quarta-feira, 8 de maio de 2019

Museu Amadeo Souza-Cardoso


Do Museu de Amarante, e para além de Amadeo e mais pintores, maravilha-nos o edifício, antigo convento dominicano. Em dias penumbrosos, ressoam passos leves nos claros corredores dos claustros e sente-se na largura dos degraus, a rodear os passos, o roço suave do burel das capas e o linho espesso da túnica  beijando-os de raspão. Nos dois claustros que cercam uma fonte ou apenas a largura de quadrado livre, estão os monges em recreio, contentes do ar e do sol, pássaros a beber-lhes quase à mão. E o silêncio que se distribui pelas arcadas, pensamentos que se não ouvem e por vezes, tantas vezes, são silício trazido do mundo. Que a clausura não é total e nem lhes inibe a veia caritativa e social.
   Pena que não possamos fotografar, trazer uma pobre réplica do que vimos e gostámos,  acto que nos é permitido em tanto lado, mas raro acontece em museus portugueses. Um museu de província sem a profusão de obras em grandes dimensões mas, fora de dúvida, espaço condigno de nomes como António Carneiro, António Cândido e, sobretudo, Amadeo Souza-Cardoso a quem é dedicado. Parabéns, Amarante!
Amadeo na sua modernidade pictórica, estuando juventude e audácia em cada traço, cor e poro. O Amadeo pintor moderno, desafiador e imortal, lábio cheio, laivos de supremacia ao fundo do olhar que não chega a ser insolente. Na pose nonchalant ou aprumada do corpo reluz, triste ironia,  a força de ser moço que se conhece e reconhece; e ressalta-lhe da figura a aura de eternidade imbatível, própria de jovem formoso e sadio, que tem de seu e faz o que gosta. Custa crer que a pneumónica o levou num ápice.  E contudo prefiro-o no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian acompanhado pelo Pessoa pitosga que emerge das quadrículas do chão feito Pierrot em vermelho, negro e amarelos. E o poeta sentado e  circunspecto, casaco preto, camisa branca e laço escuro em fundo que avermelha, um escriba tímido todo em cerimónias (está de chapéu e tudo), quase a fazer boquinhas de nervo, certo jeito de “não quero incomodar”. E está ali, ensimesmado e quase terno. Só o génio de Almada podia pintá-lo assim. Que boa companhia para Amadeo.
Mas o museu de Amarante dá-nos mais autores que, na arte do retrato a carvão, pastel ou óleo - e até em escultura - não desmerecem. E neles aprendemos que certas senhoras do Norte eram formosas excessivas, lindas de morrer; pronto, estão também uns senhores que não serão maus de todo. Daquela gente vária, cujas obras por ali se dispõem a uso de sentidos e mente, há a que pertence ou nasceu em Amarante. Lugar tão a gosto é acicate; e beleza olhos adentro é forçoso que dê frutos de apetite.

10 comentários:

  1. O Museu Amadeu Souza Cardoso já é a minha praia!!!

    O santinho Gonçalo fica para os crentes e as pombas!!!

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  2. A cada um o seu campo, Teresa. Mas há quem admire os dois lados, os muitos lados que a vida tem. Que o sagrado tem uma beleza ideal e votiva que não desmerece em alguns espíritos não necessariamente religiosos confessos. Também irei ao santo:).
    E boa tardinha, mesmo que sol não haja

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  3. No antigo café Império à Alameda, havia um painel de grandes dimensões retratando Os Galgos de Amadeo de Souza-Cardoso. Aos sábados de manhã, eu criança acompanhava meu pai, jornal debaixo do braço e desciamos os três a imponente escadaria de acesso ao amplo espaço lisboeta, preenchido de mesas e cadeiras castanho escuras. Entre bica, cigarro e jornal de meu pai, eu matava o tempo olhando de boca aberta, apreciando e verificando se a perspetiva, no jogo entrelaçado das lebres, que me pareciam peixes, nas pernas dos galgos que me pareciam estacas, num fundo de planície alentejana...batia certo.

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  4. Não sei o que sucede, mas já perdi dois comentários e portanto cá vai o terceiro já sem paciência para a minha burrice ou os enjôos do google.
    Tem sorte, Joaquim, os pais do meu tempo e do meu sítio não iam a cafés que nem havia ou liam jornais que só apareciam a embrulhar barras de sabão e com datas de há séculos. E muito menos se passeavam com os filhos em ritual.
    Foi já na idade adulta que conheci Amadeo e a pintura em geral, facto que devo a Rui Mário Gonçalves de quem um acaso feliz me fez aluna. Foi um horizonte novo que se me abriu. E pode crer que fiz e ainda faço o possível para mostrá-lo a outrém. Não se nasce contemplador, aprende-se a contemplar.

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  5. Acredita que este é o meu terceiro comentário? A sério, cheira-me a sabotagem!
    Só para repetir que o seu texto me espevitou a vontade de voltar ao museu. Um destes fins de semana será. Beijo

    P.S. Será que este segue?

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  6. Obrigada, Nina. Vá ao museu, sim. É muito agradável estar por lá.

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  7. Gosto da pintura do Amadeo. Pena que tenha morrido tão cedo ! O mais que ele poderia ter feito!...E gosto da maneira como o pintas esse museu.

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