Por
vezes julgo que este meu exercício da banalidade, do comezinho desfrutável, é
apenas caminho de fuga a incómodas verdades que o mundo exibe, às suas feridas
e pústulas assanhadas e insanáveis. Provável mecanismo de defesa ou só mania de
carácter. O certo é que, enquanto outros exaltam isto e aquilo, croniqueiam
sobre este ou aquele descalabro, se insurgem – justamente, diga-se – contra
determinado espírito que grassa, um ou outro figurão que é apenas uma triste
figura, eu estou nisto. Enquanto o perigo da direita mais asquerosa se vai
exibindo aplaudido pelos exponenciais descontentes do sistema, enquanto isso,
finco-me num quotidiano insosso e remendo-me cerzindo vagares a ponto certo, no
tecido cada vez mais esfiapado que nos veste. Desentendo-me do vírus que nos
manieta, de máscara e álcool-gel, dos avisos médicos e da vacinação, da Tv em
geral. Alieno tudo se passeio manhãzinha, o frio a bater-me no rosto e o nariz em
humidade ressentida. Tanto assunto importante, questões de vida e morte, e, sei
lá porquê, o pensamento fixa-se naquela mulher que cosia. Dias inteiros de
magreza virada à costura, dedos longos e mágicos alinhavando informes bocados
de tecido que os pontos nomeavam. Era assim que lhe nasciam mangas e rodas de
saia, cabeções e cintos, bolsos e casas de botão. Eu maravilhava na arte sacra
de casar quadrados e listas, enviesar godés, passar alinhavos num pregueado de
fita métrica. Sentada num banquinho
baixo, vestia negro rigoroso, luto eterno pela filha morta aos dezanove, flor
tão rara como não vi outra e como cantava bem "conta a lenda que certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar...". Bela e doce, a garota era amada e estimada por
todos. Até ao namoro fixo, os rapazes casadoiros disputavam-lhe a atenção e qualquer
mãe a desejava na família. Era do conhecimento comum, por gritos e serrabulho
masculinos, que dentro de casa amparava as penas maternas, oferecia o corpo como
defesa e acarinhava contra as porradas da besta que mandava e desmandava a seu
bel prazer. O pai era um casmurro que nem os bons dias dava e a quem a mulher
falava e servia docemente, sem queixa ou lamento. Casados os filhos homens,
ficaram as duas à mercê da tempestade, e o que se soube sobreveio dos desacatos a
que o animal se entregava.
Vejo-a
muita vez assim, a memória traz-ma a coser, dobrada à desgraça de vestir a sua menina morta e casada
in extremis com um namorado desfeito. E enquanto a agulha atravessa o tecido
maquinal, confidencia, comprei o vestido de noiva que tínhamos visto as duas no
Tito Cunha, tanto que ela o sonhava e nunca se viu com ele vestido. E as duas lágrimas
presas no virar das pestanas descem até aos óculos que retira, a menina
desculpe estas lembranças tristes, não tem nada com isso, mas para que é isto
bom.
Bea, há pessoas e situações que nos marcam e nos fazem esquecer tudo o que nos entra no olhar, sai no ouvido e não permanece no coração!
ResponderEliminarGosto muito da partilha... Bj!
Esta senhora nunca imaginou o quanto me acompanha. É que continua a ensinar-me.
ResponderEliminarUm beijinho e bom domingo, Gracinha.
Quantas mulheres dobradas à desgraça teremos por este país fora?
ResponderEliminarBem haja Bea, pela partilha e pela sensibilidade.
Não sabemos, Magui. Mas esta senhora está naquele grupo de pessoas boas a quem coube desgraça em demasia; a vida tratou-as a pontapé. E, se não haja outra vida, com que ficaram?!
ResponderEliminarBea, as figuras anónimas que tu iluminas com o teu olhar e descreves com a tua pena, são tão ou mais importantes do que a maioria de que toda a gente fala. Obrigada por trazeres à luz esses pequenos-grandes acontecimentos. Boa semana!
ResponderEliminarObrigada, Prosa. Sem que o soubesse, esta senhora ensinou-me bastante.
EliminarBoa semana para ti também.
O Tito Cunha marcou uma época.
ResponderEliminarTanto quanto, infelizmente, a violência doméstica.
Muitas vezes ligada ao excesso alcoólico.
Boa semana
Tem razão, Pedro, O álcool e a violência andavam de mãos dadas e nem sei se não andam ainda, os tempos mudaram, já não existe Tito Cunha, mas a violência doméstica mantém-se. Contudo, não era o caso. Era questão de mau carácter.
EliminarNem quero imaginar a situação... =/
ResponderEliminarInfelizmente acontece muito.
Beijocas
Há gente muito bera, Cláudia. Há quem pareça o que é e quem seja sem parecer. Oxalá nunca se cruze com nenhum dos casos, que a vida tem muito por onde se pegue e nenhuma destas aberrações merece a sua atenção.
EliminarMulheres guerreiras fortes que percorrem a vida de quem com elas se cruzam... Um texto cheio de sentimento e beleza.
ResponderEliminarCuide-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
Terçam-se armas de muita forma e há guerreiras que vencem até a morte pela doçura. Suponho que seja o caso desta senhora que decerto não perdura apenas na minha memória.
ResponderEliminarBoa semana, Graça.
Como Raul Brandão, também gosto de dizer que sou um mero espectador da vida, que não tenta explicá-la, fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda.
ResponderEliminarMas que há gente má, há.
Esta pequena história custou-me a escrever. Custou-me a escrever por ser difícil, como difícil é toda a problemática da violência doméstica e os traumas de infância, que geralmente lhe andam associados.
Quando me aproximei do confessionário e me pus de joelhos, o senhor padre perguntou-me que idade tinha e que pecados me atormentavam a consciência.
- Tenho oito anos senhor padre e ando com pensamentos maus.
- Que pensamentos são esses meu filho?
- Queria que meu pai morresse.
- Porquê meu filho? Ele bate-te?
- Não.
- Então que te faz ele?
- Nada senhor padre, mas queria que morresse.
- Conta-me então meu filho porque querias que ele morresse.
- Na semana passada, quando cheguei a casa mais cedo vindo da escola, abri a porta sem ninguém dar por mim. Foi quando me apercebi de vozes vindas do quarto dos meus pais, que tinha a porta encostada, e algo me fez parar subitamente:
- Não consigo, não consigo.
Era a voz de minha mãe, num tom que nunca lhe tinha ouvido.
- Não consigo, faça isso com as outras...
De repente ouvi um som seco de uma pancada e de seguida fez-se um longo silêncio. Sem pinga de sangue, entrei no meu quarto e fechei a porta.
- Olha meu filho, é muito feio escutar atrás das portas, reza cinco Pai Nossos e dez Avé Marias que te vão ajudar a afastar esses maus pensamentos. Vai em paz e que Deus te acompanhe.
Joaquim
ResponderEliminareu quase arrisco dizer-lhe que esse não é o motivo principal da violência doméstica, que surge mais por decorrência de outros. Suponho que existam alguns casos - há de tudo -, mas o que penso sem certezas é que a violência doméstica nascia da exasperação da pobreza e seus problemas, do álcool, do mau feitio ajudado pela noção arcaica de que a mulher deve obediência incondicional ao homem e lhe está sujeita para a vida, ele é a única autoridade na família, ela é ou era a empregada para todo o serviço incluindo o de cama. Hoje, mais que ontem, a violência é despoletada quando surge um terceiro elemento a disputar a atenção da mulher.
Há mulheres que numa vida inteira carregam a desgraça às costas. E "quotidianos insonsos" que nos partem o coração.
ResponderEliminarCrónica belíssima!
Beijo.
Não acho que sejam quotidianos insonsos, mas são profundamente tristes e acredito que vividos hora a hora, não há hábito no sofrimento; fazem-me pensar numa justiça divina que não entendo, mas em que espero por nada dos homens poder esperar-se, o ciclo humano foi concluído. Ou talvez por me recusar a ver tal padecer como inútil e destituído de sentido. A mente recusa-se a aceitar a absoluta falta de sentido da vida humana e que exista gente boa e infeliz por acaso. Quando os acasos desastrosos, quando se devem a erros humanos doem mais, poderia ter sido tudo diferente.
ResponderEliminarÉ uma crónica verdadeira que, infelizmente, ainda vai existindo.
Bom Dia, Teresa.
Olá Blue Eyes,
ResponderEliminartenho estado à espera que me escrevas (às vezes esqueço-me que tu não podes...) mas espero que estejas bem, cuidadinho com essa mania de subir às árvores e de partir porcelana de marca, okay?
A tua dona não nos contou nada sobre o resultado do exame que fez, espero que esteja tudo bem com ela - e já sabes, tens que lhe dar muito mimo, tens que ser o substituto de muitas coisas de que ela agora está privada...
Ela agora anda a escrever umas coisas muito tristes, diz-lhe que eu leio sempre, mas falta-me coragem para comentar, nem saberia o que dizer, há coisas que me tocam muito mas sinto um certo pudor em falar nelas: feitios...
Diz-lhe que agradeço o convite para a tal sopinha (aliás, eu é que me fiz convidada) mas não me parece que tal vá acontecer, dada a conjuntura, e a minha realidade, realidade que vou tentando esquecer escrevendo estas patetices.
E basicamente é isto.
Uma turrinha para ti e um abracinho para a tua dona.
🎄🐈
Olá Maria
ResponderEliminarestou gordinho e muito guloso e continuo a chatear a dona na hora das refeições apesar dela me alimentar antes. Adoro a comida das pessoas e por mim comia à mesa, bem tento, mas não me deixam.
Quanto às árvores, sou um ás a subi-las e já quase todas têm a minha marca, apetecem-me as alturas, queres o quê. Da porcelana...bom, parece que me assustei com o barulho e até ver não voltei a subir ao aparador.
Hummm...a minha dona ainda não concluiu os exames e não há-de ser nada. Quando ela me deixa subir para o colo mimo-a como sei, até já lhe dou dentadinhas na bochecha. Mas como adoro novelos e ela anda com não sei quantos sacos deles, calha-me o colo só um bocadinho por dia, acho que fico no céu, respiro com fundura e aproveito logo para fechar os olhos e ronronar.
As pessoas ficam muito sem palavras para o sofrimento sem remédio, aquele que por mais que se explique nunca se entende cabalmente. O mundo da tristeza sofrida não é apenas misterioso, muitas vezes tem acoplado um apêndice de vulto, pesado, que é a sensação de injustiça. Pode até deixar-nos com má consciência. São coisas que têm de ser ditas, Maria; não são para nada senão para serem ditas, escritas, postas cá fora; talvez arejando fiquem menos tristes, se tornem menos elas. Quem sabe.
Quanto à sopinha da cação...palpita-me que vou gostar e, com sua licença e da dona, posso bem comer a sua parte. Da realidade - só conheço a dos pássaros na buganvília e que não consigo apanhar -, digo-lhe que é uma grande chatice, na realidade nunca conseguirei apanhá-los, mas imagino que sim, fico quartos de hora a mirá-los na esperança que um desaprenda de voar. Não é muito conveniente que a gente se situe inteiramente na realidade, a sua crueza integral pode envenenar-nos.
Um abracinho nosso
Lindos, lindos!
ResponderEliminarAinda bem que está tudo bem :-)
Espero que nunca consigas apanhar um passarinho, mas às vezes é difícil contrariar a natureza e a verdade é que tu és um predador nato.
Beijinhos
😻😍