O
exercício da escuta pode ser fascinante. Não a escuta profissional onde se
pescam fios e nós e se desenovelam pontas num emaranhado onde o próprio tantas
vezes não sabe navegar. Falo da escuta amigável, esse inefável desembrulhar
bombons de incógnito recheio, o olhar antecipando na boca a doçura apetecida. A
minha conversa com a miss foi esse tactear de duas vontades, um uníssono entre
botão e casa, água mansa que a sua eterna delicadeza fez contínua e plausível. Quanto
tempo sem exercitar a escuta presencial. Tanto. Elidida, esqueço que existe, o
mundo cingido a dias de cintura apertada em quotidiano de fivela. E, se num intervalo dos furos ainda
insiste em queixa sussurrada, e eu?,
está já a desistir, à beira da mudez.
Posto
que o reencontro nos fez bem, logo aprazámos para a quinzena seguinte outro
chá, um passeio…Mas, passada uma semana não resisti a um dia de sol e liguei a
convidar. Ela agradeceu e aceitou um passeio ao ar livre. Levei-a de carro por
caminhos de que a minha bicicleta tem saudade e, depois de o parar numa berma
soalheira, internámos no pinhal.
Corri
aqueles trilhos em garota, à revelia de minha avó que não me queria no meio dos
galfarros. Para que conste, chamava galfarros aos garotos da vizinhança, género
masculino que não se ensaiava nada de roubar fruta pelos quintais e levar
sovas de cinto. Contudo, nunca eles me “desencabecinaram” e antes me contavam
coisas engraçadas e mostravam um mundo que eu desconhecia. Foi assim que vi
corujas, mochos e raposas furtivas. Com eles aprendi a pisar bufas de lobo e
faziam gala a descobrir as maiores e dar-mas a pisar para rirem a bandeiras
despregadas com o som cavo e o pó que soltavam sob os nossos pés. Em troca, eu
contava-lhes histórias que lia e ouvia. Aprendi muito com os galfarros e
chorava desaustinada com os seus gritos lancinantes se eram sovados sem piedade por pais
impacientes ou mães cansadas e inundadas
de queixas, roubou aqui, tirou além, não faz os trabalhos de casa, anda feito moinante, etc.
Caminhamos
atentas, a desviar-nos de raízes salientes. Já não há o pinhal de mato fechado
onde me arranhei e piquei. Agora é um caminho leofilizado de pinheiro aqui,
pinheiro ali, que se deixa ver de fio a pavio e nos espreita sem perigo. Que a
miss não queria perigos, ia pelo ar do campo, a liberdade do ar sem fronteiras, tão
grata a nós duas. Entre outras coisas, contou-me que vai ampliar a casa onde
vive e que devia ter seguido arquitectura pois gosta de fazer projectos
de recuperação de edifícios. Falou dos que recuperou noutro lugar, durante o
casamento. E da recuperação que já tem em curso na minha terra. Uma
entusiasta de oitenta anos. E, enquanto ela conversava a desfiar sonhos que vai
tornando realidade, eu pensava no inconsciente desejo de permanecer. A minha
professora não tem filhos e quase não tem família, mas vai permanecer nos
edifícios recuperados. É a sua forma de ficar.
Apanhei
urze e rebentos de carvalho anão e, como as crianças que fomos, as duas trouxemos
um raminho de flores silvestres. Da próxima vez, vou levar um sacho e saco
plástico e trazer alguns matos que namorei. Pode que peguem.
Nunca gostei das minhas pernas, talvez por isso admire umas pernas de mulher bonitas...acho que a minha filha as tem, não sai a mim (só ficou com o que era melhor, o que não prestava a diabinha não herdou).
ResponderEliminar~CC~
Teno notado isso, as gerações mais recentes são mais bonitas e não apenas pela miscigenação, herdam dos progenitores a parte melhor:).
ResponderEliminarTão bonito!
ResponderEliminarEncontrei há uns anos a minha professora de Português do 2º ano do liceu, que me reconheceu. Era tão amiga... Deu-me um livro pelas minhas redacções "A Lâmpada que não se apaga". Passaram quase 60 anos e ainda a amei.
A minha professora de Inglês, vou confirmando, é uma pessoa admirável. Espero que fiquemos amigas. Vamos no bom caminho, parece-me.
ResponderEliminarGostei muito de ler estes dois posts. Deve ser engraçado encontrar assim uma professora e tornarem-se amigas.
ResponderEliminarBeijinhos e um bom domingo:))
eu gostaria bastante que acontecesse. Vamos ver. Para já, o encontro semanal faz bem a ambas; em mim é bálsamo.
ResponderEliminarAposto que a Isabel também terá assim uma professora de quem gostou e que não vê há um ror de anos.
Boa semana, Isabel.
Recordo cada reencontro com alunos meus que faz brilhar meu olhar!
ResponderEliminarMais um texto que merece uma leitura atenta!
Escutar requer paciência e saber!!! Bj Bea
Oxalá a minha professora pense como a Gracinha:). Não sei se a escuta custa assim tanto, aprende-se muito a escutar. E há pessoas que dá gosto ouvir. Mas convenho, há escutas complexas.
ResponderEliminarBoa noite, Gracinha.
Que giro. Se ficarem amigas, que parece que já o são, ouro sobre azul =)
ResponderEliminarBeijocas
Se a Cláudia se refere a uma amizade respeitosa, sim, creio que chegamos lá, ou somos capazes de chegar. Amigas do peito, não. A nossa relação não é desse teor e nunca será. Há demasiadas coisas a separarem-nos desse tipo de amizade, facto que nos é benéfico.
ResponderEliminarUm abracinho, Cláudia.
Que bonita história com a tua professora de inglês. Ainda vão ter muitos encontros com conversas gratificantes e, porque não uma bela amizade? É o meu desejo para bem das duas.
ResponderEliminarO terceiro parágrafo deste teu texto recordou-me o Carrocel, esse teu conto ou novela tão bonito, profundo e promissor. Deste-o por acabado? Espero que não!