sábado, 22 de junho de 2024

Salamanca

         Pela tarde entrámos em Salamanca, cidade que me conquistou ao primeiro olhar, sendo que o primeiro olhar estava já distante, dois garotos nas minhas saias, brincalhões e briguentos como compete a quaisquer irmãos. Nesse dia de Outubro, Salamanca esfriava, o vento correndo as ruas em pressas de fim de mundo e eu, como de hábito, a contrariar o clima e quase a tiritar no meu casaquinho casca de ovo. Então, conheci apenas algumas ruas e a Plaza Mayor. Não tenho saudade a esse tempo de os garotos crescerem; ficou em mim feito Idade Média. Mas tenho saudade dos seus olhos risonhos e confiantes e de estarem longe de problemas insolúveis. Julgo que os pais sentem essa melancolia, não desejam que o tempo volte atrás, mas sabem que, o esse amor incondicional dos filhos está a prazo. Aconteceu connosco, aconteceu com eles. É absolutamente normal, mas se o relembro, sai-me do pensamento uma trança: o orgulho que tenho neles, a pena de tanta vez perderem os bons sinais de quem foram e a inescapável nostalgia.

Portanto, olho aberto e sem desculpas, em Salamanca surgiu-me outra cidade. Explorei finalmente as duas catedrais de que apenas tinha visto cúpulas, fotografei alguns pormenores e gostei mesmo daquele poço mouro a meio de um claustro na Catedral Velha. Quis em tempos ter um assim (parecido) no quintal, mas não está autorizado fazerem-se furos numa urbanização e desisti do meu pocinho com grinalda de ferro forjado; haveria um balde suspenso por uma corda que cirandavam abaixo-acima, abaixo-acima, por via da roldana, gema preciosa no centro da grinalda. Salamanca lembrou-me este sonho há muito posto de lado. Julgo ter sido ainda na Catedral Velha que vi um Cristo Redentor semi erguido, sangue em pernas e braços, e um  decidido vigor no olhar enquanto pega no manto/mortalha, como alguém a quem falta fazer uma data de coisas e já vai com atraso. A escultura, imediatamente atrás do altar, é mais convincente que o Cristo morto na Cruz de que fala Pessoa e as igrejas gostam de mostrar para nossa consolação (somos sempre mais felizes que Ele). Como é que em três dias este homem-Deus expiou os pecados de toda a humanidade: presente, passada e futura?! Olhem, não tem explicação.

E o nosso Santo António de Lisboa lá estava como sendo de Pádua e, do mal o menos, alguém escreveu que nascido em Lisboa. Uma mão de pianista avança aberta, olhos de inocência; parece um menino, o nosso santo. A custódia na outra mão é que. Ou será que o santo corria Pádua de custódia em punho?! Terei de me informar melhor. 

Chamou-me a atenção uma Nossa Senhora morena e muito jovem em fundo de brilhos. Pois digo-vos que aquela morena de cabelo ligeiramente ondulado a dar no ombro (ela mesma ou quem lhe serviu de modelo, ou sequer o imaginário do escultor e pintor) tem olhos de quem sofre e está algo saturada da vida que leva. É  sofrimento resignado denunciando uma indisfarçável ponta de contrariedade. Como se tal situação lhe estivesse fora dos planos. Gostei dela de rajada. Encontra-se rodeada de anjos, a maioria dos quais só cabeça e asas (pobrezitos). Os pormenores das asas também se me alojaram nas meninges. Todas coloridas, mesmo as dos quatro anjinhos papudos que encimam a imagem e são uns barrigudinhos amorosos e com sexo. Estive a olhá-los à lupa e não há uma menina sequer. Deixo ao leitor a consideração do fenómeno. Em baixo e a fechar o quadro, dois anjos que nada de asinhas, anjos adultos, digo eu. Ambos donos de competentes apetrechos de voo, exibindo remiges e o que mais haja. E há neles um natural e imoderado gesto, como de quem vai cruzar a perna, as rótulas escaroladas e um nadinha de coxa ao léu, mesmo por detrás do altar. Acresce que o anjo à direita da morena usa uma espécie de chapéu à Robin dos Bosques, figura das minhas simpatias desde os livros de banda desenhada de meu tio. Conclusão: este altar moveu-me. E não sei onde pertence, julgo que à catedral velha por recordar a enormidade de talha dourada em que pousavam os referidos voadores, mas posso, por esse mesmo motivo, estar enganada.

E depois anotei o retábulo e a abundância de cenas religiosas que contém. E mais que dele, sacrílega artística que sou, animou-me a pintura abaulada do tecto sobre.  Suponho seja o fim do mundo com os ressuscitados todos contentes e brancos (seremos assim, todos iguais uns aos outros?) e Cristo em grande plano (é de certeza Ele, tem a chaga do lado e a marca dos pregos), etéreo e dançando. Arriscaria dizer que é uma das posições do ballet, mas isto se entendesse uma unha de tal forma de expressão. Antes O imagino todo humano e contente, pulando ao ritmo do "consegui, consegui". E o pessoal ex defunto a bater palmas. Que ressuscitar três dias depois de morto é uma coisa; e ressuscitar séculos depois, é outra.

15 comentários:

  1. Também eu sou um amante incondicional de arte sacra.
    Que as crenças é coisa que cada um pode ou não ter.
    Boa semana

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  2. Olá Pedro:)
    Quase sempre o primeiro.
    Aprecio arte Sacra efectivamente. Mas mais no âmbito arquitectónico do que em museus de opas e custódias e báculos e mitras e etc e tal. Ainda assim, já visitei dois museus dessa natureza: um em Sevilha e outro em Viseu; tais objectos têm língua estranha, não os entendo.

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  3. Que bom revisitar Salamanca através deste seu maravilhoso texto. Fui a Salamanca uma vez quando esta foi capital europeia da cultura. Já foi há muito tempo. Fiquei com vontade de lá voltar.
    Tudo de bom.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Salamanca fora de rigores invernosos e estios de sol liso e ardente, é cidade muito aprazível. Tinha estado por lá nos anos 90, ainda antes da Graça. Desta vez fui para apreciar, "curtir", como dizem os nossos garotos. Estive apenas um dia e há que respeitar a companhia; o pessoal não exagera nas visitas a pedras e igrejas. A alguns lugares fui mesmo só, dispensaram-se de me acompanhar. Houve muito mais que queria ver e não vi. Mas, como dizia Almada, "deve haver outra maneira de salvar uma pessoa". Não se pode ver tudo. Vemos o que vemos, considero isso grande sorte.
      Boa semana, Graça
      Um abracinho

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  4. De há alguns anos para cá, quando estou em férias simplesmente "fujo" de santos, santas, cristos e anjinhos, a maioria com ar de sofrimento que abundam (nas pinturas e esculturas) de igrejas. Na verdade, durante o ano passo muitas, muitas horas com eles no meu olhar, em pinturas que restauro. Quantas vezes imagino histórias... para tentar animá-los... e animar-me a mim!!
    Adorei o "pocinho com grinalda de ferro forjado!" Ainda bem que vai encontrando o seu sonho por aí!

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  5. Deve acontecer a muita, senão a toda a gente, ter sonhado isto e aquilo e não passar de sonho. Mas foi um sonho bonito e até tentei torná-lo realidade. Não deu. Paciência.
    Bom, se eu tivesse uma profissão de tal natureza, nas férias dava folga a tudo que fosse santuário ou semelhante. Mas julgo que tem uma profissão muito artística e necessária neste nosso Portugal ao abandono. Aprecio quando os artistas saem um bocadinho do tom, Daí ter referido estes casos. Mas gosto de igrejas, são lugares penumbrosos, calmos e quase desertos. E sempre a arte marca o ponto. Que se pode pedir mais?!

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  6. Bela viagem fiz eu agora :)

    Já lá estive também, apesar de, mais uma vez, não me recordar de muito... Era miúda.

    Beijocas

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  7. As nossas visitas infantis são muito etéreas. Tem que ir a Salamanca agora que usa os olhos diferentemente. Não é, Cláudia?

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  8. Bea... é interessante a forma como observa o que a rodeia! (re)Visitei Salamanca já este ano e também observei alguns pormenores mas sinceramente... é muito "arabesco" para o meu olhar! Prefiro outros horizontes ☺️... Bj Bea

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    1. Os olhos prendem-se, um pouco à nossa revelia, ao que ou é muito belo ou, de alguma forma, estranho. A talha dourada não me seduz, mas o barroco tem sua beleza. E há figuras que nos despertam sentidos e mente.

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  9. Bea, gostei da tua descrição de Salamanca, cidade espanhola que já visitei algumas vezes, pois não é distante da minha cidade natal e tem com ela algumas afinidades, quer climáticas quer barrocas. E relembrei duplamente "o vento a correr as ruas em pressas de fim de mundo" e a imagem humorística de Nossa Senhora e dos anjos que
    a rodeiam.
    Bom Fim de Semana!

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  10. A primeira vez que vi Salamanca estava com a família de visita a uma amiga em Vilar Formoso. Mas reconheço estar agora mais desperta para sentir a cidade. Então, o frio de Salamanca vestida de quase verão, congelou-me a sensibilidade:).
    Um beijinho, Prosa

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  11. "geme a rola inocentinha"... recordei que pelo menos sabíamos assim a fala dos animais. Bonito.
    Gosto de Salamanca. Da sua arquitectura e terra de jovens estudantes. Bettips

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  12. Boas recordações tenho eu desse livro. Apesar de tanta acusação que se lhe fez. E não sei se estamos melhores. Os jovens são o sal da terra. Não por serem meus discípulos, só por serem jovens e darem nova alma à cidade.

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