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terça-feira, 2 de julho de 2024

Salamanca

  Antes de viajar, e contrariando o meu gosto por surpresas, decido o que desejo ver/visitar. De acordo com a companhia nem sempre dada a museus e que tais, escolho e anoto os imprescindíveis.  O restante, que antevejo não poder ser abrangido, deixo na mesma anotado, quem sabe há uma reviravolta que o proporcione. Ora, frente à Catedral de Salamanca fica o Museu de Arte Nova, um dos meus imprescindíveis. Percorri-o sozinha, facto de que tirei benefício. É uma frescura para os olhos aquele museu; e um derreter de alma.  Situa-se num palacete muito claro devido ao revestimento do tecto ser, em grande parte, constituído por  um vitral lindo que me lembrou a Lello; e à parte da casa que suponho em tempos ter sido a frente (e ainda será, mas não entramos nem saímos por lá) e é, no primeiro piso e no rés do chão, completamente vidrada e suportada por estrutura em ferro, tão delicadamente concebida que mais parece renda beijando o vidro. Acrescente-se que o tom cinza claro nas portas e umbrais agrada ao olhar de quem entra, desfatiga.  As peças são pequenas maravilhas expostas em vitrine ou são mobília compondo a sala. Subindo ao primeiro piso, maravilha-nos a vista total do tecto, um longo vitral a coar a luz em tons diversos com predomínio de azul. Olhando ao redor, verificamos estar em sala ampla com varanda corrida a toda a volta, mercê da estrutura de ferro que  a abraça e ampara, permitindo a expansão do vitral. Damos por nós num corredor que percorre a sala e é delimitado pela citada varanda.  Abaixo do belíssimo vitral do tecto, o friso também em vitral que o guarnece e como que emparelha e olha a varanda abaixo que percorre a sala e é também cor e luz de vitral. Deslumbre. Dando costas à varanda abismamos no conjunto cinza das portas fechadas: umbrais guarnecidos de motivos florais e na bandeira da porta o semicírculo de vitral com motivo rosa. Um achado de conto de fadas. Ao longo do corredor rectangular, encontram-se outras portas iguais ou parecidas. Junto ao tecto, as paredes interiores rematavam num friso de flores pequenas suponho que em gesso e que, salientes, pareciam descolar do lugar onde alguém assim as fez nascer. Imagino que aquela varanda interior existiu para contempladores de bailes ou outras actividades que aconteciam em baixo, no grande e arejado salão ora vazio. Abençoado seja quem inventou todos os requebros da Arte Nova. Fotografei o que consegui e me chamou: figuras de mulher, em maioria. Não por sectarismo, eram as que mais abundavam. Gostei da mulher mariposa, lembrou-me os meus braços de vinte anos. E das duas bailarinas, mãos dadas, em bicos de pés e tão airosas no rodopio leve das saias.  Fascínio. A umas captei pela beleza, outras pelo movimento que  emanam, outras apenas por gosto e rendição. Gostei de tudo. Só as jarras e jarrinhas de arte nova brilham na ausência da flor, são a própria floração. 

Raras vezes me deixo tentar pela loja de artigos de museu (exceptuo a Gulbenkian). Mas, o Museu de Arte Nova é-me irresistível. E apesar de serem ofertas, saí contentinha. A minha dádiva foi estar lá inteirinha e observá-lo amorosamente.

sábado, 22 de junho de 2024

Salamanca

         Pela tarde entrámos em Salamanca, cidade que me conquistou ao primeiro olhar, sendo que o primeiro olhar estava já distante, dois garotos nas minhas saias, brincalhões e briguentos como compete a quaisquer irmãos. Nesse dia de Outubro, Salamanca esfriava, o vento correndo as ruas em pressas de fim de mundo e eu, como de hábito, a contrariar o clima e quase a tiritar no meu casaquinho casca de ovo. Então, conheci apenas algumas ruas e a Plaza Mayor. Não tenho saudade a esse tempo de os garotos crescerem; ficou em mim feito Idade Média. Mas tenho saudade dos seus olhos risonhos e confiantes e de estarem longe de problemas insolúveis. Julgo que os pais sentem essa melancolia, não desejam que o tempo volte atrás, mas sabem que, o esse amor incondicional dos filhos está a prazo. Aconteceu connosco, aconteceu com eles. É absolutamente normal, mas se o relembro, sai-me do pensamento uma trança: o orgulho que tenho neles, a pena de tanta vez perderem os bons sinais de quem foram e a inescapável nostalgia.

Portanto, olho aberto e sem desculpas, em Salamanca surgiu-me outra cidade. Explorei finalmente as duas catedrais de que apenas tinha visto cúpulas, fotografei alguns pormenores e gostei mesmo daquele poço mouro a meio de um claustro na Catedral Velha. Quis em tempos ter um assim (parecido) no quintal, mas não está autorizado fazerem-se furos numa urbanização e desisti do meu pocinho com grinalda de ferro forjado; haveria um balde suspenso por uma corda que cirandavam abaixo-acima, abaixo-acima, por via da roldana, gema preciosa no centro da grinalda. Salamanca lembrou-me este sonho há muito posto de lado. Julgo ter sido ainda na Catedral Velha que vi um Cristo Redentor semi erguido, sangue em pernas e braços, e um  decidido vigor no olhar enquanto pega no manto/mortalha, como alguém a quem falta fazer uma data de coisas e já vai com atraso. A escultura, imediatamente atrás do altar, é mais convincente que o Cristo morto na Cruz de que fala Pessoa e as igrejas gostam de mostrar para nossa consolação (somos sempre mais felizes que Ele). Como é que em três dias este homem-Deus expiou os pecados de toda a humanidade: presente, passada e futura?! Olhem, não tem explicação.

E o nosso Santo António de Lisboa lá estava como sendo de Pádua e, do mal o menos, alguém escreveu que nascido em Lisboa. Uma mão de pianista avança aberta, olhos de inocência; parece um menino, o nosso santo. A custódia na outra mão é que. Ou será que o santo corria Pádua de custódia em punho?! Terei de me informar melhor. 

Chamou-me a atenção uma Nossa Senhora morena e muito jovem em fundo de brilhos. Pois digo-vos que aquela morena de cabelo ligeiramente ondulado a dar no ombro (ela mesma ou quem lhe serviu de modelo, ou sequer o imaginário do escultor e pintor) tem olhos de quem sofre e está algo saturada da vida que leva. É  sofrimento resignado denunciando uma indisfarçável ponta de contrariedade. Como se tal situação lhe estivesse fora dos planos. Gostei dela de rajada. Encontra-se rodeada de anjos, a maioria dos quais só cabeça e asas (pobrezitos). Os pormenores das asas também se me alojaram nas meninges. Todas coloridas, mesmo as dos quatro anjinhos papudos que encimam a imagem e são uns barrigudinhos amorosos e com sexo. Estive a olhá-los à lupa e não há uma menina sequer. Deixo ao leitor a consideração do fenómeno. Em baixo e a fechar o quadro, dois anjos que nada de asinhas, anjos adultos, digo eu. Ambos donos de competentes apetrechos de voo, exibindo remiges e o que mais haja. E há neles um natural e imoderado gesto, como de quem vai cruzar a perna, as rótulas escaroladas e um nadinha de coxa ao léu, mesmo por detrás do altar. Acresce que o anjo à direita da morena usa uma espécie de chapéu à Robin dos Bosques, figura das minhas simpatias desde os livros de banda desenhada de meu tio. Conclusão: este altar moveu-me. E não sei onde pertence, julgo que à catedral velha por recordar a enormidade de talha dourada em que pousavam os referidos voadores, mas posso, por esse mesmo motivo, estar enganada.

E depois anotei o retábulo e a abundância de cenas religiosas que contém. E mais que dele, sacrílega artística que sou, animou-me a pintura abaulada do tecto sobre.  Suponho seja o fim do mundo com os ressuscitados todos contentes e brancos (seremos assim, todos iguais uns aos outros?) e Cristo em grande plano (é de certeza Ele, tem a chaga do lado e a marca dos pregos), etéreo e dançando. Arriscaria dizer que é uma das posições do ballet, mas isto se entendesse uma unha de tal forma de expressão. Antes O imagino todo humano e contente, pulando ao ritmo do "consegui, consegui". E o pessoal ex defunto a bater palmas. Que ressuscitar três dias depois de morto é uma coisa; e ressuscitar séculos depois, é outra.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Avenida Beira-Mar


         A avenida principal, Avenida Beira-Mar,  é um espaço amplo que liga a cidade de Fortaleza ao mar.  De um lado desmaia na água em jeitinho de gente que enfim descansa e “chega em casa”. Do outro, o calçadão onde vagam andarilhos batidos de sol. No chão de árvores frondosas e verdes exuberantes, há frutos caídos e esmagados pelos passantes e somos invadidos pelo odor característico de uma frutaria. As palmeiras sinuosas quase não bolem no langor da aragem e a noite suada da feirinha cheira a trópico e fruta madura. Noite ou dia, os homens juntam-se em cachos pequenos a gozar a cervejinha gelada, enquanto nas barracas, mulheres que são por certo as suas, vendem quanto podem e sabem, voz baixa e sem esganiçamento, a sugestão toda no timbre. Lá à frente, talvez a meio da sua extensão, a escultura que representa a índia Iracema e seu português, cena doméstica inspirada nas descrições do escritor José de Alencar. Iracema domina a cena. De pé, esbelta e desproporcionada em sua grandeza, mas ainda assim linda como não são as mulheres de ascendência índia em Fortaleza. Ao invés delas, Iracema é sublime portento. Tem a pose de quem está não estando, o olhar esmiuçando os longes marítimos que lhe trariam o português. Iracema virada ao íman marítimo e tão mulher na busca do que não há. E o português sentado a seus pés; suponho que assim figurou o artista a saudade da índia. No colo da mulher, um cesto com o filho dos dois. Quem sabe Iracema procura com seu longo pescoço afilado o português que lhe falta. Talvez o escultor tenha querido mostrar nesse esforço longilíneo de ver para lá do horizonte, a imortal  liberdade índia que esmorece nas dobras do amor. Os olhos de Iracema não encontram o que procuram. Na composição, o português é traço menor, figura sentada que descansou dela sem que, imaginamos nós, nunca nela tenha descansado. Mas não lemos José de Alencar e, portanto, podemos pensá-la saudosa do seu povo, desanimada até. Iracema, que José de Alencar conta que desapareceu ou morreu de tristeza devido à ausência do português que por certo, como acontece em madame Butterfly, voltou para casa e esqueceu. E ali está devorando distâncias, olhos em ânsia, cabelo lançado ao vento que arrepia a pele do mar. Espera um barco que não chega. Iracema a quem o tempo engoliu a alegria. Iracema a de longas pernas, músculos treinados a trepar a altura dos morros para enxergar melhor. Iracema que esperou no português o que ele não tinha e morreu em  atropelo de desamor. Ou voltou para o seu povo que é outra forma de morrer. Martins Moreno, o português de Iracema, é figura pequena, nunca cresceu.  Mas a índia abandonou o seu povo por ele e com isso mudou alma e corpo. Agigantou e é hoje a mãe universal de Fortaleza. Diz o povo que ela e a sua descendência deram início à cidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Incómodas Convergências

 

Praia de dunas altas, areias sinuosas de deserto onde o turismo se infiltra impiedoso. São os passeios de buggy incluindo emoção de compra, quase a metro. A aquisição de viagens inclui três variantes: muita emoção, emoção média e de intuito paisagístico. Para os menos abonados, há também subidas difíceis ao morro para depois, a prancha a fazer de escorrega, desaguarem na água da praia, um caldo barrento que não apetece. É caricato e até um tanto confrangedor observar os turistas que alinharam na subida, empancarem na areia a arfar de cansaço e serem empurrados por locomotivas-criança, menininhos que carregam as pranchas em calção, mãos e força pronta. Mas somos todos contra a exploração infantil e eles até nem parecem contrariados, estão sorridentes e de boa mente, certamente recebem paga pelas “ajudas”. Talvez tenham faltado à escola, mas isso que importa, é só um dia, sobra-lhes muito tempo para aprender.

E, porque nos encontramos no calçadão, na praia, na Avenida Beira-Mar, no hotel, constato que os homens de meia idade chegaram sós, mas, passadas horas, passeiam  de amarração com sorrisos morenos quase infantis que alugam, desalugam e trocam quase diariamente. E descansam, nada de assédio sexual, são elas oferecem e consentem, divertem-se a divertir passarões portugueses que, provavelmente, deixaram em casa a mulher a cuidar dos filhos. Mas, aqui, fazem de magnatas e exibem a babada vaidade parola de conquistas brasileiras. Foi assim o caminho dos dois exemplares que viajaram connosco e a quem ouvi, ainda no avião, tentando impressionar a jovem universitária que seguia ao nosso lado, que eram empresários e vinham a negócios. Estes somos nós, habitantes do “primeiro mundo”, os que não têm hábitos de violência e precisam ser protegidos por polícias armados da vagabundagem brasileira, dos assaltos de ladrões de ruas e esquinas terceiro mundistas. Um primor.

Foi um Brasil pobre e alguns portugueses de latão a imitar ouro, que, por coincidências da sorte e sem escolha, me foi dado conhecer. Mas, tal como os romances desventurados vendem e perduram mais que os venturosos, assim eu recordo a perplexidade que me acompanhou nesta viagem onde nada de grande me esperava. Uma vez no Brasil, peça a peça, a realidade desmantelou a fantasia.

 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O Primeiro Olhar

 

Acima das nuvens, rente ao azul. Em baixo, farrapos de terra, carpetes solitárias no imenso mar. Navegação alada que  desafia o canto primeiro. Pairamos sobre a noite da cidade. Lá em baixo, a escuridão de rectângulos minúsculos desenhados a luz. Fortaleza é geometria ocular contornada a eyeliner luminoso. No interior de cada rectângulo, a ignota escuridão brasileira acrescenta o mistério da noite. Há-de haver homens no escuro, riso e choro, suspiros e roncos, angústias animais, gritos lancinantes de ambulâncias, vidas que se vão e outras que chegam. Visto do ar, tudo é breu. À saída, o ar quente bate no rosto desde a manga do avião e o corpo descomprime, alarga, sente que existe num espaço diferente. Na rua,  o odor forte a fruta madura que fermenta anuncia o peso dos trópicos e o suor saturado do termómetro. Depois, o hotel fortemente policiado e a percepção de que a vida se desenrola quase toda no seu interior. Amplo e arejado é reduto do dolce fare niente, um artifício onde o turista pé rapado se sente rei e ordena. Juntou subsídios, apôs economias, comprou roupa leve e garrida. Chegado ao hotel, compreende que ganhou direitos novos. Pede bebidas geladas no quarto, acrescentos de pequeno almoço desnecessários que nunca em outro lugar comeu de mesas tão recheadas, experimenta o whisky servido dentro da piscina, as massagens e os encantos da beleza feminina e virtuosa no spa, os vapores oloríficos de sessões de relaxamento entregues a mãos de fada e perfil de miss. E o brasileiro melífluo e acrescido de sorrisos, ajoelhado, servente que secretamente desdenha a quem serve, sim senhor doutor, como o doutor quiser. E,  aproximando-se humilde, a senhora não bebe uma água de coco  ou assim, estou para a servir. E os europeus democratas, exigentes de direitos e deveres iguais entre os homens, esquecem o que são e viram-se decididos para a autoridade e o sistema de sociedade vertical que tanto usam criticar. Deram por si no cume da pirâmide. Na vertigem do lugar, nasce-lhes certo paternalismo irritante e falso que mina ainda mais a relação com o autóctone. Brasileiro e português fogem de si mesmos. O primeiro finge ser humilde servo; o segundo puxa pelo patrão autoritário que dorme dentro de si e recria-se: rico, ocioso, banhado em prepotência paternal. Convicto de ter chegado ao terceiro mundo, não nota a identidade que trouxe e o marca e assemelha.

O hotel é teatro faustoso onde todos os personagens são maus intérpretes. Mas cá estou.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A Minha Rua


À medida que os anos correm damos por nós a questionar valores assentes, princípios da existência. Vislumbramos sentidos ocultos onde, possivelmente, não há sentido nenhum e avaliamos ao milímetro o peso da máxima socrática, nada sabemos. A vida não nos ilumina de sabedoria, limita-se – e nem isto é universal - a esclarecer a própria ignorância. Portanto, não morremos sábios. Alguns levam consigo esse saber de sonho desfeito que é ignorância de papel passado. Que a outros, os achaques sobreocupam-nos e aniquilam; não sobra tempo para inquietações e filosofias.
A minha rua, minha de quase trinta anos, começou por ser uma rua bebé respigando auspícios. Conheci-a sem luz, em piso de terra. A breve trecho, chegou o asfalto e a iluminação. Encheu-se de moradias e, logo, logo, de crianças.  Então, na tardinha alentejana, a vozearia do futebol ouvia-se até ser escuro e a adiantada lua dar voz de paragem. A toda a hora revivia.  Garotos de bicicleta; duas meninas de mão dada e fugindo do cão que ladra preso à corrente; o rapazinho solitário, mochila nas costas, indo e vindo da escola que é logo ali; as mães que a espreitavam ainda assim o filho ou a filha; os pais que chegavam a hora certa, dia de trabalho cumprido. E as flores e arbustos que no princípio eram assomo de verde medroso e que espreitávamos a debruçar-nos sobre os muros baixos, rindo de contentes, a impar na vaidade da cor, espigados e satisfeitos da altura acima da parede branca, como quem afirma a endireitar o corpo, já sou grande.
Hoje, a minha rua desamparou. Restam um ou dois casais de meia idade a quem netos e filhos pouco visitam, a vida a exigir deles o que antes pediu a pais e avós; morreram locatários, alguns sem ruído ou rasto; a garota de mais inquieta beleza finou-se no asfalto e devastou três vidas por junto. Houve divórcios e abandonos súbitos, desamores e ódios, lágrimas e gritos que meteram polícia, vícios que deram em morte e mortes que ainda andam por aí, que também devagar nos matamos. Em algumas o letreiro, Vende-se, é sublinhado desastre. Na manhã dos meus passos, olho cada uma como foi, a gente que ali fez ninho ainda adormecida. Que, firmando a vista, reconheço, a minha rua desdentou. Aqui uma morte, ali a ida para o lar, além um emigrante que tarda em regressar, mais atrás um divórcio. E, à medida que os jovens se afastam das minhas bandas, surgem cães e  gatos, pobres substitutos da riqueza que se foi.
Mas, quem sabe, as casas vazias se enchem de novos  casais e em breve no ar  viajam vozes de infância nas invectivas dos jogos de futebol e na contagem até vinte das escondidas. Que ainda os cedros guardam nichos de corpos pequenos. Para quê, não o sabemos.


terça-feira, 18 de junho de 2019

Na Cerca


O Minho que conheço é feito de sombras e frescura, humidade que ressuma dos muros, pequenos veios de água escorregando a passos de lismo. Em Tibães a água que serve o mosteiro vem do monte que lhe fica em frente, visão que maciços e arvoredo escondem. Quem terá construído a ala de degraus intervalados de fontes, esta escalada frondosa debruada a pedra de sentar e que leva o viajante até ao cume. Já não estou certa, mas serão nove fontes e, entre uma e outra, os degraus. São muitas as estações e vou parando, a encher-me do lugar e esvaziar-me de mim. Cada fonte é sinal de pausa,  lembra a via sacra. Quem sabe, o número obedece a preceito que desconheço. A serena beleza daquele caminho de sombras e pássaros, a abertura dos ramos a fazer tecto e, em todo o ar à volta, um silêncio que se entrega, toma-me. 
Ali, a minha igreja de seiva, água, terra. Ali, habitam em harmonia os deuses e os espíritos benévolos da floresta. E o mundo é lá fora e desimporta. Bem a meio, o cano que desce colado à terra, a água em corrida; há-de percorrer a distância até ao mosteiro onde, senhor nos seus domínios, distribui a benesse líquida que no inverno é agreste frescura e pode gelar. Lá em cima, em remate, uma construção branca ressalta do verde. Será a mãe de água, uma cisterna, um simulacro de igreja. Não sei, sou ainda presa do caminho. 
Desço o carreiro que desemboca em clareira aberta. No lago inesperado, um dramático e enorme círculo líquido que palpita de vida animal, a água ondula aqui e ali. Abeiro-me da superfície escura e milhares de insectos ou pequenos seres aquáticos borbulham e são praga que repugna. Será que os frades ali se banhavam ou lavavam roupa. Que algum se deitou a afogar no fascínio escuro de lodo, o corpo inane e branco levado em braços e a pingar verde pelos caminhos da horta. Que funestas paixões e proibidos amores ali deliraram e foram submersos e ciliciados. Jamais saberemos que dores pressentidas o escurecem ad eternum.
Antes de abandonar o mosteiro, revi ainda os aposentos exclusivos do abade, a breve varanda de sol e gorjeios e as escadinhas que deitam para a ampla exclusividade do quintal onde uma romaneira insistente floresce em alegria.
Não se me dava ser abade neste mosteiro.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Tibães e uma Inveja Telúrica


Ultrapasso o pedaço de vinha e o receptivo espaço de aluguel arado e aberto à semente. Invejo aquela terra forte, escura, a água que corre em regueira natural, a força verde de natureza bem nutrida. Acudo ao chamamento dos bancos de pedra, subo degraus e sento-me ao rés da primeira fonte. No início da tarde, o calor, a quietude, um silêncio de pássaros no arvoredo que rodeia o semi círculo de lajes, convidam ao remanso de preguiça digestiva a que os alentejanos chamam sesta e tanta vez é apenas um alívio de existir e laborar em árduo sufoco de sol. Nas sombras quentes e suarentas, os alentejanos apoiam costas num tronco e, chapéu puxado ao rosto, adormecem. Minutos em que são indefesos meninos, abandonados de força, corpo lasso, pernas bambas, pés sem caminho. Ao invés, rasa a fonte uma frescura de gotas em suave canto chão. É talvez o prenúncio de água fresca que os alentejanos sonham sob o chapéu que os isola e protege da intrusão de moscas e moscardos, formigas subindo-lhes o corpo deslembrado. Sabe-se lá o que ouvem no breve coma que os tolhe. O bem que lhes faria a força vital destas árvores, a sombra fresca e cerrada de que sobreiros e azinheiras são incapazes, por mais que estiquem folhinhas minimais. Tudo na enxada alentejana deseja a terra fecunda e escura que desconhece, o mundo de além Tejo suspira por esse húmus que lhe não pertence. E remexe no pó cinzento da terra anémica que lhe calhou. E dela arranca esforçadas flores e frutos, e planta árvores que crescem tinhosas ou a poder de cuidados e reservas. Mas, aqui, não; aqui, tudo cresce desmedido. O mundo do esforço é muito desigual.
Refrigero mãos na água abençoada e sigo viagem, piso devagar nos caminhos desta primavera veraneante. Maciços despedem odores a viço jovem e clorofila e a respiração agradece o novo alento. Aqui e ali, pequenas flores silvestres sorriem a pintalgar a verdura. Flores que ninguém rega nem ampara, crescendo a sós com o sol e a água. No Alentejo, os caules estiolam sem razão aparente e as plantas que sobrevivem requerem amparo humano. Que o verão tudo engole e queima, das ervinhas mínimas a arbustos impensáveis. Na modorra de tardes infernais as frágeis flores sossobram, aceitam a morte que se anuncia na canícula, pergunta breve e repetida, até quando resistes, até quando. Aqui há flores contentes, pujantes, duram o todo do seu tempo. Cumprem-se. Mas o meu coração está lá, irmanado à sobrevivência do mundo vegetal, comovido no esforço desafiante de cada botão. Mesmo que as corolas pendam e os caules desistam, que belas são as flores exaustas.  


sábado, 15 de junho de 2019

Ainda Tibães


Abençoados os condes D. Teresa e D. Henrique que em 1110 doaram as terras de Tibães à igreja. Nelas, o mosteiro beneditino foi construído, reconstruído e acrescentado ao longo de séculos.  A época áurea coincidiu com o período em que foi sede da congregação de S. Bento e a ordem juntava as casas de Portugal e Brasil. No interior do mosteiro abunda uma claridade que apetece e convida à contemplação, talvez por ser povoado de zonas amplas e abertas, pátios e claustros arejados; no piso superior, um passadiço externo que liga o edifício disposto em quadrado, de um lado ao seu oposto. Foi escola de artistas vários que ali praticaram a sua arte e era frequente a existência de monges que deixaram obra dentro de portas. O zelo dos artistas avulta na opulência da igreja, um explosivo mar de arte sacra em maneirismo rococó que não a confina. Tudo no templo é molde de artista a louvar o Criador: azulejos; a profusa talha dourada estuando motivos; as cadeiras de sentar e encostar do coro, personalizadas uma a uma com figuras de animais; quadros; altares; a separação das zonas de culto. E por ali andamos atentos, num cansaço feliz e de olhos saturados, imersos na profusão de obras que são salmo, oração e cântico perene. Desvinculados de quem somos ou seremos. Olhos e alma esquecidos de que é o corpo que se move e os leva de cela em cela, corredor em corredor.
O mosteiro cresceu até ao século XVII, mas, extintas as ordens religiosas, foi encerrado em 1830. Vendido a particulares, só se torna edifício estatal em 1986, ano em que se iniciam as obras de restauro que permitem hoje a visita.
           Entretanto, desço ao verde da cerca rumorosa e cheia de sol. Encontro um pequeno jardim de ervas aromáticas onde uma mulher se fez súbita e nomeou cada uma. Seria por aqui que os frades tinham também a sua horta de remédios futuros e mezinhas, um bocado de terra para alívio dentro e fora de portas; chão sagrado, portanto. Talvez aquela senhora fosse uma funcionária do mosteiro. Ou estudiosa atenta. Ou, quem sabe, uma religiosa. Olhei-a: nem nova nem velha, traje discreto, uma paciência sábia na voz, sinais de amor pelo lugar e sua história; e um apagamento de si que invejo. Contou que os últimos proprietários de Tibães não tinham filhos e deixaram a propriedade à empregada que tem doze (não estou segura do número mas são mais de dez). Fiquei sabendo onde vive a senhora - muito perto do mosteiro - e que os filhos delapidaram a herança  e foram vendendo bens até que o Estado deitou a mão ao património restante. Deixei-a por entre aromas e segui para a mata.

domingo, 2 de junho de 2019

Mosteiro de Tibães


Tibães é lugar de recato, o bulício não sobe ao Mosteiro timbrado pelo sussurro do vento na copa  das árvores e música de pássaros. Tempos houve em que foi mais isolado. Hoje, época de caminhos em vaso comunicante, somos gratos ao sossego do sítio.
Entramos e logo as pedras nos avisam do tempo que carregam. Pergunto-me se viriam até ali todos os monges, ou, depois de franqueada a porta, era lugar vedado à maioria. Nada sei do mosteiro e da sua história, mas já me entrego a ele como noviço esperançoso que pisa o chão primevo sentindo-se em casa. Na sala abobadada, lugar de aquisição de bilhetes e lembranças, enredo nos bordados e bainhas abertas e faço contas de cabeça: isto e mais aquilo, a feira do livro, os aniversários que ora esta, tanta gente nasceu este mês. E logo os aquieto no lugar, orelhas moucas aos pedidos de leva-me contigo e à ilusória cantilena de certezas que abre por entre os fios de linho, pertenço-te. Ajeito dobras em modo de despedida e desculpa, olhos em voluntária desatenção. Seguimos.
O mosteiro, que nasceu no século XI e dizem ser o mais antigo da europa, alarga-se por zonas distintas: a igreja e seus apaniguados, hoje ao serviço da paróquia de Mire de Tibães; a extensa zona reservada à vida monástica; a parte que se destinava ao comando da ordem benditina – Tibães superintendia todos os mosteiros da ordem em Portugal e Brasil; a zona da cerca ou dos trabalhos agrícolas e a que pertence também a extensa mata. O território do mosteiro espraia-se por quarenta hectares  e apetece descansar na pedra de todos aqueles bancos. Do amplo terraço das traseiras, lugar de recreio dos monges, o olhar  perde-se no suave ondulado de copas verdes crescendo para o céu. Ali perpassa ainda a extensão silenciosa de outros tempos. Sem minutos ou horas. E, com hábito ou sem ele, deseja uma pessoa permanecer. Que, longe das mundaneidades, quem sabe, nos achega a inteireza.
Mas a viagem escrita, mais de impressão que exaustiva, começa no amplo claustro do cemitério. Lugar alegre,  luz espaçosa em derrame simples sobre a vegetação, bancos de pedra aqui e ali, pássaros de hábito na fonte central. E tudo debruado pela elevação natural dos arcos, religiosidade que ressuma da pedra assim talhada e revolvida. No piso em volta do claustro, as campas dos monges. Na simplicidade anónima de laje de chão, apenas uma inscrição numérica. Apagamento de si.


terça-feira, 28 de maio de 2019

Sempre Novo sob o Sol


A primeira vez que fui a Braga gostei de tudo, a começar na viagem carris afora. O comboio é um dos meus fetiches,  faz parte de sonhos nocturnos e diurnos. Que também já me trouxe pesadelos suficientes, aquela coisa de automóveis que encrencam no meio da passagem de nível, o impiedoso monstro a aproximar-se em estridência silvada e eu aflita de morro não morro. Mas levou-me a lugares sem conta e deu-se ao incómodo de parar deixando na gare deserta do meu sítio, e só para mim, amigas muito queridas. Enfim, cresci perto de uma via férrea e um dos  nossos pontos de diversão era, maltrapilhos e descalços, correr para o comboio e acenar aos passageiros de que apenas entrevíamos as cabeças e julgávamos pessoas muito ricas, para aí príncipes ou assim, que nem viravam o pescoço e nós em adeuses espalhafatosos, mobilizando a genica de mãos e braços. Portanto, onde é que eu ia, ah, sim, a chegar a Braga. Pois agradaram-me as ruas, os solares, as muitas igrejas com a Sé incluída, uma festa qualquer com gente a mais para mim e cabeçudos para todos os gostos.
 Pois isto tudo para dizer que voltei a Braga. Nova visita relâmpago. Desta vez sem cabeçudos, mas os comerciantes em versão medieval. E sim senhora, os homens de vestido não ficam mal de todo, embora se sintam muito livres lá em baixo o que não sei se é bom sintoma. À frente. As mulheres e jovens, lindas de morrer, indumentária caprichada. Ralha meu pai em solene invectiva, a gente, se é para pedir, pede sempre muito. Pois as bracarenses não fizeram por menos, vestiram-se de patrícias romanas, imperatrizes e o mais de alto relevo. No desfile das escolas encontrei mesmo um grupinho de escravos vestidos de saca, golpes desenhados no rosto, olhos pisados a poder de sombra roxa e negra, mas comandados por senhoras professoras todas nove horas, patrícias dos pés à cabeça. E digo-vos, havia ali mulheres bastante bonitas e romanas qb:). Ah Bracara Augusta! És mulher até ao tutano.
Como na vez anterior, deparei com festejos inesperados mas escusei o périplo das igrejas e dos solares. A bem dizer instalei-me num hotel onde o mal educado e façanhudo D. Afonso Henriques me espreitava o matutino e solitário pequeno almoço, todo fardadinho para lutar, que nem o escudo lhe faltava. Ora uma pessoa não vem nestes preparos para a sala de refeições. Mas resolvi desculpar o dislate e susto matinal. Se a real majestade tivesse alguma educação não tinha lutado contra a mãe que o educou e lhe deu aio tão bom, tão bom, que foi o que se viu e ainda por cima veio a morrer entalado na porta do Castelo de S. Jorge, dizia no livro da terceira classe se não me engano. Além do mais, bem sabemos que toda a medalha tem seu reverso e portanto, se o nosso primeiro rei fosse rapaz obediente, hoje seríamos Espanha ou, quem sabe, moirama pura. E eu, agora que já me habituei a isto, gosto de ser portuguesa. Oh! Mas os claustros do hotel, pejados de amores perfeitos, tão lindos. E a fina flor era ali que ia ao desjejum, quem sabe se com medo de D. Afonso.
Isto para dizer que fugi da multidão e fui a Tibães.  

sábado, 11 de maio de 2019

Ponto Final


Há sempre o  regresso ao lugar de pertença. Chegámos e logo a novidade de outro ar, o rio omnipresente e uma religiosidade medieva e  pontiaguda a elidir quotidianos e hábito. E, se casos houve em que o mundo conhecido se agitava telemóvel fora, outros, mais recatados e secretos, não despegaram por completo da mente, a nova brisa a descolá-los até meio, permanecendo de pé preso em infrutífera oscilação de braços. À medida que os dias corriam desalmados, o infatigável das horas sedimentava-nos a posição. Tudo, das lajes do chão à simpatia dos Amarantinos,  debruava a verdade, és visita.
Para trás ficou a hospitalidade risonha da Catarina, a delícia dos seus bolinhos, o pequeno almoço mirando o rio. E um passeio lá em baixo, junto à água, bucolismo verde na ponte pequena. Depois, a subida escolhendo o íngreme e a clorofila de caminhos  feitos a pouco degrau.
Ou a hora da visita de honra, em casa de S. Gonçalo. Agradecer-lhe o interesse que mostrou pelas gentes da beira Tâmega; a visão de desenvolvimento que presidiu à construção da  ponte velha e a plenitude pela beleza sacra de atravessá-la, passos devotos e recolhidos; o clima que se pôs a gosto em estadia aprazível. A incrédula efígie do santo abrindo a bondade de um meio sorriso. Vassalo das suas sandálias, um fresco molho de cravos vermelhos ditava orvalhos de fé. O frade num incentivo, não pedes nada, minha filha.  Suponho que enchentes de pedidos e olhos suplicantes cheguem a cansar-te. Para que nascemos, Gonçalo. Talvez só para viver. Não viemos talhados para nada, fizemos caminho: estradas largas e menos largas, pedaços de vereda, sendas estreitas abertas a catana, subidas difíceis com quedas súbitas e à reboleta, muito pó, arranhão e nódoa negra. Pedir-te o quê, não fugimos ao que somos. Ladeias o altar da igreja que foi pertença do teu mosteiro e tem raíz na Idade Média. De um lado, a efígie; do outro, o túmulo. No recato penumbroso que te guarda os restos, onde certamente te rezam, espreita o frio respeitoso dos mortos.  Bem melhor te conheço e encontro, em corpo e espírito,  no ar que se respira, nas arcadas da ponte,  margens do rio e lajes do chão. 
Foi um prazer, Gonçalo. Até Sempre

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Reconhecidos Prazeres


As confeitarias onde alegremente peregrinámos, um dia uma, um dia outra,  na prova de doces conventuais. Que dormíamos sobre  bolos e pasteleiros. Descíamos matinais e logo alcoviteiros vãos de escada nos serviam doçuras de bolo quente.  E nós contando degraus e a fazer uso do contraditório português, cheira a bolo fresco. Em baixo, servida ao balcão, a simpatia da nossa hospedeira, uma nascente de ternura apaziguada a brincar-lhe no sorriso juvenil. O rio na moldura de parede a parede, mundo de água que não pára de correr. E ela plácida, vozinha suave e sem tragédia, “nos invernos em que o Tâmega sobe mais somos os primeiros a ficar alagados, a água chega a ter um metro de altura”.  Há pessoas assim, são boas desde tudo, diz-se na minha terra, “de uma ponta à outra, dos dedinhos do pé à raiz dos cabelos”. Creio que a Catarina pertence a esse grupo; mas é verdade que não tive tempo para avaliar, cinjo-me a impressões. Que os deuses a protejam e lhe dêem um anjo da guarda cumpridor.
     E depois o restaurante que escolhemos e onde fizemos certamente um chinfrim dos antigos, os comensais de hábito a deitarem rabos de olho esparvecido a quatro maduras tão dadas a saúdes e balbúrdia bem disposta. Mas lá nos foram aturando. Que abancámos do primeiro ao último dia.  Chegávamos encasacadas e invernosas e daí a pouco era primavera ou verão e ficávamos em corpo, as cadeiras num sufoco ajoujado, juro que não posso mais. E calma aí, não eram apenas eflúvios do vinho verde, era coisa também do fogão de lenha todo dádiva, sou vosso, o brasido à espreita a convidar o ambiente. E nós a beirá-lo. E à saúde de quem está; e de quem não, mas gosta de nós.
Reconheço, saí de Amarante com a noção exacta do meu valor na cozinha. Julgava-me cozinheira de “razoavelmente bem”. E assenta-me apenas o advérbio de modo. Isto porque degustei pratos que cozinho e cujo sabor era espectacularmente melhor. Ora bem. Acresce que não fui caso único. Um dos elementos do grupo chegou ao cúmulo de afirmar - peremptoriamente, diga-se - que já amesendou em muito lugar e jamais com tal gosto. Por outro lado,  não acredito na versão, “é do fogão a lenha”....hum....soa-me a desculpa de fábula. Um fogão a lenha pode ajudar, mas devíamos ter dado os parabéns à cozinheira. Merece.
E depois disto? Bom....depois disto, só mesmo os gelados Portugal que saboreámos instaladas na esplanada do Café S. Gonçalo e sob as vistas disfarçadas de Teixeira de Pascoaes, que bem o reparámos; discrição de bronze, o hábito sentava-o na mesa do fundo . E dali nos espreitava. Quereria um cone de doce de ovos, ou seria antes um praliné com figo. Vá-se lá saber, escritores e poetas são mentes insondáveis.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Museu Amadeo Souza-Cardoso


Do Museu de Amarante, e para além de Amadeo e mais pintores, maravilha-nos o edifício, antigo convento dominicano. Em dias penumbrosos, ressoam passos leves nos claros corredores dos claustros e sente-se na largura dos degraus, a rodear os passos, o roço suave do burel das capas e o linho espesso da túnica  beijando-os de raspão. Nos dois claustros que cercam uma fonte ou apenas a largura de quadrado livre, estão os monges em recreio, contentes do ar e do sol, pássaros a beber-lhes quase à mão. E o silêncio que se distribui pelas arcadas, pensamentos que se não ouvem e por vezes, tantas vezes, são silício trazido do mundo. Que a clausura não é total e nem lhes inibe a veia caritativa e social.
   Pena que não possamos fotografar, trazer uma pobre réplica do que vimos e gostámos,  acto que nos é permitido em tanto lado, mas raro acontece em museus portugueses. Um museu de província sem a profusão de obras em grandes dimensões mas, fora de dúvida, espaço condigno de nomes como António Carneiro, António Cândido e, sobretudo, Amadeo Souza-Cardoso a quem é dedicado. Parabéns, Amarante!
Amadeo na sua modernidade pictórica, estuando juventude e audácia em cada traço, cor e poro. O Amadeo pintor moderno, desafiador e imortal, lábio cheio, laivos de supremacia ao fundo do olhar que não chega a ser insolente. Na pose nonchalant ou aprumada do corpo reluz, triste ironia,  a força de ser moço que se conhece e reconhece; e ressalta-lhe da figura a aura de eternidade imbatível, própria de jovem formoso e sadio, que tem de seu e faz o que gosta. Custa crer que a pneumónica o levou num ápice.  E contudo prefiro-o no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian acompanhado pelo Pessoa pitosga que emerge das quadrículas do chão feito Pierrot em vermelho, negro e amarelos. E o poeta sentado e  circunspecto, casaco preto, camisa branca e laço escuro em fundo que avermelha, um escriba tímido todo em cerimónias (está de chapéu e tudo), quase a fazer boquinhas de nervo, certo jeito de “não quero incomodar”. E está ali, ensimesmado e quase terno. Só o génio de Almada podia pintá-lo assim. Que boa companhia para Amadeo.
Mas o museu de Amarante dá-nos mais autores que, na arte do retrato a carvão, pastel ou óleo - e até em escultura - não desmerecem. E neles aprendemos que certas senhoras do Norte eram formosas excessivas, lindas de morrer; pronto, estão também uns senhores que não serão maus de todo. Daquela gente vária, cujas obras por ali se dispõem a uso de sentidos e mente, há a que pertence ou nasceu em Amarante. Lugar tão a gosto é acicate; e beleza olhos adentro é forçoso que dê frutos de apetite.

domingo, 5 de maio de 2019

Beirando o Tâmega


Em Amarante gozámos uma varanda sobre o Tâmega em contemplação do seu passo esgalgado, armado em pressas e alheio a brandos alvores matinais e ocasos langorosos. Da preguiça de chamativas cadeiras, apoiadas na mesinha de flores,  observámos o sulco de pequenos barcos a contrariar a corrente, remos inchando de esforço. E a ciranda infatigável da penugem dos plátanos irritando mucosas, ora próxima, ora afastada de arbustos e árvores que sobrevivem aquáticos a meio do leito, ilhotas verdes a desenhar veredas de água, parcial eclipse da navegação. E, quem sabe, num desses ocasos dos barquitos, uma sereia lodosa emerge um dia, braços estendidos e diletantes a desviar um, ajudando-se com a rede dos cabelos. E as gentes desprevenidas olhando o outro lado, vai aparecer, vai aparecer. Mas o marinheiro de água doce tudo esqueceu, inúteis remos na mão. Ulisses do Tâmega, não conhece caminho, preso nos enredos feiticeiros da mulher-peixe. Em terra, afadigam-se bombeiros, draga-se o rio, mergulhadores agitam os escaninhos da água, movem pedras, acordam peixes. Enfim, encontram o barco sem remos, longos fios a percorrê-lo em teia. Os bombeiros sem entender, isto é obra de aranhiços da água que também os há...mas o corpo...mas o corpo...Lá longe, sob o leito do rio, no insuspeito reino das sereias há festa, tocam harpas e bebe-se o vinho da alegria. Quem sabe...
Mas não se vive apenas de rio. Na ponte de S. Gonçalo passaram carroças de trabalho e gente de armas, misturada de suor e sujidade com esterco animal; caleches e carros finos, quiçá uma mão enluvada a afastar a brevidade de uma cortina na saudade da cúpula, do rio, do largo conhecido... alívios de tafetás, roçagar de seda e impaciências de leque na chegada com atraso, a parelha trotando alegrias sobre as lajes conhecidas.
Passar a ponte é chegar a casa. De que lado para onde, não interessa; é sempre chegar a casa. Foi assim connosco. Ao encontro de um lugar luminoso e arejado que foi nosso por inteiro nos dias em que foi. E, quem sabe, estaremos lá ainda, debruçadas no varandim.

sábado, 4 de maio de 2019

Lenda e Narrativa


Não sabemos a razão de algumas certezas. Déscartes dizia-as intuitivas e simples. Ora julgo que serão simples na medida de serem certezas e não por abundância  da simplicidade. Mas, outrossim, são intuitivas. Arreigam em nós, evidentes e claras, mercê do mundo que nos circunda e fora de inatismos ideais. Mas o bloco intuitivo é sempre curto, mera barra de sabão em vez de estrado de mesa. Assim, eu estava segura da chuva a acompanhar-nos até ao destino em grossuras de corda, desde as imediações do Porto, mas desconhecia a desmesura de frio na estação de serviço, o farnel a revirar de vento, guardanapos armados em fugitivas pombas brancas. E era uma vez um copo de sumo, enquanto, num repelão, a surpresa dos poros aguçava pêlos distraídos. E nós nos escafandros de inverno a dar pressa a maxilares. As intuições humanas são isto, uma incompletude. Que não convence.
 Com excepção da minha pessoa a impar de certezas climáticas, a esperança de viagem sem chuva só cessou à vista das ditas cordas de lágrimas celestes caindo fragorosas em compactas nuvens de gotas que  rescendiam do asfalto.  Deus Nosso Senhor recebeu-nos assim, em lágrimas. Pensámos que de alegria por nos apresentar ao vivo e a cores a S. Gonçalo eremita e frade de muito milagre de era antiga e moderna. E, ora bem, casamenteiro das velhas (não vem na Wickipedia, mas é verdade verdadinha). Não sei em que idade concreta da velhice ele começa o ofício, mas é de crer que estejamos todas no tempo certo de dar que fazer ao Santo. Embora conste que o Bom Padre não queira nada com emparceirados (bem ou mal, não lhe interessa, passa à frente), dois elementos reúnem as condições e, portanto, mesmo sem mão não sei onde, ou explícito de viva voz, o Santo não lhes vai faltar. Não tarda nada que anunciem companhia. Essa é que é essa. Mas não se julgue que foi por isso que fomos a vê-lo, que nem sequer sabíamos das potencialidades santíssimas. Porém, agora, está no papo. Pisámos terreno sagrado e o venerável que não se ponha com coisas, não há desculpas.
Tão útil e tão bela a tua ponte sobre o Tâmega! É linda, Gonçalo, e aporta a Amarante a aura maravilhosa de “era uma vez”. Faz-me bem pensar-te assim a inventá-la e, quem sabe, a pisá-la dando graças aos homens e a Deus. Mas  é uma injustiça que não seja apenas pedonal. Vá lá, faz o milagre, toca o coração dos homens e dá às pedras os pés que as merecem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Prévios de uma viagem


Quase tudo do que nos apetece é vivido por antecipação, em jogo propedêutico do imaginário. Fazer planos abre portas ao odor de satisfação remanescente da conjectura. O mesmo não se diz da execução. A prática gera ângulos inesperados onde havia abraços circulares, nascem imperativos suspeitos e de má índole a toldar a sequência pensada, plantam-se menires em caminhos antes desimpedidos. Os imponderáveis do agir estendem-se caminho fora e não se conformam ao mapeado. Em suma, o agir é rebelde. Contudo, a rebeldia da acção não eclipsa o projecto. Antes tendemos para ele a desejo e apetite ou por dever e condição, murados em cautelas de acaso. Pontualmente, a desilusão suplanta o espanto da divergência. Ou não.
E assim connosco. Esperava-te em casa, lençóis engomados, jantar pronto antevendo a tua opinião sobre um prato que desconhecias. Entretanto, como canta o Rui, “faltaste ao prometido”, não ligaste.  Por ínvios caminhos te perderas, longe do jantar e de mim. Chovia. Apanhei-te noite cerrada, vencida a bravata de limpa-pára-brisas e incógnitos buracos de estrada surgidos a relâmpago de faróis, desleixada ignorância de governantes. Vestias o ar de cordeirinho arrependido, armado de guarda-chuva e bagagem. E eu sabia que não era mise en scène. O regresso foi entre risos e lembranças, pretexto de só nós duas que nos olvidou o motivo. À beirinha da liberdade, que importa um percalço de viagem, o jantar tardio, o atraso na deita. Nada suplanta a limpidez de um passeio entre amigas.
No outro dia, madrugámos sem atraso e, picnic  na cesta e casa ajeitada, rumámos de mala e bagagem ao encontro da outra metade. Juntas. Enfins ordenados e arrumados. Partida, largada, fugida.
Uma alegria de não haver outro relógio que a nossa decisão. E frio. Um solito tímido por entre nuvens, ainda zonzo de chuva, a clarear ideias numa indecisão de vou, não vou, “hoje apareço; hoje faço-me presente; ai tão entorpecido que estou, quem sabe mais um bocadinho deitado num colchão de nuvens negras me faria bem...” E nós relevando manigâncias de sol, Viva a Liberdade! E quem nos dera passar na ponte Salgueiro Maia a cantar a gaivota que voava voava.  E nós como ela, em modo de alma voadora.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Fracturas


Viajar é moda e uso comum. Moda, sim. A eclosão de companhias aéreas low cost e a modalidade de alojamento oferecida pelo airbnb propiciam um aumento exponencial  de viajantes. O que era restrito passou a domínio do vulgo. E basta olhar Lisboa para percebermos a transumância, a toda  a hora gente puxando malas cidade fora. Pela manhã,  as filas para  autocarros sectorizados, como os que passam por Belém, fazem subir o mau humor dos autóctones que , comuns e com atraso, seguem para o emprego. Não se entende a razão de o município continuar a sujeitar os residentes  a tal estertor. Acresce que  o turista que ruma a Belém não é sazonal, mas de ano inteiro, facto que mói a paciência de qualquer português que não se encontre em gozo de férias. Quem sabe se instituir um autocarro exclusivo dos turistas não resolvia o problema, pelo menos em hora de ponta.
Oh, mas eu vinha era falar de Veneza. De Veneza, cidade de canais e palácios que um dia se perde por completo se as hordas turísticas continuam a pisá-la num frenesim. Eu sei, também já por lá andei em passeio, contribuí para o afundanço com os meus passos e mais os sacos, as mochilas e a catrefada de artefactos que um turista de poucos meios sempre carrega (os de muitos meios vão de mãos a abanar, não sei porquê, mas desconfio de alguém por eles muitíssimo carregado). Mas nem sei se quero voltar. Quer dizer, a minha vontade era mesmo morar lá por uns tempos (não sempre que ruas de água, ainda que originais, dão pouco jeito). Pelo que leio, Veneza piora e afunda dia a dia, na proporção directa do aumento dos visitantes. E não há qualquer prazer na multidão, verdadeiro  impecilho da arte contemplativa.
No silêncio da noite,Veneza íntima,  janelas abertas e flores transpirando pelas sacadas, um riso ou outro que flutua fugido das varandas. Veneza caseira, linda demais. Veneza palpitando nas suas pontes bucólicas e nocturnas, um ou outro transeunte que não perturba a velatura de sombras irreais, o espelho quieto da água fulgindo aqui e ali. E em cada penumbra de sottoportego, um quê de abrigo e mistério langoroso, talvez um par de encontro à parede, perdido em si, extra mundo. Ou um carteirista hábil em desautorizar turistas desprevenidos.
Perder S. Marcus é hediondo crime. Perder aquela vista de gondolas e ilhas é sacrilégio puro. Deixar afundar a Ponte dos Suspiros e a pobreza lancetada do bairro judeu é heresia contra todos os deuses, existentes e por existir. Haja quem salve Veneza da curiosidade dos homens e do modismo.