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sábado, 26 de dezembro de 2020

Consoada

 

Pela tardinha, cheira a lume e as chaminés não se cansam de fumar. Nas lareiras, depois de escolha aturada ou guardado há meses para o efeito, afastando negrumes de alma e nódoas negras da vida, em alegria e promessas de calor e companhia,  crepita vivaz um encorpado tronco de Natal. Vê-se da rua o pisca-pisca das luzes do pinheiro sintético, um aprumo de vaidade colorida a subir-lhe pelo tronco. E, aqui e ali, sobre uma mesa ou num saco de asa aberta, espreita o glamour indiscreto de fitas e laços em embrulhos com destino. As casas deliciam na azáfama, derrete-as o calor a entranhar e o ruído de vozes no abrir da porta, rufo de tambores em prenúncio de festa.  Falta gente querida, mas o núcleo permanece intacto e imbuído pela ternura da noite que reúne a família e é santa até para os que esquecem que comemoram a festa de anos de um Deus a quem, de verdade, nada pensam ofertar. Deus Menino faz anos, a mãe, em sua casa celeste, há-de estar, amorosamente, a bater-lhe um bolo. Um Deus que nasceu pobre e indefeso como qualquer criança e a quem, em rotundo e divino sim a toda a pobreza, bastou um curral para vir ao mundo. É este Deus-bebé que festejamos desde o conforto de nossas casas limpas e aquecidas e longe do bafo de animais e do  cheiro a excrementos e feno.  No clean de penates paira o cheiro doce das guloseimas,  filhós, arroz doce, pudins e caramelo, bolos vários e delícias fofas que a batedeira pariu. E sobre ele, o vapor alentado do jantar que condensa e embacia nas janelas da cozinha.  Mas que terão oferecido os inesperados  pastores, visitas primeiras do Menino,  senão um nico da sua mão cheia de nada. Ou nada apenas, que quem corre para ver uma estrela na Terra não se arma de presentes, vai ao encontro do ignoto e terno Deus que acaba de nascer, corre sem saber a quê. Como nós.

Mas Deus nasce a cada um. Nasce talvez sob outras formas e noutras idades porque se cansa de ser sempre bebé. No dia 24, as oito a despontar com o sol, encontrei-o trôpego e friorento. Por companhia, duas cadelitas da mesma idade e a vara de tocá-las. Quando nos cruzámos, sentámos no muro por um bocadinho de nada e inquiri da companhia em noite de consoada. Ele sério, a vara a apontar os animais, “a mulher não pode vir, aqui está tudo infestado e cheio do bicho, não a quero cá”.  E rematou peremptório, “Fica com a filha, lá, está melhor”. Fiz-lhe uma festa na mão e passei-lhe um saquinho de asas. E, no silêncio friorento da manhã, Deus agradeceu com os olhos e seguiu caminho.

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Diversos

 

Julgo sempre que a vida dos outros é que tem interesse e glamour e a sua conversa é mais agradável e chama assuntos com substância em vez das bagatelas que se me gravam na mona. Dou uma voltinha pelos blogs e confirmo, têm assuntos  que me não lembram ou não sei, quotidianos que não me acontecem, muito mais habilidade que eu, partem do pormenor e criam um texto todo em ponto pé de flor, delicadeza que, repito, não me bate. Saio da net com a sensação um bocadinho invejosa de que gostava de ser esta ou aquela pessoa, cuja nem faço ideia quem seja, mas me parece de mente muito mais aberta e esclarecida que je, moi même. Mas cada um é ele e não outro. Portanto, olhem, passando por aqui, terão o remedeio da minha vida rasa, um ou outro grão de arroz a altear o quotidiano. É o que sei.

Ontem fui fazer um exame médico. E, claro, ir ao médico nesta altura de recolhimento sabe-me a passeio, coisa próxima de um extraordinário. Pois o meu grão de arroz aconteceu quando, depois de me desfardar e enfiar aquela bata amorfa que é mais ou menos um saco com três aberturas, a senhora enfermeira a sorrir, esta senhora vem a rigor. Ora eu, meus deuses, que roupa tinha. Terei feito um ar assim atoleimado porque completou, calçou meias de Natal. E foi aí que acordei para as meias  com flores e pinheiros de Natal. Achei muito próprio.

Pois hoje fui matar saudades da Violeta e da Lili que já não via há oito dias. E ficámos uns minutos a abraçar-nos como sabemos, elas a subirem por mim acima com o pêlo todo húmido e os olhos lacrimosos engastados num monte de lã cheia de falrripas a pedir tesoura  e decerto a entortarem-lhes a vista. E eu ajoelhada na beira da estrada a fazer-lhes festas e a desviar as melenas. O senhor Zé, encostado a um pau, sorria com ar bonacheirão sempre que a Violeta se atravessava na frente da Lili para que me não chegasse. É uma ciumenta, a Violeta. E dizia o velhote, uma semana ham…uma semana…e eu a mentir, tive umas coisas para fazer. Eu que não entendo porque sou às vezes tão estúpida e me nego estes pequenos prazeres matinais. Terei alguma costela masoquista. Há muito ano, li numa revista que Jane Fonda, quando a idade a começou a alargar um bocadinho,  para afinar de novo a cintura tirou as costelas flutuantes (cada vez que me lembro que tenho costelas flutuantes fico satisfeita da vida); cá por mim tirava a(s) costela(s) masoquista(s) e já está, nem era preciso pôr cinto para verificar, ficava logo, digamos, mais operacional. E hoje, só hoje, chegou o ar do Natal. Era um friozinho fino a infiltrar e dizia-me o senhor que passeia um cão que também já me conhece, arrefeceu. E eu que fico contente se há frio e estou agasalhada, apressei-me a acrescentar, e vai piorar. Isto, com o ar satisfeito de quem pensa, agora é que vai ser bom.

E já vai sendo tempo de deixar aqui o meu desejo sincero de Bom Natal para todos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Visita de Natal

 

Ganhei mais um livro. É verdade que o esperava e portanto já são três, uns sobre os outros. E ainda aguardo um ou dois.

É deveras insólito ver chegar os amigos de máscara e senti-los depois preocupados e   a isolarem a respiração se estamos próximos. Ninguém quer contrair o vírus e ter a doença para que não há antídoto, todos enxotam a morte como podem, xô, xô, xô. Estranhos tempos vivemos. À mesa, como que nos esquecemos de precauções, mas notam-se as incómodas paragens na conversa que deixou de ser palavrosa, há hiatos de silêncio, espaços brancos a decepar a naturalidade. No pós almoço, sou informada acerca do presente, mostram-me os projectos futuros no portátil, negócio pronto a ser lançado ao mundo digital e  que o vírus não impede e talvez potencie.  E gosto de ver gente assim, como deve ser, que não baixa os braços e é actuante e vivaça.  Gente que descansa mudando de actividade.  Depois…bom, depois lanchamos, que as leis do confinamento os querem cedo em casa e a idade ajuda a puxar cada um para o ninho. Constato que o vírus é mal estar que não previ, mas existe até sem ser nomeado. E saem. Quiçá aliviados e temerosos.


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Luzes de Natal

 

O serviço de correios já me trouxe a prendinha da minha amiga A, amiga de alto gabarito, um A+. Foi a primeira e está no meu quarto sobre a cómoda, entretida a emitir sugestivos desafios a que faço orelhas moucas. Diz ela a toda a largura do papel de embrulho, espreita só, não precisas abrir tudo. Sei que é um livro e de que autor, só não sei o título e faço questão de continuar a não saber para que haja algum suspense no desembrulhar. Mas é claro que a verdadeira surpresa está em lê-lo e é esse um dos motivos por que gosto de receber livros, são prendas com expoente, eu elevo-as ao quadrado. Isto apesar de não ter lido vários que comprei na Feira do Livro e alguns que recebi no aniversário. Se o maldito vírus passe de lado, vai ser um inverno erudito.

A tem gosto e modos delicados, voz profunda e canta muito bem. Faz parte de um grupo coral e, por vezes, vai buscar o livro das músicas e põe-se a desfolhá-lo trauteando uma aqui e outra ali, enquanto eu vou enfiando esses momentos no colar de recordações comuns. Há horas em que as boas recordações valem em dobro, acodem-nos. Gosto de sua casa por tudo, mas não aprecio o inverno na casa.  É uma moradia luminosa, arejada e, muito importante, tem bom ambiente. As flores gostam tanto do ar que ali se respira quanto eu. Crescem e encantam. Ofereço-lhe umas coisinhas minorcas e quando regresso estão irreconhecíveis, prosperaram no encanto do lugar e vivem ali a contento, sorrindo confiantes, braços abertos. Às vezes entra-me certa inveja da simplicidade floral. Flor não pensa e vive de luz, terra e água.

 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Estranheza

 

Vem por aí um Natal atípico. Mas, liga-se a tv e nem parece.  Como em anos anteriores, já começou a publicidade massiva a perfumes e joias, os supermercados exibem as iguarias da quadra a preços desafiantes; um publicitário de excepção consegue ressuscitar o espírito natalício e apetece participar da ficção, sentarmo-nos à mesa familiar que ali se vê. Mas também às ruas chegou o natal. As autarquias apressaram-se a enfeitá-las e brilham iluminadas por mil cores, talvez na tentativa de alegrar o espírito de quem as percorre. E há gente que não se demora, as mãos ocupadas pelos sacos de compras, quiçá na pressa de cumprir confinamentos impostos de fora e de dentro, que os internos não são de menor rigor. Todos assistimos à azáfama das compras. No Porto. Em Lisboa. E todos reparámos na falta de entusiasmo de quem anda este ano na rua em busca de presentes.  Onde se terá metido a descontracção de flanar de montra em montra na procura do que mais possa agradar aos outros. Que é da nossa disponibilidade sentada num café a apreciar os passantes carregados e felizes. Onde o vagar de nos sentarmos a ler pedaços de um romance e de outro, a fim de escolhermos o que mais se adequa. Hoje fazemos compras de Natal com má consciência, apressados, em exercícios de toca e foge, quase como ladrões inexperientes.  

Estamos à beira da vacina. À beira de um novo ano. À beira de ficarmos ainda mais pobres e endividados. E tanto desejamos recuperar a vida como a conhecemos.

domingo, 29 de novembro de 2020

Prendas de Natal

 

Ficaram-me as mãos. Revejo como em quadro vivo a eficiência de falanges, unhas e polpa de dedos em dobras e vincos, clareando aberturas à medidas das saliências do papel. As mãos dando forma à embalagem. Depois, a virtude do cálice a encaixar na ranhura, o impo de orgulho no balão de vidro brilhante e muito direito, em espera. E a garrafa meio bojuda a emparelhar, vidro fosco de um azul escurecido. Tudo exacto e sem folgas, acondicionado por tampa a preceito e encerrado na montra da embalagem selada por distintivo da marca. Depois, o remate em saco próprio.

Fazia frio na destilaria. Espreitei os barris de moscatel onde estagiava determinada espécie de gin, ela elucidando sem descurar a agilidade em dobras e vincos, vamos buscá-los à cooperativa acabadinhos de servir ao moscatel de Setúbal e produzimos um gin original na cor e no sabor que, sobretudo os setubalenses, consomem com agrado; é um gin novo, experiência que deu certo.

 Tenho já dois sacos fechados na minha frente. Enquanto ela dobra e encaixa, cirando entre os reservatórios. Há os que estão vazios e os que trabalham em silêncio de produtiva fermentação. Datam da confecção, os silêncios do vinho. Miro um ou outro já pronto para a garrafa e respeito o  segredo que ganha espírito na maioria. Perscruto-os sem invasão. Estão uns ao lado dos outros. Parecem inócuos. Quem sabe as boémias alegrias que irão provocar. Ali, ocupados a encorpar de aroma e sabor, crescem em definição, criam identidade. Ignoram o futuro de festas e confidências onde morrem alegremente; os pesados silêncios alcoólicos que poderão causar; a mostra de felicidade aquecida que provocam; que indiscretas tristezas chamam sem necessidade; as presenças que trazem e incomodam; a coragem que dão ao bebedor; paisagens de possibilidade que pintam em telas de impossível; o remanso e agrado que trazem no fecho de um dia de trabalho. Tanto não sabem. E continuam a crescer e endireitar cabelo. Uns dentro de um mês, outros a seu tempo, soarão peremptórios ao paladar, como militar a apresentar-se ao superior, sou x.

Entretanto, ela já enfileira os sacos no balcão. Pago. Sorrimos as duas desejando-nos um bom Natal. Que os meus quatro cavaleiros do apocalipse apreciem a oferta e, em cada um ela participe ou seja causa de bons momentos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A principessa

 

Conheço-a desde a barriga da mãe e tudo que dela sei está nimbado de ternura. Vejo-lhe ainda o riso a derreter em dentinhos de leite; a graça dos três anos num aniversário de vestido aos quadrados; o medo do escuro e o subsequente choro se a luz de presença falhasse; a originalidade do  petit nom  que dava à mãe; a graça de caminhar em bicos de pés; o seu rostinho bonito no vidro do carro, a mão acenando adeuses por mais uma semana longe de mim. Na família, é a princesinha, uma mulher entre homens, bijou ternurento de primos e irmão.

No Natal, ano após ano, ofereci-lhe livros e chocolates. Fecha-nos à verdade a mania de que aqueles de quem gostamos se nos assemelhem em  preferências. A princesa lê com menos afã que eu, e, no ano passado, saltou-lhe confissão espontânea, “ainda bem que não é um livro grande”.  Não lhe contei a verdade, andava a tricotar uma prenda, mas os problemas nas mãos deixaram-me o trabalho pela metade e, de novo, recorri ao livro. Este advento recomecei a tarefa e oxalá não repita o desfecho. A fim de o evitar, ontem comprei o licor que prefere e que pode substituir o livro que nem sei se lê. Ok, os apologistas dos livros estão piores que barata, mas isso não me interessa nada. A esta altura do campeonato, vou progredindo lentamente nos trabalhos que tenho em mãos, e a tentativa é chegar ao fim de cada um. Contudo, começo a criar alternativas capazes de me retirarem o stress de última hora se os não conclua.

Como é norma dos que crescem, nasceu-nos certo muro invisível que me retira do seu mundo de confidências. As visitas foram esquecidas e só ocorrem em caso de doença, anseios e projectos não me orbitam. Ignoro a concretude da sua vida e o segredo dos romances que vive. Mas habita-me os interiores na mesma plenitude de sempre, o amor que damos não tem necessariamente de ser igual ao que recebemos; descansam-me os desabafos gratos da mãe e agrada-me o laço estreito entre ambas e a boa e atenta  conselheira em que se tornou. Faz-me bem notar-lhe a figura gentil: rosto limpo, olhar sereno e alegre, riso pronto em boca perfeita. Dizem que se parece comigo em certas particularidades de carácter, esquece-se do pente nos cabelos, é desajeitada e simpática. E agora desculpem, mas vou dar mais um avanço na prenda de Natal a que não sei determinar ano😊.

Já passámos um Natal sem a princesa. E não foi a mesma coisa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Uma Luz de Natal

 

Era colega no colégio particular onde me iniciei formalmente a ensinar crianças. Por um acaso feliz, inscrevemo-nos ambas no ensino nocturno e, depois do dia de trabalho, todas as noites saíamos para as aulas. Nesse ano de RGAs (reuniões gerais de alunos) frequentes e muito barbudo a fazer o ponto da situação, desábito que impressionava um bocadinho, lá íamos no final da  tarde a caminho da escola, uma freira gordita enfarpelada no hábito e uma garota magrinha e vivaça. Nunca então pensei nisso, mas éramos um par e tanto. A escola nocturna trazia-me alegrias conhecidas; punha de parte o que estava mal e, por via de novos contactos e novas matérias, vivia horas de diversão e entusiasmo. Quase sem darmos conta, nascia-nos a amizade sem terminus que a morte há-de separar. Cada uma mergulhada na sua condição, no colégio pouco nos encontrávamos. Porém, as idas e vindas do liceu igualavam-nos e davam-nos tempo para confidências e todos os pequenos nadas femininos. Jamais a encontrei diferente de mim e nunca se fez rogada ou escusou a qualquer assunto. Perto das 23,30h chegávamos ao colégio mergulhado em silêncio e separávamo-nos para jantar, eu na cozinha e ela no refeitório das irmãs. Até que, certo dia, arriscou o convite, pegar no prato e acompanhá-la ao refeitório que me era vedado. Havia de tudo e nem sequer os nossos jantares eram iguais. Delicada, afirmava-me que comia diferente por ter dieta. Mas o que me interessava era mesmo o acesso a compotas e frutas a que não tinha hábito, de modo que me dava ao luxo de sobremesas mais compridas que lençol. Na minha alegria de estar em infracção consentida - o refeitório das irmãs fazia parte do mundo secreto e só delas -, falava pelos cotovelos e ríamos bastante com ela sempre a aconselhar, fala baixo, fala baixo. É claro que não tardámos a ser descobertas. Uma noite a irmã ecónoma desceu, e viu-me em território sagrado. No dia seguinte foi-me proibido o refeitório das irmãs. Então, a minha colega trouxe o seu prato para a cozinha e passou a fazer-me companhia naquele desconcerto de tachos e panelões em espera, um mundo pasmado de aço e inox aguardando  luz e horas que lhes trariam mãos e serventia. E, quando ia buscar a fruta à salinha das irmãs que me fora vedada, trazia-me sempre um ou outro doce, uma ou outra peça de fruta que já sabia ser do meu gosto. E ríamos as duas de assim ludibriarmos a ecónoma que nos tinha descoberto ( estava certa de que a minha amiga levara uma descompostura em ângulo recto). No final do ano separámo-nos, ela tirou o curso em Évora e eu em Lisboa; andámos por aqui e por ali. Fomo-nos escrevendo de longe em longe. Até que aterrou no colégio da minha terra e ficou durante trinta anos. E isso aproximou-nos qb. Quando mudou de casa fiquei apreensiva, as adaptações tornam-se mais difíceis com a idade. E nunca esquecerei aquele gesto simples de prato na mão, a entrar na cozinha onde comíamos de pé. Hoje vive no lar da congregação, as freiras idosas devêm estorvo para quem está no activo. Mas não esqueço os dias em que me ia esperar ao comboio na estação de Cascais. Depois, havia uma tarde inteirinha por nossa conta e eu fazia o que sabia ser da sua preferência, irmã, almoçamos no Centro Comercial? E gostava de assistir aquele bem estar de comer pizzas ou coisa parecida, de lhe comprar um agrado, de andarmos de montra em montra e ela passarinho fora da gaiola, contente de tudo, que bem que eu me sinto aqui. Agora, o covid proíbe-lhe qualquer visita ou saída e temo pela sua sanidade mental, num lugar em que só três pessoas - contando a directora e ela - são capazes de uma conversa. Ontem seguiu a minha primeira prenda de Natal. Não tenho a certeza se será a única, mas pode que a anime.

Bem haja, irmã.

domingo, 22 de novembro de 2020

Preliminares

 

Li num blogue o desabafo de pessoa que toda se emperiquita para ir ao cinema ou comer fora. Isto, é claro, por mor da pandemia que nos tem vindo a tirar quase tudo que implique sair de casa. Ela tem a sorte de poder frequentar cinemas.  Acredito que o saiba e daí  vestir-se a rigor. Eu visto-me para ir ao super e ao médico, não bem a rigor, mas com espírito rigoroso. E ali vou eu de ponto em branco. Sobretudo para o médico, sempre o passeio é maior. Mas não era disto que vinha falar. Pronto. Saiu e também não estou para deletar.

Tinha em mente escrever sobre o Natal que se avizinha e não vai parecer-se com coisa nenhuma. Mas enfim. Este ano, já decidi, não enfeito a casa. Não haverá a ceia de Natal familiar e o mais provável é que tudo permaneça quase igual a todos os dias da pandemia. Quanto aos doces, azevias não as encomendo, dado que não há visitas e não posso comê-las; a torta de chocolate que a sobrinha prefere não tem cliente; para a tarte de pinhão faltam os meus clientes privados e dilectos; o doce de ovos e caramelo não tem a mana mais nova. Vai faltar-me o primo que chega de longe e os sobrinhos com a vivacidade e o bom humor que lhes conheço e que hão-de estar sabe Deus onde. É tristeza que nem precisa de se anunciar, já existe. No blogue não vai haver o Calendário de Natal. E este acumular de faltas amorfa-me os ânimos e entendo cabalmente os que desejam que o Natal passe depressa. Neles e por eles fala a tristeza que aponta os desconchavados  buracos no horizonte pessoal. E eu, Beatriz, vou esquecer o Natal? EU??! Mim?! É que nem pensar. Tenho uma listinha de pessoas a quem, à medida que for comprando e enviando - ou entregando em mão - dedico um post, umas palavras.  Porque, mesmo já não sendo propriedade dos portugueses, os correios ainda existem e nos servem. E eu adoro escrever cartas e dar prendinhas. Portanto, se por aqui apareça uma madame x, um sujeito z, uma garota Y, já sabem, são os meus duendes de Natal. Tratem-nos bem, dêem-lhes guarida, eles são os seres queridos e primordiais que fazem  a alegria da minha quadra.  Por motivos vários, merecem a minha atenção.

Tenho dito. Fiquem com os vossos anjos (da guarda).