segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Menino-Deus

 

        A verdade é que a sequência de dias e anos é medida nossa, mero fragmento da duração em que existimos qual ponto minúsculo e tanta vez desambientado. Nessa teia feita de horas, somos heróis e homicidas, abjectos e luminosos, doloridos e alegres. O tempo humano confere-nos dimensão, mede-nos, enquanto ela, a duração, se mantém intacta e imune a humanas medidas.

        Portanto, não sei o que contém a expressão “Ano Novo, Vida Nova”. Dito de modo mais razoável: como pode uma data convencionada mudar o eu - o meu e o de toda a gente. Sim, Como?! Pois se continuamos sendo os mesmos, não despimos a pele que nos veste, não mudámos sentimentos que nos alegram ou entristecem consoante aproximem ou afastem de quem gostamos, não abraçámos novos credos e as novidades que o corpo apresenta não são as melhores; porém, para o bem e para o mal, estamos juntos eu e ele, com proximidade máxima, tão máxima que nos pertencemos mutuamente e nada de um exclui o outro.

        Não sei se confio em ti cegamente. Confio o suficiente para te autorizar a fazer o que te dê na bolha. Para mim, os outros e o mundo. Cabe-me dizer sim. Sem propósitos que nunca cumpri senão em tempos inaugurais.

        Para o ano falamos sobre, ok?


Nota: apesar da descrença, desejo a todos os que nele esperam um ano 2025 que não defraude.

6 comentários:

  1. Neste final de ano, que agora terminou, a Bea ofereceu não a Maria, que se calhar nem ler sabia, mas a nós seus leitores esta sua versão do nascimento do menino Jesus. É um trabalho notável que só quem tentou rabiscar alguma coisa, pode dar o devido valor. Não será como reconstruir uma catedral após incêndio, com grandes arquitectos, bons operários que saibam do ofício e não poupem as forças e talentosos pintores. Mas é um trabalho também artístico, na escolha dos vocábulos certos, nas ideias bem articuladas, tarefa de relojoeiro demorada e perfeccionista até que saia a folha escorreita e limpa.
    E Ele que tudo vê, também contempla a sua obra e por conseguinte obra Sua e só pode estar satisfeito. Te Deum.

    Não vejo grande mal dizer-se Ano Novo, vida nova, neste mundo onde há alguma tendência para a preguiça, para o comodismo, para o laxismo, para o deixar andar com alguma resignação. Entendo a frase como uma mensagem de esperança aproveitando este virar de página temporal, para se fazer aquilo que ainda não foi feito e constantemente adiamos e para alguns irem mesmo mais além, como sugeria António Variações: Muda de vida se tu não vives satisfeito; Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar; Muda de vida, não deves viver contrafeito; Muda de vida se há vida em ti a latejar.
    Um bom ano Bea.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Joaquim, espero que Deus não tenha posto em mim "o Seu enlevo", ou ficou bem desanimado com a obra. Mas como julgo que esse tal enlevo se destina ao Filho e não às restantes criaturas, dentro do inédito número que perfazemos, satisfaz-me ser mais uma que existe e muito igual a todas as outras. De resto, a escrita descontrai-me.
      Pois é, não há mal em desejar Ano Novo. É um hábito e, vendo bem as coisas, poucos o desejariam - o que os homens desejam é a continuidade e não a quebra radical; é a continuação mas sem o que de mau nos aborrece. Digamos que, pelas leis da vida e conhecimento que dela temos, é um desejo em que não acreditamos, mas continuamos a desejar fazendo de conta. António Variações - que sempre admirei pela diferença na extravagância e por gostar do que cantava - talvez tenha conseguido atingir a meta que cantou, não sei, não vi o filme e nem li sobre ele. Desejo, sinceramente, que tenha morrido satisfeito consigo mesmo.
      Quanto à esperança: umas vezes é verde e os burros comem-na. E outras brilha e ajuda-nos a continuar. A vida tem muito cambiante e os homens que têm a sorte ou o azar (também mudam consoante os tempos e as vontades) de viver mais tempo sabem-no com mais propriedade.
      Um bom ano, Joaquim.

      Eliminar
  2. Junto a minha descrença à sua.
    Oxalá estejamos errados.
    Feliz Ano Novo

    ResponderEliminar
  3. E nada nos daria maior prazer, não é, Pedro?
    Bom Ano

    ResponderEliminar
  4. Que venha um 2025 cheio de coisas boas, Bea. Que este ano foi sem champagne, roupa azul e as passas, para as comer, foi um suplicio :)

    Bom ano

    ResponderEliminar
  5. :))). Disso tudo tive o champagne. Não ligo a superstições:).
    Para si vaticino um bom ano 2025, Cláudia. E que um anjo bom a proteja.

    ResponderEliminar