Em
tempos, tive uma amiga que hoje penso ter sido imaginária. Bem, ela existiu.
Existe ainda, julgo. Conhecemo-nos tinha eu uns magros dezassete anos e a nota
que me distinguia era o cabelo de risca ao meio a devorar-me o rosto miúdo,
coisa pouco aprazível à vista dos outros e à minha, sujeita à densa e incómoda cortina que me restringia o campo visual. Portanto, no meio
das alentejanas daquela escola quase exclusivamente feminina por que tanto me
batera, eu e ela éramos gota mínima em homogéneo
oceano.
Salvavam-se
as poucas jovens vindas da capital, talvez num caprichado e tardio bater de pé
adolescente, deixem-me ver como é o Alentejo, quero estudar ali. As garotas de
Lisboa eram diferentes de nós. Sei lá bem, parecia-me terem pernas afirmativas,
rosto mais original, olhos de fulgor. Talvez fosse do ar que respiravam por lá.
Mas usavam, seguramente, mini saias a combinar com casacos maxi, em bonito e arrojado
conjunto. Nos rigores do inverno alentejano, eram quatro sereias de botas altas,
a boiar delicadamente no nosso universo moreno e sem patuá. Mas faziam a moda.
No pintar dos olhos; nas cores de roupa e maquilhagem; na forma como se
penteavam; nos gestos graciosos e muito mais desembaraçados. Dávamos por nós a
ver como faziam ressaltar os acessórios, cujos se compraziam da pertença, olhem
para nós. Lembro particularmente o modo como uma delas ajeitava amiúde a alça larga
de uma mala dos livros em tom verde e que fazia os meus desvelos; e dos lencinhos
com que a colega, uma capitosa morena toda pernas e decote, olhos verdíssimos,
dava um nozinho no lado esquerdo do pescoço, moda que foi fogo em cortiço.
Neste
mundo de modelos e cópias, eu e a dita amiga singrávamos pardacentas e
nocturnas. Sem lencinhos nem olhos que se vissem, e muito menos pernas, que as
nossas só serviam mesmo era para andar e, hélas, haja Deus, que nunca se
negaram à função. Hospedávamo-nos juntas. E mais nos aproximou o facto de,
comparadas, as nossas vidas bordarem quase pela mesma linha e em semelhança de
cor. Posto isto, restava-nos ser boas alunas que ao resto não chegávamos nem em
bicos de pés ou sequer com escadote. Das duas, eu era a mais pespineta, tinha imensa
pena de não sair nos sábados e domingos que passava na cidade e aborreciam-me
de morte as missas, agoniava com o cheiro das velas e por vezes ela via-se
forçada a pôr-me a arejar, tal a palidez cambaleante. Quando saiu da escola – frequentava
o ano acima do meu -, ficámos a corresponder-nos.
Quer dizer, eu escrevia-lhe e ela, por vezes, respondia. E foi sempre a mesma
ladainha. Eu visitava-a e ela desculpava-se de cada vez que eu insistia; nunca
fui retribuída. Entretanto, escrevia e escrevia. Sem resposta. Afligia-me a
falta de notícias, pensava em desgraças e, a missiva mais aguda, ela dizia
presente. Anos e anos. Mais de vinte. Apesar
de saber que gostava de me ver em sua casa, hoje, a frio e sem cachecol, acho
que supus nela o que nunca houve. Passava e parava na minha terra vezes sem conta, e nem uma palavra, o convite, estou aqui, queres vir ver-me.
Deixei
de enviar presentes e boas festas apesar de continuar a escrevê-las e andarem
por aí dentro de um livro e de outro. Ela não escreveu. Não ligou. Ao invés do
que sempre afirmou – que se um Natal eu não escrevesse ela o faria –, passaram
dois Natais e nem uma letra. Levei anos a desiludir. Mas não é que continuo a
gostar da amiga que inventei?!
Pode ser que escreva um destes natais...
ResponderEliminarE também pode que eu reúna os cartões que andam perdidos (se os encontre), escreva outro, pegue numa prendinha e queira de novo saber dessa que está por detrás da que inventei e sem a qual nada haveria.
EliminarQuando se entra por esse caminho há, nessa situação, um outro eu a funcionar como um prolongamento de nós próprios.
ResponderEliminarÉ comum idealizarmos situações que gostaríamos de vivenciar.
Abraço amigo.
Juvenal Nunes
Juvenal
Eliminaro comment foi parar ali abaixo. Desça dois degraus pf:).
Bom dia!
ResponderEliminarAté 'A amiga genial' da Ferrante causava desilusões. Quem não as tem ou teve? Eu tive-as e algumas ainda estão bem presentes. Sei que também as devo ter provocado.
Gostei muito da comparação com as lisboetas, no tempo do lencinho ao pescoço. O tempo era de maiores diferenças do que agora. Como sempre na sua escrita, a descrição física é muito viva e engraçada.
Estou em crer que a 'amiga imaginária' gostava de lhe falar ou escrever.
Bea, um dia bom para si. E, já agora, para a sua 'amiga imaginária'.
Bom dia, Maria
EliminarTodos nos desiludimos com os amigos e isso até pode fazer crescer a amizade; parecendo o inverso, aproxima-nos.
As lisboetas tinham seu quê de diferença. Desempoeiradas, diria minha avó. Como estarão hoje? A minha teoria de beleza de época não lhes dá grandes hipóteses:).
Trouxe aqui a amiga imaginária porque talvez seja tempo de tentar saber da real (aquela desgraçada que me recebe com a facilidade com que me esquece). E porque o que escrevo ao correr da mão - leia-se, com maior naturalidade e desafogo - e com mais prazer, são cartas. Já lhe escrevi outras missivas, noutro lugar. Apetece-me talvez retomá-las. O marco do correio neste blogue anda tristinho. Parece-me que depois do Tolentino, fechei o tinteiro e recolhi a pena. Ora o nosso cardeal anda metido com os romanos e a cristandade. Sem deixar de admirá-lo, começo a achar que é demasiado importante - e distante - para os meus desabafos de sopeira.
Bom dia
Ah ah ah, Bea, anda nada tristinho e o seu desabafo final dá vontade de rir. Quem dera muita gente que publica, etc etc etc escrever como a Bea escreve.
EliminarPor acaso, ou por eu ser um pouco esquisita, quando vejo as pessoas subirem muito alto, como o Tolentino (e este 'alto' até pode vir a propósito!!!!), penso logo que estão noutra, mas é fraqueza minha de certeza.
Tinha um amigo que era só elogios, foi para um lugar onde poucos chegam e deixou de conhecer a ralé. É vida. Chateia, mas não deixa de ter a sua piada! Viva la vida.
Ah, e escreva à sua amiga imaginária. Sabe-se lá por que ainda não respondeu!
Também tenho essa ideia. Não tanto porque se esqueçam de onde vêm, mas porque terão mesmo outras preocupações e forçosamente se afastam de um mundo para entrar noutro. Não tem que ser por se tornarem piores pessoas ou o sucesso lhes subir à cabeça. Acredito que a formação individual determina a forma como se ocupa um lugar, qualquer que seja o homem ou o lugar.
EliminarOs amigos imaginários não costumam responder, Maria. Mas há neste mundo da blogisfera alguém que afirma ter imaginado uma pessoa e ela lhe ter escrito:))).
Mas sim, talvez eu vá pondo umas cartas neste marco de correio tão cheio de nada.
Bom dia.
Não pertenço ao número de pessoas capazes de grande ideação, Juvenal, a minha fábrica de sonhos é muito temperada pela realidade. Mas creio que, a par dessa pessoa que existe - e a quem já tentei ligar várias vezes durante os últimos dois anos - há a que imaginei e não foi, para mim, menos real. É certo que se abandonarmos a imagem dos amigos à pura realidade, se não lhes emprestarmos um quê do nosso sonho, ficam um bocadinho deslavados. Gostamos e precisamos de nos ver no outro; mas é um egoísmo natural, um bocadinho como os corpúsculos que se lançam na fenda sináptica para permitir a passagem do influxo nervoso, possibilitam a ligação.
ResponderEliminarTalvez eu a tenha, finalmente, aceite quase como é. Ou, pelo menos, com maior semelhança. Em tanto ano o meu egoísmo ão contou com a diferença: da vida que a moldou sobre o que eu conhecia, do meio em que evolui, dos agentes da convivência.
Bom dia e um abraço
Acho que, com o tempo, é normal se ir perdendo amizades. Mesmo depois de muitos anos.
ResponderEliminarConto pelos dedos de uma mão os amigos mesmo.
E preciso de mais mãos ainda para os que perdi pelo caminho. É porque nunca o foram.
Beijocas
Os meus amigos são muito os mesmos. Não perdi assim tantos pelo caminho. E julgo que aqueles que perdi, ficaram perdidos para o mundo. Depois há afastamentos naturais, que morrem como nascem, naturalmente. Não lhes chamo amizades. Prezo demais a palavra.
EliminarNa falta de reciprocidade, parto do princípio que se realiza mais, quem mais amou, quem mais gostou, quem mais sentiu - e não o digo para a animar Bea.
ResponderEliminarComo já me referiu, cada pessoa vive várias vidas numa só, ou seja, a nossa vida é como um livro... tem vários capítulos. E há um capítulo certamente destinado às amizades da adolescência e início da idade adulta.
Também tive amigos em que achei que a minha dedicação era superior em grau à deles. Serviam-me de modelo em muitas coisas e sentia-me bem na sua companhia.
Outros, quiseram o meu convívio e quiçá, eu não me entreguei como desejavam. Isto da reciprocidade tem muito a ver com os interesses em comum, bem vistas as coisas é isso que faz girar o mundo. Tive um amigo que gostava de andar comigo nas festas de verão, quando um de nós arranjou namorada a amizade feneceu. Outro só gostava de ir à praia comigo, se o convidava para o cinema, rejeitava.
E depois há aqueles que ficam independentemente dos interesses, talvez porque o interesse prevalente sejamos mesmo nós.
Penso mesmo isso, Joaquim. Importa mais o que se entrega e sente. E já me vai passando a fase da exigência. Cada um dá o que tem.
EliminarNa verdade, os únicos que me interessam de verdade são os últimos. Da restante gente há os que precisam de nós; outros, que nos apreciam neste ou naquele aspecto. Nesses, não esperar em demasia é o lema.
Talvez a vida a tenha mudado ou sempre foi assim e os olhos da Bea viam o que nunca existiu.
ResponderEliminarMas creio que quem mais perdeu foi ela.
A vida enclausurou-a. É uma história de clausura sem convento, Magui. Mas até creio que tenha feito uns votos mentais:). Tem muita grade nesse coração.
EliminarEm muito do que leio me revejo. E idealizo o mesmo, há afectos que ficam como cicatrizes. A gente pasma - e teima - que se "mudem tanto" os sonhos adolescentes. Eu por mim não entendo e a ternura havida esvoaça na mente, nos sonhos. Tal qual dizes que não se pode mudar o pensamento. Uma mão chega e sobra para contar "amigos" mas nem esses são o que pensava da Amizade. Será então meu defeito, minha falha. Abç
ResponderEliminarBea, vivi uma história parecida. A minha amiga era vizinha, colega de escola, confidente seguríssima. Sempre juntas até à hora de dormir cada uma na sua cama, na sua casa. Os meus pais aceitavam, a minha irmã (mais nova) criticava tamanha amizade.
ResponderEliminarVivíamos em Moçambique. Fomos ambas retornadas. Eu primeiro, ela logo a seguir. Perdemo-nos no rebuliço deste país virado ao contrário. Anos depois, cruzámo-nos numa rua de Lisboa. De adolescentes tínhamos passado a mães. Eu dei-lhe o meu telefone, ela anotou. E não, o telefone nunca tocou e eu, não voltei a calcorrear aquela rua.
Custou, mas sarou. Ficaram as muitas e boas memórias guardadas no baú da infância e da adolescência.
Baú que abri após ler esta extraordinária crónica.
Beijo.
Não é bem a mesma coisa, Teresa. Nem nós duas fomos nunca como a Teresa e sua amiga: inseparáveis. Nem eu a larguei da mão nunca (excepto nestes dois anos).
EliminarHoje não tenho má vontade nem expectativas. Não me preocupa quem deu mais a quem. Mas sei que aquela não coincide com a amiga que construí. Mas é alguém. Que talvez continue a gostar do que de mim lhe chega.
Os outros, mesmo sendo nossos amigos, não são o que nós sonhámos, bettips. São eles. E tão volitivos quanto nós. Mas sempre lhe vou dizendo que tenho uma amiga dilecta - mais dilecta que as outras, sim - com quem sintonizo até inadvertidamente e que um Deus benévolo achou por bem pôr no meu caminho. O meu trabalho foi nenhum. E oxalá ela sinta igual:).
ResponderEliminarEntre o que os outros são realmente, o modo como os sentimos, a relação construída, é tudo de grande complexidade. No fim sobra apenas o que nós sentimos que é a nossa verdade, e dela a Bea dá muito bem conta.
ResponderEliminar~CC~
Obrigada, CC. O mundo humano e as relações interpessoais são bastante complexos, mas sempre me pareceu que os sentimentos têm um lado simples que nos salva.
ResponderEliminarHá as amizades que "inventamos" e há as amizades nascidas de personalidades com necessidades e ritmos muito diferentes.
ResponderEliminarPor vezes confundem-se e perceber os seus reais limites e veracidade não é nada fácil...nada fácil mesmo.
Creio que apenas o tempo dará a resposta.
As sintonias são fáceis com algumas pessoas e nem tanto com outras. Penso que temos de nos conformar com o grau conseguido. Coisa que só teoricamente é simples.
ResponderEliminarBoa tarde, Dulce.
Amiga imaginária permite partilhar emoções e sentimentos sem correr o risco de deixar de ser segredo! Penso que tenho uma também!!! Bj Bea
ResponderEliminar:) Mas, Gracinha, uma amiga não revela os nossos segredos. O que minha mãe me ensinou bem pequena e aprendi foi que um segredo ouve-se e não se repete. Porque há duas condições num segredo 1. ser transmitido a (ou conhecido por) alguém; 2 que esse alguém, ciente de ser secreto, não o divulgue.
ResponderEliminarNão sei se uma amiga imaginária preenche todos os requisitos da confidente:). Mas é verdade que me dou bem com seres imaginários o que não abona grandemente a meu favor.
Boa noite, Gracinha.