Do
Museu de Amarante, e para além de Amadeo e mais pintores, maravilha-nos o
edifício, antigo convento dominicano. Em dias penumbrosos, ressoam passos leves
nos claros corredores dos claustros e sente-se na largura dos degraus, a rodear
os passos, o roço suave do burel das capas e o linho espesso da túnica beijando-os de raspão. Nos dois claustros que
cercam uma fonte ou apenas a largura de quadrado livre, estão os monges em
recreio, contentes do ar e do sol, pássaros a beber-lhes quase à mão. E o
silêncio que se distribui pelas arcadas, pensamentos que se não ouvem e por vezes,
tantas vezes, são silício trazido do mundo. Que a clausura não é total e nem
lhes inibe a veia caritativa e social.
Pena que não possamos fotografar, trazer uma
pobre réplica do que vimos e gostámos,
acto que nos é permitido em tanto lado, mas raro acontece em museus
portugueses. Um museu de província sem a profusão de obras em grandes dimensões
mas, fora de dúvida, espaço condigno de nomes como António Carneiro, António
Cândido e, sobretudo, Amadeo Souza-Cardoso a quem é dedicado. Parabéns,
Amarante!
Amadeo
na sua modernidade pictórica, estuando juventude e audácia em cada traço, cor e
poro. O Amadeo pintor moderno, desafiador e imortal, lábio cheio, laivos de
supremacia ao fundo do olhar que não chega a ser insolente. Na pose nonchalant
ou aprumada do corpo reluz, triste ironia, a força de ser moço que se conhece e reconhece; e ressalta-lhe da figura a aura de eternidade imbatível, própria de jovem formoso
e sadio, que tem de seu e faz o que gosta. Custa crer que a pneumónica o levou
num ápice. E contudo prefiro-o no Centro
de Arte Moderna da Gulbenkian acompanhado pelo Pessoa pitosga que emerge das
quadrículas do chão feito Pierrot em vermelho, negro e amarelos. E o poeta
sentado e circunspecto, casaco preto,
camisa branca e laço escuro em fundo que avermelha, um escriba tímido todo em cerimónias
(está de chapéu e tudo), quase a fazer boquinhas de nervo, certo jeito de “não quero
incomodar”. E está ali, ensimesmado e quase terno. Só o génio de Almada podia pintá-lo assim. Que boa companhia para Amadeo.
Mas
o museu de Amarante dá-nos mais autores que, na arte do retrato a carvão,
pastel ou óleo - e até em escultura - não desmerecem. E neles aprendemos que
certas senhoras do Norte eram formosas excessivas, lindas de morrer; pronto, estão também uns senhores que não serão maus de todo. Daquela
gente vária, cujas obras por ali se dispõem a uso de sentidos e mente, há a que
pertence ou nasceu em Amarante. Lugar tão a gosto é acicate; e beleza olhos
adentro é forçoso que dê frutos de apetite.
O Museu Amadeu Souza Cardoso já é a minha praia!!!
ResponderEliminarO santinho Gonçalo fica para os crentes e as pombas!!!
A cada um o seu campo, Teresa. Mas há quem admire os dois lados, os muitos lados que a vida tem. Que o sagrado tem uma beleza ideal e votiva que não desmerece em alguns espíritos não necessariamente religiosos confessos. Também irei ao santo:).
ResponderEliminarE boa tardinha, mesmo que sol não haja
Não quero ofender a suscetibilidade de ninguém!!!
EliminarNo antigo café Império à Alameda, havia um painel de grandes dimensões retratando Os Galgos de Amadeo de Souza-Cardoso. Aos sábados de manhã, eu criança acompanhava meu pai, jornal debaixo do braço e desciamos os três a imponente escadaria de acesso ao amplo espaço lisboeta, preenchido de mesas e cadeiras castanho escuras. Entre bica, cigarro e jornal de meu pai, eu matava o tempo olhando de boca aberta, apreciando e verificando se a perspetiva, no jogo entrelaçado das lebres, que me pareciam peixes, nas pernas dos galgos que me pareciam estacas, num fundo de planície alentejana...batia certo.
ResponderEliminarNão sei o que sucede, mas já perdi dois comentários e portanto cá vai o terceiro já sem paciência para a minha burrice ou os enjôos do google.
ResponderEliminarTem sorte, Joaquim, os pais do meu tempo e do meu sítio não iam a cafés que nem havia ou liam jornais que só apareciam a embrulhar barras de sabão e com datas de há séculos. E muito menos se passeavam com os filhos em ritual.
Foi já na idade adulta que conheci Amadeo e a pintura em geral, facto que devo a Rui Mário Gonçalves de quem um acaso feliz me fez aluna. Foi um horizonte novo que se me abriu. E pode crer que fiz e ainda faço o possível para mostrá-lo a outrém. Não se nasce contemplador, aprende-se a contemplar.
Acredita que este é o meu terceiro comentário? A sério, cheira-me a sabotagem!
ResponderEliminarSó para repetir que o seu texto me espevitou a vontade de voltar ao museu. Um destes fins de semana será. Beijo
P.S. Será que este segue?
Oba!
ResponderEliminarSeguiu!
Mais beijos
Obrigada, Nina. Vá ao museu, sim. É muito agradável estar por lá.
ResponderEliminarGosto da pintura do Amadeo. Pena que tenha morrido tão cedo ! O mais que ele poderia ter feito!...E gosto da maneira como o pintas esse museu.
ResponderEliminarObrigada, Alda:)
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