Lembro-te
ainda jovem: alta, cabelo negro e fino, ligeiramente ondulado, compleição
sólida de carnes a que distraída inadvertência chamava sensualidade, termo que
apenas iludia o prenúncio de excesso de peso. Recordo a pele branca e cetinosa,
encanto do meu então moreno escuro, e os dedos de fuso ressuscitando dextras
agulhas. “Tia Lili”, nome exíguo bailando
indeciso na densidade da tua figura, sugestão de ternuras em ti inexistentes. Chegavas de um lugar de nome esquisito, a que
se acedia de comboio e que todos desconheciam. Era o tempo de ninguém conhecer o
significado de viajar, ter férias, ir a uma consulta médica, o mundo das
análises clínicas, incógnito por inteiro.
A
imagem mais antiga e completa que guardo é talvez a prova de um vestido de
nylon muito rodado, o branco de neve pintalgado de bolinhas vermelho sangue – minha mãe tinha
bom gosto - e tu, num desfastio de obrigação e dever, rosto sério e sem pingo
de ternura, a rodopiar alfinetes em bainha, enquanto eu, vaidosa e tola, rodava
o nylon e te impacientava o gesto. E minha mãe a travar-me mansamente, mão no
ombro, está quietinha, rodas a saia depois. Tia por afinidade, tinhas
aprendido costura e, penso que, contrariada, me fizeste, no início do
casamento, uma ou outra peça de roupa. Depois, bom, depois veio um bebé dos que
dão trabalhos dobrados e muita aflição, um rebento daqueles que, por motivos de saúde, levam os
pais a desistir de mais filhos. Abandonaste a costura, não fizeste amizades no
lugar, detestavas por igual sogra e demais família emprestada. Jamais saías de
tua casa, nunca convidaste alguém fora da tua família de sangue. Os teus
familiares chegavam manhãzinha e partiam embrulhados em noite e apitos de
comboio. Conheci-os a ajudar em tua casa, na vida de muito trabalho que te coube. Anoitecidos de cansaço, seguiam para a terra de nome esquisito e que quase não visitavas; de que, provavelmente, eras saudosa. Tinhas um gosto particular por
fotonovelas. A vida inteira das fotonovelas te passou pelas mãos. Contudo, não
eras mulher de partilhas, nunca se soube o que lhes fazia depois de lidas nem
como as adquirias, imagino que o marido as comprava, não saías do gineceu. Com o
meu tio, que já perdera uma noiva para a tuberculose, fizeste par indissolúvel
e benquisto, só interrompido por morte. Diz quem viveu meia dúzia de anos em
tua casa e, por desábito, vos achava admiráveis, que jamais assistiu a uma
discussão, um levantar de voz, uma palavra em gume. E salvaguarda ternura e carinho visíveis, bem comum aos dois.
(Cont.)
Continuo sem me conseguir identificar, não sei o que se passa.
ResponderEliminarMas é mais uma bela história. Que venha de lá a continuação que fiquei confusa com a parte final... :)
Beijocas
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Desta vez não é história. Ou é, mas no realmente.
ResponderEliminarBoa tarde Cláudia
Curioso para conhecer melhor a companheira do tio
ResponderEliminar:)
ResponderEliminarBoa tarde, Pedro.
Ainda bem que essa cumplicidade com a Bea, mesmo que tardia, esteve presente ainda em vida e acredito que também no momentos finais. Afinal somos energia e as energias atraem-se e repelem-se.
ResponderEliminarEntre ambas ficaram momentos, palavras, amizade, afecto… costuras da vida…e também um vestido branco com bolinhas vermelhas cor de sangue!
Que a sua “tia Lili” fique em paz. Um abraço!
Está de certeza em paz. Haja ou não vida extra.
ResponderEliminarObrigada, Dulce