domingo, 2 de junho de 2019

Mosteiro de Tibães


Tibães é lugar de recato, o bulício não sobe ao Mosteiro timbrado pelo sussurro do vento na copa  das árvores e música de pássaros. Tempos houve em que foi mais isolado. Hoje, época de caminhos em vaso comunicante, somos gratos ao sossego do sítio.
Entramos e logo as pedras nos avisam do tempo que carregam. Pergunto-me se viriam até ali todos os monges, ou, depois de franqueada a porta, era lugar vedado à maioria. Nada sei do mosteiro e da sua história, mas já me entrego a ele como noviço esperançoso que pisa o chão primevo sentindo-se em casa. Na sala abobadada, lugar de aquisição de bilhetes e lembranças, enredo nos bordados e bainhas abertas e faço contas de cabeça: isto e mais aquilo, a feira do livro, os aniversários que ora esta, tanta gente nasceu este mês. E logo os aquieto no lugar, orelhas moucas aos pedidos de leva-me contigo e à ilusória cantilena de certezas que abre por entre os fios de linho, pertenço-te. Ajeito dobras em modo de despedida e desculpa, olhos em voluntária desatenção. Seguimos.
O mosteiro, que nasceu no século XI e dizem ser o mais antigo da europa, alarga-se por zonas distintas: a igreja e seus apaniguados, hoje ao serviço da paróquia de Mire de Tibães; a extensa zona reservada à vida monástica; a parte que se destinava ao comando da ordem benditina – Tibães superintendia todos os mosteiros da ordem em Portugal e Brasil; a zona da cerca ou dos trabalhos agrícolas e a que pertence também a extensa mata. O território do mosteiro espraia-se por quarenta hectares  e apetece descansar na pedra de todos aqueles bancos. Do amplo terraço das traseiras, lugar de recreio dos monges, o olhar  perde-se no suave ondulado de copas verdes crescendo para o céu. Ali perpassa ainda a extensão silenciosa de outros tempos. Sem minutos ou horas. E, com hábito ou sem ele, deseja uma pessoa permanecer. Que, longe das mundaneidades, quem sabe, nos achega a inteireza.
Mas a viagem escrita, mais de impressão que exaustiva, começa no amplo claustro do cemitério. Lugar alegre,  luz espaçosa em derrame simples sobre a vegetação, bancos de pedra aqui e ali, pássaros de hábito na fonte central. E tudo debruado pela elevação natural dos arcos, religiosidade que ressuma da pedra assim talhada e revolvida. No piso em volta do claustro, as campas dos monges. Na simplicidade anónima de laje de chão, apenas uma inscrição numérica. Apagamento de si.


22 comentários:

  1. Embora não seja crente, adoro visitar igrejas e mosteiros. Gostava mesmo de fazer uns dias de retiro num mosteiro | convento. Adoro o sossego | o silêncio.

    Continuação de um abençoado domingo, agradecendo um texto tanto a meu gosto:-*

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  2. Li, poteriormente, que Tibães hospeda gente. Nas deambulações não o apercebi. Também li que tem um restaurante que, tal como a hospedaria, estão a cargo de uma ordem religiosa feminina. Pois, se existem, resguardam-se lindamente; não dei por que vivesse ali alma.
    Eu não lhe chamaria retiro. Mas era bom sítio para viver, isso sim. Quando por lá andei a cirandar até me ocorreu a ideia peregrina de já ter lá estado. Quem sabe fui monge agricultor...explicava pelo menos alguns estragos de coluna e o amor que tenho à terra e às árvores. É lugar que me agrada para anterior encarnação:)
    Bom resto de domingo

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  3. Um bom amigo, que já partiu, quando precisava de reflectir, passava uns dias em Tibães.
    Boa semana

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  4. Bom Dia:)
    eu passava lá o resto da vida sem dificuldade.

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  5. Eu sinto igualmente um misto de sensações e emoções quando os visito!!!
    Também viveria bem nesse silêncio! Bj

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  6. Olá Bea, bom dia :)

    Cruzámos-nos por tantos outros sítios e por isso ando há tanto mas tanto tempo para te vir visitar que acabei por perder a noção temporal. Hoje foi finalmente o dia!
    E fiquei feliz por entrar aqui precisamente num dia em que leio sobre o Mosteiro de Tibães, para mim um lugar mágico que já consegui visitar mais do que uma vez.
    E se não vou lá mais vezes... é porque as oportunidades não surgem sempre que queremos e por vezes não as criamos por preguiça ou por outros impedimentos que não conseguimos contornar.
    Tenho de lá voltar este ano... pois a distância que me separa dos seus portões não é assim tanta. Mudando ligeiramente a letra da canção do Sérgio Godinho, poderia até dizer... "Ai estive quase morto no deserto e Tibães aqui tão perto"! :)

    Gostei imenso de ler esta narrativa... voltarei para me deleitar com outros textos anteriores (e futuros).

    Beijinhos e boa semana
    (^^)

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    1. Pois esteja a Clara à vontade, como se em sua mesma casa:).
      Tibães pareceu-me, além de uma construção imponente, um lugar de poesia e oração. Que eu penso sempre que a maior parte da poesia é oração.

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  7. Conheço o Mosteiro de Tibães. Gostei muito da forma como o descreveu.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Mas eu, Graça, não sei descrevê-lo. Por mais postagens que lhe dedique falta quase tudo: o ar, o verde, as pedras da entrada, os caixotões do tecto, as loucuras rococós da igreja. As palavras não dizem, querem dizer.
      Boa semana :)

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  8. Bea, os seus relatos são mesmo inspiradores - na última sexta-feira estive em Amarante onde revisitei a Sé o Museu , cruzei a ponte e divaguei pelas ruelas.
    A Tibães irei um destes dias.
    Gosto imenso do ambiente que se vive nesse tipo de espaço recuperado. Recentemente almocei na Pousada de Santa Maria de Bouro, lugar mágico onde a recuperação arquitetónica respeitou a matriz com absoluta devoção.
    Em Beja, quando regtresso do Algarve, faço absoluta questão de perder horas, jantar e até dormir na Pousada de São Francisco.
    Temos tanto para descobrir e usufruir.
    Tibães será o róximo rumo.
    Tenha uma feliz semana.

    Ah! esquecia de referir que sou a vítima perfeita nas lojas dos museus!

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  9. Ora Nina, não se lamente, eu sou a vítima imperfeita das lojas dos museus:) sei o que quero comprar, mas não passo daí.
    Tibães merece uma visita, duas e mesmo mais.
    Aproveite o Portugal possível, Nina. Que os possíveis de cada um diferem bastante, mas conseguir atingir um ou outro de vez em quando, ajuda a continuar caminho.
    Boa semana, Nina

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  10. A Sibila

    «Ficou na memória, como alguma coisa de dantesco, porém sem esse estertorar espasmódico das cenas infernais, mas antes extraordinariamente discreto, reservado, abafado como um atroador clamor que choca com uma superfície intransponível a ali se prende e ameaça e ruge, mais terrível do que se explodisse na ampliação dos ares, o dia em que a louca desapareceu e não pôde ser encontrada».

    Paz à sua alma.

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  11. Infelizmente este é um dos mosteiros que ainda não tive o prazer de visitar.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  12. Vá vê-lo com tempo e olhos atentos. Vale a pena. E os percursos da cerca, que são dois mas fiz só o menor, não desmerecem do mosteiro. Ainda hei-de falar deles. A escrita é a minha cábula no exame da memória:).
    Boa semana, Francisco.

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  13. Depois desta descrição poética parece-me que já lá estive sem nunca lá ter estado. Fica o desejo de voltar.

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    1. Vai até lá de verdade e diz-me depois se vale a pena :).

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  14. Delicioso de se ler! Uma leitura que prende.
    Parabéns!
    Beijinhos.

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    1. e a Fá conhece Tibães?
      Obrigada pela visita.
      Um abraço

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  15. Bea, depois de ler este texto encantatório fui imediatamento procurar na net fotos do Mosteiro de Tibães.
    E está decidido, numa próxima ida ao Porto darei um pulo ao lugar onde «as pedras nos avisam do tempo que carregam.»
    Que bem escreves...
    Beijo.

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  16. É isso, Teresa, as pedras são mudas e falam; as árvores rumorejam confidências, os caminhos contam de pés e pernas que por eles correram e se arrastaram. O mundo todo tem voz.
    Boa semana

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