O projecto era dar início aos embrulhos, que a desarrumação dos presentes começa a delir-me como buraco na meia que a cada passo engrandece. E fiz quase nada. Dei conta de um único que jaz só e triste, arrumado a uma parede, talvez a prender o burro. Idealmente, hoje haveria o advento das prendas. De algumas. Ora bolas. As manhãs passam num rufo e de tarde a escuridão tira-nos a vontade de laços e cores; dias escuros são inimigos da garridice.
A vida ocupa-nos demais. Ora pede isto, ora é aquilo que falta e precisa ser comprado, ora a cozinha chama, a roupa grita, as ervas têm tal viço que a ameaça de sepultar as flores ficou para trás e temo ser estrafegada na selva virgolina do que foi um jardim. Isto é um despautério, não há natal que se aguente ao caminho da clorofila enlouquecida. Quais renas nem qual carapuça. A única esperança é que os bichos venham esfomeados e sejam de boa boca. Sonho com essa manhã em que se veja o chão raso e as flores, bonitas ou não, por ele se recreiem.
Refiz a lista dos presentes e as faltas são mais do que eu desejaria. Preciso comprar envelopes de correio azul que agora é verde. Sobretudo, preciso assumir que as tardes continuam a existir por debaixo dessa capa de nuvens que derruba qualquer e enche o ar de sombras.
Um solinho de algibeira. Punha-o sobre a mesa e o dia saía perfeito.
No meu fim, está o meu princípio; é também como começa o primeiro livro que li de Agatha Christie e que, como quase tudo o que nos marca na juventude, não se esquece.
ResponderEliminarSou um homem virado para o prazer, amo o prazer ou com mais propriedade os pequenos prazeres que a vida me proporciona; na realidade e sem hipocrisia, acho que ninguém prescinde deles, por mais pequenos que sejam.
E os meus prazeres encontro-os espalhados e dispersos em épocas, lugares e pessoas diferentes.
Olhe, recuando à minha infância e já que estamos no advento, não queira saber o prazer que me dava a preparação do Natal, montar a árvore com minha mãe ou o presépio com minha tia, ir ao circo com minha avó e depois a consoada e os presentes.
Mais tarde, minha tia levou-me a conhecer o cinema e a música, prazeres que conservei até hoje. Grandes filmes, grandes prazeres, grandes cenas, como aquela despedida altruísta de Bogart em Casablanca, porque pensa em tudo menos nele. Outro filme, Doutor Jivago, aqueles olhos brilhantes de lágrima solta e os lábios trementes de Julie Christie e ainda As Pontes de Madison County.
Mas há mais, muito mais, como andar de bicicleta pelos caminhos que conduzem ao mar ou ouvir um saxofone a chorar.
E depois quando a conheci e quando ela me disse que sim.
Acompanhar os primeiros meses de vida de um ser indefeso, que, como alguém em inspirado momento designou, minha asa e raiz - minha filha.
Guiar sem destino estrada fora num dia de Primavera.
Adoro sentar-me e esquecer o mundo, embrenhado num bom livro e quando assim acontece , levo-o para todo o lado e leio enquanto espero, no comboio, no consultório médico, nos centros comerciais, só tenho mágoa que minha filha não se interesse - não pedimos às pessoas do nosso sangue que sejam como nós Bea e no entanto entre elas e nós existem tantos laços, os sentidos aprenderam a ler no mesmo livro e a linguagem do coração é a mesma, contudo...
Outro prazer mais recente: conversar com gente desconhecida e fascinante, comentando posts e crónicas num diálogo à distância continuo e reiterado que a internet permite e que, bem contabilizado o tempo, supera muitas conversas entre amigos.
Eu sei lá, eles são tantos...!
PS: O sol também é um prazer.
Um bom rol dos pequenos prazeres que a vida nos oferece, Joaquim. É aproveitá-los enquanto duram. A maioria dos quais descobri em adulta e com os filhos. Não houve na minha infância árvores de Natal ou presépios caseiros, muito menos circos ou consoadas. Tudo isso foi novidade que inaugurei com as minhas crianças. Antes, fui mãe dos meus irmãos por mais de onze anos, e tínhamos os nossos rituais de Natal em tudo diversos dos seus - cada um age segundo o que a vida lhe permite. Sentíamo-nos felizes na mesma e hoje, à parte a missa do galo a que assistíamos sem falha na capela do nosso lugarejo, mantemo-nos unidos em corpo e espírito: festejamos a consoada que antes não tínhamos, enfeitamos a casa e há uma árvore de Natal (detesto árvores de Natal). Mantemos o hábito dos presentes no sapatinho e só abertos na manhã seguinte. E há, acima de todas as coisas, o calor da união entre nós.
EliminarImagino que os nossos pais nos velam de onde estão e gostam do que vêem. E se não nos virem, se tudo não for mais que sonho, é grato sentir que, em geral, se orgulhariam dos rebentos. Olhando para trás, verifico que o que mais preservámos - os quatro - foi maternidade e paternidade. E valeu a pena. Os nossos filhos não são filhos modelo, mas são honestos e trabalhadores; alguns empenham-se em causas políticas, e cada um tem a coragem de viver de acordo com os valores que perfilha. Parece-me que não falhámos por completo.
Claro que também gosto de ler e escrever e sei que ambas me deslocam da realidade, são-me evasão que nem sempre pratico porque a vida pede e urge com outras actividades.
Prefiro, de longe, conversar e estar com amigos(as). Mas a família alarga e requer atenção, os netos são extensão apetecida; ou os negócios de aposentados; ou apenas os sentimentos que antes foram quase prementes entram na serenidade do que há muito tempo dura - razão que não me assiste e causa alguma estranheza; logo, a amizade vai esperando e os encontros também. E dou graças por este meio digital que me permite um contacto de amigos que não são nem deixam de ser, mas é fora de dúvida que possibilita uma forma de contacto: há sempre alguém do outro lado. Sem hora nem tempo marcado. Quando.
Bom dia, Joaquim
Ainda não faço a mais pequena ideia acerca de quantos e quais os presentes que vou comprar.
ResponderEliminarJá estive aí, Pedro:). Passei à fase seguinte, a de algumas faltas e tudo em monte, que é como quem diz sobre camas e mesas de quartos ora desocupados. Ideias acerca do que cada um gostaria - não somos pessoas de gosto difícil -, vou tendo. Mas há sempre substituições, são muitos presentes. Tenho pena, mas o subsídio de Natal não é elástico. Fica-me sempre o sonho de haver um natal em que não penso na carteira e compro o que, cabalmente, agradaria cada um. Eu gostava que abrissem as prendas e fosse um encantamento. No entanto, estou convicta que, este ano, dei um passinho de bebé nessa direcção.
ResponderEliminarBom dia, Pedro. E que a inspiração lhe chegue (conhecendo bem as pessoas, não é tão difícil assim).
Como eu gosto de ler as vossa conversas, Bea e Joaquim!!! Sempre muito interessantes nas quais me revejo. Os Natais de antigamente não eram como os de hoje, mas os meus eram felizes, apesar de sermos só quatro pessoas à mesa o que achava um pouco triste; não havia presentes, mas sim a alegria imensa de, no fim da ceia, irmos ver as iluminações ao Porto; o meu Pai era taxista e por isso, tinhamos carro; a partir das 20 horas o meu pai não trabalhava para nos proporcionar esse gostinho; a noite era para a família. Poucos dias antes, eu é o meu irmão íamos ao monte pegar um pinheirinho e apanhar musgo, nascendo assim o nosso presépio, no pátio à saída da cozinha; hoje é um exagero, com tudo iluminado já em Novembro; em frente ao meu apartamento há uma praça com muitas árvores iluminadas há um mês e, devido às chuvas e vento, muitas das luzinhas já não piscam; penso que é cedo demais, mas há quem assim goste. Gosto do Natal, principalmente pelos netos que vivem esta época com muita alegria e, nós, apesar da saudade dos que já partiram aumentar, colaboramos nessa festa, com muito gosto, colocando os outros nossos queridos onde merecem estar, no fundo dos nossos corações, o lugar mais especial que temos. Muito obrigada, Bea , obrigada Joaquim e deixo um abraço especial e os meus votos de que tenham um bom Natal , num convívio familiar alegre e harmonioso
ResponderEliminarEmília 🎄 🔔
Bom Natal também para si, Emília. Julgo que nesta festa ninguém que fez de facto parte do grupo familiar fica esquecido. Acredito, como já tenho frisado noutros anos, que eles estão connosco e partilham do nosso espírito festivo. As raízes podem não ser vistas, mas não há árvore sem elas. Por ora ainda fazemos parte do tronco e já os ramos vários se vão estendendo para o futuro e é tão bonito assistir ao fenómeno. Daqui a uns tempos seremos nós as invisíveis raízes e eles o tronco comum. Mas enquanto não, aproveitemos a família a que pertencemos e a que demos e inda damos o nosso contributo.
EliminarE que, contra todas as perspectivas internacionais, cujas preparam o caldo que havemos de beber, tenhamos um Natal pacífico e alegre.
Não gosto do Natal, pessoalmente. Das actuações e dos actores. Do consumismo. Das luzes, de nada quererem dizer como aproximação entre as pessoas. Quisera ir ao monte, ao musgo, e fazer "o presépio" com figurinhas de barro.
ResponderEliminarLeio-vos aqui porque sim, têm outras coisas que me atraem. Tenham todos uma boa "fase" natalícia, com Saúde e Paz. Bettips
Respeitar o gosto dos outros é um lema nosso, não é bettips?
ResponderEliminarO que afasta a bettips, a mim aproxima. E não precisa ler o que não lhe quadra, há de certeza muito mundo na blogosfera que foge a luzes e natal, fala de outras coisas que talvez lhe interessem mais por lhe parecer que mais aproximam os homens; e acredito que seja verdade. E fora da blogosfera, que já diminuiu drasticamente, há um mundo inda maior, decerto com assuntos do seu agrado e em que se sinta mais no seu elemento.
E depois, quando passe a quadra que nada lhe diz, caso o deseje, volta. Cá estaremos. Mais ou menos iguais a antes.
Até lá desejo que o tempo passe depressa ou encontre um descaminho que a faça esquecer a quadra que mais me move. Consumismo? Então não admite que as pessoas de quem gostamos gostem de receber umas prendinhas nossas?! Eu acredito. Quais actores, Bettips?! A que se refere? Não há disso no meu mundo de Natal, há só pessoas que gostam umas das outras e se reúnem em alegria enquanto a breve vida deixa. E o meu mini presépio - de barro - tem musgo e uma ovelha capaz de engolir o presépio inteiro. E vai desculpar, mas sou um cérebro infantil, luzes e brilhos encantam-me.
Saúde e Paz, Bettips (está zangada com a blogosfera? Não tem hábito de desabafos tão esbracejados).
Claro que respeito os gostos dos outros, apenas me afasto, neste caso por não sentir a alegria de natal, que fui perdendo com os anos, ausências e vicissitudes. E não gosto do apelo ao consumo excessivo desta - e outras - épocas. Evidente que cada um toma o que quer e o que gosta. Continuo a estar agradecida pela faculdade de poder interagir (na blogosfera) com gente feliz e imaginativa, e ler sobre a alegria e experiências de outras pessoas. E não falava do seu mundo, Bea, que o conserve assim como o descreve! Abç Bettips
EliminarAinda bem que por aqui, está mesmo quase tudo comprado. E embrulhado também, custou mas foi :)
ResponderEliminarAinda pensei também no correio, uns postais, mas já ninguém liga a isso, apesar de eu gostar.