastigavam bacalhau cru e bebiam
muita água por via de ser salgado. Por certo, o "fiel amigo" era a receita caseira menos dispendiosa.
O maior dano, sofri-o em casa da minha amiga. Havia fraldas por todo o lado e
todas as cadeiras estavam ocupadas com artigos da rainha do lar; tempo para mim era
sonho puro: a bebé chorava bastante e o rosto da mãe afiançava noites mal
dormidas. Em tal ambiente, fomo-nos distanciando. No final do verão, entrei
para a escola e apeguei-me à professora com a força de raiz aprumada. A mestra,
dama paciente e voz doce, maravilhava-nos por ter marido. Era um senhor jovem e
de gravata, que nos surgia ao volante de um carro preto. Espreitávamos ao
descaro a despedida dos dois. Não tínhamos tv, não conhecíamos cinema, os
nossos pais não se beijavam assim e nem de outro modo. Descobrir o beijo na
boca foi uma das grandes novidades que a professora nos trouxe. Foram aqueles
dois seres amoráveis e amorosos, os nossos actores particulares. Era um simples tocar de
lábios muito terno e cheiinho de contempladores - o senhor já sorria
ligeiramente antes do beijo. A novidade foi rastilho universal, assistíamos encantados
à anomalia prazenteira que cumpriam religiosamente. Muitos anos depois, soube
que eram recém-casados.
Quando
a minha amiga recuperou de ser mãe e retomou o trabalho no campo, já às nossas
vidas faltava a proximidade que eu cultivara com desvelo. Não sei o destino da
máquina de bordar, mas a filha dela não teve bibes com a história da carochinha
bordada em despiques de agulha e agruras de pano. Entretanto, as duas garotas
cresciam: aprenderam a falar e a andar e era frequente brincarem juntas. Por
vezes, tomava conta delas um bocadinho e logo me fartava, tal a atenção que exigiam; a filha da minha amiga era birrenta e, se chorava, abria um túnel
de berraria e língua em concha, deduzindo eu ser sinal de mázura. E
ficava grata por minha irmãzita ser menos expansiva nas suas cóleras: de tão
mansas, e por comparação com a guincharia irada da outra, mais pareciam rastos
de queixume.
A espreitarem a professora :P muito bom
ResponderEliminarA inocência das crianças!
Nem quero imaginar como era ter um bebé nessa altura!
Cláudia - eutambemtenhoumblog
É ainda hoje uma coisa terrível:). Mas existe a epidural para ajudar. E a cesariana como hipótese necessária a algumas pessoas. Já não se morre de parto como antes.
EliminarLer este texto foi como se estivesse a ver um filme, tal é o seu poder narrativo. Escuso de lhe dizer que adorei.
ResponderEliminarTudo de bom, minha Amiga Béa.
Uma boa semana.
Um beijo.
Gosto de contar, é certo. Infelizmente não conheço profissão de contador de histórias além de Xerazade, jovem que não invejo ; essa garota contava para se salvar e não tem a mesma graça. Embora o acto de contar seja um modo de exaurir o quotidiano. É como dizia Mircea Eliade, introduzimos no tempo normal um outro tempo (não será sagrado) e basta-nos para seguir em frente.
ResponderEliminarUm abraço e boa semana, Graça
Deliciosa imagem essa de imaginar as crianças a espreitar o beijo/despedida matinal da professora e marido. Não saberiam o que era cinema nem tv... mas já eram potenciais espectadores do "filme da vida!"
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