“A
vida é feita de nadas/de grandes serras paradas”, como escreveu Torga. Nadas.
Pequenos nadas que nos tecem, entremeados de pontuais formações rochosas que
curvam a marcha e nos alteram a paisagem. No variegado percurso, complexificamos
e divergimos. Mas o substracto que reverdece os homens e distende raízes chama-se
sentimento e vive de emoções, às vezes de paixões, umas mais eternas que
outras.
Talvez
ela prezasse a amizade, aquele sentimento da fundura e não aqueloutros que
abusam da palavra e são arremedo. Um amigo não habita a esfera de colegas e
conhecidos, companheiros profissionais ou de viagem, gente com quem
simpatizamos e já está. O amigo joga noutra liga, a nossa. Os amigos entendem-se
como pertença natural. Usam de confiança e tentam por todos meios encontrar-se;
e cada encontro cimenta a relação. Os amigos
têm-se mutuamente presentes - em corpo ou apenas em espírito - nas agruras e
festejos; ajudam-se com a espontaneidade de erva primaveril brotando da terra;
são sinceros e comunicam entre si, senão com palavras, no silêncio de quem as dispensa,
dando graças por esse recatado remanso. Por vezes, são o norte uns dos outros.
O
desnorte aconteceu-lhe via telefone. Uma colega ligara protestando acesa e
palavrosa amizade. Conheciam-se havia alguns anos. Um encontro casual gerara simpatias
de férias, facto muito vulgar. Posteriormente,
num momento difícil, dera-lhe uma ajuda. Não se movera por amizade, apenas se predispôs
e ajudou; poderia tê-lo feito por outra pessoa que assim a necessitasse. A exígua
totalidade dos encontros - dois ou três almoços – permitia supor algumas
afinidades. E, por força do papel de boa samaritana, conhecera-lhe a casa; voltaram
a juntar-se brevemente mais duas ou três vezes. Não lobrigava, pois, qualquer
razão para tais protestos de amizade. Se as tantas amigas que a outra proclamava
fossem de igual teor, a compaixão assentava-lhe. Repassava os momentos vividos
juntas e não a sentia próxima. Jamais a procurara nos apertos e confusões pessoais
e nem tal lhe ocorreria. E, revisando a vida da outra e o longo tempo sem
contacto, concluía que se pagavam na mesma moeda. O que surgia na esfera do
inadmissível eram os seus protestos, o dizer-se a amiga profunda que nunca fora
e talvez nem soubesse ser. Há quem se passeie pela superfície e ignore a seiva.
Um logro emocional. Ora a amizade não se pode deslustrar com faz de conta. Protestos
a apontá-la como melhor amiga?! Homessa.
É de quem não aprende.
Pequenos nadas... Talvez no conseguirmos valorizar esses "nadas" é que está o segredo da vida ou da felicidade :)
ResponderEliminarE amizades de faz de conta, não obrigada. Já chega as pessoas com quem temos que lidar diariamente que não nos são nada.
Beijocas
Vou verificando que, talvez por influência das redes sociais, somos todos amigos uns dos outros. Ora eu, não sendo inimiga de ninguém que conheça, não me sinto propriamente amiga de muita gente. E não me quadra que exista quem se diz muito amiga quando é por demais evidente que o não é. O que nada tem a ver com o facto de, se o necessite, ter a minha ajuda desinteressada.
EliminarÉ pelo menos assim que vejo as coisas, Cláudia.
Começar um texto com Miguel Torga é logo motivo de ficar ainda com mais vontade de ler. Não é o que escreve, mas a forma como as suas palavras têm o conteúdo necessário para nos fazer interessar. É o que sinto quando a leio.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Quem me dera ser isso que a Graça lê.
ResponderEliminarObrigada na mesma:).
Boa semana.
Partilho da opinião da Graça Pires que também escreve bem! A Bea tem o dom da escrita com a subtileza inteligente de nos "aprisionar" na leitura! Quantos aos amigos pouquíssimos e penso que "inimigos" ainda menos!!!🤭... Quanto ao meu sobrinho é um "menino" lindo... cuja criatividade o acompanha desde criança e "arrisca"... gostando de criar e muita capacidade de trabalho!
ResponderEliminarBj Bea
É como diz Gracinha, o talento tem de ser acompanhado com trabalho ou pouco se consegue. E a criatividade do sobrinho é imparável. Abençoado seja.
ResponderEliminarUm beijinho
Falar de amizade... só como Torga que, ao que sei, era pessoalmente difícil e de poucas "amizades! Arquitectura feliz, a da Bea, esta descrição infeliz dos "protestos de amizade". Não se conhece nem o próximo mais próximo, estamos sós, o resto é a paisagem que muda e vai ficando para trás, no comboio da nossa vida.
ResponderEliminarTalvez tenha razão, bettips. Embora não sejamos capazes de conhecer totalmente os outros, existem alguns em quem confiamos e de quem gostamos sempre; não temos de os conhecer profusamente. Conheci um amigo de Torga e sempre me pareceu grato por essa amizade. Mas é verdade que somos sozinhos, sendo que uns dão mais por isso que outros.
ResponderEliminarUm belo e lúcido texto sobre amizade.
ResponderEliminarObrigada, Prosa.
ResponderEliminarUm beijinho