Estava no mesmo lugar, tão calma e linda como ela só. Repito-me, mas em cada vez é a vez primeira no amor que lhe dedico. Não é entusiasmo, nem um agrado simples, é razão que aviva o meu ser mortal. Penso nela em todas as estações, lembro-a saudosamente em dias não; no estio, anseio a leveza dos seus abraços molhados e marco no calendário os dias da semana em que a visito. Se me chega a insónia, apetece-me a simbiose única que mantemos e me alisa os refegos da alma dissipando nebulosas, nódoas negras e o mais. Como se já não bastassem os nós que vamos dando e nos enredam a vida, os anos trazem de presente mazelas que nos recordam o encurtar desmedido dos limites. Porém, na sua presença tudo mingua e se retrai a ínfima proporção.
Contemplá-la do alto da escadaria é pura maravilha. Vejo-a e sou feliz por antecipação. Esperam-me horas e horas de prazer, por acaso - ou não -, bastante monótono. Apanhar sol e ler - ir à água - apanhar sol e ler - ir à água. O que eu sonho com este repete, repete, repete. É um facto: trazer companhia tem prerrogativas e serve de interrupção. Mas a identidade do gosto cumpre a sequência.
Este ano a espera foi tão longa que nem olhei as árvores costumeiras, não notei as que morreram e mesmo mortas persistem na vigília, olham sem ver a fita de alcatrão, alentejana de gema no "sempre em frente" do caminho. Reparei nas cegonhitas novas e desabrochadas, armadas em donas da casa, olhando a mutação do mundo em quieta placidez. Para trás deixaram os dias de bico laranja em vê escancarado e o novelinho que mal se enxergava a sustentá-lo, uma diligência de asas a rodeá-las em voos de cuidado.
As cegonhas da beira de estrada medem-me o tempo. Sei por elas se adiantei ou atrasei viagem. Perdi a avioneta da cura e a praia só mosquinhas e outros bichos microscópicos que conseguem fugir-lhe e chateiam pele e paciência fazendo teias em tudo que encontram, até na pala do boné ou no laço do chapéu; e mesmo nas nossas pestanas se o consentirmos ou adormecermos. São pragas que a força dos químicos afugenta dos arrozais e tomatais e mais culturas em ais (provavelmente). Rainhas contra vontade, ordenam o que não pertence. E, heureusement, perdi os buracos no alcatrão, a estrada apetece. No meio do verde, um alto pinheiro morto, carregado de pinhas. Tão alto e tão morto. Talvez a morte também escolha as árvores. Imagino-a céptica e sinuosa, a mirá-lo, a sentir-lhe o orgulho de líder na altura impávida e frutificada. E ela vingativa, indicador esquálido e determinante, este.
Porém, a morte das árvores é cada vez mais determinada pelos humanos. E há demasiada morte a fugir à contingência natural. A morte criminosa. Sofrida por árvores e homens, falha do respeito pela vida, doação inexcedível. Não lhe existe critério válido. Posta ao serviço dos vendilhões do Templo-Terra.