Num dia ventoso, já não sei qual - todos são subjectiva e
erradamente mais ou menos os mesmos -, nesse dia, enquanto esperava uma consulta
e passeava na rua em risco de me voar a cabeleira, julgo eu que semelhante ao
penteado de Eduardo Mãos de Tesoura, li de cabo a rabo, “Manhã”, um livro de Adília
Lopes. Aprecio a escrita da senhora. Mesmo na ventania – sofrendo qualquer tipo de
clima -, prezo-a muito. Agrada-me o abrupto sem preconceitos e a singeleza
ingénua que lhe brota em prosa e poesia. E nem sei que texto prefiro no livro,
gosto dele na totalidade. Contudo, lembro-me de um escrito sobre o avô Raul. Não
por ser melhor ou diferente dos outros, mas porque também tive – como ela – um avô
excepcional.
O meu avô Manuel também nasceu no século XIX, mas não era
médico; logo, não tinha consultório na Avenida. Suponho que hoje seria chamado
ajudante de pedreiro e sempre o conheci a trabalhar para a mesma Fundação. A
bem dizer, não morou em rua alguma, nem as casas que habitou lhe pertenciam. O
meu avô Manuel viveu em lugares que os mapas não assinalam e onde haver uma rua
com nome era luxo impossível. Mas também foi conhecido da vizinhança. Por ser
um homem bom e amigo de silêncio, temente a Deus e trabalhador. O meu avô
Manuel avassalou-me de ternura – fui a primeira neta – e foi o único avô que
conheci, não precisei gostar mais dele que de outro. Foi o meu modelo e a
pessoa masculina de que mais gostei desde que me lembro de ser gente; nunca lhe ouvi uma
asneira, nem sequer das pequeninas e corriqueiras. O meu avô fazia sapatos,
que é como quem diz, tamancos, o calçado dos pobres à época. Lembro-me dele a desenhar o pé das pessoas sobre um papelão para criar o tamanho próprio a cada uma. E também recordo que colocava tachas nos tamancos. Eu admirava as tachas e
pedia-lhe que mas pusesse nos sapatos, mas ele apenas sorria, motivo de um ror de
perguntas. Gostava de vê-lo a esculpir o calçado e pairava-lhe ao redor em
estorvo de tagarela perguntadeira, raspas de madeira a caírem-me por cabelos e roupa. O meu avô não cobrava pelos tamancos que
fazia ao fim de semana que, então, era só o domingo. O que mais admirava nele era a forma como segurava o
lápis atrás da orelha. Pedia-lho e tentava copiar, mas o lápis caía enjeitando a
minha orelha. Então, enfiava-o no ouvido e exultava, avô, olhe, olhe. E
ele estendia a mão e tirava-mo rindo baixo, não faças isso que é perigoso. E eu
amuava brevemente. Logo ele me punha um dedo franja abaixo e a deslizar pelo
nariz, dá lá o martelo ao avô. O meu maior desejo era que o meu avô Manuel me
fizesse uns tamancos. Mas, se lhos pedia, pegava-me no colo, descalçava-me um
sapato e dizia a exibir-me a extremidade, os teus pés são muito pequeninos, o avô não aprendeu a fazer
tamancos pequeninos, as meninas do teu tamanho não podem usar tamancos. E eu ficava milagrosamente à espera que os meus pés crescessem e com uma inveja danada
da gente graúda. Esta conversa repetiu-se tanto que uma vez o meu avô disse, anda cá, e deitou um papelão bem debaixo do
damasqueiro para ficarmos na sombra. Era verão e o sol ofuscava. E o meu avô,
põe o pé aqui em cima. E logo eu, avô o meu pé já cresceu, não é? E ele, não,
Bea, o avô faz-te só uma palmilha para usares nos sapatos. E ainda sinto o
lápis rente à pele a fazer-me cócegas, o riso baixo e terno do meu avô, está
quietinha, a insistência nos lugares onde sabia que o
lápis me torcia de cócegas e o resvalar propositado para o entre os dedos que
me fazia esquecer o molde e retirar o pé do lugar. Por vezes, minha avó passava; julgo que sorria para dentro, mas não se desmanchava, tão maluca é a neta
como o avô, o juízo é igual. E nós dois rindo, ternamente unidos. Ficou
instituído o ritual: de cada vez que me apeteciam tamancos, o meu avô tirava o lápis
da orelha, buscava o papelão e riscava o meu pé no papel. Quando o retirava, podiam ler-se as paragens de riso dos dois. Eu usava as palmilhas com
fervor de religião, achando-lhe benefício. Duravam até meu pai as descobrir e, em riso escarninho, as deitar fora, eu choramingando e ele, o teu avô pensa que
tenho dinheiro para gastar em sapatos, assim ainda te ficam mais apertados,
pois se já tos cortei à frente. Se contava a meu avô, ele não comentava e procurando um papelão, anda cá ao avô, põe lá aqui o pé. E começava a nossa brincadeira.
Desculpa, Adília, mas não tens um avô melhor que o meu. Vá,
transijo, será do mesmo teor. Olha, o teu avô pintava. O meu gostava de tocar acordéon
e aprendeu a sós consigo, sabe Deus como. Mas não tinha acordéon. Coisas.