sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A Miss

 

O exercício da escuta pode ser fascinante. Não a escuta profissional onde se pescam fios e nós e se desenovelam pontas num emaranhado onde o próprio tantas vezes não sabe navegar. Falo da escuta amigável, esse inefável desembrulhar bombons de incógnito recheio, o olhar antecipando na boca a doçura apetecida. A minha conversa com a miss foi esse tactear de duas vontades, um uníssono entre botão e casa, água mansa que a sua eterna delicadeza fez contínua e plausível. Quanto tempo sem exercitar a escuta presencial. Tanto. Elidida, esqueço que existe, o mundo cingido a dias de cintura apertada em quotidiano  de fivela. E, se num intervalo dos furos ainda insiste em queixa  sussurrada, e eu?, está já a desistir, à beira da mudez.

Posto que o reencontro nos fez bem, logo aprazámos para a quinzena seguinte outro chá, um passeio…Mas, passada uma semana não resisti a um dia de sol e liguei a convidar. Ela agradeceu e aceitou um passeio ao ar livre. Levei-a de carro por caminhos de que a minha bicicleta tem saudade e, depois de o parar numa berma soalheira, internámos no pinhal.

Corri aqueles trilhos em garota, à revelia de minha avó que não me queria no meio dos galfarros. Para que conste, chamava galfarros aos garotos da vizinhança, género masculino que não se ensaiava nada de roubar fruta pelos quintais e levar sovas de cinto. Contudo, nunca eles me “desencabecinaram” e antes me contavam coisas engraçadas e mostravam um mundo que eu desconhecia. Foi assim que vi corujas, mochos e raposas furtivas. Com eles aprendi a pisar bufas de lobo e faziam gala a descobrir as maiores e dar-mas a pisar para rirem a bandeiras despregadas com o som cavo e o pó que soltavam sob os nossos pés. Em troca, eu contava-lhes histórias que lia e ouvia. Aprendi muito com os galfarros e chorava desaustinada com os seus gritos lancinantes se eram sovados sem piedade por pais impacientes ou mães cansadas e  inundadas de queixas, roubou aqui, tirou além, não faz os trabalhos de casa, anda feito moinante, etc.

Caminhamos atentas, a desviar-nos de raízes salientes. Já não há o pinhal de mato fechado onde me arranhei e piquei. Agora é um caminho leofilizado de pinheiro aqui, pinheiro ali, que se deixa ver de fio a pavio e nos espreita sem perigo. Que a miss não queria perigos, ia pelo ar do campo, a liberdade do ar sem fronteiras, tão grata a nós duas. Entre outras coisas, contou-me que vai ampliar a casa onde vive e que devia ter seguido arquitectura pois gosta de fazer projectos de recuperação de edifícios. Falou dos que recuperou noutro lugar, durante o casamento. E da recuperação que já tem em curso na minha terra. Uma entusiasta de oitenta anos. E, enquanto ela conversava a desfiar sonhos que vai tornando realidade, eu pensava no inconsciente desejo de permanecer. A minha professora não tem filhos e quase não tem família, mas vai permanecer nos edifícios recuperados. É a sua forma de ficar.

Apanhei urze e rebentos de carvalho anão e, como as crianças que fomos, as duas trouxemos um raminho de flores silvestres. Da próxima vez, vou levar um sacho e saco plástico e trazer alguns matos que namorei. Pode que peguem. 

 

11 comentários:

  1. Nunca gostei das minhas pernas, talvez por isso admire umas pernas de mulher bonitas...acho que a minha filha as tem, não sai a mim (só ficou com o que era melhor, o que não prestava a diabinha não herdou).
    ~CC~

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  2. Teno notado isso, as gerações mais recentes são mais bonitas e não apenas pela miscigenação, herdam dos progenitores a parte melhor:).

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  3. Tão bonito!
    Encontrei há uns anos a minha professora de Português do 2º ano do liceu, que me reconheceu. Era tão amiga... Deu-me um livro pelas minhas redacções "A Lâmpada que não se apaga". Passaram quase 60 anos e ainda a amei.

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  4. A minha professora de Inglês, vou confirmando, é uma pessoa admirável. Espero que fiquemos amigas. Vamos no bom caminho, parece-me.

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  5. Gostei muito de ler estes dois posts. Deve ser engraçado encontrar assim uma professora e tornarem-se amigas.

    Beijinhos e um bom domingo:))

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  6. eu gostaria bastante que acontecesse. Vamos ver. Para já, o encontro semanal faz bem a ambas; em mim é bálsamo.
    Aposto que a Isabel também terá assim uma professora de quem gostou e que não vê há um ror de anos.
    Boa semana, Isabel.

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  7. Recordo cada reencontro com alunos meus que faz brilhar meu olhar!
    Mais um texto que merece uma leitura atenta!
    Escutar requer paciência e saber!!! Bj Bea

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  8. Oxalá a minha professora pense como a Gracinha:). Não sei se a escuta custa assim tanto, aprende-se muito a escutar. E há pessoas que dá gosto ouvir. Mas convenho, há escutas complexas.
    Boa noite, Gracinha.

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  9. Que giro. Se ficarem amigas, que parece que já o são, ouro sobre azul =)

    Beijocas

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  10. Se a Cláudia se refere a uma amizade respeitosa, sim, creio que chegamos lá, ou somos capazes de chegar. Amigas do peito, não. A nossa relação não é desse teor e nunca será. Há demasiadas coisas a separarem-nos desse tipo de amizade, facto que nos é benéfico.
    Um abracinho, Cláudia.

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  11. Que bonita história com a tua professora de inglês. Ainda vão ter muitos encontros com conversas gratificantes e, porque não uma bela amizade? É o meu desejo para bem das duas.
    O terceiro parágrafo deste teu texto recordou-me o Carrocel, esse teu conto ou novela tão bonito, profundo e promissor. Deste-o por acabado? Espero que não!

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