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sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa

 

"Deste-nos um trabalho imenso a matar, 

custou imenso erguermo-nos sobre os pés. 

Não vais agora pôr-te a ressuscitar

p'ra começar tudo outra vez"

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, 1977 - Domingo de Páscoa


"(...)É hoje dia de Páscoa. De ressurreição. Não é um problema nosso. É um problema de deuses. (...)Esquece, entretanto. Sentado no escritório - esquece. (...) está um dia bonito. Olho-o nos pinheiros imóveis da mata. Curioso: não há pássaros a explicá-lo. Estão mudos. Estarão talvez meditando no fim das coisas. É horrível, mas os pássaros também morrem. Esquece, entretanto. Olho o sol escorrendo pelos pinheiros. A vida existe. Agora, agora. E é quanto basta para haver sorriso no mundo."

idem, 1980 - Domingo de Páscoa

quinta-feira, 21 de abril de 2022

A Quem Pertenço

 

         Num dia ventoso, já não sei qual - todos são subjectiva e erradamente mais ou menos os mesmos -, nesse dia, enquanto esperava uma consulta e passeava na rua em risco de me voar a cabeleira, julgo eu que semelhante ao penteado de Eduardo Mãos de Tesoura, li de cabo a rabo, “Manhã”, um livro de Adília Lopes. Aprecio a escrita da senhora. Mesmo na ventania – sofrendo qualquer tipo de clima -, prezo-a muito. Agrada-me o abrupto sem preconceitos e a singeleza ingénua que lhe brota em prosa e poesia. E nem sei que texto prefiro no livro, gosto dele na totalidade. Contudo, lembro-me de um escrito sobre o avô Raul. Não por ser melhor ou diferente dos outros, mas porque também tive – como ela – um avô excepcional.

         O meu avô Manuel também nasceu no século XIX, mas não era médico; logo, não tinha consultório na Avenida. Suponho que hoje seria chamado ajudante de pedreiro e sempre o conheci a trabalhar para a mesma Fundação. A bem dizer, não morou em rua alguma, nem as casas que habitou lhe pertenciam. O meu avô Manuel viveu em lugares que os mapas não assinalam e onde haver uma rua com nome era luxo impossível. Mas também foi conhecido da vizinhança. Por ser um homem bom e amigo de silêncio, temente a Deus e trabalhador. O meu avô Manuel avassalou-me de ternura – fui a primeira neta – e foi o único avô que conheci, não precisei gostar mais dele que de outro. Foi o meu modelo e a pessoa masculina de que mais gostei desde que me lembro de ser gente; nunca lhe ouvi uma asneira, nem sequer das pequeninas e corriqueiras. O meu avô fazia sapatos, que é como quem diz, tamancos, o calçado dos pobres à época. Lembro-me dele a desenhar o pé das pessoas sobre um papelão para criar o tamanho próprio a cada uma. E também recordo que colocava tachas nos tamancos. Eu admirava as tachas e pedia-lhe que mas pusesse nos sapatos, mas ele apenas sorria, motivo de um ror de perguntas. Gostava de vê-lo a esculpir o calçado e pairava-lhe ao redor em estorvo de tagarela perguntadeira, raspas de madeira a caírem-me por cabelos e roupa. O meu avô não cobrava pelos tamancos que fazia ao fim de semana que, então, era só o domingo. O que mais admirava nele era a forma como segurava o lápis atrás da orelha. Pedia-lho e tentava copiar, mas o lápis caía enjeitando a minha orelha. Então, enfiava-o no ouvido e exultava, avô, olhe, olhe. E ele estendia a mão e tirava-mo rindo baixo, não faças isso que é perigoso. E eu amuava brevemente. Logo ele me punha um dedo franja abaixo e a deslizar pelo nariz, dá lá o martelo ao avô. O meu maior desejo era que o meu avô Manuel me fizesse uns tamancos. Mas, se lhos pedia, pegava-me no colo, descalçava-me um sapato e dizia a exibir-me a extremidade, os teus pés são muito pequeninos, o avô não aprendeu a fazer tamancos pequeninos, as meninas do teu tamanho não podem usar tamancos. E eu ficava milagrosamente à espera que os meus pés crescessem e com uma inveja danada da gente graúda. Esta conversa repetiu-se tanto que uma vez o meu avô disse, anda cá, e deitou um papelão bem debaixo do damasqueiro para ficarmos na sombra. Era verão e o sol ofuscava. E o meu avô, põe o pé aqui em cima. E logo eu, avô o meu pé já cresceu, não é? E ele, não, Bea, o avô faz-te só uma palmilha para usares nos sapatos. E ainda sinto o lápis rente à pele a fazer-me cócegas, o riso baixo e terno do meu avô, está quietinha, a insistência nos lugares onde sabia que o lápis me torcia de cócegas e o resvalar propositado para o entre os dedos que me fazia esquecer o molde e retirar o pé do lugar. Por vezes, minha avó passava; julgo que sorria para dentro, mas não se desmanchava, tão maluca é a neta como o avô, o juízo é igual. E nós dois rindo, ternamente unidos. Ficou instituído o ritual: de cada vez que me apeteciam tamancos, o meu avô tirava o lápis da orelha, buscava o papelão e riscava o meu pé no papel. Quando o retirava, podiam ler-se as paragens de riso dos dois. Eu usava as palmilhas com fervor de religião, achando-lhe benefício. Duravam até meu pai as descobrir e, em riso escarninho, as deitar fora, eu choramingando e ele, o teu avô pensa que tenho dinheiro para gastar em sapatos, assim ainda te ficam mais apertados, pois se já tos cortei à frente. Se contava a meu avô, ele não comentava e procurando um papelão, anda cá ao avô, põe lá aqui o pé. E começava a nossa brincadeira.

         Desculpa, Adília, mas não tens um avô melhor que o meu. Vá, transijo, será do mesmo teor. Olha, o teu avô pintava. O meu gostava de tocar acordéon e aprendeu a sós consigo, sabe Deus como. Mas não tinha acordéon. Coisas.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Um Quarto com Vista

 

A manhã entra-me quarto dentro desde cedo. A bem dizer, desperta com os pássaros e começa-me pelos ouvidos ainda as seis de olhos fechados, bocejando vagares. Só depois, num repentino de janela, o ímpeto de claridade salta vidros e cortinas e, em ápices de artista, molda a realidade do quarto. A escrivaninha deixa de ser vulto e o azul do teu olhar maroto e sorridente fixa-me da parede. No eterno presente das fotos, o teu rostinho de quatro anos. Sentado à mesa em casa de amigos,  blusinha vermelha, rosto brincalhão, a mão tapando a boca. Tão lindo. Do outro lado, ergues-te em compenetração esmerada no retrato do jardim-escola,  o teu amado “colete de caçador” luzindo vaidade. E, em voo de película, saltas para o início da tua primavera, um menino-homem – nada iguala a doçura transparente que, então, morava nos teus olhos -,  cabelo a encompridar e dedos longos, o orgulho admirado e ainda meio infantil devido ao assédio feminino no Facebook. Depois, o secundário e início da faculdade, os teus amores e os desaustinados caracóis ciganos e calça rota, a barba ameaçando a noite escura de hoje, certo ar de pensador moderno, um desleixo nonchalant que todos julgam esquerdista e sei que é de raiz. Rodeada de ti por todos os lados.

Quem sabe te ameigo e revejo para me reaver no tempo em que fui presente e útil, tão eterna como te garantia. E pensava noutra coisa.

domingo, 28 de julho de 2019


Não sei vê-la com olhos conhecidos. Para o conseguir tenho de obliterar quem é e quem sou, mirá-la como desconhecida. Então, noto-lhe a cabeça alva, uma chusma de cabelos brancos em ondas suaves, olhos que se afundam em rugas, as mãos que aos poucos tomam jeito de garra deformada. E a fazer cama, a mansidão que se desprende da voz suave e dos gestos que arredondam sem ângulos. E ainda eu não sendo eu, afirmo, é uma velhinha simpática. Mas acontece que eu sou eu a maior parte do tempo e, portanto, ela não é apenas a velhinha simpática que impressiona a retina da outra de mim. Ela é a mulher sem idade que tem voz muito semelhante à de minha mãe; que vi casar jovem e cheia de ilusões; analfabeta que se lamenta, os filhos queriam ensinar-me e eu nunca dei jeito, não tinha tempo; de quem o marido dizia, sou mais novo, tomo conta dela quando for velha, mas partiu antes, ela a cuidá-lo durante anos; aguentou a vizinhança de sogra malévola que nunca a quis e tudo suportou a sós consigo, driblando boladas assassinas da bruxa má. Hoje tem o amor de filhos e netos e continua-se em pequenos gestos e favores. As pernas negam-se ao caminho e encurtam-lhe as voltas. Mas trata da casa e dos animais domésticos, atravessa a rua e bebe o seu cafezinho diário. E promete a si mesma, se eu voltar alguma vez a esta vida, vou para a escola, aprendo a ler.

sábado, 25 de maio de 2019

Dias de Poesia


A dificuldade da escrita. Quando não corre nos dedos e se enreda na nascente. Caprichosa, flui na indiferença e emperra nas funduras do gosto.
Parecia fácil escrever sobre o II Colóquio Internacional no centenário de Sophia. Afinal, tinha apontamentos, frases, linhas de pensamento, comparações.  Ali confluíram estudiosos, analistas do fascinante mundo grego, políticos louvadores empolando  a influência de Francisco Sousa Tavares, poetas, gente que se dedica a estudá-la em pormenor e sapiência, talvez até com o amor e dedicação que tanto faltam neste nosso mundo tecido a instantâneos. Li tudo que apontei. Mas, se antes me pareceram louváveis pensamentos, agora eram meras frases. Com sentido, sim, mas frases, discursos passageiros e quase escolares, coisa académica. Por entre as linhas de pensamento alheio, os excertos de poemas citados eram as indubitáveis e fulgurantes linhas dos meus apontamentos. A recentrar-me.
O bom poema é una e inteira beleza a que o comentário apõe uma perspectiva, como que a dobrá-lo por via do esclarecimento. Mas a poesia aguenta e não se verga, a poesia, que é oral mesmo quando se lê com os olhos, música em palavras ditas, tem essa dignidade evidente que Eugénio cantava, “estás de pé na orla dos meus versos”. É assim que sei Sophia, de pé. De pé na orla do mar, gozando os momentos que não viveu. De pé, em todos os seus versos-cânticos. De pé, na inteireza do desejo perseguido e que formulou na última entrevista (2001) “gostaria que se realizasse a justiça social”. Uma Mulher. Poeta.
“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa”
(Coral, 1950)
Obrigada, Sophia.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Dias de Poesia



Ouvir falar de poesia a quem sabe mais que nós é maravilha, gesto de mestre desvelando pedacinhos de mistério.  Encanto que alguns estragam com qualificativos vocabulares estranhos, em manejo de intrusos bisturis que se entretêm a retalhar o que é inteiro. Indiciam supérfluos fogos fátuos, mas, quem sabe, têm a sua acuidade.
Movida a intenções, rumei ao II Colóquio Internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, para mim, apenas Sophia. Sophia e Eugénio de Andrade foram as grandes descobertas da minha vida. Antes deles, a poesia era a dos livros de leitura, nem boa nem má. Era. Para todo o sempre da memória moramos juntos, como Pessoa e o seu Menino Jesus.  Pertenço-lhes só porque sim, em extensa intuição amorosa de todas as letras. A sua poesia atingiu-me e trouxe-me, de seguida, outros poetas.
Foi um colóquio de qualidade, nomes sonantes da política à mistura. Que também por lá a inteireza de Sophia lutou e se desiludiu. Mas é agradável saber que a gente da Polis lê Sophia, a conhece. Não sei se os senhores ministros e ex ministros têm consciência que a convivialidade com a poeta lhes aporta ainda mais responsabilidade. Mas esse é problema deles.
O meu problema foi Adília Lopes. Conhecia Adília das palavras aqui e ali. Gostava delas sem mergulhos de luz, mas reconhecendo na poeta a afinidade despida de artifício que me seduz na vida, uma atenção ao quotidiano e à banalidade humana. Não estava preparada para uma mulher de massa densa que se levanta e, como criança tímida que mostra o rodado da saia e quer agradar, diz, Bom Dia. Nada me preparara para o seu quase pedido de desculpas por ir ler uma coisa pequenina. Como se nos estivesse a machucar ou pisar um pé. E leu a coisa mais simples e bonita, a sua história com a poeta. De como a conheceu e ela lhe acompanha a vida. Não o disse, mas escreve muito de encontro e contra Sophia, pega nos seus poemas e reverte-os ao seu sentido. Afirmou que a lê quando não lhe apetece escrever e, reconheceu, continua a motivá-la. Depois retirou-se e não mais se viu.
(cont) 

domingo, 21 de abril de 2019

A Morte de Um Anjo


         Morrem cedo os que Deus ama. Foi assim com a minha menina. Mais uma. E que estranho vê-los ir antes de mim, assistir. É contra natura, força-nos a carne e o espírito. Fui sua professora teria uns quinze, dezasseis anos. Alegre, espaçosa, vivas e atentas azeitonas pretas a iluminar o rosto. Mais tarde, encontrei-a nos escuteiros, tomou conta dos meus filhos enquanto lobitos, adequada a mais não poder. Tinham nela uma mãe jovem, nada austera, sorriso à flor da pele, uma aura receptiva pelo corpo todo. Assim os conquistava. Jamais lhe escutei bisbilhotice viperina, palavra menos cordata sobre alguém. Era de actos, pouco palavrosa.  E sabia ouvir. Subiu-lhe a vantagem do corpo um único amor. Aziago e secreto amor de um lado só, desditoso amor que não parou a olhá-la e lhe ignorou a alma. Que, breve, se desagradou do corpo. Mas a biologia cumpre-se sem complacências. O escândalo da gravidez, o anonimato de amor unilateral trazido à luz, a vergonha do abandono masculino a impar de negação reiterada e difamação (um homem no seu melhor). A dor humilhada. A ausência de palavras a dar-lhe brilho e conferir tamanho.
O tempo passou, o filho nasceu e veio a batalha judicial pelo nome do pai, processo longo, penoso, que venceu. Encontrava-a ainda por vezes e, por entre os pequenos lobitos, cantava a flor da fragância com o mesmo empenho, agitando o lenço em remoinho. Continuava sem distância, sorriso gaiato e olhos de azeitona preta. Uma lição.   
         O nosso último encontro foi na panificadora, ambas por um pão. Achei-a magra e talvez o moreno baço me tenha alertado. Perguntei se estava tudo bem, que me parecia magra e era tempo de parar com a dieta (sujeitara-se a uma dieta com acompanhamento médico durante anos e ficara muito bem). Ela riu e disse-me apenas que a dieta já fora, tinha tido uns problemitas mas já estava tudo bem. E eu sem imaginar a gravidade, você é uma mulher forte e bem disposta, tem uma vontade que leva tudo à frente. Já era assim nos seus tempos de estudante, lembra-se. E acrescentei a pegar no meu pão,  vai ficar tudo bem, pois. Bom Dia. E ela, é assim que tem que ser. E não mais nos vimos.
         Ontem, manhãzinha, minha irmã ao telefone, olha, não te disse ontem para não te tirar o sono, mas morreu a Maria (chamemos-lhe assim). E eu sobressaltada, a julgar que era engano, numa interrogação dolorosa, quem, e minha irmã a confirmar.
E afinal, Maria, não dizias por que faltavas ao emprego, adoecias de repente e voltavas passados uns dias. E o cancro levou-te no ápice de uma sexta feira santa, na extraordinária hora da morte de Cristo.
E que tenhas tudo. Tudo do que tanto te faltou nesta vida efémera que amaste empenhadamente. Por mim, digo, obrigada pelo tempo ao nosso lado, pela tua alegria e perseverança sem quebra. Um dia, não sei quando, havemos de falar sobre isso.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Concerto de Ano Novo


Ao rés dos sessenta, descobri a música clássica. Com todos os sintomas do gosto. Corro e esfalfo por ela; suspende-me ouvi-la e há momentos em que vivemos um tête-à-tête de funda intimidade; agradeço-lhe trazer-me os presentes-ausentes e levar-me pela mão a sensações díspares, da tristeza que escorre e desbunda à alegria mais cristalina.
Na juventude, o encanto musical pertence grandemente ao  corpo, exige movimento, concretizações urgentes, desembaraço cardíaco e até amoroso; apura-se o que dizia o Tê, “não se ama alguém que não ouve a mesma canção”,  embora eu duvide que se referisse apenas à música. Na idade madura, a música é bálsamo, intervalo sagrado. Lavados do quotidiano, entramos noutro reino. Lugar de descanso completo e desinteressado da circunstância. A necessidade de  movimento ficou para trás, nem saberíamos por onde nos mexer, braços, pernas e o mais, são capazes de emigrar, sei lá. É lá que moramos, nos acordes e na harmonia que paira.
Perdi a entrada da orquestra, eu que amo ver a dextra e cuidada ternura  no transporte dos instrumentos musicais. Tão às cegas como de outras vezes.  Ignorante de concertos de ano novo.  Uma maravilha. As peças eram curtas e a maioria alegre. A orquestra dirigida por Nuno Coelho, um maestro cuja grandeza não se mede a palmo, tocou Mozart, Beethoven, Schubert, os dois Strauss, Johann e Josef. Um rendilhado musical de muito apetite, isso sim. E a simplicidade de Francisco Lima Santos tangendo o violino foi momento emotivo. Lá atrás, o jardim e as árvores iluminadas, verdes de brilho cetinoso e folhudo em fundo nocturno. A meio, um enredo de claros ramos e finíssimas hastes despidas lembrava gravuras de ramificações dos vasos sanguíneos no corpo humano. Seria apenas uma árvore de folha caduca a destacar de copas frondosas. Ou o anúncio de morte vegetal. Ou eu a inventar que me sinto acompanhada. Por quem mais sabe de música que eu e por quem nunca ouviu nem vislumbrou um violino ou uma harpa e  tanto os gostaria. Quem sabe, estão ali comigo e vêem e ouvem, que o volume do que sinto não é de uma pessoa apenas. Não é. Mas isto penso eu agora. No momento não penso, nem sei quem sou, talvez folha a balançar na brisa que faz de mim o que quer.
E depois veio uma sereia mas sem cauda de peixe e portanto muito mais agradável ao olhar. E cantava como elas, encantatória. Vestia a sua pele de escamas luminosas e era sexy e de fosforecente exuberância como convém no Ano Novo, uma alcinha de nada, só um fio brilhante a rasar o redondo do ombro. E cantava. Como é que um ser que canta assim, é simultaneamente tão tudo no lugar que alguém num murmúrio de inveja embevecida, “a silhueta é perfeita”, pois não sei, os milagres acontecem. E declinava conjugações de notas difíceis e em escada com a mesma facilidade com que eu digo qualquer palermice. Uma excelente soprano, mulher linda e de calendário. Mas no dia seguinte já não cantou (olha a sorte que tive) e ninguém me tira da cabeça que não foi por via da frescura da pele de escamas sinuosas. Constipou-se é o que é.
  

sábado, 1 de dezembro de 2018

Ode Marítima


A insinuar-se por dentro da música, emergindo do fundo dos mares e oceanos, o unívoco chamamento das sereias, coral encantatório de seres  que se não viam mas dobravam com seu mel a vontade dos homens e o leme dos navios. As ambíguas sereias prometendo o que nunca poderiam dar e, quem o sabe, a alimentar a sua meia humanidade na breve ilusão do canto. E havia o actor que se agigantava na mudez da orquestra, “”eia, eia...” e Fernando Pessoa contente de ser dito em plenitude e entusiasmo lúdico da modernidade. Pessoa pacato e sisudo, que escrevia odes orgiásticas e tão cheias de barulho; e que, portanto, os heterónimos. Tal excesso não lhe cabia, necessitava mais gente.
E as duas harpas soando em brincadeiras e risos de água menina, amplexos de mar no casco balouçado dos navios. Abençoadas as mãos das harpistas, Penélopes do som a entrelaçar mansamente cordas e dedos, num quadro de beleza orgânica. Perfiladas atrás das cordas, espargem séculos de estética involuntária. E no nublado desenho da sua atenção, a sabedoria das mãos faz nascer rios e mares felizes.  Para nós ficou uma doçura de sentimento: o gracioso perfil, a contida delicadeza do gestos e a magia criada.
Lorenzo Viotti, o de sempre. Uma juventude de excepção que não reconheci. Pensei mesmo se seria uso dos maestros calçarem sapato de verniz brilhante. Da imagem romântica de maestro barbado e bonito resta o maestro bonito. Cortadas barba e cabelo, mantém-se esguio e empolgado. Um virtuoso original.
Já em casa, li que a concepção do espectáculo foi de Lorenzo Viotti, o actor era João Grosso e a abertura musical fez-se com, “La mer” de Débussy. Confirmado: a música deixa-se ler.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ode Marítima


Não sabia o que era a Ode Marítima. Quer dizer, não é preciso ser um expert para saber, é um poema de Fernando Pessoa, figurado no heterónimo Álvaro de Campos. E esse foi o meu motivo para o espectáculo. Comprei bilhete e porfiei por  não saber mais. E ponto. Surpreende-me ó Ode Marítima!
E foi isso, um límpido arrebatamento. Tão arrebatado que nem sequer me lembro onde me sentei ou quem estava a meu lado (os meus arrebatamentos são isto, tiram-me de mim; esvazio, à força de me encher deles). Aconteceu como nos filmes, um tu-a-tu, uma proximidade íntima e adesiva, coisa de não saber se a minha cadeira se deslocara para o palco ou ele viera até mim. E ó  Ode Marítima, ainda bem que te escolhi.
Tudo começou com a minha entrada ao rés da hora, sem tempo para comprar aquele panfleto informativo sobre o concerto (desculpas, jamais o comprei) ou ouvir sequer um comentário. Estranho. Havia um indivíduo no palco, pacato e sentadinho. Desligado da plateia, lia um livro ou fingia lê-lo enquanto na parede do fundo, descaradamente, passava uma cara: mais de um metro que ora ria, ora ficava séria, ora nos olhava. Não que fosse feio – o exemplar masculino –, mas desconfiei. As luzes já na semi penumbra a indicar início de espectáculo. Da orquestra, nem rasto. Mau. De súbito, a cara desaparece, o fulano do palco levanta-se, vem à boca de cena e começa a declamar pedaços – graaaannndes pedaços – da Ode Marítima. E um fundo de água cantante, água correndo por dentro e por fora; posto no interior da Gulbenkian, o saltitar do Tejo em remançosos dias. E eu pasmada de maravilha. A adivinhar o actor na colocação da voz, a reparar que o rosto de metro e meio era o seu, a sentir que a voz dele não era só dele e de Pessoa, era minha, eu palpitava nas palavras, no canto da água, na suavidade ondulada e transparente da sua cadência corrente. E depois, não sei como aconteceu, mas há-de ter sido por magia que estava lá e não dei por entrarem, a orquestra já sentada fez nascer uma melodia deslumbrante, tão depressa cheia de gotas cristalinas e praias de água azul, como em  descomposta procela. E juro que ali vi o esforço dos marinheiros da vida dobrando seus cabos das tormentas, e assisti aos naufrágios, braços gritando a amplidão do medo, gente tragada pelo abismo, dobrada pelo terrífico oceano  que, cego de raiva,  alteava forças.
(cont)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Flores Sem Tempo


Nada é mais prazenteiro que receber amigos. Não amigos de falsete ou daqueles que existem em grande quantidade: ah, essa/esse é meu amigo; então não conheço, é minha amiga; sei quem é, é meu amigo, já estive com ele numa festa. E os amigos do facebook ou outras redes sociais são perversão de sentido; e, portanto, não se aplica. Depois, há aquelas pessoas que com razão e ciência reconhecem que existem vários graus de amizade (incluem-se no grupo que tem muuuitos amigos, um conjunto por patamar). Mas, fique claro, cada um tem direito aos seus princípios de amizade; se é aceite e os respeita, não é mais nem menos que ninguém.  
Falo de amigos do peito, aqueles seres que não se escolhem mas se intuem, que acertam connosco e nós com eles e tal maravilha nos emudece a vida toda. São de confiança e amor, absoluta discrição, apoiam-nos de gosto e, na decepção, apenas afloram os mínimos. Há a inevitabilidade de serem poucos, mas, gente sem este elo, manca do coração e não raro desequilibra.
Receber um amigo é esperá-lo desde a véspera ou antevéspera a preparar o lugar de recebê-lo qual pai que alberga o filho pródigo: em festa e de braços abertos, com banquete a seu gosto. Os amigos trocam prendas e cada uma é certeza no gosto do outro. Enquanto estão juntos, fazem confidências e passam um ao outro a didáctica de viver: truques domésticos, dicas quotidianas, pequenos nadas de quem se importa e cuida ternamente. A sua natureza é de silêncio e de palavras. Em tudo que fazem, o que mais sentem é o agrado de estar juntos. O tempo de estar é sempre breve e alegre, sejam dias, horas ou semanas. E nisto se distinguem dos amantes. Os amantes sofrem, por vezes desesperadamente, a separação; sentem a pena do afastamento desde que se encontram, o relógio um algoz impiedoso. Os amigos, não. Os amigos fruem-se sem relógio e sem os ímpetos do corpo que atiram os amantes um ao outro como partes da mesma peça. O prazer da amizade arma-se de gestos que não chocam com a febre do tacto e são um bem difuso e geral de corpo e mente.

trazias o sorriso vivaz dos dezasseis anos enleado no teu vestido amarelo e  os teus olhos derramavam sobras de sonho jacente. Mas, na fracção do nosso abraço, por um instante, fomos inteiras as mesmas garotas crentes.”

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Apontamento


Neste mundo de bloguers e blogs, em alguma hora sai um post sobre livros e sua importância. Pelo menos uma ou duas vezes no ano, vêm ao rol.  E não há quem duvide, os livros importam. Este ano, no Dia Mundial do Livro fui ouvir dois escritores de romance histórico. E, claro, logo veio um aborrecido de serviço, micro em punho e câmara de filmar, a perguntar-me o que era para mim um livro. E eu longe de anuir. Mas não pude deixar de ouvir a resposta de alguém próximo (o chato não desconvencia facilmente). Talvez levada por uma quase obrigação de honrar o lugar onde estávamos, a pessoa dissertou sobre as variadíssimas utilidades do livro sem responder ao que lhe foi perguntado (o que é para si um livro). Como gostamos de mostrar o que sabemos! Neste caso, como noutros, o acento na erudição fez perder o essencial. Somos uns burocratas da mente. Será erro de educação, não quero crer que congénito.
Nesse dia, telejornais, programas da tarde e da manhã, na TV e na Rádio, falaram de livros. Várias pessoas afirmaram que um livro é um amigo. Ora bolas. Mas esta gente não distingue um livro de um amigo?! Ou sou eu que estou maluca e um livro é mesmo um  amigo.  Talvez me faltem parafusos, é verdade. É que para mim um livro nunca foi, e duvido muito que venha a ser, um amigo. Os meus amigos são gente de carne e osso. Que ri, chora, diz coisas bonitas e também corriqueiras, tem família que não é minha e vive com ela e os seus problemas. Qualquer amigo meu é uma pessoa normalíssima, mas por essa relação de peso, é para mim um ser único e original, ninguém lhe chega aos calcanhares ainda que muito tente. Sei em cada um até onde posso confiar.
Ora um livro não é um amigo (e se gosto de ler e me sinto mal sem um livro por perto). Tenho livros que jamais darei. Uns porque são livros extraordinários e outros porque são bons sem serem extraordinários e me dão o espírito do(a) autor(a), cujo se me torna simpático. Mas é que nem o melhor livro chega sequer aos pés do meu pior amigo. E jamais eu trocaria a leitura de um livro por algum tempo de amizade. São valores não permutáveis, regiões demarcadas mas diversas que me repugna pôr no mesmo prato.
Portanto, não ofendam nem os amigos, nem os livros. Deixemos que o livro permaneça como objecto estimável e imprescindível. Provavelmente penso assim porque também não me lembro de livro que me tenha sido bússula, de frases escritas que tenha seguido, de máximas retidas para aplicação prática. Devo-lhes muito e muita hora bem passada, mas  amigos meus não enfileiram em amorfa estante.
Aí está: mais um post sobre o livro. E não respondi eu ao fulano do micro.

domingo, 6 de maio de 2018

Dia da Mãe

06 de Maio de 2018




“Por que as mães vão-se embora/ Mãe não tem limite, é tempo sem hora/ luz que não se apaga quando sopra o vento...”.  Li este anúncio de tragédia cósmica  para aí aos quinze anos ao folhear o livro de português de um explicando.  Aos quinze, a gente lê e julga que o poeta escreveu para nós, acredita que não há acasos e mesmo as coincidências trazem destino. Lá do seu Brasil, e sem consciência de mim, Carlos Drummond de Andrade descrevia-me a pergunta de forma tão veraz e em tão  avassaladora estupefacção que não mais a esqueci.
Anos e anos volvidos, o poeta e a obra mantêm-se actuais. Sou eu que desactualizo. Diária. De hora em hora. Minuto a minuto. Pasmo com a data, “Dia da Mãe”, as palavras de D. Natália a dançarem-me à volta, “à medida que o fim se aproxima, mais nos falta quem nos quis bem”. A sabedoria que tem D. Natália!
Que, pensando bem, era em tudo preferível que eu em cima de uma cadeira, chorosa e toda tremeliques, a mente um écran sem filme, muda de todo, a boca incapaz de aflorar uma vogal. Inútil é o eu de ser mim frente à lisura de um bloco de pedra, saudade que floresce e é para nada.
Se hoje me visses, reconhecias-me?! Tenho quase o dobro da tua idade e, excepto o sofrimento, tudo em mim é mais e mais tempo. Sobra. Excede. Nem tu ficaste, nem eu fui com as aves. Mas o amor que te tenho é ainda o mesmo da moldura. Sempre.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Memória Prévia


Primeiro vêm do fundo da gaveta biquinis exasperantes a que falta sempre um bocado; depois, procuro na memória o esconderijo das toalhas de praia e, confiante, abro roupeiros, estico o pescoço, subo escadotes. E as toalhas riem de mim que subo e desço, crente na magia que as tomou de assalto e que saltita de roupeiro em roupeiro a entornar vinagre sobre a minha paciência. À décima vez, exibem o seu estar de coisa em ingénua estridência de cor. “Enfiamos o biquini, pomos toalha ao ombro e lá vamos nós”. Nada. Neste percurso, toalhas de praia desaparecidas são aventura breve, coisa de chegar ao fim da rua. Em seguida, vem a odisseia: procurar protectores solares, lenços de papel e outros acessórios de praístas encartados. Procuro em primeira mão nos lugares mais óbvios, caixa das toalhas, gaveta de fatos de banho...e passo ao exótico, junto do saco de comida do cão, em caixas asmáticas e de etiqueta duvidosa, “diversos”. Depois, salto à parte de sótão não aproveitada onde pó e desarrumação ordenam mais que o povo em Grândola vila morena. E nada! Desisto. Dou ordem de saída. Vamos pelas mochilas, livros, jogos. Cada um busca o seu material sabendo que é só com isso que conta. É possível que o garoto leve os boxers secos perto das sandes, a água junto dos bolos, mas nada o perturba enquanto esbraceja de leve com os fechos e sua peçonha de entalanço. No fundo da mochila, o baralho de cartas convive democraticamente:  o ás de copas está enrolado sobre si mesmo, uma ou duas cartas de paus têm os cantos encarquilhados e os ouros resvalam sobre os futuros gelados que a carteira sempre aberta vai libertando. Ele, superior a pormenores, atira com ela para a boca aberta do porta bagagens, agarra num livro e senta-se no carro a ler. E o mundo pode cair.  
Nada fará voltar estes tempos. Mas, como diria Beauvoir, “Já foi bom tê-los vivido”.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O Meu Herói


Tenho genuína admiração por Sobrinho Simões o patologista portuense que estuda essa doença mázona e mesmo bera que o nosso organismo fabrica: cancro. Sobrinho Simões é o meu herói. Não preciso vê-lo, falar-lhe,...aos heróis pede-se que continuem as façanhas.  Mas dá-me gozo ler sobre ele, gosto um imenso da sua conversa em entrevistas, e jamais esqueço o à vontade e alegria quase infantil com que exibiu, a uma Judite de Sousa reticente, o recipiente onde boiava um fígado todo quilhado e a que  a jornalista contrapunha involuntária repugnância. Uma cena.
É um profissional entusiasta, dos que Portugal precisava ter às pázadas mas não tem; e por favor não me venham dizer que emigraram e té, té, té. Desta qualidade sempre houve poucos. Pronto, também imagino que seja muito inteligente e marrão, partes de ser sumidade.
E é que cada vez o gosto mais. Hoje li-o na Visão e logo o altar desmediu. O que a gente gosta de se sentir acompanhada:) A sumidade tem os mesmos medos e até os expressa de forma idêntica:  não teme morrer em viagem de avião mas o cancro apavora-o, assistiu à morte do pai – cancro no pulmão - e foi muito sofrida. Tem medo de, com a velhice avançada, emparvecer (ele diz "ficar parvo", que é o mesmo) porque a longevidade tem preço. 
Portanto, minha gente, o mais certo é ficarmos parvos com a idade e morrermos em estado de parvoíce, que cérebros suplentes não há. Claro que, muito igual a mim, o meu semideus não acha graça nenhuma à situação que pode advir num futuro próximo. Ora aí  está, Sobrinho Simões. Gastámos a eternidade que tínhamos, fazer o quê agora?!