segunda-feira, 17 de junho de 2019

Tibães e uma Inveja Telúrica


Ultrapasso o pedaço de vinha e o receptivo espaço de aluguel arado e aberto à semente. Invejo aquela terra forte, escura, a água que corre em regueira natural, a força verde de natureza bem nutrida. Acudo ao chamamento dos bancos de pedra, subo degraus e sento-me ao rés da primeira fonte. No início da tarde, o calor, a quietude, um silêncio de pássaros no arvoredo que rodeia o semi círculo de lajes, convidam ao remanso de preguiça digestiva a que os alentejanos chamam sesta e tanta vez é apenas um alívio de existir e laborar em árduo sufoco de sol. Nas sombras quentes e suarentas, os alentejanos apoiam costas num tronco e, chapéu puxado ao rosto, adormecem. Minutos em que são indefesos meninos, abandonados de força, corpo lasso, pernas bambas, pés sem caminho. Ao invés, rasa a fonte uma frescura de gotas em suave canto chão. É talvez o prenúncio de água fresca que os alentejanos sonham sob o chapéu que os isola e protege da intrusão de moscas e moscardos, formigas subindo-lhes o corpo deslembrado. Sabe-se lá o que ouvem no breve coma que os tolhe. O bem que lhes faria a força vital destas árvores, a sombra fresca e cerrada de que sobreiros e azinheiras são incapazes, por mais que estiquem folhinhas minimais. Tudo na enxada alentejana deseja a terra fecunda e escura que desconhece, o mundo de além Tejo suspira por esse húmus que lhe não pertence. E remexe no pó cinzento da terra anémica que lhe calhou. E dela arranca esforçadas flores e frutos, e planta árvores que crescem tinhosas ou a poder de cuidados e reservas. Mas, aqui, não; aqui, tudo cresce desmedido. O mundo do esforço é muito desigual.
Refrigero mãos na água abençoada e sigo viagem, piso devagar nos caminhos desta primavera veraneante. Maciços despedem odores a viço jovem e clorofila e a respiração agradece o novo alento. Aqui e ali, pequenas flores silvestres sorriem a pintalgar a verdura. Flores que ninguém rega nem ampara, crescendo a sós com o sol e a água. No Alentejo, os caules estiolam sem razão aparente e as plantas que sobrevivem requerem amparo humano. Que o verão tudo engole e queima, das ervinhas mínimas a arbustos impensáveis. Na modorra de tardes infernais as frágeis flores sossobram, aceitam a morte que se anuncia na canícula, pergunta breve e repetida, até quando resistes, até quando. Aqui há flores contentes, pujantes, duram o todo do seu tempo. Cumprem-se. Mas o meu coração está lá, irmanado à sobrevivência do mundo vegetal, comovido no esforço desafiante de cada botão. Mesmo que as corolas pendam e os caules desistam, que belas são as flores exaustas.  


12 comentários:


  1. É um contraste enorme sim, comparar um Minho primaveril e verdejante a um Alentejo seco pelo calor do Verão.

    Eu não saberia viver se me faltasse este verde...

    Beijinhos Minhotos
    (^^)

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    1. Avaliando pelo meu, creio compreender o seu sentimento. Mas a necessidade (e outros poderes) leva-nos para fora das aspirações. E vivemos e sabemos viver, sim.
      Penso que os portugueses têm diferenças básicas entre si, relacionadas com a região a que pertencem. São berços muito distintos a determiná-los. Mas é pela diferença que nos afirmamos.
      Boa noite

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  2. Um país de contrastes que nos apaixona. :)

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    1. Conheço muito pouco do estrangeiro. Mas suponho que noutros países existem idênticas divergências. Disseram-me que o sul de Itália tem pessoas de carácter muito diferente das do norte. E que em Espanha, o mesmo. Por exemplo. Mas as regiões mais pobres e quem a elas pertence, têm caminho mais árido.

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  3. ... viajando cá dentro através dos seus escritos olhares e eu gosto!!! Bj

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  4. Já poupei na viagem!
    Boa ideia esta do comparado.
    E temos outras regiões que não deslustram a análise; o frio da Guarda, o calor de Castelo Branco, terra de giestas e castanha e povo de antanho que padece.
    PS: em Love Story (1) e (2) ficaram alguns comentários por ler e responder ou então foram lidos e...

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  5. o senhor envergonha-me Joaquim, é que frequento pouco a minha janela:). Obrigada por me lembrar, já vou espreitar os comments que não vi.

    Nada, a viagem não é poupada. É o inverso, vai até lá olhar e tira as suas impressões, que cada um vê com os olhos e a mente que tem. A coisa é a mesma mas não vemos a mesma coisa:).

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  6. Pois é, o mundo não é justo. Ainda assim ou talvez por isso, o Alentejo cativa-nos, vencedor perante as agruras da natureza. Entendo a sua paixão.

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  7. A minha paixão é amor, não tem a ver senão com gosto. Como se gosta de pai e mãe. É uma relação de pertença, Nina.

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