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domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)

domingo, 23 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Sem que ela o soubesse, havia entre nós um elo secreto. Bastava ouvir-lhe a voz e já pensava em minha mãe, alguma coisa de mavioso e comum lhes passeava pelas cordas vocais. Acertavam-se ainda na inata percentagem de delicadeza e bondade. O rosto da senhora costureira, amarrotado de rugas, tinha o toque de papel de seda. Vestia de negro cerrado (lenço e tudo) desde que a única filha lhe morrera de cancro.

        Conheci a filha antes da mãe. Jovem de beleza delicada, olhos de Audrey Hepburn e mãos de fada (aprendia a bordar), encantava-nos vê-la debruçada sobre o pano, a agulha indo e vindo na sua mão pequena, a outra atida ao bastidor, simétricas na elegância de dedos e unhas ovaladas; ainda sei a forma como cortava as linhas do bordado, usando tesoura pequena de bicos revirados e que eu julguei anómala até ouvir a explicação. E petrificava a mirá-la em vez de tentar o ponto pé-de-flor que me aborrecia de morte e antes admirando o crivo que lhe nascia em cadência segura, num diálogo entrosado entre mão e pano, auxiliados por agulha, linha, tesoura e bastidor; recordo-lhe o rosto inclinado e levemente penumbroso, a ondulação ligeira do cabelo moreno sempre presa do lado esquerdo com um laço de fita. Além da beleza, a garota tinha certo ar seráfico e parecia-me tê-la visto num santinho da caixa de minha mãe; ainda não me existia Audrey Hepburn, que, nesse âmbito, dava dois-zero a Santa Maria Goretti.

        Tudo se concentrou nas sessões de bordado que juntavam várias raparigas e aconteciam durante a tarde; ora as gaiatas da escola, terminadas as aulas, juntavam-se ao grupo e tentavam pontos fáceis no que então se chamava de “Centro Social”. Saindo a porta, eu desatava a correr com o objectivo de a ouvir cantar. Minha mãe raro cantava fora da igreja e voz como a dela, mas cantando pagão, jamais ouvira. Se puxar pela memória não recordo mulheres cantando; tampouco raparigas; lembro-me de rapazes que assobiavam modinhas simples e de alguns homens tocando em gaita de beiços. 

         Para minha mágoa, e contrariando o meu desejo, existiam tardes em que chegava e já o canto terminara. Entristecia. Nos dias em que a sorte se plantava do meu lado, depois de muito instada pelas demais jovens (tímida, a garota), ouvi-la era o cume da perfeição. Sempre debruçada para o trabalho de mãos, levemente ruborizada, siderava-nos o encanto daquela voz abençoada. Envolvidas pela melodia sentíamo-nos elevadas a um mundo melhor, mergulhadas em sonho e mansidão, aspectos a que o nosso quotidiano era estranho. Uma vez li que um ateu se tornou contrito católico depois de entrar casualmente numa igreja e ter visto uma garota rezando. Ora creio que todas as que escutavam tão belo canto sentiam o impulso de um mundo de beleza; a voz de Inês era chave que abria em cada uma de nós portas ignotas, desde sempre presentes. Inês não era bem da minha terra, dizíamos que vinha “dos foros de cima” e não me parece que alguma vez tenhamos “chegado à fala”. Nós éramos a revoada de crianças que, em alarido, invadia a aula de bordados; elas eram raparigas, por vezes imersas em inesperado segredar, sorrindo cúmplices não sabíamos de quê, o que sobremaneira nos irritava um bocadinho – podiam estar a rir de nós. Inês como que pairava acima desse secretismo cúmplice e feminino que lhe invejava a pele de porcelana fina e a figura estilizada que desprendia pureza e fragilidade. Criança desvairada, decerto lhe senti a diferença já que me parecia uma rapariga inventada, aparecera de repente, encantara-nos, e um dia, sem explicação, desapareceu.

(cont.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Pronto, podem dizer que, no princípio, as telenovelas eram de qualidade superior, que com elas se deu a renovada descoberta do Brasil, que os actores eram soberbos, que os textos bem interpretados criavam o suspense necessário, que a novidade conquista por si mesma, etc. Tudo verdades indesmentíveis, o etecetera incluído. Mas é que me parece que do lado do espectador também houve mudança. Que olhar é o nosso sobre a TV?! Pois é, julgo que reina o futebol e seus conjuntos de andarilhos, entre jogos, comentadores, telejornais longuíssimos que, é claro, também abordam o futebol, mais os canais clubísticos que não vejo nem de raspão, mas é possível adivinhar o assunto. Sou das pessoas menos adequadas para comentar os temas televisivos, cujos, efectivamente, não vejo. Os canais de notícias – onde há telejornais a todo o momento – repetem novidades, entrevistas e vídeos vezes sem conta. E eu que até sofro de alergia a telejornais e ando a leste de quase tudo excepto guerras, fogos, refugiados, futebol e os tristes manda-chuvas do mundo, dou por mim a pensar que já sei coisas demais e que é provável que quem papa as notícias como galinha a milho, não saiba muito mais. Ou sim, mas de pouco serve. É evidente que falo do comum mortal e não de profissionais da notícia. Quase parece que incentivo ao desconhecimento, mas existe – posso enganar-me – excesso de informação sempre a mesma e que não induz à acção. É a banalidade de tudo e não apenas do mal, embora este se revista das mais nefandas consequências. O apelo à carneirada permanece e é bem sucedido

        Em contraponto, lembro uma senhora costureira que conheci e me chamava de menina Bea, deferência que, à época, era a única a utilizar. Conversávamos bastante enquanto me costurava mangas e alinhavava cós de saias. Chegada na minha acelera, ela abria a porta e punha as mãos na cabeça, ai menina Bea que me esqueci que era este sábado e não tenho as suas coisas em prova. Eu nem sempre sorria, mas voltava a montar o meu cavalo a gasóleo (ou seria gasolina?), andava mais uns quilómetros e visitava minha mãe em sua silenciosa morada. À volta, ainda ela ia a meio, mas preferia esperar. E “metíamos conversa” enquanto ela, sentada na cadeira da máquina de costura, dedal no dedo, ia alinhavando bocados de pano uns aos outros e eu escolhia um dos banquinhos baixos das aprendizas. Mulher mais infeliz não conheci. E tinha do mundo e dos outros a melhor opinião. Jamais a ouvi queixar-se de alguém. Para a sua alma cândida todos eram boa gente e em tudo via algo bom. A propósito da televisão que não tinha, calhou uma tarde de sábado dizer-me enquanto os pontos me enformavam a roupa, Olhe menina Bea, eu gosto muito da televisão. Nunca vejo, mas às vezes vou aqui ao lado a casa do meu filho Manuel dar um recado ou saber se está tudo bem com eles e estão a dar anúncios. Que coisa tão bonita! Fico encantada a vê-los, as pessoas falam tão bem e são tão agradáveis, aquilo é mesmo bonito….nunca vi uma telenovela nem um filme, mas deve ser bom ter uma coisa assim em casa e poder uma pessoa sentar-se descansada a olhar para as histórias que contam. Falta-me tempo, a minha nora até me chama para ir ver uma noite de teatro, mas não posso. 

        Tudo lhe saía em voz melodiosa e serena mas o “não posso” ouvi-o tão dolorido e cheio de impossíveis que me comoveu. Talvez ela não o soubesse, mas era-me fácil imaginar a carga que a amarrecava. Difícil era, conhecendo-lhe a vida, compreendermos o brilho interessado do olhar e a genuína alegria da sua alma simples no deslumbre do quotidiano alheio.

(cont.)

domingo, 9 de agosto de 2026

Cronologia dos Domingos

 

        O domingo nem sempre foi este marasmo aversivo. Na infância, o domingo era o melhor dia; o reverso da medalha veio vindo com os anos, teve fases como a lua, antes de se deter no eterno presente, mesquinho de tão vulgar e anódino. Nada acontece ao domingo.

        Minha mãe preparava o domingo de véspera. Banhava-nos com cuidado todo próprio, um de cada vez, a ternura subjacente à necessidade. Ao domingo dormíamos um pouquinho mais e a mãe desmanchava e refazia-nos as tranças e armava no cucuruto do mais novo/a um caracol que enrolava com o dedo e a ajuda de água e pente. Não tenho memória de ajudá-la e julgo que enquanto ajeitava o almoço ou tratava do asseio pessoal eu devia ler ou fazer trabalhos escolares. Nada sei das manhãs de meu pai e nem recordo uma vez em que tomássemos juntos o pequeno almoço. Aos domingos éramos nós e a mãe que nos enviava na frente para não haver atraso à missa. Mas ela entrava quase a meio e nós, desatentas, virávamo-nos para trás uma vez e outra, vigiando o caminho. Em mim, a função só iniciava se ela estava presente. E tanta vez lhe soube da presença pelo trinado límpido e puro da voz a prolongar os cânticos. Diziam-me os mais velhos que fora uma rapariga alegre, a quem as camaradas pediam que cantasse enquanto trabalhavam os campos. Ignoro se meu pai lhe gostaria da voz e apenas uma vez a ouvi cantar em casa. Depois, havia outro motivo para gostar de domingos, o almoço era sempre um pouco diferente, o que agradava a todos, meu pai já ressuscitado de onde quer que estivesse. Algumas tardes visitávamos com a mãe os avós maternos e era para nós uma alegria fazer três quilómetros a pé, minha mãe carregando sempre o mais novo/a. Passávamos por um pinhal para encurtar caminho e esse trecho era o mais apetecido. Além dos pinheiros penumbrosos que me lembravam os contos que lhe ouvia, onde aconteciam coisas extraordinárias em que eu acreditava piamente ainda que minha mãe fosse avisando que era só história que alguém inventara,  havia flores silvestres de beleza frágil e colorida e muita bicharada que me levava a saltos e gritos palermas: ele eram porcos espinho lentíssimos atravessando o caminho, cobras que resmalhavam soturnas a centímetros das minhas pernas, lagartos inertes na soalheira, guardando no sangue frio o calor que lhes faltava e que fugiam a sete pés mal nos pressentiam, eu saltando para trás que nem gazela assustada e a palavra mágica num berro, "Mãããeeee!"; ela sorrindo, "tonta! Eles fogem com medo de ti, andas aos saltos por todo o lado". Mas esta verdade não satisfazia os tremeliques das pernas nem o baque do meu coração amedrontado. Uma vez ou outra cruzava-nos um homem que nos saudava pedalando pela mesma vereda e fugindo às areias imensas da estrada de carroças que no inverno era uma poça só e de que nos desviávamos em cuidados de não escorregar, minha mãe dando-nos a mão à vez, a fim de a água não nos empapar o calçado.

        A adolescência, mais tumultuosa, desmanchou-me o ritmo inicial dos domingos e iniciou-me em correrias múltiplas. Contudo, tentei imitar minha mãe na sequência das funções. Às tardes visitávamos meu avô uma vez ou outra. Quando me entrou a juventude fiz os meus domingos e ainda os desejava apesar do trabalho que me exigiam a fim de aplanar a semana que não seria fácil sem eles. Abençoava-os, mas terá sido por aí o primeiro desencanto, ainda leve, um tamanho de futuro sem fim à vista.

        O casamento e os filhos, por sua própria natureza e não apenas, foram tragando a alegria dos domingos. E quando dei por tal, o domingo era o dia da semana de que menos gostava e aquele em que mais me cansava. Sem saídas e com bastante trabalho a pesar-me, comecei a abominá-lo. Ao invés da maioria, amava a segunda-feira, desejava o emprego e as horas que nele gastava. Dava-me prazer, relaxava-me falar com os colegas, ou apenas encontrá-los e observá-los na lufa-lufa quotidiana. Exceptuando os últimos anos, a profissão animava-me grandemente.

        Continuo a abominar os domingos embora já não me deixem extenuada. São dias calmos e isolados, mais isolados que os restantes. Mas vejo filmes, leio livros, tenho o tempo que faltou sempre a minha mãe. Devo ser uma sortuda, mas é que não dou por isso. Pobre e mal agradecida:)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        O polícia olhava seriamente na minha direcção (sendo benévola comigo, estaria a verificar se eu era um dos residentes). Portanto, guiei até ele, encostei, abri o vidro e perguntei, estou mal aqui? Não vejo outros carros a circular... A resposta veio em gume, a senhora não viu os pinos? Não pode circular. E eu, mas só sei este caminho...lá `a frente a circulação também está cortada? E a carranca, pois claro que está. Insisti, e agora vou por onde? E ele, agora sai e segue para a esquerda e depois de umas ruas volta à avenida. Agradeci e enquanto fazia a inversão de marcha com os olhos dele tão fixos no meu veículo como os da minha gata enquanto espera os pássaros, pensava atabalhoadamente, não posso virar à esquerda, não sei sequer que ruas existem ali (também desconhecia as da direita mas enfim). Resolvi que continuava em frente na esperança de que houvesse por ali uma rua que me permitisse virar à direita. O semáforo estava vermelho e os dois veículos na minha frente abriram o pisca para a direita. Imaginei que se eles continuassem a virar à direita talvez segui-los fosse boa ideia. Tive sorte: viraram à direita e não seguiram em frente, antes meteram por uma via de três faixas e aí perdi-os de vista porque o meu único palpite era a exigência de voltar a virar à direita; logo, mantive-me nessa faixa enquanto lhes dizia adeus que já aceleravam noutras direcções. Ainda me perdi ligeiramente num caminho secundário mas voltei à faixa da direita na esperança de encontrar uns semáforos conhecidos. E é que os encontrei mesmo. A partir daí foi canja. Andei a virar aqui e ali para conseguir chegar antes das 14,30. E cheguei. Carreguei as coisas, subi no elevador mais rápido e antes de meter a chave à porta ela abriu-se e o meu filho num sorriso terno e descansado, estava a ver que não chegavas a horas. Estivemos uns minutos à conversa e logo de seguida lá foi para a sua reunião de trabalho. Acionei a via verde, arrumei o que levara e saí. Tinha uma data de recados para fazer até às dezoito.

        Dei conta de quase tudo. Avancei para a linha vermelha e fui até ao Corte Inglês para a sessão Poemar, Viagens pela minha Terra (em verso alheio). Quando me sentei na sala, carregada de encomendas, suspirei tão longamente que a colega do lado me olhou, facto não vulgar. Ali, as pessoas ou se conhecem e falam baixo umas com as outras, ou nada acontece. Na situação, nada devia acontecer, denunciou-me a fundura dos suspiros. Creio que nem tirei o caderno. O Poemar é de sentir e não de escrever. Foi tão bonito ouvir os poemas na voz de Rui Spranger, por vezes acompanhado do mentor José Anjos e com música de Sara Santos Ribeiro. E como a voz se alterava, e chegava a parecer outra, consoante o poema! Agora mordaz, agora troçando ternamente, ou onda raivosa que se levantava voraz e tudo varria. Tinha lanchado no Metro, já sem tempo para o fazer mais tarde, mas, do tanto que fiz, nada me caiu tão bem como a poesia. Foi água para a minha sede. E para ali fiquei, planta ressequida, a embeber, a embeber, as folhinhas desmaiadas arrebitando contentes. Bom, falta dizer que os poemas eram todos sobre a cidade do Porto (pelos vistos antes houve poemas do Minho e de Trás-os-Montes). Poemas e prosa poética. Gente que desconhecia e gente que logo identifiquei. Por exemplo, a prosa de Miguel Torga, ainda que não tenha lido O Reino Encantado e nem Portugal. José e Rui nasceram no Porto a Sara é de Lisboa, mas eles atiraram-lhe ao sorriso com Manuel Pina, “Eu não nasci no Porto, nasci-me no Porto”. A selecção de poemas e poetas foi feita com critério, os filmes (pedaços), sobretudo de Manuel de Oliveira, constituíram momentos telúricos que cimentaram o ambiente do norte e portuense; não me perguntem sobre a música, parece-me ter ouvido apenas alguns acordes. A voz sim, bebi-a inteira.

        Um grande bem haja ao Corte Inglês e a José Anjos pela sensibilidade com que aborda os temas e o bom gosto na escolha de quem traz consigo. Em mim, valeu.


Nota: alguém deu uns tiros no placard da velocidade média e virou as câmaras para o ar. Portanto, andámos todos a arriscar, felizes da vida. Já as arranjaram e não fui informada. Daqui a uns tempos recebo duas multas. Mas agora não vou pensar nelas.

domingo, 31 de maio de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        Ele há dias em que a vida parece apostada em nos arredar os planos ou, pelo menos, se diverte a complicá-los. Manhãzinha, nada o faria prever. Era uma sexta feira quente e bastante apetecível, depois de um café com leite moreno; mais um dia em que pensei “era bom dar uma volta a pé”, mas não o fiz. Lembrei outros anos, dias de avental atrapalhado por bolo e lanche com meu pai e a nossa satisfação contemplando a sua, em mais um ano a acrescentar. Não me demorei nos inevitáveis da morte, a vida chamava-me aos gritos: as flores que necessitavam alimento, as compras de fim de semana, as pequenas coisas que apontara fazer antes de partir. No super, as duas caixas abertas tinham filas sem fim. Fui pedir a uma das meninas se não podiam abrir outra caixa. E ela, falta de pessoal, férias, atestados, ta, ta, ta...Esperei já a olhar o relógio e a encarnar o meu papel de resmungona com uma cliente próxima que andava a encher o carrinho. Já a depositar o carro de compras, passa açodada a senhora dos desabafos, que ia ao carro buscar os óculos de leitura: pedira o livro de reclamações e logo abriram outra caixa. Serviu a lição: da próxima vez faço o pedido, em caso de igual resposta, engreno o dito livro.

        Sozinha em casa devido a um acaso inesperado, entre arrumos de compras e apanhar a roupa já enxuta, fiz o lanche e acomodei-o na mala arranjada de véspera. Verifiquei que me esquecera de várias tarefas e que ficariam em espera; há mais marés que marinheiros. Comecei o almoço, teria de estar em Lisboa antes das catorze e trinta se queria ver o filho; com os novos limites de velocidade a duração da viagem ultrapassa os sessenta minutos. E queria muito. Eram as doze e dez, o telemóvel dá sinal de sms. Fui ler. Era o motivo das minhas preocupações do momento, a razão por que corro para o telemóvel mal entra um sms. Fazia um pedido, uma das tarefas esquecidas. E vocês o que fariam se uma pessoa muito doente vos pedisse alguma coisa?! Satisfaziam o pedido certo? Foi o que fiz.

        Regresso a casa. Era quase o quarto para as treze. Ainda tinha de grelhar a carne, aquecer a sopa e almoçar, esqueci o arroz de ervilhas. Saí antes das treze e cinco. Vesti uma blusa que não engomei, de certeza tinha outras mas foi a primeira que vi, não me lembro se mudei a saia, mas sei ter-me esquecido de mudar os ténis. Não me penteei. Paciência. E no caminho descansei mais ou menos, aproveitando as abertas dos limites de velocidade que são poucas e ignorando alguns sinais limitativos. Enfim. A segunda circular tinha já umas filas razoáveis mas ia evoluindo (as pessoas são como os caracóis, mal vem o sol desatam a sair de casa).

        Sempre a controlar o tempo, viro para a alameda que me interessava. Um desvio obrigatório e uns pinos mais à frente. Desorientei. O perigo de ser desorientada é a falta de juízo que se instala, fico de imediato do lado da desrazão, bloqueio. Portanto, virei de acordo com o sentido, mas pensei que contornando a rotunda mais à frente e vindo no sentido contrário, saía depois dos pinos e continuava alameda fora. Só que não. Fiquei quase na mesma. Olhei o relógio e os pinos e verifiquei o pouco tempo de que dispunha e que eles não obstruíam completamente a via, dava para passar um veículo. Eis como penso se e quando me desoriento: não somo dois e dois. Não reparei que a via não tinha trânsito algum, não pensei que a zona devia estar interdita nos dois sentidos e ter mais pinos lá à frente a demarcá-la. Portanto, numa de animal pouco inteligente, passei no tal espaço e fiquei para lá dos pinos. Só que, ali plantado, estava um guarda ou segurança, não sei bem. Devia ser um guarda, vi apenas (também me afecta a vista) uma camisa azul de manga curta e um colete dos utilizados nos acidentes.

(cont.)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Sul-Norte e o Inverso

 

        Dizer-me. Mesmo dizendo o mundo, dizer-me, tanta vez sem bem saber o que digo nem dosear a forma como me vou insinuando por dentro das palavras que também são eu. Ignoro se seremos capazes de, em algum momento, dispensar a subjectividade que nos constitui no todo e no particular. 

        Sigo pela segunda circular, as vias pejadas de trânsito. Somos muitos. Mas cada um no seu mundo, na intenção que ali o levou, no fim que pretende e de que a segunda circular é um meio. Imagino que a esta hora um vento de cansaço e desejo nos empurre para casa, o trânsito rola já sem atrito, serão as vinte e uma. Penso em condutores esfomeados, apressados por compromissos ainda em espera, ansiosos por rever doentes lá onde querem estar com eles; ou apenas desejando beijar os filhos que encontram já deitados e desejam ver inda de olho aberto; e há também os inquietos, os fugazes por natureza, os sem sossêgo para quem limites de velocidade são desimportâncias; são os mesmos que se sentem mal quando à sua frente segue uma mulher ao volante e pioram se alguma os ultrapassa. O seu fito é escapulir mais rápido, furam as faixas ora uma ora outra, marinheiros experientes vencendo ondas, ganhando metros atrás de metros, sabe Deus porquê. Viro à direita olhando com saudade os que seguem para oeste. Penso nessa amiga longe, no que fará em hora de paz caseira: talvez ajeite os óculos a ver um programa guardado em dupla cumplicidade, ou apenas converse quotidiana, ou terá consigo os netos e, como tanta mulher, lhes vigie a higiene nocturna, a dar uma mão terna; no final, de olhos quietos, emudece no estado de calma amorosa que só a visão da infância adormecida propicia. Penso isto pisando de leve o travão, enquanto faço a curva no sentido contrário ao caminho para ela. No meu todo da esquerda, desaparecendo no ímpeto de velocidade em crescendo, as viaturas seguem para Norte. Não é o norte da estrela polar; que, para quem ali circule, talvez seja. É um norte desconhecido, onde nada me espera e ninguém conheço com a confiante largueza dessa amiga de tanto ano. Atravessa-me sempre o mesmo pensamento: e se fosse para o norte; onde chegaria, metendo por essa via em que a velocidade aumenta na proporção da distância a percorrer. Entro na ponte a enxotar a melancolia do incógnito. A seta do sul sobe por três vias, um percurso recto clamando por mim- ali malogrei ilusões várias, e, em sentido inverso, engrinaldei esperanças. Já a atravessei em sangue, desolada, inquieta, infeliz; mas também curiosa, ansiosa, saudosa, em calma indiferença ou, na grande maioria dos casos, em radiosa solidão, sentindo o pulsar da vida em volta: o sol, o falso chão que as rodas pisam, o sibilar baixo do motor num encanto que me seduz, o lufa-lufa de tanta gente. Vidas. Na ponte somos quase iguais, rolamos.

        Na viagem de ida, o casario onde hei-de internar-me impõe-se; parece-me tão fechado que não caberei por lá. Mas em quinze minutos, o abrir da porta e o trinco a deixar-me com um pé na tua casa – que é tua, não duvides. Pouso a mochila e o saco sem ruído porque trabalhas, mas logo, logo, tu vens silencioso e abraças-me e só nesse momento o sol me penetra inteiro e se interna nas minhas veias, desenvolve. Olhas-me. Preocupas-te não sei porquê, está tudo bem nesse hiato que criaste por mim. E logo retornas ao trabalho. Então, rebentam-me uns restos do que fui. Cubro o quotidiano com um parêntesis opaco e não esqueço, antes de sair, de usar os olhos que trago fechados na alma, assim como quem põe óculos escuros porque o sol lhe veio num repente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Flores e Outras Coisas

 

        Em precisão de fungo invasivo, a chuva minou as camélias. A cameleira desfalcada, aqui e ali pífias flores desiludidas, lembra um crânio destinado ao deserto. É um dó ver o que resta da árvore grácil que, derrubada sob a chuva, evidencia o peso desalentado por ramos que escorrem virados ao invisível íman das raízes. No exíguo das flores sobreviventes faltam as sugestivas gotas de orvalho; antes surgem empapadas, pétalas extenuadas e apodrecidas exibindo manchas, sinais de gotosa velhice que a delicadeza abandonou. Ajoujada de chuva, a cameleira desnaturou carregando imposta escravidão de salgueiro. Desconheço esta a quem a intempérie malbaratou botões e flores, a sua primavera truncada pela água. Pergunto-me se haverá para ela outro ano, ou se a água a levará consigo, renúncia de morte que a primavera falhada precipitou. Jamais estarei preparada para a morte dos seres que me rodearam a vida. Inertes ou animados, são companheiros de muita hora, vigilantes dos dias e das noites, marcas de amigos que partiram. Trato-os como família e assim os sofro.

        Mas o que são estes meus desleixos queixosos face ao sofrer real dos perdedores?! Que podem representar umas dezenas de camélias, face às desgraças de telejornal, árvores caídas, muros que desmancham, terrenos que cedem, habitações que deixam de sê-lo, fábricas que nunca mais o serão?! Precisamos que a meteorologia falhe: que a chuva seja menos intensa que o previsto, que os ventos aquietem e não se insurjam contra nós, que as terras saturadas de água possam reanimar de tão perigosa fluidez. Que, enfim, um sol qualquer, mesmo um sol doente, percorra as veias da terra e a reponha no seu ser.

        Dizer ou pensar nos povos nórdicos, aqueles a quem o clima dá dias que são noites, semanas seguidas de chuva, furiosos lamentos de ventos uivantes que se arrastam por muita hora e temperaturas que nos gelam só de pensá-las, não é remédio. Tais povos têm com eles a habituação, o remédio institucionalizado para os males, a preparação e organização para fazer frente aos condicionalismos. Portanto, não existe termo de comparação. Abstraindo das causas que provocam as alterações climáticas e que com grande probabilidade são e serão a fonte da maior parte dos nossos males (fazemos mal a nós mesmos desde sempre), parece-me claro que não existe no país qualquer organização que permita celeridade em casos de emergência calamitosa desta ou doutra natureza. Não entendo por que não se penaliza fortemente o SIRESP que falhou pela segunda vez. A falta de responsabilidade e de coragem é assustadora. Somos compelidos a concluir que não é apenas no nascimento e na morte que estamos sozinhos.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Tudo e Nada

 

        Durante a noite sonho conexões que não existem, frases bonitas aparecem-me feitas, completo histórias que já contei ou refaço-as. No meu pouco dormir, as palavras tomam-me de assalto. Talvez suceda porque mudei de pensamento: por norma adormecia a pensar em coisas que gostava. Coisas fáceis e a meu alcance: pessoas que gostaria de rever, copos de sumo de laranja, passeios em perspectiva, dias de sol em que descalça me sento livre de pés, exposição de alegres e desenvoltos dedos. E mais uma caterva de pequenos nadas que ora me desanimam; por certo esvaziaram mercê da chuva. Para mal dos meus pecados, tudo esvai logo que a consciência me desponta. Mas não consigo pensar que esteja inconsciente quando sonho e articulo tais palavras e frases e textos. Tal como Descartes, tenho a certeza que os penso, resolvo, componho. Os meus sonhos abortaram as pessoas, não há vivalma neles, o que me contrista sobremaneira, sonhar com gente é muito mais animado. Nem sequer eu que sonho estou presente em mim. Que maçada saber temas do sonho sem qualquer concretude. De que é que isto me vale?!

        Porém, enquanto me acontecem estas desimportâncias, nos enormes intervalos das mesmas, aflijo com quem está a descoberto em sua casa, com todos os que têm um plástico armadilhado a esconder os buracos - Ventura afirmou que vai disponibilizar os seus outdoors para cobertura de telhados:); desnorteio com quem não tem energia eléctrica e logo não tem água, com aqueles a quem o vento varreu empregos e património. E isto passados que são cinco longos dias. De nada vale e a ninguém aproveita se não durmo, mas a chuva, que antes me ninava, agora é despertador; mais eficaz que um café. Pois como podemos adormecer com irmãos nossos em privação de quase tudo?! Como é que se dorme o sono dos justos, quando à natureza que não sabe o que faz – ou o que nós lhe fazemos – se junta a incúria dos homens que tardam em responder às necessidades populares que são tantas nas zonas afectadas. Aí, sim, o povo e os autarcas têm-se esfalfado. Tanto quanto é possível, a população vive de entreajuda. Mas a reposição de energia não compete ao povo e os meios alternativos devem ser disponibilizados pelo governo. Hoje que foi ontem, ouvi o primeiro ministro a desfiar medidas. Não as avaliei, mas também não entendi o motivo de reunirem ao domingo quando com uma desgraça destas a ajuda devia ter sido quase imediata. Será para nos levar a pensar o que não pensamos, “Pobres políticos que precisam reunir numa manhã de domingo”?! Ou será que a acção só começou quando o barulho a exigir actuação do governo foi ensurdecedor?!

        E que não aconteça como em anteriores catástrofes, li que ainda hoje há gente que espera reembolso. Vamos ajudar! Um dia os ventos, ou os fogos, ou o que seja, estarão na nossa zona, que este país está pelas pontas e qualquer desgraça o derruba. Que pelo menos o espírito de entreajuda popular e o respeito por quem só perdeu não nos falte nunca. O resto há-de vir. Nem que seja arrastado.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Aprender a Respiração


        Gosto de andar pela cidade a sós no meio da gente, talvez alguma sofrendo ou beneficiando de igual condição. De onde terá saído tal gosto, pergunto-me umas vezes por outras. O mais certo é ter-me habituado - lembro o prazer de compras feitas com amigas, as sessões de cinema, os passeios, os lanches a meio da tarde num lugar a gosto se as visitava; também recordo que nunca gostei da série “O sexo e a cidade” (nem sei se série, se filme) por retratar o dia-a-dia de insólitas senhoras/jovens e que pouco têm em comum com gente da minha igualha que julgo ser a maior parte das mulheres. Pareceu-me na altura que elas representam o ideal da mulher moderna, bonita no corpo todo e bem lançada, independente qb. O sonho feminino em película. Mas continua a ser verdade que invejei um imenso a sua cumplicidade - as compras, os almoços, as confidências, a entreajuda. Era a amizade perfeita, próxima quanto baste. Ora, a amizade à portuguesa é outra coisa. Inclui confidências, tudo o resto é vivido diferentemente. Talvez seja a diferença de continentes. O certo é ter aspirado (no sentido de aspirador) esse ideário idílico. Nessa tarefa de limpeza, baniu-se-me o desejo de companhia, uma das coisas que mais me descontrai é sair sozinha, ter umas horas só minhas a deambular por onde me apeteça, precise ou dê mais jeito. Respiração prolongada, satisfação mais funda que todas as aulas de yoga juntas. E como estou só, vejo e oiço mais e melhor; sou mais atenta. 

        Numa destas manhãs de friúra, notei a jovem que atravessava a rua até à gare onde eu esperava um comboio; reparei nela por ser jovem, bonita e cuidada; também porque trazia atrelado um garoto de seis, sete anos e carregava uma garotinha no colo, facto pouco habitual. Seriam umas dez e trinta da manhã, mas o vento era cortante e eu estava abrigada – e gelada – num dos bancos interiores da gare; ela pediu licença e sentou-se a meu lado com o garoto. A mais nova era magrinha, uma haste fina do princípio ao fim, a cabecita enfeitada de trancinhas pequenas e mãozinhas minúsculas, polvos que tentavam levantar as blusas da mãe. E a jovem a puxar a roupa para baixo e desviando os inquietos polvos, olho no olho comigo, está tanto frio, não posso dar o que ela quer, não aguento. Mas os dois aninhos ressentidos olhavam-me pesarosos, o branco do olho a crescer, enquanto as mãos insistiam sôfregas e o nariz mergulhava de novo nos refegos da roupa materna. E foi mesmo de mãe: a jovem olhou a filha e, sem palavras, alçou a roupa e puxou da mama. A garota abocanhou-a no acto, como se fora caso de vida ou morte. E ela para o sorrir trocista do miúdo, o que é que pensa, foi assim com você também.

        Não creio que haja coisa mais bonita de se ver e ouvir num dia de frio.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Dias sem História

 

        Os dias somam-se uns aos outros, encadeiam em engrenagem feita de horas e pouco tempo resta à memória para focar uma imagem, lembrar uma conversa, reiterar a naturalidade de um gesto que surpreendemos. Quanta hora escoa sem darmos conta, os dias correndo inexoráveis para o fosso dos esquecidos, sem pensamento que os detenha e rememore. O que fizemos nesses dias talvez perdidos ad eternum?! É incógnita que, ao invés da matemática, jamais se desvela; podemos fazer contas e mais contas que não lhe achamos o valor certo, apenas presentificamos o que a memória guardou em algum lugar dos seus habitáculos. Vem esta arenga a propósito do dia de ontem, nada extraordinário. Mas admito que sim, houve uns flashes. Se não, falta-me a capacidade para retirá-lo do anonimato. Vamos lá, faz um esforço preguiçosa.

        Ora bem, as insónias são praga pior que os pulgões e todos os organismos vivos que me habitam as flores e não são elas. É indubitável, a insónia apegou-se-me, criou hábito; mora nas minhas noites, e de certeza me tem em alta conta, ainda que eu não entenda a preferência, detesto-a à força toda. Portanto, ontem comecei o dia à procura da lata do café enquanto a gata salganhava pelas minhas pernas a querer o mata bicho. A minha gata não é dada a ternuras senão nos miados. De tanto gato que já tive nunca um foi tão arisco nem tão docemente me miou. Haja Deus! A bichana tinha de ter alguma coisa boa.

        Depois de um café com leite, cujo me está proibido em grau supremo, fiquei apta para caminhar. Um café (com leite) abre-me a alma, compatibiliza-me com inimagináveis actividades, melhora-me o mundo e a circunstância. 

        Caminhando, não encontrei humanos, esses seres tão plausíveis. Bom, havia as ovelhas, os pássaros a esvoaçar na claridade que despontava, as flores que teimam em sobreviver na beira de estrada e me lembram certas pessoas que admiro, vivem por teimosia e gosto, mau grado o lugar que lhes calhou em sorte. Gastei a manhã em afazeres que detesto, mas nestes dias beiram o agradável.

        Viajei sem sobressaltos e quase cumpri os limites de velocidade. Os meus fortuitos acontecem mais no Metro. Desocupada, posso observar sem perigo - a maioria dos viajantes fixa o telemóvel. Reparei na ternura africana de uma mãe com filho(um a dois anos) no colo e o cabelo do garoto rapado até meio da cabeça, o resto desenhado em quadradinhos pequenos cada um com um tufo a meio, parecido a um botãozito fofo e em que apetecia pôr o dedo. Amoroso conjunto. Umas estações depois, sentei-me frente a um casal jovem; apanhei uma frase dela, “quer dizer que te atrasas sempre por causa do dentista – pausa da garota –, e achas tu que espero sempre por ti; no mínimo, atrasas meia hora, e eu fico à tua espera na mesma, é isso?”. Eram também africanos ou só descendentes. Pensei que iam brigar apesar da entoação dela ser mais de quem descobre alguma coisa e está surpresa. Atrevi-me a mirá-la: olhos líquidos de gazela, bem redondos. E não enganavam, a garota gostava dele. Segredaram baixinho e saíram amigos e namorados. Falta saber se ela vai esperar sempre e se o dentista existe mesmo. Há que preservar o mistério. Também entrou uma jovem com um bebé metido naquelas coisas de que já nem sei nome, mas permitem transportar os bebés na frente das mães, pernitas penduradas e eles satisfeitos. Se eu fosse mãe de hoje queria usar aquela tira de tecido que deixa as crianças em contacto de intimidade com a mãe. Mesmo lindo. E como ninguém lhe deu lugar, levantei-me. Que maravilha a forma natural como aquela teenager entrou, pôs a mochila no chão(do Metro), deitou a mão à espessura do rabo de cavalo e soltou os anéis do cabelo que caíram em chuva livre por ombros e costas, caracóis desatrelados luzindo o súbito contentamento. Como são bonitas as raparigas quando não fazem pose e nem se sabem observadas.

        Pois é, ainda fui ouvir aquele que chamo “o nosso professor” e é poeta. Ausento-me das apresentações dos seus livros, mas, podendo, vou às aulas que dá. E pude rever o editor da Guerra e Paz com seu chapéu, simpatia e simplicidade. Terei imenso prazer se a Guerra e Paz singrar a sério, sem problemas económicos e por largos anos. Manuel da Fonseca tem bom gosto nas obras que edita, ama a língua portuguesa e os livros, e escreve lindamente; nestes tempos em que editoras e livrarias vão fechando, é um corajoso. O “nosso professor”, que só é “nosso” por termos feito (eu e uma colega querida) um primeiro curso com ele; é rapaz escorreito, rodeado de fãs. Tem palavra fácil e precisa, sempre vigorosa. Física e mentalmente muito assertivo, argumenta com rigor e denota muito queimanço de pestanas. Tem seu quê de satírico que lhe aumenta a aura, mas as suas aulas são a sério: ensina com o entusiasmo de um verdadeiro professor. Mesmo com os velhos isenta-se de complacências, está ali e é pago para dar uma aula: é o que faz. Defende os ditados, os TPC, a leitura em aula e outras coisas. É sempre um gosto ouvi-lo. Será por ser velha e defender o mesmo?!

        Lendo o que escrevi, concluo que afinal ontem foi um bom dia.


PS: Há tempos que reparo ser pouco afirmativa no discurso: escrevo demais o termo não. Hoje tentei evitar, mas, sem contar estas linhas, escrevi oito nãos explícitos. Levar o tempo a negar é feio. Por acaso, Rentes de Carvalho pensou semelhante um dia destes.

domingo, 7 de setembro de 2025

Manhã de Domingo

 

        Não sei que agradável dor nos invade às primeiras chuvas do verão que, tranquilo, se despede. Este é o tempo em que deslizam rosto abaixo doces lágrimas de nuvem, alegria líquida e mansa que nada iguala. E se a cinza do céu é desejada, a melancolia, essa, infiltra-se sem apelo por toda a fresta humana. Como se o ar a produza ou apenas cumpra o destino, satisfaz os deuses descendo sobre a tristonha penumbra que aterrou na manhã. Os domingos são dias desabitados, salas vazias e sem voz que lhes quebre o jejum. São os dias do Senhor, razão suficiente para que nunca nos pertençam, somos visita sempre tolhida e estranha. Estamos neles sem à vontade, abúlicos, canhestros. uns monos. Dos domingos aproveita-se o descanso e pouco mais.

        Lá fora, a poeira assentou e nos campos os animais retoiçam com vigor redobrado, o cheiro a terra molhada a entrar-lhes pelas ventas. O gado gosta de chuva, não se constipa, não resfria.

        A cidade é flor suspensa em hipnose de vácuo, quieta, isenta de som. Quem sabe a rotação e translação da Terra, arrastando fadiga de séculos, também descansem nos domingos. Não há o tracejado de uma conversa de passagem, ruídos de quem bole pelos quintais, um motor que acorde a estrada. Que mistério guia as manhãs de domingo e as faz tão silenciosas. 

        E o que acontece dentro das casas, por detrás dos olhos fechados das janelas?! Muitos aproveitam e dormem, descansam; abençoado seja o seu sono. Há os que fazem o amor de domingo, com tempo e bom humor; e benditos sejam por conservarem e animarem a chama. Mas há os que não têm domingo, trabalham por turnos e folgam quando calha, fingem domingos às quartas ou sextas feiras, a vida gira-lhes ao contrário da outra gente; oxalá se habituem ou apenas encontrem novo emprego, sem diacronias com o resto do mundo. Alguns estarão a ler, outros no telemóvel ou nas redes sociais a cuscar. Muitas mães estão a pé ou já estiveram – puseram a máquina da roupa a lavar, alimentaram os animais, fizeram uma sobremesa, engomaram as peças que os filhos desejam vestir. Há os que velam, são os anjos da guarda dos humanos. Não são bombeiros de piquete, nem médicos de Banco, nem trabalham por turnos. São os que dormem pouco e contam as horas até ser manhã; pensam-se talvez inúteis, mas a inutilidade de uns é a utilidade de outros. Eles formam a teia protectora que abriga e mantém os adormecidos deste mundo. O seu desejo de adormecer condensa no sono dos outros.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

À Beira da Cal

 

        Estudei que a memória nos carimba a identidade, possibilita o conhecimento qualquer que ele seja, permite recordar voluntária ou involuntariamente episódios, pessoas, o que ouvimos ou vimos, reconhecer cheiros, paladares, enfim, satisfaz um inumerável de necessidades humanas. E eu que retomo lentamente - muuuuiiito lenta e com vastas falhas – o hábito antigo de caminhar um pouco no fresco da manhã, sigo ainda em peregrinação. Sei o lugar de onde avistava o velhote e os dois sítios onde nos encostávamos ou sentávamos falando de nada. Passo onde o vi pela última vez, admirada do incomum onde se sentara extenuado. Atravessei a estrada e sentei-me a seu lado. E ele, é o coração, vim mais cedo, pela fresca, e deixei a cadela em casa; mas isto cansa-me, tive de parar aqui. E eu que já não o via desde o acidente e soubera que uma filha o levara consigo para outra cidade, eu que nem julgava voltar a vê-lo por ali, não perguntei se estava melhor, disse parvamente que já tinha saudade dos nossos encontros. E ele virou-me olhos de impotência onde li também saudade. Perguntei se queria ajuda para chegar a casa e abanou a cabeça, isto vai. Ficámos um bocadinho a olhar o silêncio da manhã com ovelhas ao fundo. Quando lhe notei intenções de partir, pus-lhe a mão no ombro e saiu-me uma mentira sem graça, tem de descansar o resto do dia e amanhã cá estamos. Ele, olhinhos mirrados no fundo de um poço de rugas, pele baça e amarelada, levantou-se trôpego e descrente de todo, e silabou, pois, amanhã. E eu colaborando, até amanhã. Atravessei a estrada e virei-me a olhá-lo na subida, passinho de bebé. Para nós dois não havia outro dia. Isso sabíamos.

        Entretanto, faço caminho. Passo pelo gato preto adormecido ao sol ligeiro, o cão que me refila possivelmente do outro lado da casa. Na beira de estrada ressalta a brancura cuidada dos muros caiados no estio, e na zona de vivendas há mudanças, os novos proprietários têm outra concepção de casa. Numa delas há um letreiro “vendem-se ovos”. É uma vivenda em tons laranja, barras brancas e várias paredes de vidro. Apesar do muro, vislumbro o conforto e até bom gosto de uma das salas. Um dia destes vou saber a razão de a senhora vender ovos. Talvez comprar alguns.

        À esquina do caminho de terra batida, um campo de ovelhas. São muitas e de idade diversa: carneiros velhos e gordos que se deslocam como reis, a passo, e ovelhas de igual porte; mas a maior parte do rebanho é constituído por animais jovens correndo lestos, aqui e ali; e há a ternura saltitante dos cordeiros novos, contentes da vida. Digo-lhes olá da estrada e eles, cada um em seu passo, aproximam-se a balir, e chegam à rede de arame que nos separa. Ficam ali balindo e faz de conta que somos velhos amigos que se reencontram depois de longa ausência. A quem os oiça e não conheça a espécie, não parecerá que acabámos de travar conhecimento. Dou-lhes as costas e eles com o focinho meio fora da rede, em cacho cerrado, mééé, mééé, mééé. E logo me vem à memória meu pai. Mal ouvia o nome de x, cuja incompetência detestava, saía-lhe escarninho, é uma ovelha, uma ovelha é o que ele é. E se nós, ó pai deixe lá isso, ele mastigava convicto e vingativo, uma ovelha, mais burro que uma ovelha.

        Dado o que me foi presente, meu pai tem razão acerca da inteligência dos ovinos. Mas que querem! Soube-me bem a corrida à rede apenas por cumprimentar. O que quer que lhes diga, acorrerão. E depois?!

quarta-feira, 19 de março de 2025

Pensamentos Esguedelhados

 

        O Homem põe e Deus dispõe”, entendendo cada um a afirmação de acordo com as suas convicções, facto que não lhe retira verdade. Pois eu devia estar agora a subir para a última sessão do curso “Camilo Castelo Branco, o primeiro romancista português”. Mas estou em casa a escrever estas palavritas que em nada se assemelham ao que iria ouvir do professor Abel Barros Batista que tem aqui uma aluna atenta, por gostar demais da forma como nos esclarece acerca do escritor (se calha, não volto a vê-lo; que aborrecido!). Daquilo que me foi dado observar até hoje, as pessoas mais sábias são também as mais simples e esclarecidas na ensinança. Não tem nome nem medida o quanto lamento faltar. Mas pronto, é o que é. Quereria relembrar “Maria Moisés” (matéria de hoje), que li aos treze, catorze anos, quando levei para casa as “Novelas do Minho”, só porque sim. Queria ouvir-lhe os apartes, já que além de admirar a sabedoria sobre Camilo, aprecio a forma como troça com bonomia do autor e dos humanos em geral. Amo as suas interjeições; as frases que, propositado, deixa a meio ou só inicia; a forma como nos olha inocentemente e que mais corrobora a patranha dessa inocência de avô que já viu muito mundo; o jeito de olhar os sabichões que se querem fazer notados; a entoação e a forma como pronuncia certas palavras e expressões, havendo nisso um mundo de sugestão. Enfim, estou quase apaixonada pelo método que utiliza. Fez-se próximo do meu herói. Ainda que não diga como ele “ó pá estou à rasca”, expressão que acho muito típica e me lembra um dos meus filhos que, saindo do posto de vacinação todo franzido esclareceu, “Ó mãe, tou à rasca”. E eu desasada e cheia de pena terna, “filho!”, com ganas de pôr no colo os doze anos dele e pensando para mim, “onde é que aprendeu isto, que lhe sai tão espontâneo”. Eu feita galinha e a querer esquecer-me que ele já tinha saído da capoeira.

        E a esta hora, estará o professor quase a terminar. Enquanto ele falou andei eu a ver batatas doces no forno e nos tímpanos azucrinava-me a constância furiosa do vento sacudindo as janelas; ignora-se a pendência que o terá posto contra elas, mas palpito que seja coisa grave. Neste pequeno mundo sobejam trivialidades obscuras. Mas pronto, a alma de Ulisses, no acto de escolher a vida seguinte, e lembrada dos anteriores trabalhos, também se decidiu alegremente por uma vida obscura. É fora de dúvida, eu preferia as palavras do professor Abel. Que se há-de fazer quando o querer não basta?! Como tanto que acontece ou resolvemos que aconteça, para mim foi uma sessão irremediavelmente perdida. O peso do irreversível mata-me.

        Pronto. Decerto já terminou. Estaria já descendo para o Metro.

        Ciau, professor Abel:). Foi um prazer conhecê-lo. Espero mesmo - de verdadinha e com grande desejo – que nos voltemos a encontrar em situação semelhante (foi mesmo um encontro ainda que o senhor o não saiba). Se não morrermos antes.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Eles

 

        Acontece quando a madrugada não tem suspeitas de um raio de sol. Lá onde vivem a noite é eléctrica ou apenas noite, o silêncio e a frialdade são a voz mais funda. Os passos deles afogam-se no sonoro vazio de casas e homens adormecidos. Não conversam, pernas de pressa, seguem sérios e compenetrados como quem revisa contas em busca de erro não detectado. O ronco do autocarro esventra a quietude das coisas enquanto eles cumprimentam com um aceno os companheiros de espera. É como se a voz assuste o mundo, e excluam as palavras ou as aflorem em sussurro. Esperam até que o bicho se imobilize a resfolegar brandamente. Ouvem mais que vêem as portas que escancaram, bocas sôfregas engolindo gente aos magotes, a actualização do passe, pim, pim, pim, em timbres repetidos de campainha dissonante. Eles, sonâmbulos e escuros de alma e corpo, descaem nos assentos com a cama na lembrança. E é assim todos os dias, as semanas em comboio interminável e só o recreio de haver fim de semana.

        Despertam ao som do telemóvel, pés bambos no chão e cabeça zonza. No horizonte da mente não piscam estrelas, piscam horários de autocarro. Arranjam-se a trouxe-mouxe estremunhados e inábeis, pernas que não obedecem à vontade, braços que desconhecem as mangas; na pressa dos minutos, enquanto enfiam os ténis do seu orgulho, bendizem o saco feito de véspera. A maioria passa na cozinha já encasacado em plástico e invisíveis nuvens de algodão cujo aconchego agradece. Vão pela merenda de dia inteiro. Recolhem-na num sprint de segundos e saem para a noite ainda ajeitando gorros e bonés, mochila nas costas. Apanham autocarros que os levam meio adormecidos até ao Metro. No subterrâneo persiste-lhes a noite no corpo, mas em alguns o estômago cria voz, puxam da mochila e dão uma trinca na sandes do pequeno almoço; outros mergulham nos mistérios do telemóvel. O Metro é deles. Usam olhos sem expressão, bocas cépticas e a indiferença leva-os a novo destino enquanto o novelo da noite começa a desfazer. Vão descer em Entrecampos, nos Restauradores, Sete Rios, e em todos os lugares que mantêm ligações com barcos e comboios.

        São as oito da manhã, a claridade está de pé, ocupada a espantar restos de noite. Eles esperam o último comboio. Vão para Sintra, Setúbal, Corroios, Montijo, Cacilhas, sabe Deus para onde. Vão para as obras, para a restauração, para a agricultura. Estão ainda a caminho, mas já são do lugar que os emprega. São eles, os emigrantes.

        Hoje, um deixou no comboio o provável almoço. Alguém lhe carregou a mochila e a deixou nas informações. Oxalá ele saiba que o balcão das informações existe.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O Sustentado Peso da Memória

  Ninguém consegue explicar a razão de o pensamento ir buscar pessoas que não fazem parte do quotidiano, com quem, adormecidos, nunca sonhamos e que a súbita memória desembrulha de anos e nos apresenta a sós. Não sabemos se por recreio particular, se apenas um seu fait divers, um "ora vamos ver o que acontece".  E a consciência dá por si a reconhecer um rosto, um corpo, os gestos precisos, o sorriso, o olhar. E outros pormenores. 

Há uma eternidade vivemos ambas numa instituição religiosa. Ainda hoje não compreendi a razão por que caiu num convento (ex-convento) do Alentejo, vinda da Afurada, zona que desconheço.  Soube por ela e pelos autocarros que vi passar tantos anos volvidos, ser lugar perto do Porto.  Provavelmente também pelo endereço de extensas missivas trocadas. Ignoro qual de nós quebrou a cadeia de correspondência iniciada quando a vida nos retirou do Alentejo e nos lançou aos acasos em que é fértil. A sua lembrança alegra-me e também me penaliza: esqueci o apelido, tem um dos nomes mais vulgares em Portugal e, oficialmente, não constou da instituição hoje extinta, as directoras já outra coisa, que a morte  nos muda nesse desinteresse de ser coisa quando antes fomos pessoa. Penso mais nela à medida que envelheço. Na minha mente continua jovem, uma inteira mulher do norte em corpo e voz, mas de alma não condizente. Braços compridos e desenvoltos, corpo de varina despachada, o traseiro a avultar.  Nada faria adivinhar naquela mulheraça a gentileza para com os outros e o amoroso desvelo que me dedicou. Tenho presente que me ofereceu, verbalizada, a sua amizade sem reservas. Que insistiu, nem sei porquê; eu, toda entornada em drama existencial, não estava para aí virada. Não se rendeu. Borboleteava em meu redor pretendendo ser útil, a adivinhar-me vontades que não tinha. Oferecia-se para isto e mais aquilo. Talvez não soubesse da abulia em que me deixava ir. Ou, melhor que eu, a via ela. Lembro-a a baixar-se e atar-me os sapatos que eu não conseguira abotoar, a buscar uma caneta, a endireitar-me os livros na cabeceira, a lavar-me a roupa íntima, a espreitar-me da porta uma vez e outra, a sua cabeça toda caracóis e sorriso na nesga entreaberta. Por vezes contrariava ordens e entrava a avaliar-me a febre, mão na testa. Punha-me o termómetro e saía num valha-me Deus que trazia as freiras num corrupio e remédios e o que fosse. Nesses momentos, a preocupação franzia-lhe os lábios em biquinho e escondia o dente que tinha sobreposto e lhe personalizava o sorriso.

  Não sei explicar como, mas houve um  dia em que se fez luz: entendi que éramos amigas, tínhamos dado o salto (eu dera o salto), morava em cada uma a amizade da outra. Foi tempo de singularidades e confidências. Ela fazia-me resumos de vida de que eu pouco retirava. Pedindo que contasse mais, encolhia os ombros, olhava-me sorrindo e puxava pelos meus assuntos: conta lá outra vez  como são as laranjeiras carregadas, gostava de as ver. Ou, mostra-me  o retrato do teu irmão. Coisas assim. Nunca lhe ouvi uma queixa de saudade - só visitava os seus nas férias do Natal. Contudo, amiúde, a tristeza fazia casa no seu olhar. Não sabendo como agir, eu respeitava esses silêncios que hoje penso destilarem amargura e desilusão. Sentia que alguma coisa nela se ausentava, talvez as certezas.

E perdi-a. Dei-me ao desplante de perdê-la. Será por isso que a memória, em ocasiões muitas, pimba(!), a faz presente. Aprecio essas visitas tão incompreensíveis quanto a amizade que, sem motivo, a garota me dedicou.


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Alma Nova

  Bom, devo uma emenda à crónica anterior: afinal as inscrições não são no FB, fazem-se por mail. Sei isto porque, pela primeira vez, tive de me inscrever; a partir deste mês as inscrições são à unidade. Toma! Aquela gente acorda cedo e é rapidíssima a responder -  inscrevi-me às seis e meia e às seis e cinquenta estava confirmada. E não. Não é uma resposta igual para todos os que são aceites. É personalizado. E portanto soube também o nome dos anfitriões da Casa das Letras,  David e Catarina. Nova correcção: Vítor Rua vestia uma blusinha e não uma camisa e arrumou o casaco nas costas da cadeira. 

Portanto, disse eu lá atrás e garanto que foi verdade, Vítor Rua encontrou na Casa das Letras um público muito receptivo e disposto à risota. Podem dizer o que quiserem, mas o mundo anda tão triste que uma ou duas horas de boa disposição não têm preço. Claro que todos comprámos o livro de  Rua, mas também garanto que o li de enfiada à procura do riso e a prosa nada tem de especial. Às histórias lidas, falta a graça e a dramatização do contador. E perdem. E perdem. Como vocês não têm o livro e talvez nem o comprem, vou contar uma que inda recordo (não é o melhor método finalizar o tema passada uma semana e tal).

No tempo dos GNR (banda musical), certa vez, Rui Reininho e o maestro Jorge Lima Barreto foram convidados a tocar numa igreja (suponho que Vitor Rua foi assistir). Ora o camarim era na sacristia e lá estavam esperando a hora do concerto. De repente Jorge Lima pede para o esperarem ali que tinha de ir fazer uma coisa. Rui Reininho ficou a olhar em volta meio aborrecido. Olhou para os santos, mirou os paramentos e atentou a mesa da sacristia. Sobre a mesa, além de livros santos e breviários estava, solitário e com ar abandonado, um lacinho de fita com uma medalhinha pendurada e, cosido por detrás, um minúsculo alfinete de ama. Ele pegou-lhe, virou-o de um lado, virou-o do outro e resolveu pregá-lo na manga do casaco. Entretanto, o organizador do concerto entra na sacristia, "onde é que está o Jorge, é tempo de começarem, são só dois e nem assim". E patati, e patatá, sempre a olhar o relógio e a reclamar. Reininho bem garantia que o amigo dissera que não demorava, mas o outro, aflito,  não parava de se arrepender, porque é que acreditei em vocês, eu sabia que ia correr mal, isto é um lugar santo, aqui tudo começa a horas. Reininho tentava acalmá-lo reiterando que Jorge devia estar a chegar. Sem sucesso. Mas chegou. Só que vestia um fato vermelho até aos pés (Rua garantiu "como os papas ou os bispos, não sei") e trazia na cabeça uma mitra branca. Os presentes admiraram-se com a fatiota, mas calaram. E pronto, já estavam os dois, podiam iniciar o concerto. O organizador foi anunciá-los e, quando se dirigiam para o altar(lugar escolhido para o concerto), Jorge Lima volta-se para Reininho, vê o lacito que ele levava no braço e exclama espantado "tu vais cantar nessa figura?" E foi gargalhada geral. Fomos um bom público. Mas Rua não deve falar de igrejas ou missas, vê-se à légua que não entende do tema. Contou um caso que metia a comunhão e em vez do habitual, "o corpo de Cristo", dizia, "em nome de Cristo". Também não é mau, mas não é a mesma coisa.

Bom, Fernando Alvim foi a boa surpresa. Parece um garoto e tem cinquenta anos. Mas a surpresa foi que deixou solto Vítor Rua e pouco falou. Foi que fez uma dedicatória pessoal a cada um que lhe pediu autógrafo ( a fila era enorme, ele enchia a folha e demorava). Gostei um imenso da minha. Foi que a surpresa continuou em casa, gostei do livro dele e sabe escrever - a escrita é bem humorada e sem dislate. Revela certa sensibilidade, quase como se no fundo do poço a água seja mais pura. E de vez em quando ele mergulha.

Pedro Paixão, escritor, fotógrafo e doutorado em Filosofia, que exerceu em universidades portuguesas e abandonou em 2004. Teve uma série de profissões e actividades que podem bisbilhotar na net. Mas, ou tem pancada certa, ou é um homem doente.  Acontece que já li livros dele e gostei qb. Ofereceu-me "A noiva judia", único livro que trouxe - foi o seu primeiro livro. Falou de doenças próprias, da mulher neurocirurgiã, do seu herói que é o filho e da morte próxima (julga morrer dentro de poucos anos). E contou anedotas para intelectuais; ou seja, coisas que de facto aconteceram com Einstein, Heisenberg, Nietzshe e têm a sua graça, mas precisamos encontrá-la. Rua deu-lhe dez a zero no humor fácil de contar, teatralizando, parvidades dos grupos musicais a que pertenceu.  Mas a escrita distancia largamente Pedro Paixão dos companheiros. Não olha para a pessoa que pede autógrafo e faz um gatafunho sempre o mesmo. Tem assinatura original.

E agora?! Bom, agora vou esperar por África à flor da pele:). E logo se vê.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Alma Nova

  Muito perto da minha cidade-vila  há uma terrinha pequena, hoje freguesia, que em tempos foi vila de grandes senhores com casas de praia e em Lisboa, gente de pergaminhos e benesses originadas no tempo da realeza, que ali construiu solares senhoriais.  Tinham herdades gigantescas - mais que uma ou duas por família - que ainda existem e rodeiam o breve povoado (a terra não arreda pé). Passeavam em automóvel de luxo quando todos  andavam a pé, de bicicleta ou carroça, que dinheiro para a carreira não havia. Por vezes galopavam pelos montados, fato a preceito e cavalos de bom trato e melhor arreio. Órfãs dos antigos senhores quase feudais, as terras que rodeiam o pequeno aglomerado estão hoje nas mãos de novos ricos que aproveitaram as várias decadências dos proprietários de origem. Pois essa freguesia minúscula, que atravesso de uma ponta à outra em menos de dois minutos (tem várias lombas e limites de velocidade), ressuscitou da pasmaceira em que dormitava. 

Para dar conta de motivos e razões de tal fenómeno, teria eu de ser outra: flanar por cafés e esplanadas, lugares propícios a conversêdo de amigas e comadres; passear pelas ruas da cidade-vila a saber novas; ou bastar-me-ia tão só conhecer algum residente da cita freguesia. Como não preencho nenhum dos requisitos, também não sei explicar esta febre benfazeja que num repente repôs aquele pedacinho de terra no mapa. Sei vagamente que há novos elementos, mais ou menos endinheirados ou minimamente populares, que por lá têm casa. E também não explico a razão por que um casal ali poisou, criou um bed and books, um salão de eventos de nome  A Casa das Letras, onde - aqui, desculpem, mas pasmo eu - por artes suas, recebem mensalmente figuras mais ou menos públicas que escreveram livros, escritores de nomeada e outros de menor brilho. O pessoal inscreve-se para as sessões através do FB e no dia anunciado passa uma tarde agradável à conversa com um ou mais autores. O "à conversa" é exagero, eles falam e as gentes ouvem e no final compram ou não o livro. Se sim, dá direito a autógrafo. Claro que existe um tempo para perguntas, mas o fato e o monge vivem do autor e de quem o entrevista, papel que Ana Daniela Soares e mais a sua simpatia e simplicidade cumprem na perfeição. 

Ora eu só por morte ou doença grave falto a essas tardes descontraídas. 

Este mês, para celebrar o final do verão - foi mesmo no último dia -   houve três convidados: o escritor Pedro Paixão; o músico Vítor Rua; e Fernando Alvim. Vítor Rua tomou conta do assunto, os restantes cingiram-se a breve apresentação. Cada um deles trazia um livro para vender e, a quem comprava dois livros ofereciam o terceiro. A maioria comprou dois para trazer três. Todos gostaram de Vítor Rua. Por usar saia-casaco azul forte, ténis amarelos e meias azuis pela canela com nuvens brancas (não consigo lembrar a camisa); por ser um contador de histórias formidável - chorei de tanto rir e tive mesmo de tirar os óculos; por, enquanto o Alvim e o Pedro Paixão falavam, lhes ir atirando umas bocas engraçadas. Pedro Paixão tocou piano e Vítor Rua acompanhou com guitarra eléctrica; suponho que seja exímio na sua arte, mas prefiro-o a contar histórias (esta preferência deve ser o que minha mãe chamava de heresia).

(cont.)

domingo, 20 de agosto de 2023

A Montanha Pariu um Rato

  Finalmente, cortámos a meta, que é como quem diz, entrámos em casa. Pareceu-me quente. Mas chegávamos suadas, extenuadas e com fome. Pensei, impressão minha. E lá fomos as duas, chavinha na mão, até aos aposentos. Que, haja Deus, estavam mornos. Ar condicionado? Nada. Mas o estômago exigia e, livres de bagagem, procurámos um restaurante próximo. Era um bom lugar de refeições plastificadas e que nos ofereceu bebidas frescas a gosto e em quantidade indeterminada acompanhadas de hamburguer, cujo foi tão meu amigo que só me abandonou noite alta. Um querido, ele.

Entretanto, de volta ao nosso território de fim de semana, constatámos: os quartos nem eram maus, mas eram quentes e sem outros paliativos que o duche. Calhou-nos viver neles a maior onda de calor algarvia (azar). O facto é que, de alguns anos a esta parte, e apesar de sair pouquíssimo, o calor vai sempre comigo, onde quer que me desloque. Não que eu seja uma brasa, avalio que será antes um "caso sério" entre nós, e de tamanha evidência como o cantado por Rita Lee.  Sem entrar em mais intimidades, posso afirmar que não contei os duches nocturnos e também não sei como sofreu a minha amiga aquelas horas de ar parado. O entre banhos era tempo de leitura - em boa hora levei comigo Bruno Vieira Amaral - e sauna. Uma beleza, portanto. Mas a Flor. Se na primeira manhã me surgiu desditosa e emurchecida, na segunda estava desfeita e deu-me uns bons dias peremptórios, "hoje não saio daqui para nada; não dormi e estou tão cansada que me sinto doente. Se não tivesse comprado o bilhete de volta, partia hoje mesmo - e num desalento - ai, nem quero pensar que nos falta ainda uma noite". Claro que este desabafo me deu livre trânsito. Preto no branco, fui desdobrando o meu rol de queixas. Mas resolvi sair, encerrar-me na prisão de um quarto quente é que não. Salvaguardadas as três horitas de praia (tempo fugaz, esse) - ao invés da minha pessoa, a Flor é de apetites visuais e não imersivos -, essa manhã solitária e fresca em Faro foi um acontecido bem. Comprei um semanário e segui sempre a direito - estratégia para não me desorientar -, buscando esplanada de boa sombra. E por ali me quedei posta em recato. Vicejando, por assim dizer.

Apertar uma cinta de mágoa e ficar a empolá-la o quanto possa, não resulta. A minha amiga aprendeu que nem tudo que luz é ouro (do conhecimento das freirinhas, tinha inferido, sem experimentação, o da casa). É mesmo verdade, "as aparências iludem". Por mim assentei:  era um  um fim de semana de afectos que se tornou também inesperado. Conheci Faro e a sua zona histórica onde admirei um Afonso III indiferente às estações, pelejando sem descanso e cheio de genica; senti o calor de igrejas e ruas; tirei uma ou outra foto; não apreciei a ria como pensava e antes lhe contrapus o Sado livre de excrescências, caminho aberto até Tróia; peço desculpa à ria, mas não consigo gostar de águas em que não me apeteçam banhos. Mas trouxe comigo o sabor dos gelados de lima e de limão e hortelã, duas pequenas maravilhas que a Flor me deu a conhecer. E trouxe-a a ela e à sua desilusão, lamento mudo que todo lhe escorria pela figura; trouxe-lhe o "em dobro" de cansaço. Há vezes em que não podemos fugir ao que somos: breve e irremissível poeira cósmica. 

E que  Deus esteja connosco.