sábado, 28 de dezembro de 2024

Dia Vinte e Oito - Onde se Conta uma História

 

        E, para os lados do estábulo de Belém, os dias passam em velocidade extrema. Maria pode ser a mãe de Deus mas é criatura muito humana e nada habituada a partos e bebés recém nascidos. E os seus receios, normais em qualquer adolescente, redobram por criar e alimentar o filho de Deus. Julgo que nem ela saberia bem o que fazer com o parentesco que a deixava com dois maridos um dos quais divino e completamente desconhecido. Bom, imaginamos que esse problema havia de lhe chegar noutras horas que, tão longe de casa e a braços com o primeiro e último filho divino que teve, nem a virgenzita tinha cabeça para tanto. E depois não havia telefones e muito menos telemóveis, a pobre teria de inventar o que ignorasse. Mas deu conta do recado que Jesus cresceu e, a crer nos quadros que povoam o mundo da cristandade, fez-se rapaz muito bem apessoado: cabelos longos e meio ondulados a dar para o castanho dourado, risca ao meio sem um átomo de cabelo fora de sítio (devia pentear-se muita vez). Cabelo bem lavado, túnica sempre limpa e uns olhos azuis de fazer inveja a qualquer. Não asseguro, mas as multidões que seguiam Jesus deviam ter em maioria as mulheres. É apenas pressentimento. Imagino um nazareno lindíssimo - assim surge nas estampas -, bom comunicador, pregando o amor entre os homens e o inestimável valor das crianças. Era um bendito entre as mulheres, pois claro. Por isso e outras coisas, Maria Madalena não esteve com meias medidas, lavou-lhe os pés e enxugou-os com os seus próprios cabelos – longos, sedosos, loiros. Nem sei como conseguiu, os cabelos não dão para secar coisa alguma; devia usar bandelete ou lenço na cabeça, só pode. Gosto de imaginar a cena. É que é mesmo de amor devotado.

        Por outro lado, as dúvidas atazanam uma pessoa, roem-nas até ao tutano: apresentam Cristo de perinha bem aparada e por vezes bigode; pois os nazarenos não serão quase todos morenos, barbudos e escuros? Mas sempre nos mostram imagens de gente celestial branca e loira. Então?! Algum preconceito há contra a pigmentação dos(as) morenos(as). Ou será só a admissão que a corte celeste também sofre de racismo?! Ná, na m’acardito.

4 comentários:

  1. Essa é uma dúvida que também me atormenta.
    Em certas representações parece que veio do Norte da Europa.
    Boa semana

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  2. Continuo a pensar ser provável que os pintores - e as pessoas em geral - julgassem mais etérea e condizente com a aura transcendente o ser loiro e de pele muito branca. Se veio a tradição do norte europeu, apenas junto o motivo de, como criticou Kant, ajuizar o mundo divino pelo humano conhecido.
    Boa semana, Pedro

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  3. O que ri com a última parte do texto :)

    E dúvidas, acho que ainda não as tenho... Mas só porque ainda não pensei bem nelas :P

    Bom Ano Novo , Bea! Tudo de bom!

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  4. Pois, Cláudia, já cá temos um senhor que não tem dúvidas:). E chega-nos.
    O próximo é o ano do seu bebé. Vai ser memorável para si. Muita sorte para o muito que a espera. E que, ainda assim, consiga um tempinho para vir espreitar-nos de quando em vez.

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