terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Dia Dez - Onde se Conta uma História

 

        E nos caminhos de Belém, palmilhando covas e cabeços, logo o pastor pôs aos ombros o cordeiro que a mulher levava à ilharga e assim se desculpou dando aso a uma figura do presépio que colhe simpatia geral. À medida que se aproximavam do estábulo, o brilho da estrela era tal que só de óculos escuros, benefício que apenas o correr dos séculos traria e portanto eles entraram encandeados, olhos no chão. As mulheres limpando os olhos com as costas da mão, que coisa, até me choram os olhos com a claridade. E já dentro, mirando o desajeitado ar masculino, o aviso, cabeça descoberta que somos visitas em casa alheia. E no “casa alheia” entreolharam-se, seria um estábulo uma casa?! Mas logo se endireitaram nos xailes, que a dignidade não tem condição e vinham a saudar um deus. Num ápice, esqueceram o papel da criança e quedaram desvanecidas a contemplar o recém nascido, mãos de trabalho pesado, como que envergonhadas, esboçando gestos macios à beira da manjedoura, num desejo de rendas e sedas a envolver o deus e certo receio dos animais ali tão perto, e se abocanhassem o Menino? Mas Maria que não, o burrito era manso e a vaca igual; além disso não iam engolir um deus, não tinha jeito nenhum, ele ainda tinha de salvar o mundo. O seu filho era o salvador. Mas ia chamar-se Jesus. Mais vale um Jesus que a data de Salvadores que existem e não salvam nada. Digo eu.

        As mulheres ajoelhavam para vê-lo melhor, e só não se benziam por me parecer que era gesto ainda não inventado. Mas enlevavam, ai, olhem-me esta beleza de criatura. Está esfomeado o pobrezinho, reparem na boquinha. E viravam-se para a mãe, pois com certeza, o leite ainda não subiu, há tão pouco nasceu. E logo a da lata deu serventia ao presente e encheu o mundo - e a criança - de contentamento. Nenhum problema gástrico, nada, um deus é deus por dentro e por fora.

        Enquanto davam conselhos e sugestões as nossas fadas benfazejas punham os presentes a jeito, barravam um naco com mel e serviam Maria. Diligentes, fizeram uma fogueira e em águas aquecidas assearam os dois, mãe e filho, um capote erguido a toda a largura fazendo parede. Ao fundo do estábulo, os homens escutavam. José contava a história da deslocação do casal vindo da Galileia para Belém de onde era natural; e o facto de todas hospedarias cheias, pô-los duvidosos e incrédulos, meneando a cabeça. Um deles estendeu o braço sobre o ombro de José e resumiu o que pensavam, se em vez de um burrito tivesses uma carruagem, e em vez dessas vestes de trabalhador tivesses brocados e linhos de qualidade, havia muito quem vos aceitasse na mira de boa paga. Mas um trabalhador com mulher à boca de parir?! Não tomes como ofensa feita a ti, se fora outro como tu ou como eu, acontecia-lhe igual. E faziam conversa, davam sugestões para o caminho, um olho no Menino que já dormia regalado e outro na manhã que nascia. Foi então que as mulheres deram pela falta, a estrela tinha desaparecido e a alvorada já clareava, os vultos enovelados no escuro em redor iam-se fazendo arbustos, árvores, animais. E era isto também um milagre. Diário.

         Logo uma mulher ajoelhou, ai que nunca na vida eu soube de estrelas que descem do céu para dar caminho a pastores. E nunca os pastores foram os primeiros a saudar um deus e ainda menos a vê-lo bebé. E só não disse, “louvado seja Deus e sua mãe Maria Santíssima”, porque, como é de ver, ainda a Santíssima era apenas Maria e o Deus um bebé adormecido.

        Alimentaram o fogo, atiraram beijos e sorrisos ao Menino que dormia num corpo só com o cordeiro, e abraçaram Maria com sábios entendimentos de comadres antigas, esquecidas já do mistério divino: vai ver, esse é só o primeiro. E os homens da porta, cabeças cobertas e vontade de asas nos pés, tenham saúde e regressem em bem ao sítio onde moram que a gente tem de ir. José ficou na porta a acenar e a jovem Maria não reteve as lágrimas, gente tão boa que nos veio visitar; não há o que pague esta ajuda. E olhando a criança, é um Deus para o mundo, mas para nós é só nosso filho. E oxalá ele se lembre de quem primeiro o alimentou.

        Mas depois de crescido parece que ele ligava mais a pescadores e aos que perdida uma consoante nos pescadores somos todos. Bom, do cordeiro gostou a sério. Tanto que lhe tomou o nome.

        Acerca de avanços de Natal: pouco. Descobri que o meu Menino preferido (pois, tenho preferências) tem o pé mais lascado; falando bem e depressa, falta-lhe o pé. Palpito que o mistério se chama mulher a dias, cada ano parte um bocadinho. Desta vez, faço-lhe um curativo. As velas vermelhas apareceram e estão festivas. Mas, malogradamente, no meu presépio não há José. já houve, mas era minúsculo e tinha um bigode suspeito que lhe dava ar de traficante. Julgo - não vi -  que a ovelha, que é maiúscula, comeu o santo durante o ano. Papou-o. Portanto, aborrece-me um bocadinho ter dois anjos mui natalícios, uma Nossa Senhora gigantona, um Menino dentro das medidas e uma ovelha corpulenta que nem vaca bordalesa. Mas é o que há.


Aviso: por razões de excepção faremos um intervalo na escrita. Tenham saúde e fabriquem alegrias.

11 comentários:

  1. Trouxe de Coimbra uns presépios miniatura que as freiras de Anadia ofereceram ao meu pai.
    E que agora passam a ter um valor muito mais especial.

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    1. Esse presépio é de certeza, este ano e para sempre, especial. Em minha casa não havia sinais de natal. Nem uma fita, uma bola, um brilho.
      E agora eu tenho este presépio descomedido, oferecido de figura em figura e que os meus filhos, na sua intrepidez agnóstica, vão deitar ao lixo logo que a mãe os deixe. Tem as minhas memórias e eles vão construir as suas - sem presépio, naturalmente. Mas eu gosto de olhá-lo e ver nele quem me deu cada bonequito, que só Jesus adquiri por meu gosto.
      Boa noite, Pedro

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  2. Quanto mais leio esta sua história, mais lhe afirmo e faço-o pela última vez, para que não me chame de teimoso, que a Bea devia ler o Evangelho do Saramago e ia ter uma grande, grande surpresa. É sinal de inteligência ter o espírito aberto blá, blá, blá e a Bea tem-a para dar e vender. Estamos conversados.
    Mais um pequeno parágrafo de grande inspiração (talvez divina), pois claro o dos pescadores e do cordeiro, com semelhanças à dita obra - cala-te boca.

    Hoje está um dia aqui daqueles que eu gosto, frio com céu limpo e soalheiro. Consultei o site do instituto do tempo e dizem, embora às vezes falhem, que somente sexta-feira à tarde vai chover alguma coisa, portanto até lá tenho de aproveitar.
    Quando acabar de lhe enviar o comentário, vou fazer umas comprinhas rápidas ao pingo doce, dar um jeitinho muito ao de leve à casa e fazer uma caminhada com a cadelinha , talvez aí de uns dois quilómetros, que já estamos a ficar os dois com excesso de peso.
    Depois vou almoçar com o Casimiro, telefonou-me ontem, conforme tinha ficado combinado quando o encontrei na baixa na semana passada. Já não o via, talvez há vinte anos, antes disso fomos camaradas na recruta em Tancos. Estava em forma, seco de carnes, olhar brilhante, conservava o cabelo, agora grisalho.
    Não sendo rico, conseguira tirar o curso de medicina com muita dificuldade, quer financeira, quer de aproveitamento. Menos inteligente que esperto, não fez fortuna graças ao trabalho, mas ao casamento burguês. Casamento de amor e de dinheiro (para certa gente o único casamento de amor) com uma linda mulher, rica, com o pai do mundo da finança. O dinheiro ficaria, o casamento fora-se. Isto mesmo ele me contou enquanto tomávamos um café, antes de ir para o consultório, onde os doentes o aguardavam. Ele queria falar mais, eu lembrei-lhe os pacientes e ele respondeu-me: eles esperam! E assim ficámos por mais meia hora à conversa, eu mais inquieto que ele. Não perco esta mania de me preocupar com coisas que não me dizem respeito.

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    1. :))) Gostei da sua história, Joaquim. Tive um colega Casimiro. Solteiro e bom rapaz. Se um dia o volte a ver não sei quem é e julgo que deva ser recíproco.
      No dia em que precise de um homem para me pagar coisas ou dar posição é melhor suicidar-me. O único orgulho que me resta - umas vezes por bem e outras por pouca sorte - é nunca ter dependido dos homens para nada em termos económicos e existenciais. Acho que a vida - na generalidade - é melhor com eles, mas não me são essenciais.
      Mas acredito que existam amores que dão estatuto. E não podemos condená-los por isso - se acaso forem amores e não interesses menores.
      Essa falta de respeito pelos doentes deixa-me possessa. Mas infelizmente não é apenas nos atrasos que acontece. Tenho em geral má opinião dos médicos, ainda que conheça também o lado inverso, dos que cumprem e se preocupam com os doentes. E não me refiro à situação actual - hoje a saúde anda muito por baixo a todos os níveis, governo, médicos, pessoal de enfermagem, funcionários. Deus nos livre de ficarmos gravemente doentes nestes tempos. Salvo algumas excepções, o Zé povinho é tratado abaixo de cão.

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    2. E ó Joaquim, deixe-me inventar sem comparações, ok? Ainda bem que não li o dito livro. E apetece-me tanto lê-lo como ler o último de Anabela Mota Ribeiro. Chame-lhe o que quiser. Mas quando no mail tal livro me aparece diariamente como sugestão, está condenado: não leio. É bom? Há montes de livros bons, carradas deles. Portanto, leio outros.
      Sou assim, quer o quê?!

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  3. Sem palavras, mais um excelente texto.

    Que narrativa do presépio, da viagem, de tudo, muito boa.

    Bom dia

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    1. Espero, Cláudia, que esteja a pensar no presépio do Natal, o verdadeiro. Porque o meu é coisa sem proporção o que o torna único e esquisitóide.

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  4. Bea, que ideia genial a de fazeres um calendário do advento com histórias religiosas e imaginativas, carregadas de humor e poesia.
    Histórias a merecerem maior divulgação. Um abraço e Bom fim de semana!

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  5. Olá Prosa:). Que o bom Deus te proteja e mais aos teus. Este ano parece que tudo tem andado ao contrário e não deu para nos juntarmos. Coisas.
    Um abraço
    Bem hajas pela visita

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  6. Bea... um presépio diferenciado na diferença é perfeito ☺️
    Bj Bea e ficamos a aguardar mais textos cujas leituras fazem bem à alma!

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  7. A Bea foi rápida a contar a história...pelo que o menino no dia 10 já está nascido e encontra-se bem, tal como a sua mãe. Agora, enquanto eles ficam uns dias no estábulo a descansar /recuperar da aventura, a Bea faz uma pausa da escrita, esperemos que por boas razões.
    Acho muito curiosa esta sua forma de misturar memórias, histórias, imaginação e detalhes comuns ao dia-a-dia, dando origem a uma prosa fora do vulgar e que nos prende. Aqui e ali todos nos revemos em detalhes, em memórias, etc, e isso é muito engraçado.
    Ficamos a aguardar a continuação desta "sui generis" história de Natal. Afinal, e se bem me lembro, os Reis Magos ainda não viram a estela...

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