quarta-feira, 1 de maio de 2019

Prévios de uma viagem


Quase tudo do que nos apetece é vivido por antecipação, em jogo propedêutico do imaginário. Fazer planos abre portas ao odor de satisfação remanescente da conjectura. O mesmo não se diz da execução. A prática gera ângulos inesperados onde havia abraços circulares, nascem imperativos suspeitos e de má índole a toldar a sequência pensada, plantam-se menires em caminhos antes desimpedidos. Os imponderáveis do agir estendem-se caminho fora e não se conformam ao mapeado. Em suma, o agir é rebelde. Contudo, a rebeldia da acção não eclipsa o projecto. Antes tendemos para ele a desejo e apetite ou por dever e condição, murados em cautelas de acaso. Pontualmente, a desilusão suplanta o espanto da divergência. Ou não.
E assim connosco. Esperava-te em casa, lençóis engomados, jantar pronto antevendo a tua opinião sobre um prato que desconhecias. Entretanto, como canta o Rui, “faltaste ao prometido”, não ligaste.  Por ínvios caminhos te perderas, longe do jantar e de mim. Chovia. Apanhei-te noite cerrada, vencida a bravata de limpa-pára-brisas e incógnitos buracos de estrada surgidos a relâmpago de faróis, desleixada ignorância de governantes. Vestias o ar de cordeirinho arrependido, armado de guarda-chuva e bagagem. E eu sabia que não era mise en scène. O regresso foi entre risos e lembranças, pretexto de só nós duas que nos olvidou o motivo. À beirinha da liberdade, que importa um percalço de viagem, o jantar tardio, o atraso na deita. Nada suplanta a limpidez de um passeio entre amigas.
No outro dia, madrugámos sem atraso e, picnic  na cesta e casa ajeitada, rumámos de mala e bagagem ao encontro da outra metade. Juntas. Enfins ordenados e arrumados. Partida, largada, fugida.
Uma alegria de não haver outro relógio que a nossa decisão. E frio. Um solito tímido por entre nuvens, ainda zonzo de chuva, a clarear ideias numa indecisão de vou, não vou, “hoje apareço; hoje faço-me presente; ai tão entorpecido que estou, quem sabe mais um bocadinho deitado num colchão de nuvens negras me faria bem...” E nós relevando manigâncias de sol, Viva a Liberdade! E quem nos dera passar na ponte Salgueiro Maia a cantar a gaivota que voava voava.  E nós como ela, em modo de alma voadora.

12 comentários:

  1. Deliciosa introdução para remate não menos saboroso.
    Tenho para mim, ou à laia de Dupond e Dupont, direi mesmo mais, que o melhor da viagem é mesmo a preparação.
    Planear uma viagem é algo que faz parte da própria viagem.
    Mesmo que depois, no terreno, os planos mudem vezes sem conta. E mudam!
    PS: lençóis engomados e jantar pronto...e a gaivota que voava, voava. Gostei.

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  2. Um bom resto de Dia do Trabalhador, Joaquim. Para quem trabalha ano inteiro, é dia de não fazer quase nada :). Ou assim o interpreto adiando tarefas. A escrita é brincadeira que me agrada e distrai. Aprazivelmente:).
    Concordo, os planos, mesmo gorados, sabem a desejo. Como dizia Pessoa por palavras suas e de que conservo apenas a ideia, o bom era ter e continuar desejando. Digo que tudo é mais enquanto ainda não é. Mas não garanto que seja verdade.

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  3. Como sempre um texto que não deixa ninguém indiferente. Gostei, gostei muito:-*

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  4. Obrigada, Teresa. Este nosso mundo anda tão macabro e fora de si que me tira até a vontade de escrever. Mas hei-de continuar a acautelar tempos que me são caros. A escrita é maneira de vivê-los segunda vez :).

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  5. Não me parece que perca o gosto e o prazer de escrever pela diferença!!! O meu aplauso!

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    1. Obrigada Gracinha. O prazer das palavras, enquanto eu exista e seja eu ainda, não morre. Mas a espécie humana por vezes parece apostada em desiludir e andar para trás. São os políticos tão pouco leais a quem os elegeu, os bispos portugueses a decidirem constituir comissões de acompanhamento para casos de pedofilia como quem diz que é qualquer coisa sendo o que me parece coisa nenhuma e que estão velhos e fora de época, mais a bestialidade de homens que matam mulheres quase diariamente, mais sei lá bem o quê que nos tolhe mentalmente e pára as mãos. E depois fica a gente a pensar na ideia de progresso e duvida. Para onde será que progredimos.
      Enfim, desejo-lhe um bom fim de semana. E desculpe o desabafo.

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  6. Já que fala em desabafos, na mesa ao lado onde estava a beber café, ouvi esta conversa:
    - Eh pá, já não posso com as reivindicações dos professores. Não quero que os meus impostos sirvam para alimentar estes parasitas que trabalham 20 horas por semana e têm 2 meses e tal de férias.
    - Pois é pá, mas o pior é o Mário Nogueira, do sindicato dos professores. Ele ganha como professor, mas não dá uma aula desde o início dos anos 80. Leva quase 30 anos como sindicalista profissional, contra quatro ou cinco como professor. Não lhe reconheço, por isso, moral para liderar protestos que têm, muitas vezes, um lado político e não tanto corporativo.
    - Eh pá, eu não nutro particular simpatia por líderes sindicais. E por uma razão: são, quase sempre, ligados à CGTP, afecta ao PCP, e têm como profissão dificultar a vida a quem lhes dá trabalho, com uma defesa cega dos direitos dos trabalhadores, esquecendo, sempre, os seus deveres. Nunca vi um dirigente sindical insurgir-se contra um trabalhador incompetente, que não produz, que é trafulha. E também os há, e não são poucos.
    - Pois olha pá, eu tenho um grande respeito pela profissão de professor, eu próprio, se não tivesse seguido jornalismo, gostaria de ter sido professor, acho que é uma classe que recebe muito menos do que deveria, e que é fundamental para a evolução da nossa sociedade. Agora, não me parece que seja uma classe com problemas maiores do que o das outras profissões.

    Enfiei os olhos envergonhados dentro da chávena, antes de conseguir olhar para o grupo que desabafava assim tão cruelmente. Mas consegui levantá-los.
    Paguei o café e saí.

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    1. Os professores são uma classe fundamental para o progresso de um país, dedicam-se à educação dos jovens e eles são o futuro. Devem ser bem pagos e ter exigências consentâneas. Todo o direito tem reverso.
      Hoje, um professor com 20 anos de carreira está mal pago, viu o vencimento congelado por uns dez anos.
      É tempo de repor a justiça. E quem tagarela por achismo devia informar-se primeiro, procurar saber.
      Mário Nogueira, em minha opinião, não é um sindicalista forte. Porém, pertencer ao PC e estar há anos longe do seu trabalho de professor não deveriam ser motivo para fraquezas; se o forem, demonstra-se o que disse acima.

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  7. Gostei muito da forma como abordaste o tema nuclear.
    Só não concordo integralmente com a tua opinião acerca das comissões de acompanhamento ( resposta à Gracinha )...
    A Igreja em Portugal tem actualmente um excepcional Cardeal e o Bispo Américo ( que conheço bem ) é outro fora de série.
    Estou convencido que as ditas comissões vão cumprir o desiderato.

    Um beijo amigo.

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  8. Que fique registado: estou desgostosa com a igreja a que pertenço e não apenas furiosa com uma igreja e seus desmandos. E uma ou duas andorinhas não fazem a primavera. Criar comissões é, em geral, a forma burocrática de não avançar, um faz de conta para encher o olho e não fazer nada. Os sucessivos governos têm-se farto de criar comissões que se enchem de gente bem paga, papeis e pastas agora digitais. Além do mais, o problema é tão grave que seria de atalhar na fonte e a golpe de foice, que é como quem diz no recrutamento dos padres, nos seminários...o que queremos e temos o direito de exigir à igreja é que a pedofilia não exista no clero.
    Mas, quem sabe, tenho preconceito acerca das ditas comissões e esta vai ser fulgurante no agir.
    BFS :)

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  9. Gosto deste teu texto acerca da imaginação e da acção no que respeita à viagem, pois assim é em todas as viagens sejam de que índole forem. Mas o que mais ressalta do texto são as palavras com que o dizes e a forma como as costuras numa teia deslumbrante! abraço!

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  10. Muito obrigada, Alda. Fui agora relê-lo por tua causa, a ver se estava alguma coisa de jeito. Não o acho mau de todo:)
    bjo

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