sábado, 11 de maio de 2019

Ponto Final


Há sempre o  regresso ao lugar de pertença. Chegámos e logo a novidade de outro ar, o rio omnipresente e uma religiosidade medieva e  pontiaguda a elidir quotidianos e hábito. E, se casos houve em que o mundo conhecido se agitava telemóvel fora, outros, mais recatados e secretos, não despegaram por completo da mente, a nova brisa a descolá-los até meio, permanecendo de pé preso em infrutífera oscilação de braços. À medida que os dias corriam desalmados, o infatigável das horas sedimentava-nos a posição. Tudo, das lajes do chão à simpatia dos Amarantinos,  debruava a verdade, és visita.
Para trás ficou a hospitalidade risonha da Catarina, a delícia dos seus bolinhos, o pequeno almoço mirando o rio. E um passeio lá em baixo, junto à água, bucolismo verde na ponte pequena. Depois, a subida escolhendo o íngreme e a clorofila de caminhos  feitos a pouco degrau.
Ou a hora da visita de honra, em casa de S. Gonçalo. Agradecer-lhe o interesse que mostrou pelas gentes da beira Tâmega; a visão de desenvolvimento que presidiu à construção da  ponte velha e a plenitude pela beleza sacra de atravessá-la, passos devotos e recolhidos; o clima que se pôs a gosto em estadia aprazível. A incrédula efígie do santo abrindo a bondade de um meio sorriso. Vassalo das suas sandálias, um fresco molho de cravos vermelhos ditava orvalhos de fé. O frade num incentivo, não pedes nada, minha filha.  Suponho que enchentes de pedidos e olhos suplicantes cheguem a cansar-te. Para que nascemos, Gonçalo. Talvez só para viver. Não viemos talhados para nada, fizemos caminho: estradas largas e menos largas, pedaços de vereda, sendas estreitas abertas a catana, subidas difíceis com quedas súbitas e à reboleta, muito pó, arranhão e nódoa negra. Pedir-te o quê, não fugimos ao que somos. Ladeias o altar da igreja que foi pertença do teu mosteiro e tem raíz na Idade Média. De um lado, a efígie; do outro, o túmulo. No recato penumbroso que te guarda os restos, onde certamente te rezam, espreita o frio respeitoso dos mortos.  Bem melhor te conheço e encontro, em corpo e espírito,  no ar que se respira, nas arcadas da ponte,  margens do rio e lajes do chão. 
Foi um prazer, Gonçalo. Até Sempre

2 comentários:

  1. Um imenso prazer, acredito. Talvez nao próximo fim de semana por lá me aventure, graças a si, Bea, que espicaçou a minha vontade.

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  2. Boa! E depois deve contar. Porque outros olhos vêem outras coisas.

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