segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Dia 2: Amizade

 

        Viver no advento também pede coisas que são de todo o ano – visitar doentes, ligar a amigos doentes e a amigos atarefados, da espécie que se reforma e tem o tempo todo tomado; não há - para mim - o que os distinga do tempo em que eram abafados pela profissão. Ainda assim, prefiro visitar os doentes a ficar ao telemóvel palrando. Fui má a usar telefones, sou péssima com telemóveis no que respeita à sua utilidade primeva: falar com alguém. Existe uma única amiga que me convence a usar esta secção onde me estranho em cada vez. Adequo melhor e universalmente aos sms. A cada maluco sua mania. Avante.

        Em prol de outras vontades e muito quilómetro, hoje fiz algumas visitas por telemóvel (sem imagem, que não sou dessas mariquices). Aproveitei e verbalizei convite movido a hábito e amizade. Logo aceite, transitou para o campo da esperança: é uma alegria por vir. De número em número passei por gente que estava ocupada a fazer pão e suspendeu; gente que a fisioterapia ocupava e estava suspensa; gente que, hélas, estava em casa e apesar de visita presencial me atendeu como se estivera a sós. Dirão vocês que foi indelicado deixar a visita; pois, pode ter sido, mas soube-me bem demais, que é que querem?! Senti-me meia princesa, foi uma espécie de vénia telefónica:).

        A fechar, a visita semanal, aquela de onde saio sempre meia parva, porque o sofrimento humano magoa quem vê. Magoa mais quem gosta e vê e ausculta em cada vez os retrocessos da saúde. Quem procura no olhar aquela centelha e já quase não a encontra, quem entende que o período de conversa terminou porque à mente faltam as palavras e no emaranhado mental sobra a densidade prensada do silêncio. E é só a nossa mão a segurar o garfo, só a nossa mão no copo da água, só o nosso corpo a segurar outro corpo que, semelhante a qualquer matéria morta, sossobra, escorrega, pende. E a nossa mão é contínua e autónoma, corre-lhe os cabelos, os ombros, desce ao rosto onde os olhos são gigantes perdidos, pobres gigantes pasmados e dolorosos.

        E foi advento.

11 comentários:

  1. A doença é terrível e ficamos abalados quando visitamos alguém em sofrimento! Boa semana Bea

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  2. Os dias que passei com o meu pai.
    A vê-lo partir a pouco e pouco.

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  3. "Pai, se é possível, afasta de mim esse cálice".
    E não é possível.

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  4. Continue a ir sempre Bea, se não o fizer por ela, será por si mesma. Assim fiz com a minha amiga até ao fim e não me arrependo.

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    1. É impensável que não vá e a senhora que toma conta e cozinha e limpa contacta-me mal acontece alguma coisa. O curioso é que esta pobre nem era minha amiga, mas a desgraça aproximou-nos, como já escrevi aqui em algum momento.

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  5. Há tanto a dizer e a contar sobre a amizade que Montaigne lhe dedicou um capítulo nos seus célebres Ensaios.
    Sei que a Bea se desdobra ao longo do ano, visitando algumas pessoas doentes e mantém o contacto possível com as suas velhas amigas - disso nos tem dado conta neste seu diário de bordo.
    Há coisas que se vão aprendendo com a vida. Não gosto de me queixar, porque não gosto de consolações. Os que falam da dor não são os que padecem. Também não gosto de me elogiar, nem de dizer que fui bem sucedido neste ou naquele transe da vida, porque sei quanto a alma humana é egoísta e mesquinha por detrás de uma felicitação.
    Mas se essas palavras, afectos e felicitações vierem de um grande, grande amigo, já me sabem bem. Sim, mas onde está ele?
    A existir, esse amigo está longe e a distância é tão grande, como bem canta a Gisela João.
    Bom dia Bea.

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    1. E é que somos mesmo velhas amigas:). Melhor, velhas e amigas (de longe).
      Não é verdade, Joaquim, as minhas amigas e familiares mais velhas e a quem visitava morreram já. Fiquei mais livre e menos acompanhada. Umas morreram santamente e outras nem tanto. É a vida.
      Não gosta de consolações? Ora esta, eu gosto. Mas já ninguém quer ouvir mágoas, o mundo quer ser alegre mesmo sem vontade e portanto, como também já lhe disse, vamo-nos calando. Habituamo-nos à irrelevância; parece mau mas não é senão um despojamento e caminho necessário.
      Nunca tive grandes êxitos e as minhas amigas não me felicitam senão pelo aniversário. Gisela João não faz parte das minhas preferências, mas a si, Joaquim, estou a achá-lo muito desconfiado.
      Acho que tem de rever essa sua afirmação, "os que falam da dor não são os que padecem". Já assisti vários padecentes e, embora não se excedam nas queixas, queixam-se sim; e chegam a chorar. A dor é terrível. Esta noite sonhei que o meu ofício era assistir os mortos, no sonho achava isso natural, acho que era a minha profissão.

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  6. Desculpe, desculpe, desculpe, mas tenho de voltar à nossa conversa sobre o tema anterior, nem que tenhamos de ficar aqui até ao fim do advento:)
    A Bea, de forma muito sistemática, resumiu bem as várias possibilidades que se nos oferecem quando diz: "Resta saber se vivemos para agradar aos outros em geral; a nós e também a alguns outros a quem nos devemos; ou apenas a nós. E cada um age e escolhe dentro de seus próprios parâmetros".
    Mas não disse aquilo que eu me pelava para ouvir, ou seja, qual a sua opinião, em que categoria se insere.
    E, para não dizer que só lhe faço perguntas e não me defino, adianto desde já que as minhas atitudes e decisões são tomadas grande parte a pensar em mim e nos que me são queridos, mas nem sempre, quando estes "abusam" da minha generosidade e exageram, aí tenho de pensar exclusivamente em mim, que no fundo mais não é que pensar também neles, indiretamente.
    Vamos a um caso prático e por sinal, mais uma vez ocorrido no meu prédio, onde os homens não abundam, pois ou morrem, ou se divorciam ou simplesmente saem. Um casal com dois filhos pequenos decidiu divorciar-se. Será que quando tomaram a decisão pensaram exclusivamente em si ou também nos pequenos? Na óptica dos miúdos, o que era melhor para eles? Viverem com guarda partilhada ou pedirem aos pais que, mesmo não sendo felizes, permanecessem juntos? E o tão proclamado superior interesse das crianças, neste caso devia ter aplicação? Quantos casais não se sacrificam com casamentos infelizes a pensar nos filhos? Eu aqui penso que um ambiente de permanente discussão e desvario não é salutar para ninguém, muito menos para os filhos e estando aparentemente a pensar só em mim, na realidade estou a pensar (também) neles.
    Na verdadeira acepção da palavra, são raros os casamentos felizes. É um pouco contra a natureza. Não se podem encadear juntas as vontades de dois seres, senão mutilando uma delas, quando não as duas, a menos que alguém veja na união de dois sacrifícios a felicidade de duas almas fundidas numa só.
    Mas no fundo é como a democracia, não sendo perfeita, é o melhor dos regimes políticos ou como disse Churchill a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros.
    Boa tarde Bea.

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  7. Também não gosto de falar ao telemóvel. A falar, que seja por escrito e conciso.

    Emocionei-me com a última parte... Ver outra pessoa mal, e se nos disser algo, ainda pior.

    Bom dia

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  8. Conciso é que em mim tem seus quiproquós, Cláudia.

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