terça-feira, 2 de julho de 2024

Salamanca

  Antes de viajar, e contrariando o meu gosto por surpresas, decido o que desejo ver/visitar. De acordo com a companhia nem sempre dada a museus e que tais, escolho e anoto os imprescindíveis.  O restante, que antevejo não poder ser abrangido, deixo na mesma anotado, quem sabe há uma reviravolta que o proporcione. Ora, frente à Catedral de Salamanca fica o Museu de Arte Nova, um dos meus imprescindíveis. Percorri-o sozinha, facto de que tirei benefício. É uma frescura para os olhos aquele museu; e um derreter de alma.  Situa-se num palacete muito claro devido ao revestimento do tecto ser, em grande parte, constituído por  um vitral lindo que me lembrou a Lello; e à parte da casa que suponho em tempos ter sido a frente (e ainda será, mas não entramos nem saímos por lá) e é, no primeiro piso e no rés do chão, completamente vidrada e suportada por estrutura em ferro, tão delicadamente concebida que mais parece renda beijando o vidro. Acrescente-se que o tom cinza claro nas portas e umbrais agrada ao olhar de quem entra, desfatiga.  As peças são pequenas maravilhas expostas em vitrine ou são mobília compondo a sala. Subindo ao primeiro piso, maravilha-nos a vista total do tecto, um longo vitral a coar a luz em tons diversos com predomínio de azul. Olhando ao redor, verificamos estar em sala ampla com varanda corrida a toda a volta, mercê da estrutura de ferro que  a abraça e ampara, permitindo a expansão do vitral. Damos por nós num corredor que percorre a sala e é delimitado pela citada varanda.  Abaixo do belíssimo vitral do tecto, o friso também em vitral que o guarnece e como que emparelha e olha a varanda abaixo que percorre a sala e é também cor e luz de vitral. Deslumbre. Dando costas à varanda abismamos no conjunto cinza das portas fechadas: umbrais guarnecidos de motivos florais e na bandeira da porta o semicírculo de vitral com motivo rosa. Um achado de conto de fadas. Ao longo do corredor rectangular, encontram-se outras portas iguais ou parecidas. Junto ao tecto, as paredes interiores rematavam num friso de flores pequenas suponho que em gesso e que, salientes, pareciam descolar do lugar onde alguém assim as fez nascer. Imagino que aquela varanda interior existiu para contempladores de bailes ou outras actividades que aconteciam em baixo, no grande e arejado salão ora vazio. Abençoado seja quem inventou todos os requebros da Arte Nova. Fotografei o que consegui e me chamou: figuras de mulher, em maioria. Não por sectarismo, eram as que mais abundavam. Gostei da mulher mariposa, lembrou-me os meus braços de vinte anos. E das duas bailarinas, mãos dadas, em bicos de pés e tão airosas no rodopio leve das saias.  Fascínio. A umas captei pela beleza, outras pelo movimento que  emanam, outras apenas por gosto e rendição. Gostei de tudo. Só as jarras e jarrinhas de arte nova brilham na ausência da flor, são a própria floração. 

Raras vezes me deixo tentar pela loja de artigos de museu (exceptuo a Gulbenkian). Mas, o Museu de Arte Nova é-me irresistível. E apesar de serem ofertas, saí contentinha. A minha dádiva foi estar lá inteirinha e observá-lo amorosamente.

16 comentários:

  1. Gosto de Salamanca, onde fiz uma semana de Erasmus. E não dei pelo museu de Arte Nova, tenho de voltar...

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  2. É na verdade pequeno, CC. Mas há nele qualquer coisa de sonho, de não parecer verdade. Fica em frente da actual saída na visita à Catedral. Tem tb uma colecção de bonecas espantosa, mas nunca lhes dei grande apreço.

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  3. Não é isso que queremos quando viajamos? Descobrir e ficar com memórias doces?

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  4. Claro que sim, Pedro. Mas nem sempre o conseguimos.

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  5. Um deslumbre é a forma como descreve tudo o que viu. Parece que estamos a ver também, tal é a sua capacidade de descrever os detalhes como a sua sensibilidade lhe pede. Obrigada por mais este texto maravilhoso. Apetece-me voltar a Salamanca.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

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    1. Mas só detalhei a estrutura do edifício onde a leveza paira e nem sequer analisei as figuras que vi. Não me debrucei sobre o nu de Lalique, uma mulher translúcida em arrojado cristal, nem sobre a beleza da cada objecto, nem quanto gostei de ver em tão pequeno museu a condensação de objectos que me atraem desde que os vi sem lhes conhecer escola.
      Salamanca é cidade muito agradável na primavera. E depois a Graça visita o museu de Arte Nova.
      Um abraço

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  6. Nem sempre, aqui por casa, estamos de acordo com o que visitar, mas desde que o preço o permita, vamos sempre juntos, mesmo que não agrade tanto a um de nós. Vê-se sempre coisas bonitas, interessantes e ficam as memórias, lá está :)

    Beijocas

    P.S: O meu prédio tem 3 andares mais o r/c e não tem elevador em cave nem sótão

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  7. Era costume eu passear com pessoas muito afins dos meus gostos. Entrávamos num mesmo lugar e marcávamos uma hora de reunião no exterior; até lá, cada um ia à sua vida. E olhe que havia um casal connosco, mas o gosto é pertença individual.
    Esse prédio vai cansá-la bastante. Mas é bom saber que gosta de se demarcar pela diferença positiva, Cláudia.

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  8. Não visitei o Museu e estive à entrada! Trazia a beleza doutros recantos e tive receio de misturar "arte"! Sou assim, se vir e gostar... fico apenas pela simplicidade do que encontro no meu caminhar! Aprendi isso ao longo deste envelhecer! Não gosto de sobrecarregar o meu olhar 😊... mas se voltar a Salamanca vou espreitar! Bom fim-de-semana Bea

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    1. Pois é, ver muita coisa num repente não é boa ideia. No meu grupo de passeio não corro tal risco. Vemos pouco de cada vez. Mas, a mim que gosto de Arte Nova, soube-me tão bem deambular por lá, voltar atrás, passar pelas bonecas como cão por vinha vindimada, e até olhar os recuerdos da loja me deu algum prazer.
      Enquanto a Gracinha gosta da street arte, eu terei talvez o mesmo gosto por arte nova. Não deixaria de ver este museu, como disse lá em cima, era um dos meus imprescindíveis. Claro que andei a pé pela cidade passei a ponte romana, vi a catedral e revi a Plaza Maior onde como dantes me sentei a beber um tinto de verano e a descansar. Foi pena a praça estar em preparos para a feira do livro e ter já a maior parte dos pavilhões montados o que nos impedia a visão completa do espaço.
      Bom domingo Gracinha

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  9. Passei 2 ou 3 vezes por Salamanca, uma em 2001, ainda não digitalizava as fotos. Tenho uma delas, por acaso, da fachada casa-museu Arte Nova, numa rua quase despercebida. Que não visitei, pelas cores era o anoitecer e urgia passar a fronteira e voltar. Em 2019 tirei muitos apontamentos a edifícios Arte Nova, às Catedrais, à Praça Mayor, à ponte romana sobre o rio Tormes, enfim, passeios avulso. Espanha tem uma vibração de gente e atitudes que admiro, são extrovertidos, soltos e andam na rua até escurecer.
    Sobre o seu cometário ailleurs e traições, não quero responder aqui. Reafirmo o que disse: para mim traição pode até ser um "silêncio". Evidente que já me aconteceu mas, perdoe-me o que pode ser petulância, inadvertidamente ou resolvida a seguir. Abr Bettips

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    1. Recordo bem o nome do rio e começámos mesmo pela travessia da ponte. Lembrou-me o romance de Eça de Queirós, A cidade e as serras. Como disse à Gracinha, não houve o perigo de "ver demais". Estivemos por lá mais de 24 horas. Fiquei com a sensação de que não vi tudo. Mas vi alguma coisa e uma delas era essa casa-museu que levava apontada num caderninho e onde, no verão, segundo li no anúncio, há espectáculos.
      Espanha tem outra alma, menos soturna que a nossa. Também me agradam os espanhóis mas não consigo ser como eles. A forma como somos educados e o lugar a que pertencemos andam sempre connosco.
      Verdade, o silêncio também pode ser traição.

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  10. Lembrei-me a propósito Arte Nova e ArteDeco: conhece o BMAD em Alcântara? É um belo passeio por uma casa cheia!
    Bettips

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  11. Não conheço não senhor. Terei de me perder por lá. Obrigada pela dica.

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  12. Já estive em Salamanca várias vezes mas não me recordo de ter visitado esse museu. Salamanca á a cidade Espanhola, com alguma importância, mais perto da minha cidade Natal. A casa que descreves é-me familiar, ainda recentemente vi uma parecida na Coruña, também museu. São belíssimas! Também me maravilho com a Arte Nova!
    Bom Fim de Semana, Bea!

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  13. Somos parecidas neste gosto:). Penso que seja comum a muita mulher, é meio pueril e poética.
    Bom Fim de Semana, Prosa

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