Pois é, sem o teu conhecimento, ou sequer consentimento, converso contigo. Tem vezes que te escuto falando e me parece ser comigo que falas. Não bem comigo, para mim. Que o teu Vaticano pode parecer perto, mas não tenhas ilusões, fica-me longíssimo. De modos que moramos muito longe um do outro e duvido que nos vejamos mais perto do que já nos vimos, tu na ribalta e eu no público. Cada um no seu lugar: é dos livros e da vida. Pergunto-me se ainda seria capaz de ir a correr ver-te como já fui (e em circunstância bem adversa). E concluo que já não. Em primeiro lugar porque o corpo se me vai negando à corrida; em segundo porque me sinto sempre um bocadinho perdida no meio de tanta pessoa, o que costumo chamar de uma floresta de gente e eu lá no meio sem caminho. É seguro que não passas despercebido e te rodeia a fé dos homens, mesmo dos que não a têm - um cardeal é nome de importância. E tu escreves livros e crónicas. E fazes mais ou menos o de toda a gente que tem talento e se torna conhecido: vais publicando os teus pensamentos e convicções. Talvez, por te lermos tornes melhor o mundo de algumas pessoas; que o outro, o grande mundo, descamba e fenece à vista de todos, mesmo dos alienados umbigos que o empurram para o abismo e dos ignorantes despreocupados (serão?! Tu que achas?). Já sabes que te leio desde um certo programa. Sou assim, de manias. Pendo para autores que me prendem à leitura. Pouco me interessa como são fisicamente, que idade têm (Rentes de Carvalho é um velhinho lúcido e agreste como só os transmontanos sabem ser e tenho pela sua escrita um amor entranhado. É teso, ele), o que lêem, se casam ou descasam. Mas em ti, repara, interessam-me as tuas mãos, alguns gestos que repetes e acho únicos, o prisma por onde olhas a realidade e os teus olhos de atenção compreensiva (é invulgar ter olhos desta natureza). Eu que não tenho conta no facebook, olha, sou tua seguidora. Já sabes, não concordo com tudo que dizes e, por vezes, fico a remorder, contraponho as tuas opiniões com exemplos, nego o que pensas com outros exemplos. Coisas.
Ora, bem sei que nasceste em Dezembro. Tinha de ser, dá-te um ar mais católico. Mas apetece-me dar-te os parabéns hoje. Porque sim e porque comecei a ficar eu. Ok, é uma forma estranha, pois se nem me lês. Não interessa. Em Dezembro hei-de andar em busca do espírito do Natal e não dá jeito. E, sei lá eu, um postal não chegava hoje ao teu Vaticano. Além do mais, tenho vindo a habitar o lado negro da lua que é, como tu sabes (não sei se sabes mesmo, mesmo, mas quero crer que sim), uma vontade de dormir e não acordar. Só dormir - sem passado nem futuro. Mas fica ciente, hoje bebi um café com leite dos meus e fui nadar. Atirei-me da borda da piscina como quem mergulha a um poço. E, aparte o chapanço, fez-me bem a tudo.
Portanto, tenho de aproveitar a madrugada do meu ser para dizer-te: PARABÉNS. E que o Deus que te guia faça o seu trabalho, e os teus pequenos e eternos deuses te façam companhia. Mereces.
Com as devidas cautelas (um cardeal é um cardeal) segue junto o meu abraço e um beijo na bochecha (se quiseres adiar isto tudo para dia 15 de dezembro, estás à vontade).
Os cardeais que temos não nos envergonham.
ResponderEliminarE merecem os beijos nas bochechas.
Bom Dia, Pedro:)
ResponderEliminarBoa tarde Bea,
ResponderEliminar... e quando bebe um café dos seus, temos crónica garantida; tão certo como eu hoje finalmente ter largado as sandálias e calçado os sapatos - benvinda chuva.
E alegra-me saber que foi dar um banho à piscina, a ver se esse lado lunar se altera e entramos num ano novo.
Infelizmente são casos singulares, encontrar alguém (nos livros, na televisão, no cinema, na vida) por quem se tenha real apreço e admiração, se bem que no seu caso por Tolentino lhe acrescente uma benquerença.
Admirar alguém significa reconhecer nessa pessoa características que valorizamos e que por osmose (não sei bem se é este o processo) nos inspiram a desenvolver essas mesmas características que admiramos em nós mesmos (nem que seja um poucochinho). E isso faz-nos tão bem à alma!
Não é bem verdade, nos últimos tempos os cafés banalizaram; o de 2ª soube-me aos antigos. A gente às vezes meio que morre, e depois meio que ressuscita. A piscina aquecida é uma fonte de vida, deixa-nos num cansaço alegre. Contribui.
EliminarAcrescente, acrescente.
Acha mesmo que o processo é esse? Bom, os modelos são necessários - não sei se são eles que estão a morrer se ando armada em velha do Restelo e desgosto dos novos. Mas tenho apreço por várias figuras desses mundos sem desejar, pelo menos conscientemente, desenvolver as características que nelas admiro. Eles são eles e eu sou eu. Se algumas acho passíveis da minha admiração e imitação, na maioria dos casos servem-lhes a eles que as possuem e desenvolvem, mas não à pessoa que sou.
A minha alma está adoecida, funciona mal. Mas pode que um dia ela avalie que tem razão.
Boa noite, Joaquim
Adorei o texto. Bela maneira de se receber uns parabéns :)
ResponderEliminarCláudia - eutambemtenhoumblog
A Cláudia é pró Bea, mas vou acreditar que tem razão :).
EliminarBom dia, Bea
ResponderEliminarQue belos parabéns e que bela declaração de humana admiração.
A partir do seu texto, acho que vou pensar que os parabéns também são quando se quiser. Tal como o Natal. Tal como outra sentida celebração que irrompe numa madrugada e não no calendário que de todos terá de ser cumprido.
E o seu humor tão vivo e tão inteligente.
Cá para mim, Tolentino gostava de ler a sua carta e, mesmo que não respondesse logo, responderia em textos que publica (Tenho pena de já não estar na revista do Expresso).
Tenho um livro dele por ler. Acho que o título é: Rezar de olhos abertos.
Fiquei com mais vontade de o ler.
Um beijinho, Bea, e escreva mais cartas assim ou diferentes. Sabem tão bem. Melhor do que um bom café com leite.
E se forem as cartas e o café com leite, Maria Dolores? Melhor será. As cartas que já quase ninguém escreve, mas ainda subsistem por gosto e vontade de alguns de nós.
EliminarO meu Tolentino é um raro ser humano. Não porque não falhe, mas porque o admite e compreende. Dá-nos lições de vida.
Nunca li esse livro, mas penso sempre que as melhores orações nos passam pelas mãos, têm marca de trabalho e podem ser exemplo.
Bondade sua, Maria Dolores.
Um abraço. Vou pensar em aumentar a correspondência digital:)
Eu não sei se aquilo que o Cardeal Tolentino escreve faz bem ao mundo. Mas sei que me faz bem a mim lê-lo. Desde do tempo em que só publicava poesia e agora os livros que se seguiram. Toca-me. Pega-se-me à pele. Não o sigo no Facebook porque não estou nas redes sociais. Gostei do que escreveu e sei que Tolentino também gostará de a ler.
ResponderEliminarTudo de bom para si, minha Amiga Bea.
Um beijo.
Graças a Deus o Tolentino cardeal não me lê. E, portanto, Graça, estou à vontade para lhe escrever. Não tenho conta no Face. Mas tenho livros dele e gosto de lê-los (nem sempre concordando). E as entrevistas que vou vendo pela net também me satisfazem.
ResponderEliminarDo que leio dele, por vezes, gosto do espírito aberto e faz-me pensar que a "religião católica", felizmente, não é toda igual. E precisa de Muitos como ele, um intelectual com olhos de ternura abrangente pela Humanidade. Quanto à fotografia, aqui é extenso explicar. Costumo dizer que vejo três vezes: quando olho, quando fotografo e quando revejo as fotos e procuro referências. É mesmo um vício entranhado há muitos dos tempos. De tal forma que tenho e alimento como bichinhos "domésticos" vários blogs, de diferentes sentidos. Passou a moda deles mas para mim são companhia e expressão. É uma forma de (d)escrever, olho/pensamento/tecla. A Bea tem a linguagem limpa e corrida, faz fotografia com as palavras. Leio-a e vejo. Uma casa com alicerces. Acho. Eu...sou mais palafítica. Abç
ResponderEliminarBettips
:))) "palafítica", expressão que não me lembraria de aplicar a humanos - rodeada de água mas sem a tocar. Há diferentes maneiras de olhar e nos sentirmos olhadas. Também julgo que o Tolentino que conheço tem mente aberta e vale a pena ser lido. Mas, pretenciosa que sou - ou imaginativa-, o meu Tolentino não é senão meu. Posse que vale o que vale.
ResponderEliminarEntrei quando os blogs já estavam em desuso e, embora no início não abrangesse tal pormenor, digo-lhe que os prefiro fora de moda. Parece-me sinal de autenticidade, de quem fica por gosto.
Um abracinho, bettips
Bea, ainda bem que voltaste, por graça ou não do Tolentino.
ResponderEliminarTambém eu não sou indiferente a esse personagem . Gsto muito de o ler e reler. Ainda bem que há pessoas que irradiam luz que aquece outros corações. Um abraço !
Verdade, prosa. É uma inspiração.
EliminarBeijinho
Neste tempo de virtualidades e redes sociais, as distâncias não existem. Nem para os cardeais.
ResponderEliminarPor isso acredito que até ao dia de anos do nosso cardeal bibliotecário no Vaticano esta missiva de admiração agora enviada e que guarda no "envelope" os parabéns e um beijo na bochecha irá chegar ao destino. Merece chegar ao destino!
Deliciosa escrita Bea!
Penso que chegou ao destino sim, Dulce.
ResponderEliminarBoa semana
Uma excelente forma de parabenizar 👏😘
ResponderEliminarBondade sua, Gracinha:).
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