Pela
tardinha, cheira a lume e as chaminés não se cansam de fumar. Nas lareiras,
depois de escolha aturada ou guardado há meses para o efeito, afastando
negrumes de alma e nódoas negras da vida, em alegria e promessas de calor e
companhia, crepita vivaz um encorpado
tronco de Natal. Vê-se da rua o pisca-pisca das luzes do pinheiro sintético, um
aprumo de vaidade colorida a subir-lhe pelo tronco. E, aqui e ali, sobre uma
mesa ou num saco de asa aberta, espreita o glamour indiscreto de fitas e laços em
embrulhos com destino. As casas deliciam na azáfama, derrete-as o calor a
entranhar e o ruído de vozes no abrir da porta, rufo de tambores em prenúncio
de festa. Falta gente querida, mas o
núcleo permanece intacto e imbuído pela ternura da noite que reúne a família e
é santa até para os que esquecem que comemoram a festa de anos de um Deus a
quem, de verdade, nada pensam ofertar. Deus Menino faz anos, a mãe, em sua casa
celeste, há-de estar, amorosamente, a bater-lhe um bolo. Um Deus que nasceu
pobre e indefeso como qualquer criança e a quem, em rotundo e divino sim a toda
a pobreza, bastou um curral para vir ao mundo. É este Deus-bebé que festejamos desde
o conforto de nossas casas limpas e aquecidas e longe do bafo de animais e do cheiro a excrementos e feno. No clean de penates paira o cheiro doce das
guloseimas, filhós, arroz doce, pudins e
caramelo, bolos vários e delícias fofas que a batedeira pariu. E sobre ele, o
vapor alentado do jantar que condensa e embacia nas janelas da cozinha. Mas que terão oferecido os inesperados pastores, visitas primeiras do Menino, senão um nico da sua mão cheia de nada. Ou
nada apenas, que quem corre para ver uma estrela na Terra não se arma de
presentes, vai ao encontro do ignoto e terno Deus que acaba de nascer, corre
sem saber a quê. Como nós.
Mas
Deus nasce a cada um. Nasce talvez sob outras formas e noutras idades porque se
cansa de ser sempre bebé. No dia 24, as oito a despontar com o sol, encontrei-o
trôpego e friorento. Por companhia, duas cadelitas da mesma idade e a vara de
tocá-las. Quando nos cruzámos, sentámos no muro por um bocadinho de nada e inquiri
da companhia em noite de consoada. Ele sério, a vara a apontar os animais, “a
mulher não pode vir, aqui está tudo infestado e cheio do bicho, não a quero cá”.
E rematou peremptório, “Fica com a filha,
lá, está melhor”. Fiz-lhe uma festa na mão e passei-lhe um saquinho de asas. E,
no silêncio friorento da manhã, Deus agradeceu com os olhos e seguiu caminho.