O
Minho que conheço é feito de sombras e frescura, humidade que ressuma dos
muros, pequenos veios de água escorregando a passos de lismo. Em Tibães a água
que serve o mosteiro vem do monte que lhe fica em frente, visão que maciços e
arvoredo escondem. Quem terá construído a ala de degraus intervalados de fontes,
esta escalada frondosa debruada a pedra de sentar e que leva o viajante até ao
cume. Já não estou certa, mas serão nove fontes e, entre uma e outra, os degraus. São
muitas as estações e vou parando, a encher-me do lugar e esvaziar-me de mim. Cada fonte é sinal de pausa, lembra a via
sacra. Quem sabe, o número obedece a preceito que desconheço. A serena beleza
daquele caminho de sombras e pássaros, a abertura dos ramos a fazer tecto e, em
todo o ar à volta, um silêncio que se entrega, toma-me.
Ali, a minha igreja de
seiva, água, terra. Ali, habitam em harmonia os deuses e os espíritos benévolos da floresta.
E o mundo é lá fora e desimporta. Bem a meio, o cano que desce colado à terra,
a água em corrida; há-de percorrer a distância até ao mosteiro onde, senhor nos
seus domínios, distribui a benesse líquida que no inverno é agreste frescura e
pode gelar. Lá em cima, em remate, uma construção branca ressalta do verde.
Será a mãe de água, uma cisterna, um simulacro de igreja. Não sei, sou ainda
presa do caminho.
Desço o carreiro que desemboca em clareira aberta. No lago inesperado, um dramático e enorme círculo líquido que palpita de vida
animal, a água ondula aqui e ali. Abeiro-me da superfície escura e milhares de
insectos ou pequenos seres aquáticos borbulham e são praga que repugna.
Será que os frades ali se banhavam ou lavavam roupa. Que algum se deitou a
afogar no fascínio escuro de lodo, o corpo inane e branco levado em braços e a
pingar verde pelos caminhos da horta. Que funestas paixões e proibidos amores ali
deliraram e foram submersos e ciliciados. Jamais saberemos que dores pressentidas o escurecem ad
eternum.
Antes
de abandonar o mosteiro, revi ainda os aposentos exclusivos do abade, a breve varanda de sol e gorjeios e as escadinhas que deitam para a ampla exclusividade do quintal onde uma romaneira insistente floresce em alegria.
Não
se me dava ser abade neste mosteiro.