Antes de viajar, e contrariando o meu gosto por surpresas, decido o que desejo ver/visitar. De acordo com a companhia nem sempre dada a museus e que tais, escolho e anoto os imprescindíveis. O restante, que antevejo não poder ser abrangido, deixo na mesma anotado, quem sabe há uma reviravolta que o proporcione. Ora, frente à Catedral de Salamanca fica o Museu de Arte Nova, um dos meus imprescindíveis. Percorri-o sozinha, facto de que tirei benefício. É uma frescura para os olhos aquele museu; e um derreter de alma. Situa-se num palacete muito claro devido ao revestimento do tecto ser, em grande parte, constituído por um vitral lindo que me lembrou a Lello; e à parte da casa que suponho em tempos ter sido a frente (e ainda será, mas não entramos nem saímos por lá) e é, no primeiro piso e no rés do chão, completamente vidrada e suportada por estrutura em ferro, tão delicadamente concebida que mais parece renda beijando o vidro. Acrescente-se que o tom cinza claro nas portas e umbrais agrada ao olhar de quem entra, desfatiga. As peças são pequenas maravilhas expostas em vitrine ou são mobília compondo a sala. Subindo ao primeiro piso, maravilha-nos a vista total do tecto, um longo vitral a coar a luz em tons diversos com predomínio de azul. Olhando ao redor, verificamos estar em sala ampla com varanda corrida a toda a volta, mercê da estrutura de ferro que a abraça e ampara, permitindo a expansão do vitral. Damos por nós num corredor que percorre a sala e é delimitado pela citada varanda. Abaixo do belíssimo vitral do tecto, o friso também em vitral que o guarnece e como que emparelha e olha a varanda abaixo que percorre a sala e é também cor e luz de vitral. Deslumbre. Dando costas à varanda abismamos no conjunto cinza das portas fechadas: umbrais guarnecidos de motivos florais e na bandeira da porta o semicírculo de vitral com motivo rosa. Um achado de conto de fadas. Ao longo do corredor rectangular, encontram-se outras portas iguais ou parecidas. Junto ao tecto, as paredes interiores rematavam num friso de flores pequenas suponho que em gesso e que, salientes, pareciam descolar do lugar onde alguém assim as fez nascer. Imagino que aquela varanda interior existiu para contempladores de bailes ou outras actividades que aconteciam em baixo, no grande e arejado salão ora vazio. Abençoado seja quem inventou todos os requebros da Arte Nova. Fotografei o que consegui e me chamou: figuras de mulher, em maioria. Não por sectarismo, eram as que mais abundavam. Gostei da mulher mariposa, lembrou-me os meus braços de vinte anos. E das duas bailarinas, mãos dadas, em bicos de pés e tão airosas no rodopio leve das saias. Fascínio. A umas captei pela beleza, outras pelo movimento que emanam, outras apenas por gosto e rendição. Gostei de tudo. Só as jarras e jarrinhas de arte nova brilham na ausência da flor, são a própria floração.
Raras vezes me deixo tentar pela loja de artigos de museu (exceptuo a Gulbenkian). Mas, o Museu de Arte Nova é-me irresistível. E apesar de serem ofertas, saí contentinha. A minha dádiva foi estar lá inteirinha e observá-lo amorosamente.