terça-feira, 28 de maio de 2019

Sempre Novo sob o Sol


A primeira vez que fui a Braga gostei de tudo, a começar na viagem carris afora. O comboio é um dos meus fetiches,  faz parte de sonhos nocturnos e diurnos. Que também já me trouxe pesadelos suficientes, aquela coisa de automóveis que encrencam no meio da passagem de nível, o impiedoso monstro a aproximar-se em estridência silvada e eu aflita de morro não morro. Mas levou-me a lugares sem conta e deu-se ao incómodo de parar deixando na gare deserta do meu sítio, e só para mim, amigas muito queridas. Enfim, cresci perto de uma via férrea e um dos  nossos pontos de diversão era, maltrapilhos e descalços, correr para o comboio e acenar aos passageiros de que apenas entrevíamos as cabeças e julgávamos pessoas muito ricas, para aí príncipes ou assim, que nem viravam o pescoço e nós em adeuses espalhafatosos, mobilizando a genica de mãos e braços. Portanto, onde é que eu ia, ah, sim, a chegar a Braga. Pois agradaram-me as ruas, os solares, as muitas igrejas com a Sé incluída, uma festa qualquer com gente a mais para mim e cabeçudos para todos os gostos.
 Pois isto tudo para dizer que voltei a Braga. Nova visita relâmpago. Desta vez sem cabeçudos, mas os comerciantes em versão medieval. E sim senhora, os homens de vestido não ficam mal de todo, embora se sintam muito livres lá em baixo o que não sei se é bom sintoma. À frente. As mulheres e jovens, lindas de morrer, indumentária caprichada. Ralha meu pai em solene invectiva, a gente, se é para pedir, pede sempre muito. Pois as bracarenses não fizeram por menos, vestiram-se de patrícias romanas, imperatrizes e o mais de alto relevo. No desfile das escolas encontrei mesmo um grupinho de escravos vestidos de saca, golpes desenhados no rosto, olhos pisados a poder de sombra roxa e negra, mas comandados por senhoras professoras todas nove horas, patrícias dos pés à cabeça. E digo-vos, havia ali mulheres bastante bonitas e romanas qb:). Ah Bracara Augusta! És mulher até ao tutano.
Como na vez anterior, deparei com festejos inesperados mas escusei o périplo das igrejas e dos solares. A bem dizer instalei-me num hotel onde o mal educado e façanhudo D. Afonso Henriques me espreitava o matutino e solitário pequeno almoço, todo fardadinho para lutar, que nem o escudo lhe faltava. Ora uma pessoa não vem nestes preparos para a sala de refeições. Mas resolvi desculpar o dislate e susto matinal. Se a real majestade tivesse alguma educação não tinha lutado contra a mãe que o educou e lhe deu aio tão bom, tão bom, que foi o que se viu e ainda por cima veio a morrer entalado na porta do Castelo de S. Jorge, dizia no livro da terceira classe se não me engano. Além do mais, bem sabemos que toda a medalha tem seu reverso e portanto, se o nosso primeiro rei fosse rapaz obediente, hoje seríamos Espanha ou, quem sabe, moirama pura. E eu, agora que já me habituei a isto, gosto de ser portuguesa. Oh! Mas os claustros do hotel, pejados de amores perfeitos, tão lindos. E a fina flor era ali que ia ao desjejum, quem sabe se com medo de D. Afonso.
Isto para dizer que fugi da multidão e fui a Tibães.  

14 comentários:

  1. Não conheci Braga por essas minhas andanças portuguesas.
    Mas fui a vários locais lindos e limpos.

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  2. Braga é uma cidade bonita e com história dentro. Vale a pena conhecer.

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  3. Já há tantos anos não vou para esses lados!!!
    Tenho que fazer uma nova visita.
    Bjs

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  4. Isso mesmo. Braga é uma cidade hospitaleira e a merecer visita.
    Bom Dia:). Por aqui, parece que calorento.

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  5. Do Porto a Braga é um pulo, portanto, conheço muitíssimo bem essa cidade. Preconceituosa como sou, nunca gostei muito de Braga, por ser uma cidade onde se reza. Eu prefiro cidades onde se trabalha como no Porto, se estuda como em Coimbra, há divertimento como em Lisboa.

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    1. Rezar faz falta, Teresa. Mas reza-se no trabalho ou em qualquer lugar. Nós é que não pensamos nisso, mas a nossa vida é uma oração. Não ao mesmo Deus é certo. Cada um tem seus altares e é a eles que sacrifica:). Que me lembre, nem Cristo era muito assíduo nos templos.
      Concordo, é preconceito crismar assim as cidades. Obrigada pelas achegas.

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  6. Achei interessante o seu título, por me parecer em intencional e claro contraste com a frase "Nada há de novo debaixo do Sol" retirada dum versículo do livro de Eclesiastes.
    Nele, o rei Salomão discute o sentido da vida e proclama que todas as ações do homem são inevitavelmente vãs, pois tanto os sábios quanto os néscios terminam na morte: "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol".
    Atento aos limites da capacidade humana, o rei sábio anuncia a melhor forma de viver: todos encaram a morte e a morte é melhor que a vida, mas devemos aproveitar a vida enquanto podemos, porém não ignorando que tudo o que fazemos na vida é passageiro.
    Dentro do mesmo espírito — um espírito em que se disfarça o desespero — há aquela frase que Kafka registou a 2 de agosto de 1914 no seu diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, piscina.” 
    Tudo é passageiro e todas as atividades humanas geram cansaço, ainda assim, os olhos da Bea nunca se saciam de ver...

    PS - há teólogos que consideram de tal forma estes versículos curiosos, que muitos estranham a sua inclusão em tão estimada companhia :)

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    1. Joaquim, o senhor é uma fonte de sabedoria e muito me alegra quando diz. Não conheço assim tão bem o Eclesiastes e nem sabia que lhe contrariava uma frase. Na verdade sou péssima em títulos; pensei que Braga, sendo a mesma, me mostrou outra face e, se volte, hei-de vê-la diferente. Não sei se por ela se por mim, todo o mesmo me parece outro. Diz a ciência e a filosofia que é sempre outro. Acredito.
      E também acredito que existimos fazendo parte de um ciclo que se repete indefinidamente e, para que ele, ciclo, se realize e complete, os indivíduos são sacrificados. O que desconheço é se a morte é melhor que a vida; vista daqui não parece:).
      Boa noite

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  7. Gosto do comboio a introduzir a viagem. Também tive um comboio na minha infância que passava resvés com a quintinha do meu avô e quando ele passava eu e os meus primos saltávamos de alegria só por o vermos passar. Aquele arcabouço imenso, negro e fumarento deixava magia no ar

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    1. A sorte de termos uma infância povoada, não é? Os comboios da nossa infância tinham tudo, cheiravam, envolviam-nos de fumarada, pingavam água fervente para as travessas da linha, levavam uma carruagem onde se lia correio em maiúsculas e com a ranhura onde deitar as cartas. E havia aquele cerimonial do agulheiro que ia lá à frente mudar a agulha e depois o chefe da estação a receber o comboio e dar partida ao maquinista que espreitava a sobrevoar o fumo, homem de coragem. A máquina amedrontava, parecia um dragão.
      E oxalá a memória não os expulse nunca.

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  8. Já eu, Bea, não tenho praticamente experiência de combóio. Em criança viajei duas ou três vezes partindo do Porto até Viseu onde passei férias.
    Em adulta, uma vez para o Algarve.
    Lá fora, entre Viena e Budapeste e daí para Praga.
    Tenho memórias terríveis pois, para Viseu, enjoava.
    Para o Algarve, com dois bebés foi pavoroso e saindo de Praga fui assaltada por um pick pocket. Mesmo mau. Não gosto de combóios.
    Gosto de Braga. É uma cidade alegre, com muitos jovens de todas as nacionalidades,graças à sua universidade de elevado gabarito. Braga é uma cidade cheia de vida.
    Li há pouco D.Teresa de Isabel Stillwell(?) e aproximei-me de facto do nosso conquistador. Até fui a Póvoa de Lanhoso, perto de Braga, onde, presumivelmente, D. Teresa foi encarcerada à ordem do filho.
    A Tibães é que ainda não. O mosteiro foi restaurado por um amigo meu de quem tenho recebido repetidos convites. Qualquer dia vou.

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  9. Hummm...Nina, lamento essas tristuras em viagens de comboio. Sempre que posso é nele que me acomodo, lesa-me menos que qualquer outro transporte. E mal faça os 65 vou viajar mais um bocadinho - se ainda haja desconto. Comboios e bicicletas são amores gratos.
    Pois quase não vi jovens em Braga. Estariam nas aulas:). Mas tenho colegas e até um amigo que ali tirou o curso. E concordo, a sua formação foi bastante superior à minha.
    O Mosteiro é magnífico. Suponho que houve uma equipa empenhada no restauro que ainda não está completo. E vários muitos dinheiros europeus. Vá lá, sim. Não se arrepende. Mas vá com tempo. Eu fui porque alguém em cuja opinião acredito, me instilou a curiosidade. Ainda hei-de escrever sobre. Para não esquecer.
    Boa noite, Nina

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  10. Apesar de não ser a minha terra natal, se ouço falar em Braga a minha orelha arrebita e escancara-se-me o sorriso. Já cá moro há mais de metade da minha existência por isso tomei-a como minha, emprestada mas um bocadinho minha.
    É por isso com o tal sorriso escancarado que estou agora a escrever depois de ter lido este delicioso texto.
    A Bea ganhou mais uma fã. Não preciso de dizer quem, pois não?

    Beijinhos e sorrisos
    (^^)

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