segunda-feira, 26 de julho de 2021

A Amiga Imaginária

 

Em tempos, tive uma amiga que hoje penso ter sido imaginária. Bem, ela existiu. Existe ainda, julgo. Conhecemo-nos tinha eu uns magros dezassete anos e a nota que me distinguia era o cabelo de risca ao meio a devorar-me o rosto miúdo, coisa pouco aprazível à vista dos outros e à minha, sujeita à densa e incómoda  cortina que me  restringia o campo visual. Portanto, no meio das alentejanas daquela escola quase exclusivamente feminina por que tanto me batera, eu e ela éramos gota mínima em  homogéneo oceano.

Salvavam-se as poucas jovens vindas da capital, talvez num caprichado e tardio bater de pé adolescente, deixem-me ver como é o Alentejo, quero estudar ali. As garotas de Lisboa eram diferentes de nós. Sei lá bem, parecia-me terem pernas afirmativas, rosto mais original, olhos de fulgor. Talvez fosse do ar que respiravam por lá. Mas usavam, seguramente, mini saias a combinar com casacos maxi, em bonito e arrojado conjunto. Nos rigores do inverno alentejano, eram quatro sereias de botas altas, a boiar delicadamente no nosso universo moreno e sem patuá. Mas faziam a moda. No pintar dos olhos; nas cores de roupa e maquilhagem; na forma como se penteavam; nos gestos graciosos e muito mais desembaraçados. Dávamos por nós a ver como faziam ressaltar os acessórios, cujos se compraziam da pertença, olhem para nós. Lembro particularmente o modo como uma delas ajeitava amiúde a alça larga de uma mala dos livros em tom verde e que fazia os meus desvelos; e dos lencinhos com que a colega, uma capitosa morena toda pernas e decote, olhos verdíssimos, dava um nozinho no lado esquerdo do pescoço, moda que foi fogo em cortiço.

Neste mundo de modelos e cópias, eu e a dita amiga singrávamos pardacentas e nocturnas. Sem lencinhos nem olhos que se vissem, e muito menos pernas, que as nossas só serviam mesmo era para andar e, hélas, haja Deus, que nunca se negaram à função. Hospedávamo-nos juntas. E mais nos aproximou o facto de, comparadas, as nossas vidas bordarem quase pela mesma linha e em semelhança de cor. Posto isto, restava-nos ser boas alunas que ao resto não chegávamos nem em bicos de pés ou sequer com escadote. Das duas, eu era a mais pespineta, tinha imensa pena de não sair nos sábados e domingos que passava na cidade e aborreciam-me de morte as missas, agoniava com o cheiro das velas e por vezes ela via-se forçada a pôr-me a arejar, tal a palidez cambaleante. Quando saiu da escola – frequentava o ano acima do meu  -, ficámos a corresponder-nos. Quer dizer, eu escrevia-lhe e ela, por vezes, respondia. E foi sempre a mesma ladainha. Eu visitava-a e ela desculpava-se de cada vez que eu insistia; nunca fui retribuída. Entretanto, escrevia e escrevia. Sem resposta. Afligia-me a falta de notícias, pensava em desgraças e, a missiva mais aguda, ela dizia presente. Anos e anos. Mais de vinte.  Apesar de saber que gostava de me ver em sua casa, hoje, a frio e sem cachecol, acho que supus nela o que nunca houve. Passava e parava na minha terra vezes sem conta, e nem uma palavra, o convite, estou aqui, queres vir ver-me.

Deixei de enviar presentes e boas festas apesar de continuar a escrevê-las e andarem por aí dentro de um livro e de outro. Ela não escreveu. Não ligou. Ao invés do que sempre afirmou – que se um Natal eu não escrevesse ela o faria –, passaram dois Natais e nem uma letra. Levei anos a desiludir. Mas não é que continuo a gostar da amiga que inventei?!

25 comentários:

  1. Pode ser que escreva um destes natais...

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    1. E também pode que eu reúna os cartões que andam perdidos (se os encontre), escreva outro, pegue numa prendinha e queira de novo saber dessa que está por detrás da que inventei e sem a qual nada haveria.

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  2. Quando se entra por esse caminho há, nessa situação, um outro eu a funcionar como um prolongamento de nós próprios.
    É comum idealizarmos situações que gostaríamos de vivenciar.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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    1. Juvenal
      o comment foi parar ali abaixo. Desça dois degraus pf:).

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  3. Bom dia!
    Até 'A amiga genial' da Ferrante causava desilusões. Quem não as tem ou teve? Eu tive-as e algumas ainda estão bem presentes. Sei que também as devo ter provocado.
    Gostei muito da comparação com as lisboetas, no tempo do lencinho ao pescoço. O tempo era de maiores diferenças do que agora. Como sempre na sua escrita, a descrição física é muito viva e engraçada.
    Estou em crer que a 'amiga imaginária' gostava de lhe falar ou escrever.
    Bea, um dia bom para si. E, já agora, para a sua 'amiga imaginária'.

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    1. Bom dia, Maria
      Todos nos desiludimos com os amigos e isso até pode fazer crescer a amizade; parecendo o inverso, aproxima-nos.
      As lisboetas tinham seu quê de diferença. Desempoeiradas, diria minha avó. Como estarão hoje? A minha teoria de beleza de época não lhes dá grandes hipóteses:).
      Trouxe aqui a amiga imaginária porque talvez seja tempo de tentar saber da real (aquela desgraçada que me recebe com a facilidade com que me esquece). E porque o que escrevo ao correr da mão - leia-se, com maior naturalidade e desafogo - e com mais prazer, são cartas. Já lhe escrevi outras missivas, noutro lugar. Apetece-me talvez retomá-las. O marco do correio neste blogue anda tristinho. Parece-me que depois do Tolentino, fechei o tinteiro e recolhi a pena. Ora o nosso cardeal anda metido com os romanos e a cristandade. Sem deixar de admirá-lo, começo a achar que é demasiado importante - e distante - para os meus desabafos de sopeira.
      Bom dia

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    2. Ah ah ah, Bea, anda nada tristinho e o seu desabafo final dá vontade de rir. Quem dera muita gente que publica, etc etc etc escrever como a Bea escreve.
      Por acaso, ou por eu ser um pouco esquisita, quando vejo as pessoas subirem muito alto, como o Tolentino (e este 'alto' até pode vir a propósito!!!!), penso logo que estão noutra, mas é fraqueza minha de certeza.
      Tinha um amigo que era só elogios, foi para um lugar onde poucos chegam e deixou de conhecer a ralé. É vida. Chateia, mas não deixa de ter a sua piada! Viva la vida.
      Ah, e escreva à sua amiga imaginária. Sabe-se lá por que ainda não respondeu!

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    3. Também tenho essa ideia. Não tanto porque se esqueçam de onde vêm, mas porque terão mesmo outras preocupações e forçosamente se afastam de um mundo para entrar noutro. Não tem que ser por se tornarem piores pessoas ou o sucesso lhes subir à cabeça. Acredito que a formação individual determina a forma como se ocupa um lugar, qualquer que seja o homem ou o lugar.
      Os amigos imaginários não costumam responder, Maria. Mas há neste mundo da blogisfera alguém que afirma ter imaginado uma pessoa e ela lhe ter escrito:))).
      Mas sim, talvez eu vá pondo umas cartas neste marco de correio tão cheio de nada.
      Bom dia.

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  4. Não pertenço ao número de pessoas capazes de grande ideação, Juvenal, a minha fábrica de sonhos é muito temperada pela realidade. Mas creio que, a par dessa pessoa que existe - e a quem já tentei ligar várias vezes durante os últimos dois anos - há a que imaginei e não foi, para mim, menos real. É certo que se abandonarmos a imagem dos amigos à pura realidade, se não lhes emprestarmos um quê do nosso sonho, ficam um bocadinho deslavados. Gostamos e precisamos de nos ver no outro; mas é um egoísmo natural, um bocadinho como os corpúsculos que se lançam na fenda sináptica para permitir a passagem do influxo nervoso, possibilitam a ligação.
    Talvez eu a tenha, finalmente, aceite quase como é. Ou, pelo menos, com maior semelhança. Em tanto ano o meu egoísmo ão contou com a diferença: da vida que a moldou sobre o que eu conhecia, do meio em que evolui, dos agentes da convivência.
    Bom dia e um abraço

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  5. Acho que, com o tempo, é normal se ir perdendo amizades. Mesmo depois de muitos anos.
    Conto pelos dedos de uma mão os amigos mesmo.
    E preciso de mais mãos ainda para os que perdi pelo caminho. É porque nunca o foram.

    Beijocas

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    1. Os meus amigos são muito os mesmos. Não perdi assim tantos pelo caminho. E julgo que aqueles que perdi, ficaram perdidos para o mundo. Depois há afastamentos naturais, que morrem como nascem, naturalmente. Não lhes chamo amizades. Prezo demais a palavra.

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  6. Na falta de reciprocidade, parto do princípio que se realiza mais, quem mais amou, quem mais gostou, quem mais sentiu - e não o digo para a animar Bea.
    Como já me referiu, cada pessoa vive várias vidas numa só, ou seja, a nossa vida é como um livro... tem vários capítulos. E há um capítulo certamente destinado às amizades da adolescência e início da idade adulta.
    Também tive amigos em que achei que a minha dedicação era superior em grau à deles. Serviam-me de modelo em muitas coisas e sentia-me bem na sua companhia.
    Outros, quiseram o meu convívio e quiçá, eu não me entreguei como desejavam. Isto da reciprocidade tem muito a ver com os interesses em comum, bem vistas as coisas é isso que faz girar o mundo. Tive um amigo que gostava de andar comigo nas festas de verão, quando um de nós arranjou namorada a amizade feneceu. Outro só gostava de ir à praia comigo, se o convidava para o cinema, rejeitava.
    E depois há aqueles que ficam independentemente dos interesses, talvez porque o interesse prevalente sejamos mesmo nós.

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    1. Penso mesmo isso, Joaquim. Importa mais o que se entrega e sente. E já me vai passando a fase da exigência. Cada um dá o que tem.
      Na verdade, os únicos que me interessam de verdade são os últimos. Da restante gente há os que precisam de nós; outros, que nos apreciam neste ou naquele aspecto. Nesses, não esperar em demasia é o lema.

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  7. Talvez a vida a tenha mudado ou sempre foi assim e os olhos da Bea viam o que nunca existiu.
    Mas creio que quem mais perdeu foi ela.

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    1. A vida enclausurou-a. É uma história de clausura sem convento, Magui. Mas até creio que tenha feito uns votos mentais:). Tem muita grade nesse coração.

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  8. Em muito do que leio me revejo. E idealizo o mesmo, há afectos que ficam como cicatrizes. A gente pasma - e teima - que se "mudem tanto" os sonhos adolescentes. Eu por mim não entendo e a ternura havida esvoaça na mente, nos sonhos. Tal qual dizes que não se pode mudar o pensamento. Uma mão chega e sobra para contar "amigos" mas nem esses são o que pensava da Amizade. Será então meu defeito, minha falha. Abç

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  9. Bea, vivi uma história parecida. A minha amiga era vizinha, colega de escola, confidente seguríssima. Sempre juntas até à hora de dormir cada uma na sua cama, na sua casa. Os meus pais aceitavam, a minha irmã (mais nova) criticava tamanha amizade.
    Vivíamos em Moçambique. Fomos ambas retornadas. Eu primeiro, ela logo a seguir. Perdemo-nos no rebuliço deste país virado ao contrário. Anos depois, cruzámo-nos numa rua de Lisboa. De adolescentes tínhamos passado a mães. Eu dei-lhe o meu telefone, ela anotou. E não, o telefone nunca tocou e eu, não voltei a calcorrear aquela rua.
    Custou, mas sarou. Ficaram as muitas e boas memórias guardadas no baú da infância e da adolescência.
    Baú que abri após ler esta extraordinária crónica.
    Beijo.

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    1. Não é bem a mesma coisa, Teresa. Nem nós duas fomos nunca como a Teresa e sua amiga: inseparáveis. Nem eu a larguei da mão nunca (excepto nestes dois anos).
      Hoje não tenho má vontade nem expectativas. Não me preocupa quem deu mais a quem. Mas sei que aquela não coincide com a amiga que construí. Mas é alguém. Que talvez continue a gostar do que de mim lhe chega.

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  10. Os outros, mesmo sendo nossos amigos, não são o que nós sonhámos, bettips. São eles. E tão volitivos quanto nós. Mas sempre lhe vou dizendo que tenho uma amiga dilecta - mais dilecta que as outras, sim - com quem sintonizo até inadvertidamente e que um Deus benévolo achou por bem pôr no meu caminho. O meu trabalho foi nenhum. E oxalá ela sinta igual:).

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  11. Entre o que os outros são realmente, o modo como os sentimos, a relação construída, é tudo de grande complexidade. No fim sobra apenas o que nós sentimos que é a nossa verdade, e dela a Bea dá muito bem conta.
    ~CC~

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  12. Obrigada, CC. O mundo humano e as relações interpessoais são bastante complexos, mas sempre me pareceu que os sentimentos têm um lado simples que nos salva.

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  13. Há as amizades que "inventamos" e há as amizades nascidas de personalidades com necessidades e ritmos muito diferentes.
    Por vezes confundem-se e perceber os seus reais limites e veracidade não é nada fácil...nada fácil mesmo.
    Creio que apenas o tempo dará a resposta.

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  14. As sintonias são fáceis com algumas pessoas e nem tanto com outras. Penso que temos de nos conformar com o grau conseguido. Coisa que só teoricamente é simples.
    Boa tarde, Dulce.

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  15. Amiga imaginária permite partilhar emoções e sentimentos sem correr o risco de deixar de ser segredo! Penso que tenho uma também!!! Bj Bea

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  16. :) Mas, Gracinha, uma amiga não revela os nossos segredos. O que minha mãe me ensinou bem pequena e aprendi foi que um segredo ouve-se e não se repete. Porque há duas condições num segredo 1. ser transmitido a (ou conhecido por) alguém; 2 que esse alguém, ciente de ser secreto, não o divulgue.
    Não sei se uma amiga imaginária preenche todos os requisitos da confidente:). Mas é verdade que me dou bem com seres imaginários o que não abona grandemente a meu favor.
    Boa noite, Gracinha.

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