Há
sempre o regresso ao lugar de pertença.
Chegámos e logo a novidade de outro ar, o rio omnipresente e uma religiosidade
medieva e pontiaguda a elidir quotidianos
e hábito. E, se casos houve em que o mundo conhecido se agitava telemóvel fora,
outros, mais recatados e secretos, não despegaram por completo da mente, a nova
brisa a descolá-los até meio, permanecendo de pé preso em infrutífera oscilação
de braços. À medida que os dias corriam desalmados, o infatigável das horas sedimentava-nos
a posição. Tudo, das lajes do chão à simpatia dos Amarantinos, debruava a verdade, és visita.
Para
trás ficou a hospitalidade risonha da Catarina, a delícia dos seus bolinhos, o
pequeno almoço mirando o rio. E um passeio lá em baixo, junto à água, bucolismo
verde na ponte pequena. Depois, a subida escolhendo o íngreme e a clorofila de
caminhos feitos a pouco degrau.
Ou
a hora da visita de honra, em casa de S. Gonçalo. Agradecer-lhe o interesse que
mostrou pelas gentes da beira Tâmega; a visão de desenvolvimento que presidiu à
construção da ponte velha e a plenitude pela
beleza sacra de atravessá-la, passos devotos e recolhidos; o clima que se pôs a
gosto em estadia aprazível. A incrédula efígie do santo abrindo a bondade de um
meio sorriso. Vassalo das suas sandálias, um fresco molho de cravos vermelhos ditava orvalhos de fé. O frade num incentivo, não
pedes nada, minha filha. Suponho que enchentes
de pedidos e olhos suplicantes cheguem a cansar-te. Para que nascemos, Gonçalo.
Talvez só para viver. Não viemos talhados para nada, fizemos caminho: estradas
largas e menos largas, pedaços de vereda, sendas estreitas abertas a catana,
subidas difíceis com quedas súbitas e à reboleta, muito pó, arranhão e nódoa negra.
Pedir-te o quê, não fugimos ao que somos. Ladeias o altar da igreja que foi pertença do teu mosteiro e
tem raíz na Idade Média. De um lado, a efígie; do outro, o túmulo. No recato penumbroso
que te guarda os restos, onde certamente te rezam, espreita o frio
respeitoso dos mortos. Bem melhor te
conheço e encontro, em corpo e espírito, no ar que se respira, nas arcadas da ponte, margens do rio e lajes do chão.
Foi um prazer, Gonçalo. Até Sempre
Foi um prazer, Gonçalo. Até Sempre