sábado, 5 de dezembro de 2020

Os Últimos Serão os Primeiros

 

Por vezes julgo que este meu exercício da banalidade, do comezinho desfrutável, é apenas caminho de fuga a incómodas verdades que o mundo exibe, às suas feridas e pústulas assanhadas e insanáveis. Provável mecanismo de defesa ou só mania de carácter. O certo é que, enquanto outros exaltam isto e aquilo, croniqueiam sobre este ou aquele descalabro, se insurgem – justamente, diga-se – contra determinado espírito que grassa, um ou outro figurão que é apenas uma triste figura, eu estou nisto. Enquanto o perigo da direita mais asquerosa se vai exibindo aplaudido pelos exponenciais descontentes do sistema, enquanto isso, finco-me num quotidiano insosso e remendo-me cerzindo vagares a ponto certo, no tecido cada vez mais esfiapado que nos veste. Desentendo-me do vírus que nos manieta, de máscara e álcool-gel, dos avisos médicos e da vacinação, da Tv em geral. Alieno tudo se passeio manhãzinha, o frio a bater-me no rosto e o nariz em humidade ressentida. Tanto assunto importante, questões de vida e morte, e, sei lá porquê, o pensamento fixa-se naquela mulher que cosia. Dias inteiros de magreza virada à costura, dedos longos e mágicos alinhavando informes bocados de tecido que os pontos nomeavam. Era assim que lhe nasciam mangas e rodas de saia, cabeções e cintos, bolsos e casas de botão. Eu maravilhava na arte sacra de casar quadrados e listas, enviesar godés, passar alinhavos num pregueado de fita métrica.  Sentada num banquinho baixo, vestia negro rigoroso, luto eterno pela filha morta aos dezanove, flor tão rara como não vi outra e como cantava bem "conta a lenda que certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar...". Bela e doce, a garota era amada e estimada por todos. Até ao namoro fixo, os rapazes  casadoiros disputavam-lhe a atenção e qualquer mãe a desejava na família. Era do conhecimento comum, por gritos e serrabulho masculinos, que dentro de casa amparava as penas maternas, oferecia o corpo como defesa e acarinhava contra as porradas da besta que mandava e desmandava a seu bel prazer. O pai era um casmurro que nem os bons dias dava e a quem a mulher falava e servia docemente, sem queixa ou lamento. Casados os filhos homens, ficaram as duas à mercê da tempestade, e o que se soube sobreveio dos desacatos a que o animal se entregava.

Vejo-a muita vez assim, a memória traz-ma a coser, dobrada  à desgraça de vestir a sua menina morta e casada in extremis com um namorado desfeito. E enquanto a agulha atravessa o tecido maquinal, confidencia, comprei o vestido de noiva que tínhamos visto as duas no Tito Cunha, tanto que ela o sonhava e nunca se viu com ele vestido. E as duas lágrimas presas no virar das pestanas descem até aos óculos que retira, a menina desculpe estas lembranças tristes, não tem nada com isso, mas para que é isto bom.

19 comentários:

  1. Bea, há pessoas e situações que nos marcam e nos fazem esquecer tudo o que nos entra no olhar, sai no ouvido e não permanece no coração!
    Gosto muito da partilha... Bj!

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  2. Esta senhora nunca imaginou o quanto me acompanha. É que continua a ensinar-me.
    Um beijinho e bom domingo, Gracinha.

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  3. Quantas mulheres dobradas à desgraça teremos por este país fora?
    Bem haja Bea, pela partilha e pela sensibilidade.

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  4. Não sabemos, Magui. Mas esta senhora está naquele grupo de pessoas boas a quem coube desgraça em demasia; a vida tratou-as a pontapé. E, se não haja outra vida, com que ficaram?!

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  5. Bea, as figuras anónimas que tu iluminas com o teu olhar e descreves com a tua pena, são tão ou mais importantes do que a maioria de que toda a gente fala. Obrigada por trazeres à luz esses pequenos-grandes acontecimentos. Boa semana!

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    1. Obrigada, Prosa. Sem que o soubesse, esta senhora ensinou-me bastante.
      Boa semana para ti também.

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  6. O Tito Cunha marcou uma época.
    Tanto quanto, infelizmente, a violência doméstica.
    Muitas vezes ligada ao excesso alcoólico.
    Boa semana

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    1. Tem razão, Pedro, O álcool e a violência andavam de mãos dadas e nem sei se não andam ainda, os tempos mudaram, já não existe Tito Cunha, mas a violência doméstica mantém-se. Contudo, não era o caso. Era questão de mau carácter.

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  7. Nem quero imaginar a situação... =/
    Infelizmente acontece muito.

    Beijocas

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    1. Há gente muito bera, Cláudia. Há quem pareça o que é e quem seja sem parecer. Oxalá nunca se cruze com nenhum dos casos, que a vida tem muito por onde se pegue e nenhuma destas aberrações merece a sua atenção.

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  8. Mulheres guerreiras fortes que percorrem a vida de quem com elas se cruzam... Um texto cheio de sentimento e beleza.
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  9. Terçam-se armas de muita forma e há guerreiras que vencem até a morte pela doçura. Suponho que seja o caso desta senhora que decerto não perdura apenas na minha memória.
    Boa semana, Graça.

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  10. Como Raul Brandão, também gosto de dizer que sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la, fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda.
    Mas que há gente má, há.
    Esta pequena história custou-me a escrever. Custou-me a escrever por ser difícil, como difícil é toda a problemática da violência doméstica e os traumas de infância, que geralmente lhe andam associados.

    Quando me aproximei do confessionário e me pus de joelhos, o senhor padre perguntou-me que idade tinha e que pecados me atormentavam a consciência.
    - Tenho oito anos senhor padre e ando com pensamentos maus.
    - Que pensamentos são esses meu filho?
    - Queria que meu pai morresse.
    - Porquê meu filho? Ele bate-te?
    - Não.
    - Então que te faz ele?
    - Nada senhor padre, mas queria que morresse.
    - Conta-me então meu filho porque querias que ele morresse.
    - Na semana passada, quando cheguei a casa mais cedo vindo da escola, abri a porta sem ninguém dar por mim. Foi quando me apercebi de vozes vindas do quarto dos meus pais, que tinha a porta encostada, e algo me fez parar subitamente:
    - Não consigo, não consigo.
    Era a voz de minha mãe, num tom que nunca lhe tinha ouvido.
    - Não consigo, faça isso com as outras...
    De repente ouvi um som seco de uma pancada e de seguida fez-se um longo silêncio. Sem pinga de sangue, entrei no meu quarto e fechei a porta.
    - Olha meu filho, é muito feio escutar atrás das portas, reza cinco Pai Nossos e dez Avé Marias que te vão ajudar a afastar esses maus pensamentos. Vai em paz e que Deus te acompanhe.

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  11. Joaquim
    eu quase arrisco dizer-lhe que esse não é o motivo principal da violência doméstica, que surge mais por decorrência de outros. Suponho que existam alguns casos - há de tudo -, mas o que penso sem certezas é que a violência doméstica nascia da exasperação da pobreza e seus problemas, do álcool, do mau feitio ajudado pela noção arcaica de que a mulher deve obediência incondicional ao homem e lhe está sujeita para a vida, ele é a única autoridade na família, ela é ou era a empregada para todo o serviço incluindo o de cama. Hoje, mais que ontem, a violência é despoletada quando surge um terceiro elemento a disputar a atenção da mulher.

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  12. Há mulheres que numa vida inteira carregam a desgraça às costas. E "quotidianos insonsos" que nos partem o coração.
    Crónica belíssima!
    Beijo.

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  13. Não acho que sejam quotidianos insonsos, mas são profundamente tristes e acredito que vividos hora a hora, não há hábito no sofrimento; fazem-me pensar numa justiça divina que não entendo, mas em que espero por nada dos homens poder esperar-se, o ciclo humano foi concluído. Ou talvez por me recusar a ver tal padecer como inútil e destituído de sentido. A mente recusa-se a aceitar a absoluta falta de sentido da vida humana e que exista gente boa e infeliz por acaso. Quando os acasos desastrosos, quando se devem a erros humanos doem mais, poderia ter sido tudo diferente.
    É uma crónica verdadeira que, infelizmente, ainda vai existindo.
    Bom Dia, Teresa.

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  14. Olá Blue Eyes,

    tenho estado à espera que me escrevas (às vezes esqueço-me que tu não podes...) mas espero que estejas bem, cuidadinho com essa mania de subir às árvores e de partir porcelana de marca, okay?
    A tua dona não nos contou nada sobre o resultado do exame que fez, espero que esteja tudo bem com ela - e já sabes, tens que lhe dar muito mimo, tens que ser o substituto de muitas coisas de que ela agora está privada...
    Ela agora anda a escrever umas coisas muito tristes, diz-lhe que eu leio sempre, mas falta-me coragem para comentar, nem saberia o que dizer, há coisas que me tocam muito mas sinto um certo pudor em falar nelas: feitios...
    Diz-lhe que agradeço o convite para a tal sopinha (aliás, eu é que me fiz convidada) mas não me parece que tal vá acontecer, dada a conjuntura, e a minha realidade, realidade que vou tentando esquecer escrevendo estas patetices.
    E basicamente é isto.
    Uma turrinha para ti e um abracinho para a tua dona.
    🎄🐈

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  15. Olá Maria

    estou gordinho e muito guloso e continuo a chatear a dona na hora das refeições apesar dela me alimentar antes. Adoro a comida das pessoas e por mim comia à mesa, bem tento, mas não me deixam.
    Quanto às árvores, sou um ás a subi-las e já quase todas têm a minha marca, apetecem-me as alturas, queres o quê. Da porcelana...bom, parece que me assustei com o barulho e até ver não voltei a subir ao aparador.
    Hummm...a minha dona ainda não concluiu os exames e não há-de ser nada. Quando ela me deixa subir para o colo mimo-a como sei, até já lhe dou dentadinhas na bochecha. Mas como adoro novelos e ela anda com não sei quantos sacos deles, calha-me o colo só um bocadinho por dia, acho que fico no céu, respiro com fundura e aproveito logo para fechar os olhos e ronronar.
    As pessoas ficam muito sem palavras para o sofrimento sem remédio, aquele que por mais que se explique nunca se entende cabalmente. O mundo da tristeza sofrida não é apenas misterioso, muitas vezes tem acoplado um apêndice de vulto, pesado, que é a sensação de injustiça. Pode até deixar-nos com má consciência. São coisas que têm de ser ditas, Maria; não são para nada senão para serem ditas, escritas, postas cá fora; talvez arejando fiquem menos tristes, se tornem menos elas. Quem sabe.
    Quanto à sopinha da cação...palpita-me que vou gostar e, com sua licença e da dona, posso bem comer a sua parte. Da realidade - só conheço a dos pássaros na buganvília e que não consigo apanhar -, digo-lhe que é uma grande chatice, na realidade nunca conseguirei apanhá-los, mas imagino que sim, fico quartos de hora a mirá-los na esperança que um desaprenda de voar. Não é muito conveniente que a gente se situe inteiramente na realidade, a sua crueza integral pode envenenar-nos.
    Um abracinho nosso

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  16. Lindos, lindos!
    Ainda bem que está tudo bem :-)
    Espero que nunca consigas apanhar um passarinho, mas às vezes é difícil contrariar a natureza e a verdade é que tu és um predador nato.
    Beijinhos
    😻😍

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