domingo, 8 de dezembro de 2024

Dias sete e oito - Onde se Conta uma História

 

        Nos tempos de antanho, hoje era o teu dia. Oferecia-te o desenho de Nossa senhora cuja auréola apagara e refizera cinquenta vezes e a que nem a pintura conseguia disfarçar as nódoas cinzentas de borracha e os vincos do lápis de carvão. Um desenho que conservaste na tua mala de mão até ao fim. Era o tempo em que tinha de recitar alto e para todas as mães presentes, um poema que decorava sem entender. A aumentar-me o pavor, subiam-me numa cadeira e eu, pernas a tremelicar, ficava cara a cara com todas as mães, o poema que antes sabia a esvair-se-me, uma outra palavra desgarrada por entre a névoa da mente. E tu tão à minha beira, eu toda ganas de “vamos embora”, mas os teus olhos em espera do que papagueava em casa. Atravessava-se-me uma pedra na garganta, fazia um esforço já com olhos marejados e articulava uma ou duas palavras que se perdiam na suspensão cerrada de olhos impiedosos. Sem solução, desatava o choro. Então, alguém me descia da cadeira e subia novo(a) garoto(a) que dizia o que tinha a dizer sem enganos nem lágrimas e me envergonhava ainda mais. Dia oito de Dezembro foi sempre e só o teu dia. Não te chamavas Conceição nome da minha melhor amiga. Não foste imaculada. Mas sim, és a minha Nossa Senhora. A Mãe.

        Mas voltemos à Puríssima do presépio, e às mulheres atordoadas com o anjo que, mornamente e sem um ai, lhes caiu aos pés: pois sabei que causou um pequeno tumulto no grupo. Umas davam-lhe palmadinhas nas mãos admirando a maciez sem calos, unhas limpas de tudo que nem pareciam mãos de quem mexe com a vida. Mas as asas senhores. As asas dos seus encantos e que lhe saíam naturais, as asas que atraíam mãos de carinho e eram quentes e vivas. As mais jovens entretinham-se a espalhar os dedos entre os caracóis do rapaz e sentiam que nem um pedacinho de cabelo embaraçava. Mas quando nisto, o mancebo pestanejou, rosto enrubescido à vista do magote das mulheres ergueu-se e, elevando-se, asa aberta, avisou: pois ide acordar os homens e vão todos a Belém ver o Deus Menino que ali nasceu. E antes de desaparecer nos céus, já a fazer-se pequeno, apontando a estrela convidou, sigam a luz. E as mulheres estarrecidas, nunca vi homem que voasse, nem luz de tanta claridade, esse ninguenzinho tem de ser mesmo um Deus. Toca a acordar os homens, pois então.

        Porém, eles estremunhavam rezingões e resmalhavam na palha, as ovelhas em balidos breves, estás maluca mulher, viste agora um homem que voava. Vem mas é deitar-te. E elas todas à uma, veio dar a novidade: nasceu um deus em Belém, lá no estábulo. Eles gargalhando, Um deus a nascer no estábulo?! Essa é boa. E logo em Belém. Ná, isso é pêta ou sonho. Elas já agastadas, esteve aqui um bonito rapaz com asas, sim senhor. E se vocês não forem ao estábulo vai a gente; queremos ver o Menino Deus que a estrela indica; pois vocês não vêem que há luz como de dia?! Acham isso normal?! E eles somando dois mais dois, a mente a desembaraçar-se dos restos de sono: luz como de dia isso é que é, e elas falam num homem com asas que as mandou ir visitar o Menino Deus. 

(cont.)

13 comentários:

  1. História curiosa da sua Imaculada Conceição, contudo, perante a sua atrapalhação não creio que lhe dirigissem olhares impiedosos. Grato por ir entrelaçando a sua história com a sua história de Jesus.

    José era um homem bom e gentil. Maria estava-lhe prometida em casamento, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo. Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho...
    Mateus 1:18–19
    A figura de José sempre me interessou. José não era o velhinho decrépito e viúvo que nos fizeram passar, mas um jovem carpinteiro de elevada estatura moral e convém não esquecer que estamos no ano 1 d.c.
    Ao contrário do anúncio do anjo a Maria, o anúncio a José é conturbado. No caso de Maria, o anjo primeiro anunciou, depois veio a gravidez; no caso de José, primeiro veio a gravidez, depois o anúncio do anjo. Nisto esteve o grande drama de José.
    José acreditou na santidade de Maria, por isso não duvidou nem da honestidade nem da virgindade da Mãe santíssima. Sim, José era justo, e os justos não se precipitam em julgamentos.

    E isto leva-me o pensamento para os dias actuais onde se ouve falar, para além da violência doméstica, na tão ou mais preocupante, violência no namoro. Posso estar enganado, mas tenho para mim que muita dessa violência começa e acaba no ciúme.
    E o ciúme está ligado à falta de respeito pelo outro, pela sua liberdade de escolher e também pelo passado que é como uma bagagem que cada um trouxe quando iniciou a relação. Os jovens deviam entender isso e no limiar do namoro pregarem uma tabuleta: antes de mim na tua vida e antes de tu na minha, ambos tivemos um passado que não se apaga.
    Penso que os jovens namorados de hoje, deviam pensar um pouco na figura de José e o que ele representa para a humanidade.
    Boa noite Bea.

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  2. Ah, ah volta completa... mas mantendo uma linha de continuidade! Já na escola era assim, quando nos pontos não dominava a matéria principal, tentava contorná-la por atalhos e afluentes e, depois, o pensamento voa, é ou não é senhora professora?
    Gosto de conversar e com a idade cada vez mais, embora certas conversas de cinco minutos com certas pessoas me parecerem uma eternidade e outras de meia hora, me saberem a pouco, mas quando novo era introvertido, daí entender perfeitamente o seu acanhamento infantil na declamação do poema, ainda por cima, de pé num pedestal e se calhar com luzes da ribalta.
    Hoje creio que a minha timidez passou, embora mantenha alguns resquícios. Aprecio muito um convívio alegre, são e pacífico, uma festa, um jantar ou almoço em grupo. Mas depois chega ao fim e acaba, outras vezes, mesmo antes do fim, já acabou.
    É nessas alturas que a seguir gosto do silêncio, como se as pilhas tivessem ficado exauridas. O isolamento faz-me falta, assim como um certo recolhimento em mim próprio.
    Frequentemente falo sozinho, especialmente na rua quando passeio a cadelinha de minha filha. Ao princípio os passantes olhavam para mim admirados, agora devem pensar que estou a falar com alguém ao telemóvel.
    Se um dia perdesse o silêncio e o recolhimento que tanta falta me fazem, não seria a mesma pessoa. Seria como um cão esfomeado procurando comida com uma tenacidade de faminto.
    Embora ainda houvesse pano para mangas, hoje prometo não a incomodar mais Bea, até amanhã.

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  3. Também quando eu era crianças o dia 8 de Dezembro era o dia da Mãe e, claro, o dia da Imaculada Conceição.
    Quanto ao anjo de cabelos aos caracóis que apareceu para dar a notícia do nascimento do Menino, imagino o tumulto que originou. O seu jeito de contar ímpar.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Gosto d anjos e já me deparei com alguns. Há até os que me acompanharam no caminho e depois seguiram por outra estrada, os que partiram sem vontade e acredito que estejam sempre à minha beira, os que continuam por perto. Imagino-me naquelas pontes estreitas do catecismo e os anjos a cuidarem que não caia.
      Boa semana, Graça

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  4. Descrições sempre tão boas, que uma pessoa é realmente transportada, Bea.

    Muito bom mesmo.

    Adorei esse anjo, cabelo igual ao meu :P

    Bom dia

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    1. :))) Os caracóis moldam a cabeça e dão um ar.
      Melhorou dos enjoos?
      Boa noite, Cláudia

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    2. Muito pouco ou nada. E parece que pioram à noite... :/

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  5. Minha mãe era Conceição...mas tinha outros tantos nomes, alguns diminutivos. Contudo, no fim da vida, preferia mesmo esse nome, como se ele lhe desse dignidade. De anjos e santos é que pouco sei, venho aqui aprender...mas o problema é sempre o mesmo: não sinto nada. Enterneço-me mais com uma flor do que com anjos ou santos.

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  6. Para muitos de nós... 8 de Dezembro é o verdadeiro Dia da Mãe e para quem gosta de Maria... o significado ganha mais valor! Gosto de anjos e acredito em "santos" sobretudo daqueles que não precisam de asas para fazer a diferença! Bj Bea

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  7. Nós duas, Gracinha, somos um belo par:). Não que sejamos as únicas, mas temos várias coisas em comum. Como esta.
    Boa noite, Gracinha

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  8. Padroeira do Colégio que frequentei e padroeira de Macau.
    Bfds

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