O meu calendário de Natal refulge de prendinhas. Onde já vai o subsídio. Há duas em falta e alguns chocolates top ten nas preferências. Nada de monta. Estou lisa e feliz. É certo, dá-me imenso prazer comprar prendas. Os embrulhos é que.... Palavra que há bocadinho fui espreitar a solitária prenda que continua emburrada junto à parede. Temi que tivesse dado às de Vila Diogo. E amanhã, sei de fonte segura, pouco adianto o natal.
Portanto, aproveito a euforia e lanço-me a preparar a alma e o corpo para o nascimento do Menino que marcou o calendário. Falar dEle. Relembrar a meu modo a sua história. Que tudo se diz antes ou depois dEle. Tão bonito.
Cristo é na verdade a figura mais intrigante da História. Quase tudo que fez deu brado. Foi um trabalhão para nascer porque tinha de cumprir o fado da manjedoura e dos pastores que o adoravam em Belém. Ele que era estrangeiro no lugar. As voltas que terá dado na barriga da mãe indo de jumento sabe deus quanto tempo – os burros, é do conhecimento público, andam devagar – supostamente por causa de um recenseamento, mas é claro como água que foi para cumprir o calendário – Deus escreve direito por linhas tortas. Ou nascia em Belém, ou não nascia. E, como toda a gente sabe, a criança ao fim dos nove meses de gestação não quer cá saber de coisas, nasce e pronto. Maria, que era assisada e mulher, logo previu que estava cumprido o tempo. E não sei eu porquê, talvez toda a gente se tenha ido recensear no mesmo dia, as hospedarias estavam cheias, não os aceitaram por lá. E o pobre casal lá teve de ir até um estábulo desconhecido, lugar péssimo e sem condições mínimas de higiene, capaz de o menino apanhar um tétano ou coisa assim, com a agravante de não haver vacinas e ser vergonhoso um Deus morrer de tétano. E por não se saber tal nome, ainda diria o povo, foi um ar que lhe deu. Ou podia morrer de uma pulmoeira qualquer, por via do frio que só quem não conhece bafos de vaca e burro acredita que aquilo aquece. Para já é um calor húmido e que provoca frio (pobre criança). Mas pronto, estavam no lugar certo, o tal das antigas profecias. O que não entendo é a razão do anjo não os ter elucidado acerca do estábulo. Bem se vê que não tinha sexo, sabia lá ele de dores de parto. Andou a pobre Maria de hospedaria em hospedaria. Para quê, digam-me lá. Aposto que, se soubesse da profecia, como souberam os reis magos pela estrela, a jovem (tinha doze anos, disse-me a Paula Rego; parece que leu na Legenda Áurea) ia directa para o estábulo, varria aquilo tudo, que bosta de vaca e de burro não é bom perfume, e enfim procurava que o lugar estivesse mais composto. Mesmo em miniatura, o filho era um Deus-Homem. Assim, chegados na força das dores, o que calhou bem foi José ter um canivete, vulgo navalha, que de certeza não esterilizou, mas deu para cortar o cordão umbilical da virgem. Nas horas de aperto dá Deus sabedoria a quem a não tem, o que saberia José de cordões umbilicais, se o rapaz era carpinteiro...Mas pronto, safou-se e safou o Deus-Menino e mais Sua mãe e não apanharam septicémia que é uma doença acerca da qual não tenho certezas, mas podia ser que apanhassem.
Por certo, o verdadeiro pai (Deus-Pai), tratou de lhes afastar as doenças, Xô, Xô, fora daqui, querem dar-me conta do pimpolho ou quê?! Eu que sou Deus e tenho um filho homem de uma mulher que só vi desta lonjura que é o céu, não posso arriscar perdê-lo antes de tempo por via de uma doença; já gastei pelo menos dois anjos que andam pela eternidade a arfar de canseira sem remédio. Um foi avisar Maria que estava grávida sem ter tido o prazer de conhecer a sério um homem; outro avisou José, senão quando a barriga crescesse ele era capaz de enjeitar a garota e não me convinha remodelar as escrituras que o espírito santo já está quase depenado de tanta pena que lhe gastei. Tenho de o poupar ou lá se vai a Santíssima Trindade.
(cont.)
Um texto que é um verdadeiro mimo natalício.
ResponderEliminarBfds
É uma história, Pedro. A minha versão mais humana e natural de um facto divino e logo, sobrenatural. Está no princípio. Parece mais interessante do que o relato da minha vidinha entrelaçada de Natal; ainda que, egocêntrica como sou, dela resistam vestígios :).
ResponderEliminarEscrito ao sabor da mão e sem propósito, sim, é o bombom de natal que deixo na janela.
Bom dia
Mas que texto tão bonito!
ResponderEliminarBom fds
Bigada, Cláudia.
EliminarE que o fim de semana a surpreenda: acorda e não está mal disposta, não tem azia, nada. É o que lhe desejo
Sem dúvida é um bombom que nos oferece Bea e não é Ferrero nem Mon Cherri (meu Deus o que eu gosto destes com o seu recheio de ginginha saborosa), mas é gostoso, se assim se pode falar da história de Cristo, servida em conto e com a pitada de humor que lhe é característica.
ResponderEliminarGosto de adaptações, gostei muito, muito do Evangelho do Saramago e também de resumos quando a matéria dada é complicada e extensa.
A Bíblia é uma obra difícil, longa, simbólica, quase um texto oculto e que como tudo que é assim, presta-se a muitas e diversas interpretações.
Gosto de ler, como sabe, mas a minha capacidade tem limites, por isso nunca acabei os Lusíadas nem de perto, muito menos a Bíblia (embora prefira o Antigo Testamento) e nunca toquei no Ulisses de Joyce.
Portanto venham de lá os próximos capítulos, porventura até ao fim do advento, mas sem descurar a sua vidinha, e se puder ir entrelaçando com histórias do quotidiano, tanto melhor, mesmo daquelas que metem prendinhas e luzes na árvore de Natal.
É preciso é vontade, vontade, harmonia e saúde. É isto que desejo a todos.
PS: Obrigado Emília pelas suas amáveis palavras e votos de bom Natal também para si. Mesmo à distância consigo abarcar a seiva e beleza da sua boa alma.
Se me permite, Bem, vou responder ao Joaquim agradecendo a simpatia das suas palavras. Obrigada, Amigo e um santo Natal, com saúde e alegria
EliminarEmília 🎄
Eu gostava de Mon Chérri e da ginja imersa em licor que sempre me pareceu aguardente. Mas já não os como. Coisas. Também gosto das bolas da Lindt embrulhadas em papel colorido (suponho que cada uma seu sabor) e fazem-me um mal desgraçado: aboli-as desde o ano passado. É a vida.
ResponderEliminarNão li o evangelho de Saramago e nem penso ler, mas sou capaz de quase ter lido os quatro evangelistas. Do Antigo testamento gosto de algumas histórias, sobretudo as que metem mulheres, umas perversas, outras justiceiras, outras amorosas...mas não me satisfaz um Deus que por tudo e nada se exalta e castiga. Não li a Bíblia toda e nem pretendo. Há muitos anos li O Livro do Apocalipse e não entendi nada. Mas acredito na profecia do Bandarra e julgo-a certa. Acho que li os Lusíadas duas ou três vezes na minha juventude. Não tinha outros livros em casa e além disso intrigava-me a razão por que na escola só líamos uns bocados aqui e outros ali. Na verdade gostei muito mais das partes que não eram lidas nas aulas - não tinha que me preocupar com métricas e divisão de orações e sei lá eu o quê. Mas de pouco me lembro além do canto IX, aquele que trata sobretudo das divindades. Já nem tenho certeza de que seja o canto IX. De Ulysses fiquei, há anos, na pág trinta e qualquer coisa e não me apetece retomar. Como diz um amigo meu, "ainda não lhe apanhaste a chave de leitura"; diz ele que depois é fácil.
Precisamos de saúde, sem ela a vontade pouco conta e a harmonia tanto faz. Portanto, saudinha para todos