terça-feira, 18 de junho de 2019

Na Cerca


O Minho que conheço é feito de sombras e frescura, humidade que ressuma dos muros, pequenos veios de água escorregando a passos de lismo. Em Tibães a água que serve o mosteiro vem do monte que lhe fica em frente, visão que maciços e arvoredo escondem. Quem terá construído a ala de degraus intervalados de fontes, esta escalada frondosa debruada a pedra de sentar e que leva o viajante até ao cume. Já não estou certa, mas serão nove fontes e, entre uma e outra, os degraus. São muitas as estações e vou parando, a encher-me do lugar e esvaziar-me de mim. Cada fonte é sinal de pausa,  lembra a via sacra. Quem sabe, o número obedece a preceito que desconheço. A serena beleza daquele caminho de sombras e pássaros, a abertura dos ramos a fazer tecto e, em todo o ar à volta, um silêncio que se entrega, toma-me. 
Ali, a minha igreja de seiva, água, terra. Ali, habitam em harmonia os deuses e os espíritos benévolos da floresta. E o mundo é lá fora e desimporta. Bem a meio, o cano que desce colado à terra, a água em corrida; há-de percorrer a distância até ao mosteiro onde, senhor nos seus domínios, distribui a benesse líquida que no inverno é agreste frescura e pode gelar. Lá em cima, em remate, uma construção branca ressalta do verde. Será a mãe de água, uma cisterna, um simulacro de igreja. Não sei, sou ainda presa do caminho. 
Desço o carreiro que desemboca em clareira aberta. No lago inesperado, um dramático e enorme círculo líquido que palpita de vida animal, a água ondula aqui e ali. Abeiro-me da superfície escura e milhares de insectos ou pequenos seres aquáticos borbulham e são praga que repugna. Será que os frades ali se banhavam ou lavavam roupa. Que algum se deitou a afogar no fascínio escuro de lodo, o corpo inane e branco levado em braços e a pingar verde pelos caminhos da horta. Que funestas paixões e proibidos amores ali deliraram e foram submersos e ciliciados. Jamais saberemos que dores pressentidas o escurecem ad eternum.
Antes de abandonar o mosteiro, revi ainda os aposentos exclusivos do abade, a breve varanda de sol e gorjeios e as escadinhas que deitam para a ampla exclusividade do quintal onde uma romaneira insistente floresce em alegria.
Não se me dava ser abade neste mosteiro.



10 comentários:

  1. Aguçou-me o apetite para uma visita logo que seja possível.

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  2. Tibães sabe receber, Pedro. E é lugar agradável para quem gosta de história e beleza natural.
    Bom Dia:)

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  3. Pelo menos deu-me para magicar, embora eu seja mais dada aqui às imagenscompalavras. Há mais de 30 anos que não vou ali adiante de mim. Tempo de voltar. Obrigada pela companhia.
    Gosto de associações, faço-as sem querer, às vezes tolas, por ex.: a amizade é como o cimento, precisa da mistura certa e tempo de maturação. E pode sempre "esquecer-se" ou deitá-la abaixo com as "marretadas" da vida.

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    1. Boa noite, bettips:)
      pois...imagens com palavras não tenho. Tenho palavras. A imagem fica por sua conta.
      Concordo com a sua definição de amizade embora o cimento não tenha assim tanto tempo de maturação, tem que ser feito e utilizado ou seca antes de ser cumprir; convém secar já no lugar onde faz falta e é união. Mas tem de ter a proporção certa de água, areia e cimento.
      Pode. Porque neste mundo tudo pode.Portanto, uma amizade pode esquecer-se, mas não é vulgar. Também é verdade que a vida por vezes nos afasta dos amigos, mas não é por isso que deixam de sê-lo. Eu corro atrás das minhas amigas. Não sei bem o que fariam elas se eu não as fosse lembrando que existo. Quero crer que não me esqueciam:)
      Uma boa noite para si

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  4. Bea, o Minho, o seu Minho é também o meu. Tão verde, tão líquido, tão lindo. Na semana passada estive em Arcos de Valdevez . Recomendo.
    Tibães para além da sua inata magia - como se coisa pouca fosse - tem ainda a mais valia dessa rara localização.
    Como sempre, aplausos para o texto. Sempre um imenso deleita lê-la, Bea.

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  5. Nina, conheço - mais ou menos - os Arcos. E Ponte de Lima. Há muitos anos passei férias numa aldeia perto de Arcos de Valdevez, tão jovem que quase não me acredito nesse tempo:). Íamos a pé até aos Arcos de que distava uns 3 a 4 km. Penso que se chamava Sistelo, mas não tenho certeza.
    Boa noite

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  6. O que tu sabes sobre Tibães! mas não é só o que sabes porque conheceste, mas o que sabes porque sentiste e imaginaste.
    De Tibães sei a importância do lugar por pessoas amigas que trabalharam sobre a inventariação e recuperação do património hidrogeológico e ando há muito para lá ir. As tuas crónicas aguçaram-me a vontade e irei levá-las como roteiro.

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    1. Não Alda, vai de alma limpa para que te toque a ti. O mais próximo que consigas da tal folha em branco de que falava o filósofo.
      Bom Fim de Semana:)

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  7. Obrigada, Trini. E também para ti:).

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