As
pernas. Longas, sem um pêlo, alabastradas em meia de vidro. Não que eu ligasse
muito a pernas, não recordo as da professora de Português, nem as da mestra de
História e tão pouco as da professora de Física. Mas as dela ficaram-me na
mente, mais perfeitas que as de Cyd Charisse. Calçava sapatinho de salto e
usava vestidos que lhe caíam como sopa no mel e tinham gravata acoplada. Em meu
entender, cheios de estilo. Aquelas pernas passeavam-se entre as nossas
carteiras e tinham a particularidade de, à medida dos passos, darem uns
estalidos fracos que as denunciavam. Suponho hoje que seriam produzidos na
junção de perna e pé, mas, na altura, considerava-os característica extraordinária
e única no mundo, fenómeno que mais enaltecia a possuidora.
Acontece
que no meu tempo de colégio imperava a sensatez e o bom comportamento. Ora uma
menina sensata não se virava para trás durante as aulas. Portanto, aqueles sons
orientavam-nos a geografia da professora quando saía da sua mesa com
pezinhos de lã. Sentada bem à frente, eu esperava o momento em que as pernas
passavam a meu lado e, se sucedia, invejava doridamente aquela pele de pêssego
sem vinco de meia e onde os poros, limpos de qualquer pilosidade, se faziam visíveis.
Tenho da miss de Inglês as melhores recordações, mas o mais saliente são as
pernas.
Tenha
o leitor paciência na leitura destes pormenores, mas é que reencontrei a miss.
Que já não é miss. Passadas umas boas dezenas de anos em que casou e enviuvou,
está de novo na minha terra. É senhora
que beira os oitenta e parece ter menos dez ou quinze anos. Portanto, fiz-me
encontrada com ela. No meio de tanto aluno em lugares vários, esqueceu até as
minhas birras nas aulas, mas reagiu ao nome, “ah, uma moreninha de rosto
pequenino”. E é claro que achei o máximo. Chamou-me moreninha em vez de preta,
como hábito na minha terra quando preto era só um nome para o moreno mais
escuro, “olhá preta; tão, preta, tás boa”. Portanto, ser moreninha é subir
vários degraus de uma assentada. Viva a miss.
A
uma miss oferece-se chá. E conversa. A minha professora de Inglês revelou-se loquaz,
simpática e, como é natural, não recordávamos os mesmos pormenores do tempo de
colégio. Contou-me que casou depois dos quarenta com uma pessoa que a viu
nascer e por brincadeira dizia que casava com ela quando fosse grande. Que não
houve filhos. Falámos de viagens, da sua paixão pelo United Kingdom, de ter
viajado mundo fora quase sempre a sós e em transportes públicos. De ela e o
marido serem filhos únicos e lhe restarem dois primos. A solidão
apareceu-lhe como estrela cadente. Que logo acrescentou, “ não vivo de saudade”.
E eu que sou uma saudosista desgraçada e alentejana por inteiro, não se vive de
saudade, mas vive-se também com saudade. Olhou-me em estranheza, não, eu não
vivo com saudade, a saudade não me leva a lugar nenhum. Sou o resultado de tudo
o que vivi, mas o que vivi é passado e está morto, foi.
Confesso,
não esperava um assentar de pedra tão prosaico.
(cont.)
Que engraçado, reencontrar assim professores.
ResponderEliminarBeijocas
P.S: Para mim faz todo o sentido ter algum dinheiro junto para ter um filho, já que o ordenado mal me dá para as despesas do mês =)
Pronto, Cláudia, já cá não está quem falou. Faz todo o sentido, sim.
EliminarContinua a transformar a vida em texto e a contar os seus espantos, seus e dos outros, sim, porque a vida não tem espantos, quem se espanta somos nós.
ResponderEliminarA diversidade enriquece-nos Bea, em todos os contextos, é esse um dos mistérios da vida e das coisas.
Pessoalmente gosto de revisitar os arquivos da memória, uns deixam saudades outros nem tanto. E a propósito desta palavra, nunca percebi porque dizem ser ela genuinamente portuguesa!
Bom fim-de-semana.
É coisa que também não entendo, Joaquim, dizer que só os portugueses têm o termo saudade ainda vá que não vá, embora não seja verdade integral. Não julgo que a saudade seja genuinamente portuguesa, há pessoas mais saudosistas e menos, suponho que em todos os lugares. A saudade é um sentimento de falta de alguém de quem se gosta. Pode remediar-se, matar-se, afogar-se, mitigar-se se temos a possibilidade de rever ou de alguma forma contactar com o objecto da saudade. Sobretudo em caso de morte mas também noutros de distância incomensurável ou impossíveis vários, torna-se, pela sua constância, um sentimento cálido de falta que vamos preenchendo como sabemos: com memórias, fotos, com artigos que fazemos para os ausentes e lhes enviamos (se não morreram) e tentamos ser para os que nos rodeiam aquilo que o nosso objecto de saudade foi e é para nós. E a última forma é talvez a mais feliz, talvez seja o nosso agradecimento à vida e a eles.
ResponderEliminarBom fim de semana, Joaquim. Como diz por vezes meu pai, saúdinha (da boa, claro).
É interessante este seu pensamento: "tentamos ser para os que nos rodeiam aquilo que o nosso objecto de saudade foi e é para nós".
EliminarAinda há bem pouco tempo a Bea o tinha referido a propósito de uma outra conversa.
Quando lho ouvi pela primeira vez, tomei-o como um ensinamento ou talvez como algo escondido no meu subconsciente e que a Bea trouxe à tona, como geralmente fazem os poetas ou o escultores, que da pedra tosca extraem a obra de arte.
E de repente veio-me à lembrança o passeio que avó e neto fizeram de caravana em Portugal e que apareceu na televisão esta semana, o carinho e o amor que ambos dispensaram um ao outro, as cumplicidades, as boas conversas que tiveram - as conversas não olham à idade. Como lhe disse ontem (acho que ainda não viu), a sua escrita faz-me bem, faz-nos bem.
Não tinha reparado neste comment, Joaquim. Sorry. O outro sim, vi ontem, ou terá sido já hoje. Como sabe, pouco vejo TV e nem sabia de tal passeio a unir avó e neto. Acho muito bonito até porque, em passeio, somos quase inteiros e mais nós mesmos, podemos dedicar a nossa atenção aos acompanhantes, à paisagem, ao que visitamos. Passear é despir-se de quotidianas preocupações e deixar-se assoberbar pela circunstância externa.
EliminarÉ isso, tentamos, vale pela limpidez da tentativa. Pelo menos eu, fico aquém do modelo. Mas o que conta é o esforço. Tenho imensa pena de não ser poeta, mas julgo que há vezes em que consigo viver a poesia. Cada um chega onde chega, não é?
A minha escrita faz-me sobretudo bem a mim. Embora seja um monólogo, é melhor que o silêncio, dá-me que pensar fora da rotina ou no profundo dela que é quase o mesmo que um estar fora. Se beneficie outrém, seja quem seja, fico contente. Pode crer.
Quando me esqueça de ler tem que me avisar, sou muito distraída e na verdade, acho que prefiro comentar noutros lugares; o que escrevi está escrito e deixou de me interessar. A prova é que tenho de reler quer os posts quer os comentários que eu mesma fiz. Tornei-me mais atenta nesta janelita por instância sua, lembra-se. A gente quando gosta de ler alguém encontra simbioses inusitadas, não lhe parece tanta vez que os escritores escrevem tal qual como e o que o Joaquim pensa? Se gosta de um livro então...é como se o fulano de tal fosse nosso porta voz.
Uma noite descansada, Joaquim.
Nem o Vinícius descreveria assim umas belas pernas de mulher.
ResponderEliminarEstou a imaginar a professora a dar aulas em maillot como os que a Cyd Charisse usava nos filmes.
Bom fim-de-semana, Bea.
maillot era mais eu aos vinte e poucos, mas com saia por cima.
ResponderEliminarVinicius descrevê-las -ia (às pernas) de forma muito mais quente, digamos que em modo de ternura tórrida que é coisa que nem deve haver:). A minha professora era muito senhora, mesmo uma miss inglesa, mas em bom.
É bom SENTIR essa SAUDADE e LER tão interessante descrição!
ResponderEliminarBj Bea
Um beijinho também para si, Gracinha.
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